{"id":939,"date":"2025-09-10T22:06:22","date_gmt":"2025-09-11T01:06:22","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/?p=939"},"modified":"2025-10-11T10:44:08","modified_gmt":"2025-10-11T13:44:08","slug":"entrevista-com-fabio-durao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/2025\/09\/10\/entrevista-com-fabio-durao\/","title":{"rendered":"Entrevista com Fabio Dur\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Fabio Akcelrud Dur\u00e3o, professor da Universidade Estadual de Campinas, tem dedicado seus estudos a investigar os modos de produ\u00e7\u00e3o da pesquisa liter\u00e1ria e as formas por meio das quais o ensino de literatura se propaga no meio acad\u00eamico. Seu mais recente livro, <em>Sobre essas coisas feitas de palavras<\/em>,<sup data-fn=\"2f8effb0-e2d3-439d-8e94-b7ac67910256\" class=\"fn\"><a href=\"#2f8effb0-e2d3-439d-8e94-b7ac67910256\" id=\"2f8effb0-e2d3-439d-8e94-b7ac67910256-link\">1<\/a><\/sup> organizado por Tauan Tinti, \u00e9 composto pela reuni\u00e3o de entrevistas, concedidas em momentos distintos a diferentes estudiosos do campo dos Estudos Liter\u00e1rios, nas quais Fabio Dur\u00e3o aborda os problemas inerentes \u00e0 disciplinariza\u00e7\u00e3o da Literatura nas universidades, a cultura acad\u00eamica atravessada pela mentalidade neoliberal e, em especial, o desafio de se ensinar e transmitir o conhecimento presente nas obras liter\u00e1rias. Desde o t\u00edtulo \u2013 que \u00e9, na verdade, uma esp\u00e9cie de per\u00edfrase para o texto liter\u00e1rio \u2013, o professor tenta, por meio do livro, reposicionar a literatura no centro do fazer cr\u00edtico, admoestando o seu leitor a abdicar dos cacoetes te\u00f3ricos e dos tru\u00edsmos que infelizmente marcam a profiss\u00e3o. Para Fabio Dur\u00e3o, o artefato liter\u00e1rio resiste \u00e0s tenta\u00e7\u00f5es totalizantes das cr\u00edticas que tentam tornar o texto uma ilustra\u00e7\u00e3o de uma determinada teoria, ao mesmo tempo que, nessa resist\u00eancia, ele se oferece \u00e0 indetermina\u00e7\u00e3o e \u00e0 possibilidade cont\u00ednua de interpreta\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, o autor do livro \u00e9 bastante cr\u00edtico \u2013 e c\u00e9tico \u2013 em rela\u00e7\u00e3o ao modo como a universidade tem se organizado hoje em dia. Apresentando argumentos convincentes, Dur\u00e3o explica, com bastante desenvoltura, as contradi\u00e7\u00f5es que cercam os estudantes universit\u00e1rios hoje em dia, incitados a uma forma\u00e7\u00e3o cada vez mais precoce e, ao mesmo tempo, presas de um sistema neoliberal que recompensa cada vez menos a criatividade e a erudi\u00e7\u00e3o. As entrevistas que fazem parte do livro, conduzidas brilhantemente por intelectuais pr\u00f3ximos do autor, oportunizam a abertura de um di\u00e1logo que, lamentavelmente, tem se tornado cada vez mais raro no meio acad\u00eamico. Essa aposta no di\u00e1logo em detrimento do trabalho monogr\u00e1fico tradicional \u00e9 uma \u00f3tima ocasi\u00e3o para contestar, inclusive, os efeitos nocivos dessa hiperespecializa\u00e7\u00e3o e desse isolamento aos quais os acad\u00eamicos hoje em dia est\u00e3o sujeitos. Veja abaixo, portanto, as respostas que Fabio Dur\u00e3o gentilmente concedeu ao <em>Carbono<\/em>, quando perguntado sobre seu livro.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: Em geral, os acad\u00eamicos preferem livros monogr\u00e1ficos para divulga\u00e7\u00e3o das suas ideias, e, no entanto, <em>Sobre essas coisas feitas de palavras<\/em> \u00e9 composto quase que inteiramente por entrevistas concedidas em diferentes momentos, a diferentes interlocutores. Voc\u00ea considera que esse formato dial\u00f3gico contribui mais para a dissemina\u00e7\u00e3o do conhecimento?