No Brasil, além do nome da personagem chefe do quilombo dos Palmares, segundo a crença popular afro-brasileira, o zumbi, também chamado de cazumbi, é um fantasma que vaga pela noite morta. No folclore antilhano é o morto saído do túmulo, que um feiticeiro coloca a seu serviço; no sentido figurado e familiar caracteriza a pessoa sem vontade própria, desprovida de todo o caráter. A figura do zumbi é um oxímoro, característico das personagens que representam, de ordinário, os escritores haitianos. Mas esse personagem não é apenas exemplar da condição dos receptores aos quais se dirige a obra. Ele o é também da condição do escritor. O romancista que nos pinta os zumbis é um deles também, visto que se esforça para encontrar, no seio mesmo de sua condição, os meios para sua liberação. Segundo Maximilien Laroche em L'Avènement de la littérature haitienne (1987, p. 129), para examinar o papel das tradições orais e populares nas literaturas haitianas, seria desejável proceder a um recenseamento dos mitos, lendas, cantos e outros elementos da cultura popular, de que se serviram os escritores, tarefa sem limites. Poetas ou prosadores como Magloire St-Aude (Veillée), Jacques Stephen Alexis (Chronique d'un faux-amour) e Frankétienne (Dézafi), evocam a personagem zumbi e testemunham a representatividade dessa figura mitológica como imagem do sujeito. Em "Mythe africain et mythe antillais: le personnage du zombi, L'image comme echo. Montréal: Nouvelle Optique, 1978, p. 179-198, Laroche lembra que, em francês mort-vivant, em inglês living-dead, o zumbi constitui para o haitiano a representação concreta do paradoxo de sua situação. Conforme a tradição popular, ele é o indivíduo que, pela aparência, apresenta-se como morto, mas, na realidade, está bem vivo, utilizado pelo feiticeiro que o enfeitiçou como força de trabalho. Da mesma forma que o haitiano - cidadão de um país livre e independente - não se vê menos explorado, dominado e neo-colonizado, o personagem zumbi surge como imagem mítica, visto que é a representação simbólica de uma situação social. Essa transformação da realidade social em símbolo, no que concerne o mito do zumbi, contém o princípio de uma dupla leitura, mesmo que nos detenhamos no aspecto exterior do símbolo ou que mergulhemos em suas mais profundas significações.