{"id":923,"date":"2025-08-10T20:12:06","date_gmt":"2025-08-10T23:12:06","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/?p=923"},"modified":"2025-09-10T18:36:14","modified_gmt":"2025-09-10T21:36:14","slug":"nos-estamos-perto-de-traduzir","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/2025\/08\/10\/nos-estamos-perto-de-traduzir\/","title":{"rendered":"N\u00f3s Estamos Perto de Traduzir as Linguagens Animais.  O Que Acontece Em Seguida?"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">David Farrier<sup data-fn=\"e36912f7-c655-4beb-9e8f-f8b1a4aa6965\" class=\"fn\"><a href=\"#e36912f7-c655-4beb-9e8f-f8b1a4aa6965\" id=\"e36912f7-c655-4beb-9e8f-f8b1a4aa6965-link\">1<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Charles Darwin prop\u00f4s que os seres humanos adquiriram a capacidade de se comunicar imitando o canto dos p\u00e1ssaros: as primeiras palavras de nossos ancestrais podem ter sido uma forma de troca entre diferentes esp\u00e9cies. Talvez n\u00e3o demore muito para nos juntarmos \u00e0 conversa mais uma vez.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A corrida para traduzir o que os animais est\u00e3o dizendo est\u00e1 esquentando, com riquezas e um lugar na hist\u00f3ria em disputa. A <a href=\"https:\/\/jeremycollerfoundation.org\/press-releases\/10-million-prize-for-interspecies-two-way-communication-using-generative-ai-models-announced\/\">funda\u00e7\u00e3o Jeremy Coller<\/a> prometeu 10 milh\u00f5es de d\u00f3lares para qualquer pesquisador que conseguir decifrar o c\u00f3digo. Essa \u00e9 uma corrida alimentada pela intelig\u00eancia artificial generativa; grandes modelos de linguagem podem filtrar atrav\u00e9s de milh\u00f5es de vocaliza\u00e7\u00f5es gravadas e encontrar a gram\u00e1tica oculta nas falas dos animais. A maioria das pesquisas se concentra em cet\u00e1ceos, uma vez que, como n\u00f3s, eles aprendem a se comunicar por meio da imita\u00e7\u00e3o vocal e tamb\u00e9m se expressam atrav\u00e9s de complexos arranjos sonoros que aparentam ter uma estrutura e hierarquia espec\u00edficas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As baleias cachalotes se comunicam por meio de codas \u2013 sequ\u00eancias r\u00e1pidas de cliques, t\u00e3o breves quanto um mil\u00e9simo de segundo. O <a href=\"https:\/\/www.projectceti.org\/\">Project Ceti<\/a> (Cetacean Translation Initiative, em ingl\u00eas) est\u00e1 usando intelig\u00eancia artificial para analisar as codas a fim de revelar os mist\u00e9rios da fala dos cachalotes. H\u00e1 evid\u00eancias de que os animais se revezam ao usar cliques espec\u00edficos para se referir um aos outros, e que at\u00e9 mesmo t\u00eam dialetos distintos. O projeto j\u00e1 isolou um clique que pode ser uma esp\u00e9cie de pontua\u00e7\u00e3o, e os pesquisadores esperam falar a l\u00edngua das baleias por volta de 2026.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A barreira lingu\u00edstica entre esp\u00e9cies j\u00e1 parece mais porosa. No m\u00eas passado, o Google lan\u00e7ou o <a href=\"https:\/\/blog.google\/technology\/ai\/dolphingemma\/\">DolphinGemma<\/a>, um programa de intelig\u00eancia artificial para traduzir golfinhos, treinado com 40 anos de dados. Em 2013, cientistas que usaram um algoritmo de intelig\u00eancia artificial para classificar a comunica\u00e7\u00e3o de golfinhos detectaram um novo clique nas intera\u00e7\u00f5es dos animais entre si, o qual eles reconheceram como um som que eles j\u00e1 haviam ensinado ao bando a associar ao <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Sargassum\">sarga\u00e7o<\/a>, um tipo de alga marinha \u2013 o primeiro caso registrado de uma palavra que passa do vocabul\u00e1rio nativo de uma esp\u00e9cie para a outra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A possibilidade de falar com um golfinho ou uma baleia \u00e9 irresist\u00edvel. E parece que eles est\u00e3o igualmente entusiasmados. Em novembro do ano passado, cientistas do Alasca gravaram uma conversa ac\u00fastica com uma baleia jubarte chamada Twain, na qual eles trocaram com o animal, durante um per\u00edodo de 20 minutos, uma forma de chamada-e-resposta conhecida como \u201cwhup\/throp\u201d. Na Fl\u00f3rida, descobriu-se que um golfinho chamado Zeus aprendeu a imitar os sons das vogais A, E, O e U.