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>FABIO DUR\u00c3O:<\/strong> Olha, para falar a verdade, vou ter que discordar do pressuposto da quest\u00e3o. N\u00e3o creio que o livro monogr\u00e1fico goze do prest\u00edgio que um dia j\u00e1 teve; na realidade, defenderia que ele n\u00e3o \u00e9 mais uma forma viva, que no m\u00e1ximo corresponde a um g\u00eanero em extin\u00e7\u00e3o. Ter\u00edamos que fazer um estudo quantitativo, sem d\u00favida, mas minha suspeita \u00e9 a de que, no geral, aquilo que se apresenta como livro monogr\u00e1fico n\u00e3o passa de uma colet\u00e2nea de artigos agrupados em um volume, que o autor, com maior ou menor esfor\u00e7o, tenta convencer o leitor (e a si mesmo) que tem organicidade. Acho importante defender a forma livro diante da naturaliza\u00e7\u00e3o do artigo como ve\u00edculo fundamental de escrita acad\u00eamica. Mas para voltar \u00e0 pergunta, n\u00e3o sei se o formato dial\u00f3gico, em si, contribui mais para a dissemina\u00e7\u00e3o do conhecimento. O que me surpreendeu no livro depois de pronto, o efeito da reuni\u00e3o de textos que n\u00e3o foram pensados para ser colocados juntos, foi o tipo de v\u00ednculo que a conversa\/entrevista permite estabelecer entre as pessoas, um tipo de v\u00ednculo que n\u00e3o faz incompat\u00edveis a informalidade e o rigor. Eu gosto muito da express\u00e3o, popular e bem coloquial, \u201ctrocar ideias\u201d, pois ela sugere um tipo de imediaticidade e engajamento, a presen\u00e7a do sujeito no enunciado, muito positivos e frequentemente ausentes na esfera acad\u00eamica. Para dizer de outro \u00e2ngulo, muito tem se refletido sobre a quest\u00e3o da pesquisa, desde a obten\u00e7\u00e3o de fontes, passando pelo trabalho anal\u00edtico, at\u00e9 o modo de apresentar os resultados alcan\u00e7ados. O que falta a\u00ed nesse quadro \u00e9 vislumbrar de onde v\u00eam as ideias, quais os procedimentos que fazem com que elas surjam. O livro deixou claro para mim que as conversas foram motores para pensar junto \u2013 ent\u00e3o, se para al\u00e9m das ideias que elas cont\u00eam o livro disseminar essa forma intera\u00e7\u00e3o entre as pessoas, ter\u00e1 feito um belo trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: Em uma linha semelhante: voc\u00ea tem falado em diversas ocasi\u00f5es sobre o formato do artigo e sobre o quanto ele \u00e9 prejudicial para o desenvolvimento das ideias no \u00e2mbito dos estudos liter\u00e1rios, especificamente. Voc\u00ea poderia falar mais a respeito disso? Como voc\u00ea acha que podemos nos afastar desse formato enrijecido e provocar discuss\u00f5es mais salutares no \u00e2mbito universit\u00e1rio?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>FABIO DUR\u00c3O:<\/strong> Preparei, com um orientando de doutorado, o Andr\u00e9 Volpato, um artigo contra a forma artigo. Foi um exerc\u00edcio interessante de escrita, porque havia um espelhamento entre o dizer e o fazer: criticamos o artigo, reproduzindo na composi\u00e7\u00e3o aquilo que defend\u00edamos no conte\u00fado. Sucintamente, argumentamos que o artigo \u00e9 uma forma antimim\u00e9tica e, como tal, antiliter\u00e1ria. Suas partes constitutivas s\u00e3o dadas de antem\u00e3o e todas elas s\u00e3o prejudiciais ao pensamento da literatura. Um exemplo: o <em>abstract<\/em> deve necessariamente dar um <em>spoiler<\/em> do argumento. Para a fic\u00e7\u00e3o, n\u00e3o tem problema nenhum saber o final, uma vez que o enredo \u00e9 s\u00f3 um dos componentes de uma obra; \u00e0s vezes \u00e9 at\u00e9 bom saber logo como a hist\u00f3ria termina, para que se possa prestar aten\u00e7\u00e3o em outros elementos da narrativa, geralmente mais interessantes do que a trama. O mesmo n\u00e3o ocorre para a prosa cr\u00edtica, e muito da gra\u00e7a de uma ideia poderosa reside no modo como ela \u00e9 constru\u00edda e exposta. Justamente para n\u00e3o