{"id":912,"date":"2025-08-10T20:11:25","date_gmt":"2025-08-10T23:11:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/?p=912"},"modified":"2025-09-10T18:36:20","modified_gmt":"2025-09-10T21:36:20","slug":"os-novos-grandes-carnivoros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/2025\/08\/10\/os-novos-grandes-carnivoros\/","title":{"rendered":"Os Novos Grandes Carn\u00edvoros de uma Selva Global"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\">Resenha do livro: <a href=\"https:\/\/www.companhiadasletras.com.br\/livro\/9788556522160\/os-grandes-carnivoros?srsltid=AfmBOorpohnIAhlQ6NonclEHgWrHq8lF0QQg7lDRnGTTxerhiHY1Jsxq\">LISBOA, Adriana. <em>Os grandes carn\u00edvoros<\/em>. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2024<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Giulia Santos Menegaz<sup data-fn=\"5ac24dab-9eae-46fb-a91b-968462dd7a28\" class=\"fn\"><a href=\"#5ac24dab-9eae-46fb-a91b-968462dd7a28\" id=\"5ac24dab-9eae-46fb-a91b-968462dd7a28-link\">1<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-normal-font-size wp-block-paragraph\">Considerada uma das maiores vozes de sua gera\u00e7\u00e3o na literatura contempor\u00e2nea brasileira, Adriana Lisboa retornou em 2024 com o romance <em>Os grandes carn\u00edvoros, <\/em>contando a hist\u00f3ria de Adelaide, uma ativista que volta ao Brasil ap\u00f3s ser presa por uma de suas sabotagens nos Estados Unidos. O romance apresenta alguns elementos comuns \u00e0 obra de Lisboa, como, por exemplo, o deslocamento, enquanto traz novas faces da tem\u00e1tica das rela\u00e7\u00f5es humanas com o mundo natural, tema j\u00e1 abordado em seu livro de poesia <em>O vivo,<\/em> publicado em 2021. Em compara\u00e7\u00e3o com abordagem trazida nos poemas \u2013 de celebra\u00e7\u00e3o e conjun\u00e7\u00e3o entre todas as formas de vida, em especial as plantas \u2013,<em> Os grandes carn\u00edvoros<\/em> se desenvolve a partir de revela\u00e7\u00f5es e reflex\u00f5es sobre as diversas formas de viol\u00eancia envolvidas nas rela\u00e7\u00f5es humanas, especialmente nas din\u00e2micas de domina\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o dos animais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-normal-font-size wp-block-paragraph\">A narrativa \u00e9 elaborada em dois espa\u00e7os que se intercalam: um presente, situado entre a capital e a regi\u00e3o serrana do Rio de Janeiro, onde nossa protagonista se estabelece temporariamente; e um outro espa\u00e7o psicol\u00f3gico, que se manifesta nas lembran\u00e7as e pensamentos de Adelaide. Constantemente, suas intera\u00e7\u00f5es com os outros e com o ambiente despertam quest\u00f5es mal resolvidas, dramas antigos e rec\u00e9m adquiridos, que fazem parte de sua trajet\u00f3ria. A leitura do tar\u00f4, nesses momentos, \u00e9 um elemento muito presente, indicando simbolicamente as leituras de vida da personagem. S\u00e3o diversos os temas abordados, partindo de conflitos internos como a sua colabora\u00e7\u00e3o com as autoridades nas investiga\u00e7\u00f5es do inc\u00eandio cometido, o suic\u00eddio da amiga e l\u00edder do grupo ativista na pris\u00e3o, quest\u00f5es da sua inf\u00e2ncia e familiares, seus deslocamentos, o envolvimento recente em um caso de trai\u00e7\u00e3o e as pr\u00f3prias no\u00e7\u00f5es do amor e o ato de confiar no outro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-normal-font-size wp-block-paragraph\">No entanto, destacam-se o paradoxo da viol\u00eancia e as discuss\u00f5es sobre sua natureza e manifesta\u00e7\u00f5es, de formas t\u00e3o variadas, no mundo \u2013 a viol\u00eancia que existe nos outros, nos homens, e a capacidade de viol\u00eancia que carrega, tamb\u00e9m, dentro de si. Essa discuss\u00e3o acaba por evocar, logicamente, express\u00f5es gritantes dessa viol\u00eancia na nossa sociedade, \u00e0 medida que a autora menciona a viol\u00eancia colonial, escraviza\u00e7\u00e3o, ascens\u00e3o do conservadorismo e crimes hediondos. Mas dentro dessa tem\u00e1tica maior a quest\u00e3o animal \u00e9 o ponto de retorno constante, marcada por epis\u00f3dios simb\u00f3licos de encontro e aproxima\u00e7\u00e3o ao ponto de vista de outras esp\u00e9cies. Esses epis\u00f3dios \u2013 o caso da r\u00e3 que seria dissecada em aula, a visita aos animais no santu\u00e1rio, o simb\u00f3lico relato do homem com o tigre-de-bengala, a vis\u00e3o das chinchilas enjauladas, entre outros \u2013 s\u00e3o as fa\u00edscas que levam nossa personagem ao seu futuro como ativista. Como no trecho de Derrida, lido por sua colega ativista, sobre o inevit\u00e1vel inc\u00f4modo sentido pelo homem confrontado pelo olhar de um gato: \u201cera como se o gato o levasse de volta \u00e0 narrativa terr\u00edvel do G\u00eanesis.