{"id":981,"date":"2025-09-10T22:03:26","date_gmt":"2025-09-11T01:03:26","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/?p=981"},"modified":"2025-10-11T10:44:30","modified_gmt":"2025-10-11T13:44:30","slug":"poder-paranoico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/2025\/09\/10\/poder-paranoico\/","title":{"rendered":"Poder Paranoico"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Alenka Zupan\u010di\u010d<sup data-fn=\"9596a854-54ef-4e0f-8b4e-fd0780a02c4f\" class=\"fn\"><a href=\"#9596a854-54ef-4e0f-8b4e-fd0780a02c4f\" id=\"9596a854-54ef-4e0f-8b4e-fd0780a02c4f-link\">1<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 2006-2007, uma exposi\u00e7\u00e3o chamada \u201cParanoia\u201d estava em exibi\u00e7\u00e3o no Freud Museum, em Londres. Um de seus objetivos era refletir (principalmente atrav\u00e9s de obras de arte) \u201co sentimento coletivo de consterna\u00e7\u00e3o com a estupidez, o preconceito e a supersti\u00e7\u00e3o gerados pela \u2018guerra ao terror\u2019 em um mundo p\u00f3s-11 de setembro\u201d.<sup data-fn=\"0b9c9f8e-df21-4a01-aa6e-fcd784b7399d\" class=\"fn\"><a href=\"#0b9c9f8e-df21-4a01-aa6e-fcd784b7399d\" id=\"0b9c9f8e-df21-4a01-aa6e-fcd784b7399d-link\">2<\/a><\/sup> Alguns dos principais mecanismos de paranoia que o texto que acompanha a exposi\u00e7\u00e3o traz \u00e0 tona, com base em diversas cita\u00e7\u00f5es de Freud, incluem a proje\u00e7\u00e3o, a aus\u00eancia de uma verifica\u00e7\u00e3o da realidade, a verdade sem poder sobre n\u00f3s, o expediente do bode expiat\u00f3rio e uma inclina\u00e7\u00e3o para a agress\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A partir da \u00eanfase inicial no \u201cmundo p\u00f3s-11 de setembro\u201d, tamb\u00e9m fica claro que a \u201cparanoia\u201d foi entendida aqui em seu amplo significado e contexto social, e n\u00e3o apenas como uma categoria cl\u00ednica. Essa tamb\u00e9m \u00e9 a abordagem que vou adotar neste ensaio. Olhando para o mundo quase duas d\u00e9cadas ap\u00f3s a exibi\u00e7\u00e3o ter ocorrido, n\u00f3s certamente podemos detectar algumas similaridades na leitura pol\u00edtica e popular do que est\u00e1 acontecendo agora. Em ambos os casos, h\u00e1 o sentimento de que algo acabou para sempre, ou que o mundo nunca mais ser\u00e1 o mesmo. O mundo como o conhec\u00edamos est\u00e1 passando por mudan\u00e7as dram\u00e1ticas. Nossos ambientes naturais e sociais est\u00e3o sofrendo transforma\u00e7\u00f5es dr\u00e1sticas, e profundas mudan\u00e7as tect\u00f4nicas est\u00e3o ocorrendo enquanto falamos. Essas mudan\u00e7as se manifestam principalmente atrav\u00e9s de uma s\u00e9rie de crises que continuam nos atingindo uma ap\u00f3s a outra, levando a um aumento de precariedade e incerteza: crises econ\u00f4micas, a crise do Covid, a guerra na Ucr\u00e2nia, a crise do Oriente M\u00e9dio (que eufemismo!), a crise induzida por Trump (visando a uma nova ordem dom\u00e9stica e global) e muito mais. Em outro n\u00edvel, h\u00e1 tamb\u00e9m a crise clim\u00e1tica, acompanhada por eventos clim\u00e1ticos extremos cada vez mais frequentes em diferentes partes do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diversas caracter\u00edsticas emergentes neste contexto contempor\u00e2neo de crises tamb\u00e9m t\u00eam semelhan\u00e7as com a \u00e9poca em que Freud teorizou sobre os aspectos sociais da paranoia \u2013 ou seja, o per\u00edodo entre as duas Guerras Mundiais, levando ou coincidindo com a ascens\u00e3o do fascismo. Hoje, o fascismo parece estar ressurgindo de uma forma nova \u2013 uma que n\u00e3o \u00e9 simplesmente id\u00eantica \u00e0s suas encarna\u00e7\u00f5es anteriores, mas que exige mais reflex\u00e3o e an\u00e1lise.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Neste artigo, eu gostaria de contribuir um pouco para essa an\u00e1lise, examinando as novas formas emergentes de poder, a ascens\u00e3o de novos l\u00edderes autorit\u00e1rios e seu relacionamento com o povo (particularmente seus apoiadores) a partir da perspectiva de uma forma singular de paranoia que parece fazer parte dessa nova configura\u00e7\u00e3o do \u201cfim dos tempos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Antes de avan\u00e7ar, a seguinte observa\u00e7\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria: os coment\u00e1rios que se seguem n\u00e3o devem ser vistos como uma alternativa \u00e0 an\u00e1lise socioecon\u00f4mica ou geopol\u00edtica, nem como uma tentativa de sugerir que um mapeamento psicol\u00f3gico de nossos dilemas sociais \u00e9 superior a outras abordagens. No que eu <em>sim<\/em> acredito, no entanto, \u00e9 que tal an\u00e1lise pode nos ajudar a entender certos mecanismos que desempenham um papel fundamental na orquestra\u00e7\u00e3o de antagonismos sociais, que s\u00e3o amplamente independentes da psicologia individual. Uma vez que grande parte dessa an\u00e1lise se concentrar\u00e1 no exemplo de Donald Trump e sua atual administra\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m \u00e9 importante enfatizar que eu n\u00e3o enxergo Trump ou a sua personalidade como a raiz do problema. Muito tinha que acontecer para algu\u00e9m como ele ganhasse a presid\u00eancia \u2013 e pela segunda vez, ainda por cima. N\u00e3o devemos de forma alguma nos tornar v\u00edtimas de uma fantasia trumpiana invertida, cultivada por muitos democratas, e simplesmente acreditar que, se Trump fosse removido, \u201ca Am\u00e9rica seria grande novamente\u201d. No entanto, sua personalidade particular foi capaz de dar forma concreta a antagonismos pr\u00e9-existentes e guin\u00e1-los em uma determinada dire\u00e7\u00e3o. Mesmo que o problema seja \u201csist\u00eamico\u201d, sua apar\u00eancia concreta \u00e9 sempre determinada por alguma conting\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O que \u201crealmente\u201d aconteceu conosco?