dar um <em>spoiler<\/em> da nossa argumenta\u00e7\u00e3o vou parar por aqui, s\u00f3 chamando a aten\u00e7\u00e3o para um outro aspecto importante, e extremamente negativo do artigo, que \u00e9 a sua vincula\u00e7\u00e3o \u00e0 no\u00e7\u00e3o de <em>\u00e1rea<\/em>. Porque a ess\u00eancia do artigo \u00e9 ser uma contribui\u00e7\u00e3o a uma \u00e1rea. Isso faz sentido para as ci\u00eancias exatas, mas para a literatura \u00e9 muito prejudicial. A \u00e1rea tem a ver com um presente perp\u00e9tuo, que \u00e9 o contr\u00e1rio da ideia de erudi\u00e7\u00e3o. Ela pressup\u00f5e uma segmenta\u00e7\u00e3o e uma totaliza\u00e7\u00e3o \u2013 o especialista tem que conhecer a totalidade do seu campo. Por mais que a fragmenta\u00e7\u00e3o seja necess\u00e1ria, a literatura s\u00f3 se deixa fragmentar por um gesto de viol\u00eancia, e o n\u00e3o-poder-saber-tudo, constitutivo da literatura como um todo, \u00e9 das melhores coisas que ela pode oferecer. Uma das tarefas mais urgentes da Teoria Liter\u00e1ria hoje, creio, \u00e9 pensar sobre os efeitos nefastos das importa\u00e7\u00f5es cientificistas nas nossas pr\u00e1ticas cotidianas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: Em mais de uma ocasi\u00e3o em <em>Sobre essas coisas feitas de palavras<\/em> parece haver um apelo para que os estudantes de literatura deixem de lan\u00e7ar m\u00e3o das teorias, como se elas estivessem \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o em uma esp\u00e9cie de buffet epistemol\u00f3gico, e se voltem para os textos liter\u00e1rios em si mesmos, a fim de provocar um estranhamento na leitura. Como isso \u00e9 diferente do restabelecimento da leitura cerrada (<em>close reading<\/em>)? E voc\u00ea acredita que isso n\u00e3o se choca com as novas gera\u00e7\u00f5es que j\u00e1 chegam \u00e0 sala de aula entorpecidas de uma cultura audiovisual que captura a sua aten\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>FABIO DUR\u00c3O:<\/strong> A met\u00e1fora do buffet epistemol\u00f3gico \u00e9 \u00f3tima. O problema do <em>close reading<\/em> \u00e9 que ele n\u00e3o \u00e9 um m\u00e9todo, n\u00e3o \u00e9 algo que possa ser sistematizado, ou do qual se fala em abstrato. Ele s\u00f3 faz sentido dentro de contextos argumentativos espec\u00edficos, e \u00e9 plenamente poss\u00edvel, ainda que metodologicamente mais dif\u00edcil, interpretar uma obra sem realizar uma leitura rente e trabalhar os detalhes da tecitura textual. No m\u00e1ximo, se pode caracterizar o <em>close reading<\/em> como decorrendo de um tipo de aten\u00e7\u00e3o \u00e0 materialidade da l\u00edngua \u2013 \u00e9 essa aten\u00e7\u00e3o, e a imagina\u00e7\u00e3o que ela incentiva, que temos que nos esfor\u00e7ar para transmitir aos estudantes, o que sem d\u00favida n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. Como o Andr\u00e9 Cechinel e eu defendemos em <em><a href=\"https:\/\/www.parabolaeditorial.com.br\/ensinando-literatura?srsltid=AfmBOoqIYGCvB49cxLuIKtK8n6aYVJxS3iVeAeUxwxKMqMcxKlQwjhv2\">Ensinando Literatura<\/a><\/em>, a dificuldade central que o professor enfrenta \u00e9 a de como ensinar, n\u00e3o um conte\u00fado espec\u00edfico, porque ele n\u00e3o existe, mas um <em>fazer<\/em>, que \u00e9 o ato interpretativo. Se o close reading se encaixar de alguma maneira nisso, est\u00e1 valendo, mas em \u00faltima inst\u00e2ncia \u00e9 uma escolha do professor.