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas, nessa empolga\u00e7\u00e3o, n\u00e3o devemos ignorar o fato de que outras esp\u00e9cies j\u00e1 est\u00e3o dando um testemunho claro do nosso impacto sobre a natureza. Um planeta vivo \u00e9 um planeta barulhento. Recifes de coral saud\u00e1veis estalam e crepitam de vida. Entretanto, as paisagens sonoras podem se deteriorar, assim como os ecossistemas. Os recifes degradados s\u00e3o como desertos silenciosos. Desde a d\u00e9cada de 1960, o transporte mar\u00edtimo e a minera\u00e7\u00e3o aumentaram o ru\u00eddo no fundo dos oceanos em cerca de tr\u00eas decib\u00e9is por d\u00e9cada. O canto das baleias jubartes abrange a mesma largura vibrat\u00f3ria de baixa frequ\u00eancia que a dragagem e a perfura\u00e7\u00e3o em \u00e1guas profundas produzem para a obten\u00e7\u00e3o de terras raras, que s\u00e3o vitais para os dispositivos eletr\u00f4nicos. Ironicamente, a minera\u00e7\u00e3o desses metais de que precisamos para nos comunicar anula a voz das baleias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As can\u00e7\u00f5es das baleias jubartes s\u00e3o incr\u00edveis performances vocais que podem durar at\u00e9 24 horas. \u201cCan\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9 um termo apropriado: essas composi\u00e7\u00f5es parecem incluir versos rimados, e, ao viajar pelos oceanos, elas evoluem \u00e0 medida que avan\u00e7am em um processo chamado de \u201crota\u00e7\u00e3o de can\u00e7\u00f5es\u201d, no qual um novo ciclo substitui o antigo. (Imagine se Nina Simone ou os Beatles apagassem seus \u00e1lbuns antigos a cada novo lan\u00e7amento.) As can\u00e7\u00f5es s\u00e3o cruciais nas esta\u00e7\u00f5es de migra\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, na barulhenta paisagem sonora de hoje, o canto das baleias \u00e9 suprimido de sua habitual frequ\u00eancia, e at\u00e9 mesmo levado ao sil\u00eancio \u2013 a uma dist\u00e2ncia de at\u00e9 1,2 km de navios comerciais, as baleias jubartes param de cantar por n\u00e3o conseguirem competir com o barulho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na tradu\u00e7\u00e3o entre esp\u00e9cies, o som s\u00f3 nos leva at\u00e9 certo ponto. Os <a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/world\/animals\">animais<\/a> se comunicam por meio de uma s\u00e9rie de sinais visuais, qu\u00edmicos, t\u00e9rmicos e mec\u00e2nicos, habitando mundos de percep\u00e7\u00e3o muito diferentes dos nossos. Podemos realmente entender o que o som significa para animais ecolocalizadores, para os quais as ondas sonoras podem ser traduzidas visualmente?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O ecologista alem\u00e3o Jakob von Uexk\u00fcll chamou esses mundos impenetr\u00e1veis de <em>umwelten<\/em>. Para traduzir verdadeiramente a linguagem animal, precisar\u00edamos entrar no <em>umwelt<\/em> desse animal \u2013 e, ent\u00e3o, o que de n\u00f3s ficaria impresso nela, ou dela em n\u00f3s? \u201cSe um le\u00e3o pudesse falar\u201d, escreve Stephen Budiansky, revisando o famoso aforismo de Wittgenstein em <em>Investiga\u00e7\u00f5es Filos\u00f3ficas<\/em>, \u201cprovavelmente poder\u00edamos entend\u00ea-lo. Ele s\u00f3 n\u00e3o seria mais um le\u00e3o\u201d. Devemos perguntar, ent\u00e3o, como falar com outros seres pode nos transformar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Conversar com outras esp\u00e9cies pode ser muito parecido com conversar com alien\u00edgenas. N\u00e3o \u00e9 coincid\u00eancia que o Ceti evoque o instituto Seti (Search for Extraterrestrial Intelligence, em ingl\u00eas) da Nasa. De fato, uma equipe do Seti gravou a troca de sons \u201cwhup\/throp\u201d, com base no pressuposto de que aprender a falar com baleias pode nos ajudar se algum dia encontrarmos vida extraterrestre