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Circunst\u00e2ncias econ\u00f4micas terr\u00edveis, guerras, incerteza e instabilidade social, e outras formas de crise: podemos de fato observar que essas s\u00e3o precisamente as condi\u00e7\u00f5es em que a paranoia social prospera. Mas isso \u00e9 suficiente para propor uma rela\u00e7\u00e3o causal direta entre os dois e, assim, explicar as crescentes formas sociais da paranoia, apontando para dificuldades, crises reais, amea\u00e7as e traumas aos quais muitas pessoas est\u00e3o expostas? Acredito que este seria um erro grave. Embora as condi\u00e7\u00f5es reais e emp\u00edricas de dificuldades e inseguran\u00e7as certamente desempenhem um papel importante, a causalidade \u00e9 mais complexa. Isso j\u00e1 \u00e9 aparente se considerarmos o fato de que n\u00e3o h\u00e1 correla\u00e7\u00e3o direta entre o grau de dificuldade real que se experimenta e uma tend\u00eancia, por exemplo, de se acreditar em teorias da conspira\u00e7\u00e3o \u2013 uma das formas sociais predominantes que a paranoia contempor\u00e2nea manifesta. Os defensores mais ardentes das teorias da conspira\u00e7\u00e3o raramente s\u00e3o os mais desamparados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O elemento-chave da causalidade ocorre no n\u00edvel em que a dificuldade emp\u00edrica ou a crise s\u00e3o narrativamente enquadradas. Com isso, n\u00e3o me refiro simplesmente \u00e0s explica\u00e7\u00f5es (e eventuais bodes expiat\u00f3rios) oferecidas para esclarecer por que estamos onde estamos \u2013 isso j\u00e1 \u00e9 secund\u00e1rio. O que est\u00e1 em jogo \u00e9 algo mais fundamental (ainda que constitua um curto-circuito entre o mais \u00edntimo\/particular e o social): a saber, a caracteriza\u00e7\u00e3o de \u201c<em>onde<\/em> estamos\u201d (ou seja, o que exatamente aconteceu conosco, ou est\u00e1 acontecendo conosco), em vez de por que chegamos at\u00e9 aqui (o que, novamente, pertence a outro n\u00edvel que certamente tamb\u00e9m existe).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em outras palavras, o que est\u00e1 em jogo \u00e9 uma representa\u00e7\u00e3o narrativa da dor \u2013 do status de nossas \u201cferidas\u201d \u2013, que ent\u00e3o abre um novo playground ou \u201cplataforma\u201d na qual nossa dor existe socialmente (mesmo que n\u00e3o a experimentamos diretamente), em rela\u00e7\u00e3o aos outros, como uma for\u00e7a de liga\u00e7\u00e3o e divis\u00e3o, e como base para poss\u00edveis \u201cexplica\u00e7\u00f5es\u201d e receitas para a recupera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se olharmos para como os problemas atuais que afetam um n\u00famero crescente de pessoas no Ocidente est\u00e3o sendo enquadrados pela direita populista \u2013 mais proeminentemente nos EUA \u2013, o que veremos? Que eles est\u00e3o sendo enquadrados atrav\u00e9s dos abrangentes tropo e ret\u00f3rica da \u201ccastra\u00e7\u00e3o\u201d. Talvez uma palavra mais adequada seja \u201cemascula\u00e7\u00e3o\u201d, j\u00e1 que isso \u00e9 expresso principalmente em termos de uma perda imediata, quase f\u00edsica, de poder, de pot\u00eancia, de vitalidade e de gozo. Por exemplo, podemos detectar isso na maneira como a extrema direita se apropriou da no\u00e7\u00e3o de \u201cliberdade de express\u00e3o\u201d \u2013 n\u00e3o como um direito civil de proteger vozes cr\u00edticas, mas simplesmente como um <em>direito de gozar<\/em>: nesse discurso, \u201cperda da liberdade de express\u00e3o\u201d refere-se \u00e0 incapacidade de insultar os outros livremente e dizer o que se quiser dizer. Requisitos de linguagem educada e cuidadosa, bem como proibi\u00e7\u00f5es sobre s\u00edmbolos e ret\u00f3rica associados ao nazismo e ao fascismo, s\u00e3o cada vez mais apresentados como impedimentos \u00e0 liberdade entendidos como liberdade de gozo \u2013 e, nesse sentido, como \u201ccastradores\u201d. Outra caracter\u00edstica desse enquadramento peculiar de males sociais como \u201cemascula\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9 a invoca\u00e7\u00e3o da humilha\u00e7\u00e3o e o medo de ser humilhado: \u201cTodo mundo est\u00e1 rindo de n\u00f3s\u201d, \u201cNingu\u00e9m nos leva a s\u00e9rio\u201d, etc.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse enquadramento narrativo em particular, no entanto, n\u00e3o \u00e9 simplesmente um enquadramento poss\u00edvel entre outros, mas um enquadramento singular. Poder\u00edamos descrev\u00ea-lo como um enquadramento de \u201ccrise\u201d, que tem um poder peculiar de bloquear a possibilidade de lidar com a crise em um n\u00edvel simb\u00f3lico. No contexto da cl\u00ednica lacaniana, a paranoia \u00e9 entendida como uma estrutura erguida em torno de uma inacessibilidade (ou foraclus\u00e3o) de algum significante-chave. Entretanto, se falamos sobre paranoia como um fen\u00f4meno social e pol\u00edtico, \u00e9 importante ter em mente que geralmente n\u00e3o estamos lidando com uma situa\u00e7\u00e3o em que, devido a algumas circunst\u00e2ncias contingentes, mas objetivas, um significante-chave fica fora de alcance e d\u00e1 origem a uma estrutura paranoica. Em vez disso, estamos lidando com uma inacessibilidade do significante que est\u00e1 sendo <em>produzida<\/em> no n\u00edvel social \u2013 e produzida intencionalmente \u2013, mesmo que aqueles que a produzem n\u00e3o entendam completamente os mecanismos por tr\u00e1s disso. Mas eles sabem como aplic\u00e1-los, e sabem disso porque a estrutura da paranoia n\u00e3o \u00e9 estranha para eles.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Estamos, portanto, lidando com um movimento interpretativo que bloqueia, em algum ponto crucial, o registro simb\u00f3lico: o enquadramento de uma crise em termos que evocam a \u201ccastra\u00e7\u00e3o\u201d percorre um longo caminho para expulsar seu significante, tornando-o inacess\u00edvel. A narrativa da \u201cemascula\u00e7\u00e3o\u201d n\u00e3o simplesmente induz medo ou ansiedade de castra\u00e7\u00e3o \u2013 ela tamb\u00e9m consegue proibir o pr\u00f3prio significante que poderia ajudar as pessoas a processar essa ansiedade dentro do registro simb\u00f3lico, ou seja, ajud\u00e1-las a transp\u00f4-la do registro de impot\u00eancia (f\u00edsica) para o de impossibilidade (simb\u00f3lica) ou \u201ccastra\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica\u201d. A castra\u00e7\u00e3o permanece operacional apenas no registro do imagin\u00e1rio e do real. Se voc\u00ea continuar dizendo \u00e0s pessoas que elas est\u00e3o sendo \u201ccastradas\u201d, isso obviamente n\u00e3o \u00e9 muito empoderador para elas. A mensagem, em vez disso, \u00e9: voc\u00ea \u00e9 (torna-se) impotente, e eu \u2013 o l\u00edder populista \u2013 sou o \u00fanico em quem voc\u00ea pode confiar para eventualmente devolver algum poder para voc\u00ea. Em outras palavras, n\u00e3o se trata simplesmente de induzir medo, ansiedade e inseguran\u00e7a