<br>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 segunda parte da pergunta, eu ousaria dizer que \u00e9 justamente por causa do entorpecimento audiovisual que a literatura pode ser muito mais cativante hoje do que antes. A onipresen\u00e7a da imagem faz com que a l\u00edngua por si s\u00f3 se torne algo inerentemente estranho e, assim, mais interessante. Recitar um soneto de Augusto dos Anjos em sala de aula gera um impacto maior do que na \u00e9poca na qual n\u00e3o havia celulares. \u00c9 claro que o professor tem que pensar em formas de expor a escrita aos alunos (e a recita\u00e7\u00e3o, de prefer\u00eancia de cor, \u00e9 uma estrat\u00e9gia preciosa), mas n\u00e3o podemos nos esquecer de que ele tem a literatura do seu lado, e ela \u00e9 capaz de fazer, por defini\u00e7\u00e3o, coisas anteriormente inimagin\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: Me parece que, hoje em dia, h\u00e1 dois fen\u00f4menos cont\u00edguos. Por um lado, os leitores acad\u00eamicos antecipadamente se munem de teorias a fim de enquadrar o objeto na lente, o que provoca uma s\u00e9rie de interpreta\u00e7\u00f5es for\u00e7adas ou autom\u00e1ticas. Por outro lado, os leitores de fora da Academia chegam aos livros com algum tipo de vi\u00e9s que eles esperam ver corroborado na leitura. No meio disso est\u00e1 a sua concep\u00e7\u00e3o de uma leitura despida desses dois tipos de <em>a priori<\/em>. Algu\u00e9m menos atento diria que seu livro faz pouco caso das teorias, mas, na verdade, ele me parece uma aposta dobrada no papel da teoria, no sentido de oferecer uma base epistemol\u00f3gica que, entre outras coisas, suplanta essas outras formas de leitura menos, digamos, fundamentadas. Como essa teoria se enquadra historicamente entre as outras que emergiram no s\u00e9culo passado?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>FABIO DUR\u00c3O:<\/strong> Depois de anos de contato com a teoria eu cheguei a uma ideia central, que desenvolvo em <em><a href=\"https:\/\/www.autoresassociados.com.br\/produto\/teoria-literaria-americana\/\">Teoria (liter\u00e1ria) americana<\/a><\/em>, de que ela <em>n\u00e3o<\/em> \u00e9 uma proped\u00eautica para a interpreta\u00e7\u00e3o de obras liter\u00e1rias: a teoria <em>n\u00e3o<\/em> te ajuda diretamente a analisar textos, ela <em>n\u00e3o<\/em> \u00e9 um instrumento ou ferramenta. Ao inv\u00e9s disso, como resultado de processo complexo que valeria a pena estudar pormenorizadamente, ela se tornou um campo mais ou menos aut\u00f4nomo \u2013 voc\u00ea pode cham\u00e1-lo de g\u00eanero, ou forma\u00e7\u00e3o discursiva, se quiser. O modo mais produtivo de lidar com a teoria, creio, consiste em conferir a ela um grau consider\u00e1vel de intransitividade; ou seja, conceb\u00ea-la como um objeto no sentido enf\u00e1tico do termo e <em>interpret\u00e1-la<\/em>. Como digo no livro, no trato usual com a teoria ela \u00e9 vista como pura abstra\u00e7\u00e3o, pura conceitualidade, absolutamente presente a si mesma; j\u00e1 a literatura \u00e9 percebida como o contr\u00e1rio, uma materialidade cega, que n\u00e3o sabe nada sobre si. Eu sugiro que invertamos os vetores e apostemos que a literatura pensa, que ela sabe muito mais sobre si mesma do que podemos imaginar, e que, por outro lado, possamos conferir espessura verbal para a teoria. Uma aten\u00e7\u00e3o demorada para os significantes da teoria pode mostrar que ela \u00e9 bem menos senhora de si mesma do que normalmente se assume.<br>Agora, se a teoria se converte em material para a interpreta\u00e7\u00e3o e n\u00e3o para a aplica\u00e7\u00e3o, algo curioso ocorre. Ao estabelecermos essa rela\u00e7\u00e3o de maior proximidade e intimidade com ela, surge a possibilidade de aprendermos mimeticamente com ela, n\u00e3o por meio dos conte\u00fados dos conceitos ou das defini\u00e7\u00f5es, mas a partir de seus <em>gestos<\/em>, da <em>postura<\/em> intelectual que ela implica e projeta. O ideal formativo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 teoria \u00e9 retir\u00e1-la do \u00e2mbito da m\u00e3o, para inseri-la na corrente sangu\u00ednea.