<sup data-fn=\"64c5ad23-764f-43a8-af5f-d400400bcbbf\" class=\"fn\"><a href=\"#64c5ad23-764f-43a8-af5f-d400400bcbbf\" id=\"64c5ad23-764f-43a8-af5f-d400400bcbbf-link\">2<\/a><\/sup> E o fil\u00f3sofo se perguntava quem teria nascido primeiro, antes dos nomes. \u2018Quem viu o outro chegar? Quem ter\u00e1 sido o primeiro ocupante \u2013 e, portanto, o senhor? Quem permanece sendo o d\u00e9spota desde sempre?\u2019\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-normal-font-size wp-block-paragraph\">Adelaide segue um vi\u00e9s antiespecista e ecologista, descrevendo seu processo de conscientiza\u00e7\u00e3o como uma \u201cvenda retirada dos olhos\u201d, porque se baseia em colocar \u00e0 luz contradi\u00e7\u00f5es propositalmente mantidas obscuras, distantes, ausentes e at\u00e9 inimagin\u00e1veis, como \u00e9 a brutalidade da explora\u00e7\u00e3o animal nas ind\u00fastrias. A tomada de consci\u00eancia torna-se um fato essencial para sua constru\u00e7\u00e3o como indiv\u00edduo, e ela sabe que nunca mais poder\u00e1 voltar atr\u00e1s ou ser a pessoa que era antes \u2013 como nas palavras ecoadas da fala de outro ativista: desde ent\u00e3o era como viver em um luto permanente.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"420\" height=\"650\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/os-grandes-carnivoros.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-918\" style=\"width:396px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/os-grandes-carnivoros.jpg 420w, https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/os-grandes-carnivoros-194x300.jpg 194w\" sizes=\"auto, (max-width: 420px) 100vw, 420px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Capa do livro de Adriana Lisboa<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"has-normal-font-size wp-block-paragraph\">A n\u00e3o conformidade de Adelaide com as atuais din\u00e2micas de explora\u00e7\u00e3o nas ind\u00fastrias a leva a questionar as origens desse construto ideol\u00f3gico que confere \u00e0 humanidade direitos naturais de domina\u00e7\u00e3o de todos os outros seres vivos e recursos naturais. Desde quando h\u00e1, e o que sustenta, a narrativa de que os humanos n\u00e3o mais pertencem \u00e0 categoria \u201canimal\u201d \u2013 por termos uma suposta superioridade inata que justificaria toda imposi\u00e7\u00e3o humana sobre a Terra, independentemente dos impactos e vidas destru\u00eddas? Com o aparato das tecnologias humanas que possibilitam viol\u00eancias em larga escala, sistematizadas em cadeias de produ\u00e7\u00e3o, quem s\u00e3o os verdadeiros grandes carn\u00edvoros a subjugar as outras esp\u00e9cies da cadeia alimentar? Os animais representam a ep\u00edtome da inquieta\u00e7\u00e3o de Adelaide com o mundo. Um ponto de culmina\u00e7\u00e3o de tantas pr\u00e1ticas violentas, pequenas e grandes, que atravessam nosso sistema de produ\u00e7\u00e3o, culturas, h\u00e1bitos e ideias. Com a nova vida na casa em Mantiqueira, \u201ctudo parece entrar momentaneamente nos eixos\u201d \u2013 tem uma rotina, arranja um trabalho, um romance, e escolhe o sil\u00eancio, cansado, em inst\u00e2ncias que antes levantaria a voz. Mas se questiona, sempre, \u201ccomo \u00e9 poss\u00edvel funcionar num mundo em que, por exemplo, animais s\u00e3o torturados em pesquisas cient\u00edficas? Todos os dias ela tem vontade de incendiar um laborat\u00f3rio daqueles\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-normal-font-size wp-block-paragraph\">Para Lisboa, \u201cA literatura deveria bagun\u00e7ar nossas cren\u00e7as, e fazer com que pergunt\u00e1ssemos (e nos pergunt\u00e1ssemos) incessantemente: tem certeza?\u201d.