nas pessoas, mas tamb\u00e9m \u2013 e acima de tudo \u2013 de cortar essas experi\u00eancias do registro simb\u00f3lico, apresentando-as como o real que, pelo menos por enquanto, torna as pessoas irritadas, indignadas e, ao mesmo tempo, <em>impotentes<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O grito de guerra \u00e9 assim: estamos sendo emasculados, e n\u00e3o podemos permitir isso \u2013 eu, seu l\u00edder, n\u00e3o permitirei isso! Como sugerido, isso \u00e9 particularmente evidente nos EUA e na ret\u00f3rica cotidiana de sua pol\u00edtica. Todos s\u00e3o acusados de \u201croubar\u201d da Am\u00e9rica, \u201cexplor\u00e1-la\u201d, \u201ctirar vantagem dela\u201d; dizem que o pa\u00eds foi invadido por \u201cestupradores e criminosos\u201d; as pessoas LGBTQ est\u00e3o \u201cvindo atr\u00e1s de nossos filhos\u201d e querem \u201ccastr\u00e1-los quimicamente\u201d. As pessoas que criticam Trump s\u00e3o rotuladas como v\u00edtimas de TDS, \u201cTrump Derangement Syndrome\u201d<sup data-fn=\"903b858e-19b7-4400-9ec3-2ef0359bd466\" class=\"fn\"><a href=\"#903b858e-19b7-4400-9ec3-2ef0359bd466\" id=\"903b858e-19b7-4400-9ec3-2ef0359bd466-link\">3<\/a><\/sup> (que supostamente faz as pessoas perderem sua racionalidade quando se trata de Trump), que \u00e9 uma das maneiras pelas quais os pressupostos paranoicos da extrema direita s\u00e3o projetados na oposi\u00e7\u00e3o.<sup data-fn=\"a516167f-1a10-4049-a623-aeb2f3168fbf\" class=\"fn\"><a href=\"#a516167f-1a10-4049-a623-aeb2f3168fbf\" id=\"a516167f-1a10-4049-a623-aeb2f3168fbf-link\">4<\/a><\/sup> E dado que TDS tamb\u00e9m \u00e9 o acr\u00f4nimo para \u201cTestosterone Deficiency Syndrome\u201d [S\u00edndrome da Defici\u00eancia de Testosterona], esse nome desempenha uma dupla fun\u00e7\u00e3o: acusar o outro lado de paranoia enquanto ao mesmo tempo sugere sua \u201cemascula\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A economia, a fronteira, a pol\u00edtica externa e os assuntos internos \u2013 todos eles se tornam altamente sexualizados nessa vis\u00e3o de mundo, e essa sexualiza\u00e7\u00e3o gira principalmente em torno da oposi\u00e7\u00e3o grosseira Poderoso\/Fraco, que invoca e depende das fantasias de \u201ccastra\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 importante enfatizar que n\u00e3o estou tentando fornecer uma leitura psicanal\u00edtica mais profunda dessa ret\u00f3rica, apontando para algum medo ou amea\u00e7a subjacente de castra\u00e7\u00e3o. Ao contr\u00e1rio, a ret\u00f3rica \u00e9 bastante expl\u00edcita: os pr\u00f3prios novos l\u00edderes autorit\u00e1rios s\u00e3o os que gritam \u201ccastra\u00e7\u00e3o!\u201d e usam esse tropo ou \u201camea\u00e7a\u201d para mobilizar as pessoas. Longe disso, eles agem como psic\u00f3logos amadores que pressionam os gatilhos certos na popula\u00e7\u00e3o. O fato de eles pr\u00f3prios serem sens\u00edveis a alguns desses gatilhos muda pouco em termos de seu uso instrumental.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A castra\u00e7\u00e3o como uma doen\u00e7a contagiosa<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 outra caracter\u00edstica peculiar operando nesta \u201camea\u00e7a de castra\u00e7\u00e3o\u201d instrumentalizada: a amea\u00e7a imediata n\u00e3o \u00e9 apresentada como vindo de algum outro grande Poder concorrente, mas sim daqueles que <em>j\u00e1<\/em> s\u00e3o vistos como \u201cemasculados\u201d e \u201cfracos\u201d. \u00c9 verdade que tamb\u00e9m h\u00e1 a sugest\u00e3o de alguma outra ag\u00eancia de poder \u2013 como um \u201cestado paralelo\u201d ou \u201cBruxelas\u201d \u2013 orquestrando essa emancipa\u00e7\u00e3o nos bastidores. Mas o ponto importante \u00e9 que a arma dessa outra ag\u00eancia n\u00e3o \u00e9 o poder ou a viol\u00eancia, mas a <em>propaga\u00e7\u00e3o da fraqueza.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ser fraco (\u201cemasculado\u201d) \u00e9 visto como contagioso; corrompe imediatamente a natureza dos fortes e poderosos. \u00c9 por isso que, por exemplo, uma simples men\u00e7\u00e3o em escolas e jardins de inf\u00e2ncia da exist\u00eancia de pessoas gays e trans \u00e9 considerada capaz de corromper imediatamente a <em>Natureza<\/em> eterna e inata das crian\u00e7as, transformando-as todas em gays ou trans \u2013 ou seja, em \u201cpessoas emasculadas\u201d. Da mesma forma, os imigrantes s\u00e3o perseguidos precisamente quando j\u00e1 est\u00e3o mais vulner\u00e1veis, <em>por causa<\/em> de seu status prec\u00e1rio, e n\u00e3o simplesmente como representantes de alguma outra pot\u00eancia alternativa. Com certeza \u2013 e de forma semelhante \u00e0 refer\u00eancia ao \u201cestado paralelo\u201d \u2013 h\u00e1 tamb\u00e9m a ideia ou fantasia de uma pot\u00eancia alternativa que amea\u00e7a enfraquecer e nos \u201csubstituir\u201d. Mas, novamente, a maioria das lutas e batalhas instant\u00e2neas \u00e9 travada contra os fracos, e n\u00e3o contra os fortes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O modelo aqui \u00e9 bastante simples \u2013 al\u00e9m de nauseante: quando algu\u00e9m est\u00e1 por baixo e vulner\u00e1vel, continue chutando-o at\u00e9 que ele morra ou se arraste para longe. Caso contr\u00e1rio, isso pode afetar seriamente a sua pr\u00f3pria \u201cvirilidade\u201d. Esta \u00e9 uma das raz\u00f5es por tr\u00e1s do efeito verdadeiramente nauseante do infame \u201cconfronto\u201d no Sal\u00e3o Oval durante a visita de Zelensky em fevereiro. Algo semelhante poderia ser dito sobre as infames grava\u00e7\u00f5es de v\u00eddeo das deporta\u00e7\u00f5es cru\u00e9is de \u201cimigrantes ilegais\u201d, distribu\u00eddas atrav\u00e9s de canais oficiais. Se essas coisas estavam anteriormente escondidas dos olhos do p\u00fablico, agora s\u00e3o exibidas e est\u00e3o sendo vangloriadas. O espet\u00e1culo da humilha\u00e7\u00e3o ativa e do espancamento dos \u201cfracos\u201d n\u00e3o apenas se tornou aceit\u00e1vel, mas \u00e9 ativamente encorajado e serve a um prop\u00f3sito espec\u00edfico. Grande parte da ret\u00f3rica de Netanyahu e das a\u00e7\u00f5es sionistas genocidas segue a mesma l\u00f3gica. O plano \u201cGaza Riviera\u201d de Trump tem um fundamento semelhante: Gaza est\u00e1 em ru\u00ednas, a devasta\u00e7\u00e3o est\u00e1 completa e o povo palestino j\u00e1 est\u00e1 derrotado \u2013 ent\u00e3o eles podem muito bem reconhecer isso e rastejar para longe de nossa vista.