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: Outra coisa: o modernismo \u00e9 tamb\u00e9m um campo de estudos para voc\u00ea, e, me corrija se eu estiver errado, o seu livro est\u00e1 lastreado por uma concep\u00e7\u00e3o visivelmente modernista do que \u00e9 o texto liter\u00e1rio. Voc\u00ea diria que a metodologia que voc\u00ea prop\u00f5e se enquadra melhor aos textos liter\u00e1rios da tradi\u00e7\u00e3o modernista? O que esperar dessa metodologia de leitura quando abordamos textos mais convencionais ou da cultura de massa?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>FABIO DUR\u00c3O:<\/strong> Eu diria que a minha posi\u00e7\u00e3o se pauta por uma intransig\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 racionalidade est\u00e9tica. N\u00e3o consigo abrir m\u00e3o de ter como par\u00e2metro para a literatura que o texto se sustente, que ele se permita fazer uso de todos os recursos composicionais existentes para que n\u00e3o se reduza a lugares comuns, clich\u00eas, chav\u00f5es ou estere\u00f3tipos. Em outras palavras, que a obra se conceba como uma entidade aut\u00e1rquica, que n\u00e3o faz concess\u00f5es, e que n\u00e3o tenha medo de dispor dos materiais mais inteligentes e eficazes. Se voc\u00ea chamar de modernista essa postura de investimento m\u00e1ximo no objeto \u2013 n\u00e3o no autor ou no p\u00fablico \u2013, eu concordaria que a minha abordagem \u00e9 modernista. O problema para mim \u00e9 que qualquer outro entendimento da literatura, que fa\u00e7a concess\u00f5es ao lugar do autor ou ao p\u00fablico, tem algo de condescendente, pouco produtivo e por fim frustrante.<br>Em rela\u00e7\u00e3o aos textos mais convencionais e \u00e0 cultura de massas, eu observaria que existe uma curiosa dial\u00e9tica em jogo, pois \u00e9 justamente por n\u00e3o abrir m\u00e3o de um sarrafo alto, que no fundo significa s\u00f3 querer preservar a intelig\u00eancia, n\u00e3o se contentar com o que \u00e9 mais ou menos \u2013 \u00e9 justamente por isso que o verdadeiramente ruim pode se tornar interessante. Em v\u00e1rios casos, no cinema <em>mainstream<\/em> por exemplo, para que o artefato possa se tornar mais vend\u00e1vel, d\u00e1-se uma esp\u00e9cie de inje\u00e7\u00e3o de pensamento e cr\u00edtica, para impreterivelmente frustr\u00e1-la no final. Nesse caso, voc\u00ea pode estudar a forma da frustra\u00e7\u00e3o, as maneiras como o artefato desconstr\u00f3i o palco que monta no come\u00e7o. Em <em>A subst\u00e2ncia<\/em>, temos uma boa associa\u00e7\u00e3o entre o mundo regido por imagens e a solid\u00e3o. Repare como os parceiros da personagem principal, quando ela est\u00e1 rejuvenescida (Elisabeth Sparkle), s\u00e3o do tipo gen\u00e9rico, perfeitos e malhados, mas sem individualidade nenhuma, sem v\u00ednculo algum com a protagonista. Para desfazer isso, o filme apela para o <em>gore<\/em>, todo aquele universo gosmento pavoroso, que pode ser lido como uma alegoria do pr\u00f3prio filme em n\u00e3o conseguir levar adiante a problem\u00e1tica que introduz.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ANTONIO BARROS: Para finalizar, acho que o seu livro elucida de modo brilhante o desdobramento de uma mentalidade empresarial que vem cada vez mais permeando as pr\u00e1ticas acad\u00eamicas. Voc\u00ea nota uma deteriora\u00e7\u00e3o na vis\u00e3o de universidade sempre que ela se preocupa com a l\u00f3gica de mercado. Como voc\u00ea v\u00ea o futuro da universidade nos pr\u00f3ximos anos? E como ela pode fazer frente a essa vis\u00e3o empreendedora que a assola de dentro e de fora? E, para ficar em um dos temas do site, como posicion\u00e1-la diante da crise clim\u00e1tica?