<sup data-fn=\"32b2b49b-b92d-4715-8872-078f8e74f700\" class=\"fn\"><a href=\"#32b2b49b-b92d-4715-8872-078f8e74f700\" id=\"32b2b49b-b92d-4715-8872-078f8e74f700-link\">3<\/a><\/sup> <em>Os grandes carn\u00edvoros<\/em> cumpre muito bem esse papel. H\u00e1 uma abordagem sens\u00edvel e introspectiva, que n\u00e3o deixa de ser crua e combativa em rela\u00e7\u00e3o aos dilemas e contradi\u00e7\u00f5es produzidas pelo sistema. Adriana Lisboa insere as cr\u00edticas dentro da narrativa com naturalidade e for\u00e7a, explorando a subjetividade particular de sua personagem, ao mesmo tempo que confronta, questiona e <em>bagun\u00e7a as cren\u00e7as<\/em> do leitor ao expandir esses dilemas a uma quest\u00e3o coletiva, pol\u00edtica e urgente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-normal-font-size wp-block-paragraph\">A trajet\u00f3ria de Adelaide em <em>Os grandes carn\u00edvoros <\/em>\u00e9 um exemplo de transforma\u00e7\u00e3o individual e radical que leva algu\u00e9m ao ativismo, e que a impulsiona a p\u00f4r em xeque as diferentes atitudes e formas de luta poss\u00edveis. Ap\u00f3s a retirada das vendas, ao deparar-se com um sistema que nos corr\u00f3i por todos os lados ao ponto de aparentar ser inescap\u00e1vel, o que vem depois? Como seguir em frente, com toda essa revolta dentro de si?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-normal-font-size wp-block-paragraph\">O que a leitura do livro de Lisboa consegue \u00e9, de alguma forma, iluminar uma ponta desse iceberg, e nos ajudar a chegar a uma compreens\u00e3o de que a luta pela emancipa\u00e7\u00e3o humana \u00e9 indissoci\u00e1vel da emancipa\u00e7\u00e3o animal e ambiental \u2013 fundamentam-se nos mesmos princ\u00edpios profundos, e fortalecem umas \u00e0s outras, combatem o mesmo sistema.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-normal-font-size wp-block-paragraph\">Adriana Lisboa nos acende uma fagulha e nos confronta com um olhar inc\u00f4modo como o do gato diante do homem, e traduz em literatura essa indigna\u00e7\u00e3o individual:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cMuitas vezes Adelaide sentiu vontade de causar o m\u00e1ximo poss\u00edvel de mal neste mundo. Sua a\u00e7\u00e3o ante a ina\u00e7\u00e3o do universo. Nesta merda de mundo humano em que, na sua opini\u00e3o, todas as sinfonias de Beethoven n\u00e3o justificam um \u00fanico matadouro. Que Beethoven v\u00e1 \u00e0 merda e leve todos os seus consigo. Tudo, tudo de bom e lindo e magn\u00edfico que a humanidade realizou, todas as cento e cinquenta maravilhas do mundo.<em> O projeto n\u00e3o deu certo.<\/em>\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * *<\/p>\n\n\n<ol class=\"wp-block-footnotes has-small-font-size\"><li id=\"5ac24dab-9eae-46fb-a91b-968462dd7a28\">Estudante de Gradua\u00e7\u00e3o do Bacharelado em Letras \u2013 Tradu\u00e7\u00e3o Ingl\u00eas e Portugu\u00eas na UFRGS. Atualmente atua como bolsista de extens\u00e3o no projeto CONTATO \u2013 2025, coordenado pela Profa. Sandra Maggio, e como membro da equipe do Carbono. <a href=\"#5ac24dab-9eae-46fb-a91b-968462dd7a28-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 1 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"64c5ad23-764f-43a8-af5f-d400400bcbbf\">Em men\u00e7\u00e3o aos trechos do G\u00eanesis citados anteriormente no livro, que Derrida chama de \u201crelato terr\u00edvel\u201d: \u201cFa\u00e7amos o homem \u00e0 nossa imagem, conforme a nossa semelhan\u00e7a. Domine ele sobre os peixes do mar, sobre as aves do c\u00e9u, sobre os grandes animais de toda a terra e sobre todos os pequenos animais que se movem rente ao ch\u00e3o\u201d. <a href=\"#64c5ad23-764f-43a8-af5f-d400400bcbbf-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 2 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"32b2b49b-b92d-4715-8872-078f8e74f700\">Trecho retirado de sua entrevista \u00e0 Ag\u00eancia Riff, dispon\u00edvel <a href=\"https:\/\/www.agenciariff.com.br\/adriana-lisboa-sinto-me-bastante-proxima-do-brasil-mas-distante-o-suficiente-para-ter-uma-visao-mais-panoramica-das-coisas\/\">aqui<\/a>. <a href=\"#32b2b49b-b92d-4715-8872-078f8e74f700-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 3 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><\/ol>\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-small-font-size wp-block-paragraph\"><em>Carbono<\/em>, vol. 9 \u2013 agosto de 2025.<br>ISSN: 3085-7066<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A leitura do livro de Adriana Lisboa nos ajudar a chegar a uma compreens\u00e3o de que a luta pela emancipa\u00e7\u00e3o humana \u00e9 indissoci\u00e1vel da emancipa\u00e7\u00e3o animal e ambiental<\/p>\n","protected":false},"author":37,"featured_media":922,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"[{\"content\":\"Estudante de Gradua\u00e7\u00e3o do Bacharelado em Letras \u2013 Tradu\u00e7\u00e3o Ingl\u00eas e Portugu\u00eas na UFRGS. 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