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por outro lado, os l\u00edderes autorit\u00e1rios se sentem bem na companhia um do outro \u2013 ou seja, na companhia de outros \u201chomens poderosos\u201d. H\u00e1 algo nessa l\u00f3gica que sugere que o poder \u00e9 t\u00e3o contagioso quanto a fraqueza: ele se espalha por voc\u00ea. Se voc\u00ea est\u00e1 na companhia dos poderosos, o poder se alastra sobre voc\u00ea. Se voc\u00ea est\u00e1 na companhia dos fracos, \u00e9 a fraqueza (\u201cemascula\u00e7\u00e3o\u201d) que contagia voc\u00ea. Essa atitude se alinha intimamente com a famosa declara\u00e7\u00e3o de Elon Musk sobre a empatia ser \u201ca <em>fraqueza<\/em> essencial da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Devemos enfatizar, no entanto, que o aspecto verdadeiramente prejudicial desta posi\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 simplesmente a alian\u00e7a dos \u201cpoderosos\u201d contra os \u201cfracos\u201d, mas sim que essa ret\u00f3rica e essas imagens de poder ofuscam uma realidade muito diferente: esse \u201cpoder\u201d \u00e9 fundamentalmente um poder paranoico \u2013 um poder da paranoia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Freud j\u00e1 tinha destacado que o medo de ser contaminado pelos fracos (ou \u201ccastrado pela contamina\u00e7\u00e3o\u201d) \u2013 isto \u00e9, a ideia de que a castra\u00e7\u00e3o \u00e9 contagiosa, algo que pode ser \u201cpego\u201d \u2013 \u00e9 uma caracter\u00edstica-chave da paranoia.<sup data-fn=\"a8e18522-99a0-4f50-935c-69e83928f195\" class=\"fn\"><a href=\"#a8e18522-99a0-4f50-935c-69e83928f195\" id=\"a8e18522-99a0-4f50-935c-69e83928f195-link\">5<\/a><\/sup> E \u00e9 f\u00e1cil ver o porqu\u00ea: \u00e9 devido \u00e0 aus\u00eancia do corte significante que separa o simb\u00f3lico do real. Sem seu significante, a castra\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 mais a base da diferencia\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica e do poder simb\u00f3lico, mas, em vez disso, funciona mais como um v\u00edrus. (Em algumas partes da sociedade, parece inclusive que a nega\u00e7\u00e3o do v\u00edrus da Covid e de seu poder est\u00e1 retornando aqui de forma deslocada \u2013 como um devastador \u201c<em>v\u00edrus<\/em> da castra\u00e7\u00e3o\u201d.)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No entanto, a quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 que esses pr\u00f3prios l\u00edderes estejam mostrando sinais claros de paranoia e, portanto, sejam, na verdade, \u201cfracos\u201d e receosos de que n\u00e3o s\u00e3o realmente t\u00e3o poderosos e confiantes quanto fingem ser \u2013 como se tal exposi\u00e7\u00e3o pudesse de alguma forma faz\u00ea-los perder seu poder prejudicial. Porque o fato \u00e9 que n\u00e3o faz, e podemos observar isso praticamente todos os dias. Eles n\u00e3o v\u00e3o \u201cmurchar\u201d se os expusermos como \u201cde fato\u201d fracos, porque essa fraqueza paranoica espec\u00edfica \u00e9 precisamente o que os trouxe ao poder sob as condi\u00e7\u00f5es atuais \u2013 e o que os mant\u00e9m l\u00e1. Em outras palavras: eles n\u00e3o entrar\u00e3o em colapso se os expusermos, porque seu poder n\u00e3o \u00e9 um poder simb\u00f3lico \u2013 pelo menos n\u00e3o primordialmente. O que n\u00e3o quer dizer que ele seja inofensivo ou incapaz de nos machucar \u2013 muito pelo contr\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 um poder que existe apenas como for\u00e7a material <em>real<\/em> acumulada \u2013 poder militar ou policial, press\u00e3o direta e, \u00e9 claro, riqueza (estamos falando de alguns dos indiv\u00edduos mais ricos do mundo). O outro lado disso \u00e9 a suposi\u00e7\u00e3o paranoica \u2013 correta \u2013 de que a maioria das pessoas n\u00e3o os respeita de verdade, ou n\u00e3o suficientemente. Novamente, o infame confronto Trump-Zelensky no Sal\u00e3o Oval \u00e9 um exemplo claro disso (\u201cVoc\u00ea est\u00e1 sendo desrespeitoso!\u201d). O velho ditado de que o respeito n\u00e3o pode ser comprado ou forjado \u00e9 verdadeiro \u2013 mas, no caso do poder paranoico, essa verdade s\u00f3 leva ao aumento das demonstra\u00e7\u00f5es de for\u00e7a em busca do ponto de ruptura do outro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mladen Dolar formula de modo conciso as reflex\u00f5es de Hannah Arendt sobre autoridade: a autoridade simb\u00f3lica funciona essencialmente como uma <em>amea\u00e7a adiada<\/em>, uma for\u00e7a ou viol\u00eancia postergada. Funciona como \u201cautoridade\u201d apenas enquanto n\u00e3o precisar implementar diretamente a for\u00e7a. No momento em que isso acontece, \u201ca autoridade perde sua autoridade\u201d.<sup data-fn=\"f4460a14-4ab3-41a2-93a5-ccdb72f02211\" class=\"fn\"><a href=\"#f4460a14-4ab3-41a2-93a5-ccdb72f02211\" id=\"f4460a14-4ab3-41a2-93a5-ccdb72f02211-link\">6<\/a><\/sup> No que tange \u00e0 autoridade, o autoritarismo come\u00e7a no extremo oposto: come\u00e7a como uma autoridade j\u00e1 perdida (geralmente come\u00e7a com a for\u00e7a e a realiza\u00e7\u00e3o de amea\u00e7as) e tenta voltar ao ponto imposs\u00edvel da coincid\u00eancia da autoridade simb\u00f3lica com o real. No autoritarismo, a autoridade \u00e9 super-realizada; o autoritarismo tem tudo a ver com \u201crealiza\u00e7\u00e3o\u201d (\u201cN\u00f3s fazemos as coisas, e eficientemente, n\u00e3o falamos sobre elas apenas\u201d), mas, ao mesmo tempo, essa \u201crealiza\u00e7\u00e3o\u201d tenta desesperadamente chegar a um ponto de efici\u00eancia simb\u00f3lica (ou seja, a \u201cefici\u00eancia da conversa\u201d em si), que permanece inacess\u00edvel a ela. Essa inacessibilidade \u00e9 a for\u00e7a motriz da \u201crealiza\u00e7\u00e3o excedente\u201d e da \u201cefici\u00eancia\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A enxurrada de \u201cordens executivas\u201d que estamos testemunhando nos dias de hoje n\u00e3o \u00e9 apenas uma estrat\u00e9gia para sobrecarregar a oposi\u00e7\u00e3o \u2013 \u00e9 tamb\u00e9m uma <em>necessidade<\/em> que impulsiona essa ordem autorit\u00e1ria em particular, que opera atrav\u00e9s de uma combina\u00e7\u00e3o peculiar de paranoia e pervers\u00e3o.