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>FABIO DUR\u00c3O:<\/strong> Quem me dera \u2013 n\u00e3o digo nem adivinhar, mas s\u00f3 ter alguma esp\u00e9cie de convic\u00e7\u00e3o m\u00ednima a respeito dos rumos das coisas&#8230; Mas de uma coisa eu tenho certeza: a melhor forma de resist\u00eancia, a maneira mais eficaz de preservar e fortalecer a universidade p\u00fablica \u2013 porque as privadas s\u00e3o outros quinhentos \u2013 \u00e9 intensificando o estudo, o trabalho que fazemos. Quanto mais nos engajamos na vida universit\u00e1ria, mais fortes s\u00e3o os seus efeitos para al\u00e9m de seus muros. A sociedade est\u00e1 em um rumo t\u00e3o seguro para sua pr\u00f3pria destrui\u00e7\u00e3o, que o pensamento de verdade assume imediatamente um car\u00e1ter cr\u00edtico. \u00c9 justamente o contr\u00e1rio do que quer fazer o MEC agora com as licenciaturas, por exemplo, com os est\u00e1gios j\u00e1 no primeiro semestre; est\u00e3o querendo tirar os alunos dos campi, ao passo que o correto seria o contr\u00e1rio, encher as bibliotecas, as cantinas, multiplicar a vida dentro da universidade. (E voc\u00ea veja que h\u00e1 aqui uma conex\u00e3o com a resposta da primeira pergunta, sobre trocar ideias&#8230;) O Andr\u00e9 Cechinel e eu preparamos uma segunda edi\u00e7\u00e3o do <em>Ensinando Literatura<\/em>, na qual abordamos veementemente essas tend\u00eancias de emburrecimento da universidade. Com isso, acho que j\u00e1 posso encaminhar a segunda parte da resposta: a pr\u00e1xis da universidade n\u00e3o tem a ver com uma posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica <em>a priori<\/em>, voc\u00ea n\u00e3o estuda para comprovar uma cren\u00e7a que j\u00e1 tinha, pois, de novo, a reflex\u00e3o, por si s\u00f3, j\u00e1 vai levar voc\u00ea l\u00e1. A quest\u00e3o clim\u00e1tica \u00e9 a quest\u00e3o mais importante que a humanidade enfrenta hoje, \u00e9 o problema n\u00famero um, o tema que deveria vir antes de todos os outros, a \u00fanica not\u00edcia que de fato deveria ser veiculada; em uma sociedade que valorizasse a sua autopreserva\u00e7\u00e3o como coletividade, tudo deveria parar, todos os jogos de futebol, todos os shows, todo trabalho, at\u00e9 que o aquecimento global fosse encarado racionalmente de frente e toda a organiza\u00e7\u00e3o social fosse reestruturada para neutraliz\u00e1-lo. O que a universidade pode fazer \u00e9 apontar para o sil\u00eancio absurdo que rodeia a quest\u00e3o clim\u00e1tica. E talvez n\u00e3o seja \u00e0 toa que o sil\u00eancio e o absurdo sejam dois aspectos t\u00e3o marcantes da literatura do s\u00e9culo XX.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * *<\/p>\n\n\n<ol class=\"wp-block-footnotes has-small-font-size\"><li id=\"2f8effb0-e2d3-439d-8e94-b7ac67910256\"><a href=\"https:\/\/www.parabolaeditorial.com.br\/sobre-essas-coisas-feitas-de-palavras?srsltid=AfmBOoqQpznlPhyjZyQhQj-fcSAd_7okZrczG450VoUjX4MXr2EaAy9L\">DUR\u00c3O, Fabio Akcelrud. <em>Sobre essas coisas feitas de palavras<\/em>. Organiza\u00e7\u00e3o de Tauan Tinti. S\u00e3o Paulo: Par\u00e1bola, 2025<\/a>. <a href=\"#2f8effb0-e2d3-439d-8e94-b7ac67910256-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 1 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><\/ol>\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-small-font-size wp-block-paragraph\"><em>Carbono<\/em>, vol. 10 \u2013 setembro de 2025.<br>ISSN: 3085-7066<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p> Fabio Dur\u00e3o, professor da Unicamp, respondeu ao Carbono sobre seu livro mais recente, em que os estudos liter\u00e1rios, o papel da academia e as formas de lecionar s\u00e3o analisados de forma direta e criativa<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":994,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"[{\"content\":\"<a href=\\\"https:\/\/www.parabolaeditorial.com.br\/sobre-essas-coisas-feitas-de-palavras?srsltid=AfmBOoqQpznlPhyjZyQhQj-fcSAd_7okZrczG450VoUjX4MXr2EaAy9L\\\">DUR\u00c3O, Fabio Akcelrud. <em>Sobre essas coisas feitas de palavras<\/em>. 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