inteligente. No filme <a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/film\/2016\/sep\/01\/arrival-review-amy-adams-denis-villeneuve-alien-contact\"><em>A Chegada<\/em><\/a>, de Denis Villeneuve, alien\u00edgenas parecidos com baleias se comunicam por meio de uma linguagem na qual a distin\u00e7\u00e3o entre passado, presente e futuro colapsa. Para Louise, a linguista que traduz a l\u00edngua, aprender heptapod tira a sua mente do tempo linear e a leva para uma realidade em que seu pr\u00f3prio passado e futuro est\u00e3o igualmente dispon\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para explicar isso, o filme menciona a teoria do determinismo lingu\u00edstico de Edward Sapir e Benjamin Whorf \u2013 a ideia de que nossa experi\u00eancia da realidade est\u00e1 codificada na linguagem. A hip\u00f3tese de Sapir-Whorf foi rejeitada em meados do s\u00e9culo XX, mas, desde ent\u00e3o, os linguistas t\u00eam debatido se ela ainda pode ter algum fundamento. Os falantes de pormpuraaw, no norte da Austr\u00e1lia, referem-se ao tempo como algo que se move de leste para o oeste, em vez de para frente ou para tr\u00e1s, como em ingl\u00eas, tornando o tempo insepar\u00e1vel da rela\u00e7\u00e3o entre o corpo e a terra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os cantos das baleias nascem de uma experi\u00eancia temporal radicalmente diferente da nossa. As baleias jubarte podem projetar suas vozes por quil\u00f4metros em mar aberto; seus cantos ecoam pelos oceanos mais distantes. Imagine a ondula\u00e7\u00e3o do sentimento oce\u00e2nico sobre o qual esses sons s\u00e3o transportados. Falar a l\u00edngua das baleias iria expandir a nossa percep\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o e do tempo para uma can\u00e7\u00e3o planet\u00e1ria. Imagino que pensar\u00edamos de forma muito diferente sobre poluir a paisagem sonora do oceano de forma t\u00e3o irrespons\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando \u00e9 importante, somos perfeitamente capazes de compreender o que a natureza tem a dizer; o problema \u00e9 que optamos por n\u00e3o o fazer. Por mais incr\u00edvel que fosse ter uma conversa com outra esp\u00e9cie, devemos ouvir melhor o que elas j\u00e1 est\u00e3o nos dizendo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * *<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\">(Este texto foi originalmente publicado no site do <em>The Guardian<\/em>, em 1\u00ba de junho de 2025. Agradecemos encarecidamente ao autor por ceder os direitos da tradu\u00e7\u00e3o. Para ler o original, <a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/world\/2025\/jun\/01\/were-close-to-translating-animal-languages-what-happens-then\">clique aqui<\/a>. Tradu\u00e7\u00e3o de Manoella Deorristt. Revis\u00e3o de Antonio Barros.)<\/p>\n\n\n<ol class=\"wp-block-footnotes has-small-font-size\"><li id=\"e36912f7-c655-4beb-9e8f-f8b1a4aa6965\">Professor de Literatura e Meio Ambiente da Universidade de Edimburgo. Seu livro mais recente se intitula <em><a href=\"https:\/\/canongate.co.uk\/books\/4911-natures-genius-evolution-039-s-lessons-for-a-changing-planet\/\">Nature\u2019s Genius: Evolution\u2019s Lessons for a Changing Planet<\/a><\/em>. <a href=\"#e36912f7-c655-4beb-9e8f-f8b1a4aa6965-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 1 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><\/ol>\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-small-font-size wp-block-paragraph\"><em>Carbono<\/em>, vol. 9 \u2013 agosto de 2025.<br>ISSN: 3085-7066<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A intelig\u00eancia artificial poder\u00e1, em breve, decodificar a linguagem das baleias, entre outras formas de comunica\u00e7\u00e3o \u2013 mas o que a natureza tem a nos dizer talvez n\u00e3o seja uma surpresa<\/p>\n","protected":false},"author":38,"featured_media":931,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"[{\"content\":\"Professor de Literatura e Meio Ambiente da Universidade de Edimburgo. 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