<sup data-fn=\"f7dde5c2-f714-4004-a070-3c9d42267bbf\" class=\"fn\"><a href=\"#f7dde5c2-f714-4004-a070-3c9d42267bbf\" id=\"f7dde5c2-f714-4004-a070-3c9d42267bbf-link\">7<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ou devemos dizer que, na posi\u00e7\u00e3o de poder simb\u00f3lico, a paranoia se torna uma forma de pervers\u00e3o? A ret\u00f3rica, por parte de Netanyahu, das \u201camea\u00e7as existenciais\u201d que exigem bombardeios \u201cpreemptivos\u201d e assassinatos em massa de civis \u00e9 outra express\u00e3o sombria dessa l\u00f3gica distorcida de paranoia que se tornou perversa. Ou, na vers\u00e3o alem\u00e3 duplamente distorcida: Merz afirmando que Israel est\u00e1 fazendo o \u201ctrabalho sujo por todos n\u00f3s\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quanto mais apaixonadamente esse tipo de autoritarismo tenta alcan\u00e7ar o ponto de pura autoridade simb\u00f3lica, mais violento ele se torna, mais for\u00e7a bruta ele emprega. De sua perspectiva, n\u00e3o \u00e9 o significante que forja a realidade; em vez disso, a for\u00e7a \u00e9 aplicada \u00e0 realidade para que ela (finalmente) produza e cuspa seu significante. E este \u00e9 o ponto em que esse autoritarismo se torna perverso: a ideia paranoica de que os significantes est\u00e3o se escondendo no real encontra aqui a l\u00f3gica perversa de <em>for\u00e7ar a realidade a produzir o que est\u00e1 faltando<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Quando a mulher tem que existir<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso \u00e9 importante se quisermos entender a combina\u00e7\u00e3o peculiar, nesses decretos autorit\u00e1rios, de \u201cnaturalismo\u201d (biologismo, engenharia gen\u00e9tica) e \u201csimbolismo\u201d. A atual obsess\u00e3o do governo Trump com o \u201csexo biol\u00f3gico\u201d \u2013 que tamb\u00e9m acompanha a ascens\u00e3o da extrema direita em muitos outros pa\u00edses \u2013 tem tudo a ver com isso e muito pouco, se alguma coisa, a ver com um debate s\u00e9rio sobre sexo e g\u00eanero. Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 surpresa que o foco esteja (novamente, como tantas vezes ao longo da hist\u00f3ria) nas mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Definir o que \u00e9 uma \u201cmulher\u201d dessa maneira \u2013 comicamente ou sinistramente \u2013 tornou-se uma prioridade de estado n\u00famero um. Um dos primeiros decretos executivos assinados pelo presidente Trump depois que ele assumiu o cargo (em meio a grandes crises mundiais e problemas sociais dom\u00e9sticos) foi intitulado \u201cDefendendo as mulheres do extremismo da ideologia de g\u00eanero e restaurando a verdade biol\u00f3gica ao Governo Federal\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A maneira como ele persegue esse objetivo \u00e9 bem ilustrada em um artigo do decreto: \u201c(b) \u2018Mulheres\u2019 ou \u2018mulher\u2019 e \u2018meninas\u2019 ou \u2018menina\u2019 devem significar f\u00eameas humanas adultas e juvenis, respectivamente.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 dif\u00edcil n\u00e3o ver nesta defini\u00e7\u00e3o mirabolante a impossibilidade que Lacan apontou em seu famoso ditado: \u201cA Mulher n\u00e3o existe\u201d. E \u00e9 um fato que o imperativo de faz\u00ea-La existir no n\u00edvel significante sempre desempenhou um papel na repress\u00e3o mais brutal das mulheres. As mulheres historicamente t\u00eam sido reprimidas n\u00e3o pelo apagamento de sua identidade simb\u00f3lica, mas por terem lhe atribu\u00eddo uma \u2013 ao serem informadas do que s\u00e3o e o que isso significa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os sexos \u201cfeminino\u201d e \u201cmasculino\u201d n\u00e3o est\u00e3o sujeitos \u00e0 cultura e ao(s) significado(s) cultural(is) de seu sexo da mesma forma \u2013 n\u00e3o h\u00e1 simetria aqui. Quando se trata de \u201chomens\u201d, o significado cultural atribu\u00eddo \u00e0 masculinidade <em>colore<\/em> o seu ser desta ou daquela maneira; ao passo que, quando se trata de mulheres, ele <em>cria<\/em> o ser delas: o significado (cultural) \u00e9 o ser delas, de modo imediato. Da perspectiva lacaniana, poder\u00edamos por assim dizer que a \u201cmulher\u201d \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o cultural em um sentido muito mais forte e ontol\u00f3gico do termo. A especifica\u00e7\u00e3o e determina\u00e7\u00e3o do que significa ser uma mulher toma o lugar do significante inexistente, e espera-se que ele cumpra o papel deste \u00faltimo: o conte\u00fado ou significado tem ele pr\u00f3prio que funcionar como um significante (do feminino), e \u00e9 precisamente nesse ponto que a pior viol\u00eancia est\u00e1 sendo gerada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tamb\u00e9m podemos ver na ordem executiva como e por que o policiamento \u201ctrans\u201d e o policiamento de \u201cmulheres\u201d s\u00e3o essencialmente parte da mesma agenda. \u201cTrans\u201d funciona como o objeto excedente no qual a <em>falta<\/em> de um significante para o \u201coutro sexo\u201d aparece como algo positivo, algo vis\u00edvel e externo. A ideia subjacente \u00e9 a de que, se esse objeto excedente for removido, as mulheres ser\u00e3o \u201cinteiras\u201d novamente \u2013 elas funcionar\u00e3o como a contraparte significativa adequada para os homens, e essa complementaridade restaurada resolver\u00e1 a (n\u00e3o) rela\u00e7\u00e3o sexual e social.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em outras palavras, os \u201chomens de verdade\u201d de Trump n\u00e3o t\u00eam medo da Mulher como uma poss\u00edvel contraparte significativa de sua pr\u00f3pria masculinidade; eles t\u00eam medo das mulheres como sendo o outro sexo com quem compartilham o <em>mesmo<\/em> significante \u2013 apesar de suas diferentes sexualidades. Este \u00e9 o ponto lacaniano: fun\u00e7\u00f5es de diferen\u00e7a sexual atrav\u00e9s de uma \u201csemelhan\u00e7a\u201d irredut\u00edvel \u2013 os sexos compartilham a mesma falta, representada pelo \u201csignificante f\u00e1lico\u201d. O que esses \u201chomens reais\u201d rejeitam \u00e9 precisamente esse significante f\u00e1lico \u2013 <em>o falo como significante<\/em> \u2013, porque ele j\u00e1 pressup\u00f5e a \u201ccastra\u00e7\u00e3o\u201d. Seu apego obsessivo a qualquer coisa f\u00e1lica ou com forma f\u00e1lica \u00e9 uma correla\u00e7\u00e3o direta disso. S\u00f3 funciona para eles se <em>eles<\/em> estiverem repletos disso, ou se <em>isso<\/em> estiver repleto deles.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Paranoia, pervers\u00e3o e amor<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A autoconfian\u00e7a do \u201chomem de verdade\u201d n\u00e3o sugere o oposto da paranoia? N\u00e3o \u2013 mas sugere sua fus\u00e3o com a pervers\u00e3o, como sugerido acima. A estranha combina\u00e7\u00e3o de acreditar em si mesmo como \u201cintoc\u00e1vel\u201d enquanto permanece \u201cparanoico\u201d \u00e9 a forma mesma dessa fus\u00e3o. \u201cHomens de verdade\u201d como Trump s\u00e3o \u201cos mais poderosos\u201d, \u201cos maiorais\u201d, mas ainda fica faltando a dimens\u00e3o simb\u00f3lica desse poder. O contr\u00e1rio desta aus\u00eancia \u00e9 uma necessidade compulsiva de preencher a falta de poder simb\u00f3lico com o real \u2013 com a exibi\u00e7\u00e3o de poder \u201creal\u201d. A autoconfian\u00e7a megaloman\u00edaca anda de m\u00e3os dadas com uma obsess\u00e3o em eliminar todos os tra\u00e7os que poderiam contestar esse poder, desafi\u00e1-lo ou submet\u00ea-lo \u00e0 cr\u00edtica. O que costum\u00e1vamos chamar de \u201cpensamento cr\u00edtico\u201d est\u00e1 sendo atingido por um tsunami proveniente desse lado oposto de megalomania confiante \u2013 que \u00e9 a incapacidade paranoica de perceber argumentos cr\u00edticos como qualquer coisa que n\u00e3o seja amea\u00e7as diretas f\u00edsicas \u00e0 integridade de algu\u00e9m. A \u201cliberdade de express\u00e3o\u201d como liberdade de gozar acaba como um triunfo de censura e persegui\u00e7\u00e3o, e a luta contra a \u201ccultura de cancelamento\u201d \u00e9 uma forma por excel\u00eancia de \u201ccultura de cancelamento\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o, sim, esses \u201chomens de verdade\u201d permanecem \u201cparanoicos\u201d, mas n\u00e3o s\u00e3o menos perigosos por causa disso. Na verdade, isso os torna ainda mais prejudiciais. \u00c9 por isso que, quando a zombaria \u2013 apontar a \u201cverdadeira fraqueza\u201d deles \u2013 se torna nossa \u00fanica resposta, n\u00f3s somos a piada. Especialmente porque, quando combinado com o poder do estado, essa din\u00e2mica se torna verdadeiramente explosiva.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa \u201crealiza\u00e7\u00e3o\u201d do poder simb\u00f3lico \u2013 a tentativa de preencher o poder simb\u00f3lico com for\u00e7a emp\u00edrica \u2013 tamb\u00e9m ecoa a proposi\u00e7\u00e3o de Jacques-Alain Miller de que, na paranoia, o gozo est\u00e1 localizado no Outro em si (ou seja, no enquadramento simb\u00f3lico, que normalmente \u00e9 desprovido de gozo). Envolve localizar o <em>outro<\/em> no <em>Outro<\/em>, ou at\u00e9 mesmo substituir o <em>Outro<\/em> pelo <em>outro<\/em>.<sup data-fn=\"0023613c-bf4a-410a-b49a-ebd9bb433f7b\" class=\"fn\"><a href=\"#0023613c-bf4a-410a-b49a-ebd9bb433f7b\" id=\"0023613c-bf4a-410a-b49a-ebd9bb433f7b-link\">8<\/a><\/sup> E isso, novamente, ressalta a talvez inesperada proximidade entre o autoritarismo e a paranoia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso tamb\u00e9m tem consequ\u00eancias importantes para o relacionamento entre esses l\u00edderes e seus seguidores \u2013 a saber, a combina\u00e7\u00e3o aparentemente estranha de duas caracter\u00edsticas que muitas vezes definem esses seguidores. Por um lado, eles cultivam uma <em>completa desconfian\u00e7a <\/em>em toda a autoridade p\u00fablica, nas institui\u00e7\u00f5es e na ci\u00eancia. Por outro lado, eles depositam uma <em>confian\u00e7a cega<\/em> no l\u00edder, mesmo quando suas declara\u00e7\u00f5es s\u00e3o obviamente contradit\u00f3rias ou comprovadamente falsas \u2013 ele simplesmente n\u00e3o pode fazer nada de errado. Como essas duas coisas \u2013 essa desconfian\u00e7a absoluta, muitas vezes \u201cparanoica\u201d, e a confian\u00e7a incondicional \u2013 andam juntas?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em seu texto \u201cPsicologia das massas e a an\u00e1lise do eu (1921)\u201d, Freud chama essa confian\u00e7a cega de \u201camor\u201d, que sem d\u00favida chega perto disso, em vez de simplesmente cham\u00e1-la de \u201cconfian\u00e7a cega\u201d.<sup data-fn=\"a1461379-4ad2-45cc-9952-35551a203595\" class=\"fn\"><a href=\"#a1461379-4ad2-45cc-9952-35551a203595\" id=\"a1461379-4ad2-45cc-9952-35551a203595-link\">9<\/a><\/sup> Pois, em um ponto decisivo, essa confian\u00e7a <em>n\u00e3o<\/em> \u00e9 realmente cega \u2013 ela v\u00ea algo: mais precisamente, o gozo. O amor est\u00e1 situado aqui em contraste com a confian\u00e7a baseada no respeito. Simplificando, o respeito pressup\u00f5e uma dist\u00e2ncia a ser mantida \u2013 uma que evacua as quest\u00f5es imediatas de gozo e desejo da rela\u00e7\u00e3o com o Outro. O \u201camor\u201d, por outro lado, implica uma rela\u00e7\u00e3o \u00edntima e privilegiada com o Outro, rela\u00e7\u00e3o que inclui desejo e gozo. No entanto, Lacan parece reunir os dois quando, surpreendentemente, situa a quest\u00e3o do conhecimento no cora\u00e7\u00e3o do amor: \u201c<em>Celui \u00e0 qui je suppose le savoir, je l\u2019aime\u201d<\/em> (\u201cAquele a quem suponho o saber, eu o amo\u201d).<sup data-fn=\"18b617b2-c26f-4a46-86d3-9f7fc5511819\" class=\"fn\"><a href=\"#18b617b2-c26f-4a46-86d3-9f7fc5511819\" id=\"18b617b2-c26f-4a46-86d3-9f7fc5511819-link\">10<\/a><\/sup> O amor nunca \u00e9 simplesmente imediato; envolve uma pressuposi\u00e7\u00e3o de conhecimento da parte do Outro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso poderia nos ajudar a distinguir entre dois tipos de amor. Um \u00e9 baseado no desejo \u2013 isto \u00e9, na falta no Outro \u2013 e, consequentemente, no questionamento do enigma do Outro: \u201cO que o Outro quer?\u201d e \u201cO que eu sou para o Outro?\u201d. O amor \u00e9 uma resposta a essa interroga\u00e7\u00e3o \u2013 uma resposta na qual o sujeito responde \u00e0 falta no Outro com sua pr\u00f3pria falta: dando ao Outro o que n\u00e3o se tem. No amor, preenchemos a falta impl\u00edcita no desejo do Outro com nossa pr\u00f3pria falta ou desejo, e n\u00e3o com qualquer conte\u00fado positivo. Mais precisamente \u2013 e para reiterar o ponto de Lacan \u2013, \u00e9 a <em>pressuposi\u00e7\u00e3o<\/em><em> do conhecimento<\/em> que constitui a forma positiva e concreta que o \u201cdar minha falta ao Outro\u201d assume. Essa pressuposi\u00e7\u00e3o \u00e9, claramente, n\u00e3o baseada em qualquer evid\u00eancia emp\u00edrica do conhecimento do Outro, mas, sim, depende do lugar que o Outro ocupa em rela\u00e7\u00e3o a mim e aos outros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por\u00e9m, este n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico tipo de amor, e n\u00e3o \u00e9 o tipo a que Freud se refere em seu ensaio sobre a psicologia das massas, em que ele tamb\u00e9m o chama de \u201chipn\u00f3tico\u201d. Estou tentada a chamar essa outra forma de amor de \u201cperversa\u201d, porque ela \u00e9 baseada em um tipo perverso de sedu\u00e7\u00e3o. O Outro aqui seduz ou fascina o sujeito n\u00e3o pelo desejo ou pela falta, mas pela plenitude. N\u00e3o h\u00e1 troca ocorrendo (como a troca da minha falta pela falta no Outro), e, nesse sentido, o v\u00ednculo assim criado \u00e9 de fato hipn\u00f3tico: permanece externo e unilateral. O que distingue essa rela\u00e7\u00e3o do respeito cl\u00e1ssico pela autoridade social \u00e9 que esta \u00faltima se baseia na autoridade sendo esvaziada do gozo, ao passo que a primeira opera em nome do gozo. Esta \u00e9 tamb\u00e9m a raz\u00e3o pela qual a autoridade perversa \u2013 ao contr\u00e1rio da autoridade cl\u00e1ssica \u2013 n\u00e3o \u00e9 vulner\u00e1vel \u00e0 exposi\u00e7\u00e3o do gozo. Pelo contr\u00e1rio, tal exposi\u00e7\u00e3o apenas a refor\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pressuposi\u00e7\u00e3o do conhecimento aqui n\u00e3o \u00e9 um s\u00edmbolo vazio de confian\u00e7a. O amor pelo l\u00edder come\u00e7a com alguma experi\u00eancia de prazer \u2013 possivelmente perdida \u2013 que ele evoca ou agita em n\u00f3s, que ent\u00e3o se torna associada ao conhecimento: conhecimento <em>sobre<\/em> o gozo. Pegando Trump novamente como exemplo: em seu caso, a pressuposi\u00e7\u00e3o do conhecimento n\u00e3o tem a ver com percep\u00e7\u00e3o pol\u00edtica ou sabedoria na governan\u00e7a. \u00c9 simplesmente isso: ele \u00e9 rico, ele sabe como ficar rico \u2013 e \u201crico\u201d aqui evoca o gozo. Ele sabe como desfrutar e pode cuidar do <em>nosso<\/em> gozo. Ao mesmo tempo, a exposi\u00e7\u00e3o do gozo (\u201cEu posso fazer e dizer o que eu quiser\u201d) funciona como uma fonte de fasc\u00ednio \u2013 fasc\u00ednio no sentido estrito, onde se \u00e9 incapaz de desviar o olhar, atra\u00eddo e repelido ao mesmo tempo. O gozo \u00e9 a atra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o, para voltar \u00e0 nossa quest\u00e3o de como entender a coexist\u00eancia da completa desconfian\u00e7a em todas as autoridades p\u00fablicas e a confian\u00e7a incondicional no l\u00edder, temos que entender que essa confian\u00e7a \u201cincondicional\u201d \u00e9, de fato, totalmente n\u00e3o incondicional. Ela \u00e9 condicionada pelo gozo excedente, que tamb\u00e9m \u00e9 o nosso gozo, circulando no Outro \u2013 sob a presun\u00e7\u00e3o paranoica de que algu\u00e9m (todo mundo!) est\u00e1 tentando roub\u00e1-lo. Nesse sentido preciso, o amor pelo l\u00edder nada mais \u00e9 do que a forma positiva que a desconfian\u00e7a assume em todas as outras autoridades \u2013 elas s\u00e3o um s\u00f3 e o mesmo mecanismo. Amar o l\u00edder \u00e9 desconfiar de tudo e de todo mundo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isto, \u00e9 claro, n\u00e3o \u00e9 o tipo de amor que liberta ou empodera, que \u201cse d\u00e1 como for\u00e7a\u201d; ele apenas nos torna \u201cfortes\u201d no exerc\u00edcio intermin\u00e1vel do expurgo \u2013 ou, como Lacan os chama em sua discuss\u00e3o sobre pervers\u00e3o e poder, <em>cruzadas<\/em>. Ele acrescenta este aviso prof\u00e9tico: \u201cBiz\u00e2ncio n\u00e3o se recuperou das Cruzadas. \u00c9 preciso atentar para esses jogos, porque isso ainda pode acontecer, mesmo hoje, em nome de outras Cruzadas\u201d.<sup data-fn=\"241fb1de-cdc2-4980-83b3-0ada71c1c14e\" class=\"fn\"><a href=\"#241fb1de-cdc2-4980-83b3-0ada71c1c14e\" id=\"241fb1de-cdc2-4980-83b3-0ada71c1c14e-link\">11<\/a><\/sup> <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De fato.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * * <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\">(Este texto foi originalmente publicado no site <em>e-flux<\/em>, em 9 de julho de 2025. Agradecemos encarecidamente \u00e0 autora por ceder os direitos da tradu\u00e7\u00e3o. Para ler o original, <a href=\"https:\/\/www.e-flux.com\/notes\/6783371\/paranoiac-power\">clique aqui<\/a>. Tradu\u00e7\u00e3o de Manoella Deorristt. Revis\u00e3o de Antonio Barros.)<\/p>\n\n\n<ol class=\"wp-block-footnotes has-small-font-size\"><li id=\"9596a854-54ef-4e0f-8b4e-fd0780a02c4f\">Fil\u00f3sofa e te\u00f3rica social eslovena, uma dos membros proeminentes da \u201cEscola de Psican\u00e1lise de Ljubljana\u201d. Conselheira de Pesquisa do Instituto de Filosofia, Centro de Pesquisa Cient\u00edfica da Academia Eslovena de Ci\u00eancias e professora da Escola Europeia de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o na Su\u00ed\u00e7a. Autora de v\u00e1rios artigos e muitos livros, incluindo <em><a href=\"https:\/\/www.grupoautentica.com.br\/produto\/o-que-e-sexo-1261?srsltid=AfmBOorb2zLbYMyUCKjPhDpQyfQ2wa723_c1BbDh9ymUeQi0fr3vrO-S\">O que \u00e9 sexo?<\/a><\/em> e <em><a href=\"https:\/\/lavrapalavra.com\/produto\/por-que-psicanalise-alenka-zupancic\/\">Por que a psican\u00e1lise?<\/a><\/em>. <a href=\"#9596a854-54ef-4e0f-8b4e-fd0780a02c4f-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 1 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"0b9c9f8e-df21-4a01-aa6e-fcd784b7399d\">Ver <a href=\"https:\/\/www.freud.org.uk\/exhibitions\/paranoia\/\">aqui<\/a>. <a href=\"#0b9c9f8e-df21-4a01-aa6e-fcd784b7399d-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 2 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"903b858e-19b7-4400-9ec3-2ef0359bd466\">S\u00edndrome do Desatino de Trump. [N.T.] <a href=\"#903b858e-19b7-4400-9ec3-2ef0359bd466-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 3 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"a516167f-1a10-4049-a623-aeb2f3168fbf\">No entanto, isso n\u00e3o significa que, nos \u00faltimos anos, e pr\u00f3ximos das elei\u00e7\u00f5es, o foco exclusivo dos Democratas em Trump \u2013 \u00e0 custa do desenvolvimento de uma pol\u00edtica social s\u00f3lida \u2013 n\u00e3o era uma realidade. Infelizmente, era. E esse exclusivo foco estrat\u00e9gico em Trump contribuiu significativamente para a derrota eleitoral dos Democratas. Trump funcionou como um fetiche que possibilitou aos Democratas renegarem suas pr\u00f3prias defici\u00eancias quando se tratava de abordar os problemas econ\u00f4micos e sociais que um n\u00famero crescente de pessoas enfrentava. Existe um problema parecido em muitos outros pa\u00edses, onde a esquerda parece incapaz de fazer frente \u00e0 ascens\u00e3o de movimentos populares protofascistas por qualquer outro meio que n\u00e3o seja instar os eleitores a simplesmente votarem <em>contra<\/em> este ou aquele l\u00edder populista. <a href=\"#a516167f-1a10-4049-a623-aeb2f3168fbf-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 4 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"a8e18522-99a0-4f50-935c-69e83928f195\">Em seu estudo sobre a fobia (Sigmund Freud, \u201cAn\u00e1lise da fobia de um garoto de cinco anos [\u2018O Pequeno Hans\u2019]\u201d. Tradu\u00e7\u00e3o: Paulo C\u00e9sar de Souza. <em>Obras Completas<\/em>, vol. 8. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2015), bem como no estudo sobre a paranoia (Sigmund Freud, \u201cObserva\u00e7\u00f5es psicanal\u00edticas sobre um caso de paranoia [<em>Dementia paranoides<\/em>] relatado em autobiografia [\u2018o caso Schreber\u2019]\u201d. Tradu\u00e7\u00e3o: Paulo C\u00e9sar de Souza. <em>Obras Completas<\/em>, vol. 10. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2010). <a href=\"#a8e18522-99a0-4f50-935c-69e83928f195-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 5 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"f4460a14-4ab3-41a2-93a5-ccdb72f02211\">Mladen Dolar. <em>Od kod prihaja oblast<\/em>. DPU, 2021, p. 29. \u00c9 claro que isso n\u00e3o quer dizer que a autoridade simb\u00f3lica \u00e9 simplesmente n\u00e3o violenta, mas que ela exercita um tipo diferente de viol\u00eancia (a viol\u00eancia simb\u00f3lica). Essa diferen\u00e7a, n\u00e3o obstante, leva a duas l\u00f3gicas muito diferentes. <a href=\"#f4460a14-4ab3-41a2-93a5-ccdb72f02211-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 6 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"f7dde5c2-f714-4004-a070-3c9d42267bbf\">Como foi sugerido por Marie Bendtsen na confer\u00eancia internacional \u201cReawakening Freud\u201d (\u201cRedespertando Freud\u201d), ocorrida na Universidade de Copenhagen em 17 e 18 de janeiro de 2025. <a href=\"#f7dde5c2-f714-4004-a070-3c9d42267bbf-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 7 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"0023613c-bf4a-410a-b49a-ebd9bb433f7b\">Jacques-Alain Miller. \u201cParanoia, Primary Relation to the Other\u201d. <em>The Lacanian Review<\/em>, n\u00ba 10, dezembro de 2020, p. 81-85. <a href=\"#0023613c-bf4a-410a-b49a-ebd9bb433f7b-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 8 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"a1461379-4ad2-45cc-9952-35551a203595\">Sigmund Freud. <em>Psicologia das massas e an\u00e1lise do eu e outros textos (1920-1923)<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Paulo C\u00e9sar de Souza. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2011. <a href=\"#a1461379-4ad2-45cc-9952-35551a203595-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 9 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"18b617b2-c26f-4a46-86d3-9f7fc5511819\">Jacques Lacan. <em>O Semin\u00e1rio<\/em>. Livro 20: mais ainda. Tradu\u00e7\u00e3o de M. D. Magno. Rio de Janeiro: Zahar, 1985. <a href=\"#18b617b2-c26f-4a46-86d3-9f7fc5511819-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 10 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"241fb1de-cdc2-4980-83b3-0ada71c1c14e\">Jacques Lacan. <em>O Semin\u00e1rio<\/em>. Livro 16: de um Outro ao outro. Tradu\u00e7\u00e3o de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 2008, p. 248. <a href=\"#241fb1de-cdc2-4980-83b3-0ada71c1c14e-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 11 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><\/ol>\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-small-font-size wp-block-paragraph\"><em>Carbono<\/em>, vol. 10 \u2013 setembro de 2025.<br>ISSN: 3085-7066<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A ascens\u00e3o da extrema direita nos \u00faltimos anos revela um poder paranoico em funcionamento. 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E esse exclusivo foco estrat\u00e9gico em Trump contribuiu significativamente para a derrota eleitoral dos Democratas. Trump funcionou como um fetiche que possibilitou aos Democratas renegarem suas pr\u00f3prias defici\u00eancias quando se tratava de abordar os problemas econ\u00f4micos e sociais que um n\u00famero crescente de pessoas enfrentava. Existe um problema parecido em muitos outros pa\u00edses, onde a esquerda parece incapaz de fazer frente \u00e0 ascens\u00e3o de movimentos populares protofascistas por qualquer outro meio que n\u00e3o seja instar os eleitores a simplesmente votarem <em>contra<\/em> este ou aquele l\u00edder populista.\",\"id\":\"a516167f-1a10-4049-a623-aeb2f3168fbf\"},{\"content\":\"Em seu estudo sobre a fobia (Sigmund Freud, \u201cAn\u00e1lise da fobia de um garoto de cinco anos [\u2018O Pequeno Hans\u2019]\u201d. Tradu\u00e7\u00e3o: Paulo C\u00e9sar de Souza. <em>Obras Completas<\/em>, vol. 8. 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Rio de Janeiro: Zahar, 2008, p. 248.\",\"id\":\"241fb1de-cdc2-4980-83b3-0ada71c1c14e\"}]"},"categories":[14,10,5,6],"tags":[73,129,128,123],"class_list":["post-981","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-arquivo","category-artigo","category-capitalismo","category-cultura","tag-fascismo","tag-paranoia","tag-psicanalise","tag-volume-10"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/981","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-json\/wp\/v2\/users\/42"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=981"}],"version-history":[{"count":11,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/981\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1002,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/981\/revisions\/1002"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1001"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=981"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=981"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/carbono\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=981"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}