Entrevista com Marina Sitta Krawulski, primeira mulher capitã da equipe discente RS Racing UFRGS (RSR)

Este ano, apesar de todas as adversidades causadas pela pandemia, a Engenharia Mecânica registrou novas conquistas. Dentre elas, a da primeira mulher capitã da equipe discente RS Racing UFRGS (RSR).
Ao longo de seus 11 anos de história, conquistas nacionais e participação internacional, a RSR atingiu uma nova etapa, sendo agora liderada pela Marina Sitta Krawulski. E como nós do CEMEC estamos sempre envolvidos com as novidades do nosso meio, fizemos uma entrevista exclusiva com a nova capitã, onde pudemos saber um pouco mais sobre sua trajetória até aqui e compreender o quanto isso impacta nosso curso.
Confere aí:

  • (CEMEC) Como foi sua trajetória até entrar na equipe da RSR?

(Marina) Quando eu era menor, sempre sonhei em ser piloto. Tinha um aeroclube perto da minha casa e sempre que podia também ia em festivais aéreos e apresentações da esquadrilha da fumaça. Desde aquela época sempre me questionei porque não havia uma mulher na esquadrilha da fumaça (que até hoje não tem). Então quis saber mais a respeito, pesquisar o caminho, estudar para passar na Academia da Força Aérea (AFA).
Nesse período já havia percebido que tinha perfil para engenharia, que seria minha opção caso não ingressasse na AFA. Ingressei na Engenharia Mecânica na UTFPR, onde até fiz parte da equipe de Aerodeisgn de lá, quando finalmente fui aprovada para a AFA. Fiquei na dúvida se abandonaria o curso que estava em andamento, mas fiz porque sempre foi meu sonho.
Lá na Academia da Força Aérea, fiquei dois anos e meio, onde me senti muito realizada e aprendi muito. Ainda não é o local ideal para mulher, teve bastante preconceito. Na aviação, eu era a única mulher dentre as 120 pessoas que ingressaram no curso. Em meio a muitas outras questões, acabei sendo desligada nas etapas finais quando já estava voando e não obtive bom desempenho.
A partir daí, comecei a repensar minha vida, entender melhor o que eu queria. E foi muito claro que eu queria conquistar esse espaço e poder fazer diferença, dentro da área da engenharia que sempre gostei. Prestei vestibular para a UFRGS e fui aprovada para ingressar na Eng. Mecânica aqui em 2019.

  • Muitas meninas que querem fazer engenharia ou qualquer outra área que é um meio mais masculino passam por isso, como foi a recepção da sua família quando você disse que queria seguir uma carreira de Engenharia?

Eu cresci de uma maneira até bem saudável para os padrões, sempre tive acesso aos famosos “brinquedos de menino” por causa do meu irmão. Meu pai sempre quis que eu fizesse direito, mas me apoiou quando decidi ir para engenharia. Confesso que quando ingressei na AFA meus pais ficaram receosos, mas por causa do que esperavam que fosse passar lá. Mas ele nunca deixaram de me apoiar.

  • Conta um pouco sobre como foi tua trajetória dentro da RS Racing tanto para chegar na capitania hoje como o que você pretende fazer daqui para frente.

A RSR veio junto com a UFRGS na minha vida. Entrei logo no primeiro semestre por achar muito legal a equipe, mesmo já tendo experiência com projeto de Aerodesign preferi este novo desafio. Mesmo já tendo experiência prévia na área de gestão (durante o período na AFA e na UTFPR), me inscrevi na área do powertrain ao invés de gestão, optando pela busca de novos desafios. Ingressei na área do powertrain no final de 2019, onde já comecei a participar da etapa de fabricação, indo frequentemente na oficina para a construção do carro.
Acho que cresci rápido pois logo aprendi como a equipe funciona e sempre fui muito questionadora. Na competição em 2019 percebi que podia ajudar a melhorar diversas coisas que vi que estavam erradas. Assim, em 2020 conversei com o Émerson Passari, capitão na época, e decidimos implementar uma nova diretoria da dentro da equipe, focada em gestão.
Já em fevereiro de 2020 assumi a diretoria de gestão e elaboramos um plano para aumentar o engajamento da equipe, organização e outros aspectos. Conseguimos fazer uma reunião geral muito legal, e logo estorou a pandemia. Com isso tivemos que nos adaptar, aproveitamos o tempo para melhorar os processos. De certa forma foi bom para adiantarmos algumas coisas enquanto não tivemos aulas.
Consegui implementar bem a área de gestão e acredito que estamos passando muito bem pela pandemia durante esse período.
No final do ano surgiu a história da capitania. Onde decidimos entre a diretoria que eu seria a próxima capitã. Que por um lado foi muito recompensador e também um frio na barriga por não ter mais ninguém acima de mim para perguntar ou tomar as decisões. Esse ano fizemos a troca de capitania, mas mantivemos muito bem alinhados nossos planos como gestão.
Pra esse ano minha proposta é exatamente dar essa continuidade para manter nossa gestão, nossa organização, manter o crescimento que tivemos nos setores de marketing e financeiro também. Minha ideia também é conseguir mostrar todo esse desenvolvimento para fora, aproximando nossas relações com professores, com o MOVE e a própria UFRGS.
Claro que a pandemia também complica alguns pontos no nosso cronograma, como a própria competição que vem constantemente sendo adiada. Além das dificuldades de acesso à oficina. Mas focamos sempre para manter nosso ritmo de projeto e dar continuidade no trabalho que vem sendo feito desde a gestão passada, além de trazer inovações.

  • E quais são os teus objetivos pessoais quanto a curto e longo prazo?

Meu principal objetivo hoje é me formar. Como já passei por bastante coisa desde que vim pra cá, quando cheguei aqui disse a mim mesma “só saio daqui formada”. Pode parecer um pouco óbvio, mas a gente sabe que ao longo do caminho muita gente abandona o curso. Mais pra frente quero fazer um estágio, quem sabe lá fora. Ou mesmo depois de formada fazer um mestrado na Alemanha, que sempre me interessou também, de repente morar lá um dia… Por enquanto estou seguindo pelos caminhos que a vida me leva.

  • Você também faz parte da Spotlight e trabalha em uma oficina mecânica. Como está sendo essa experiência?

A Spotlight é um programa de mentoria criada inclusive por uma das fundadoras da RSR, a Larissa Scussiato, que numa discussão com as demais fundadoras viram que elas não conversavam entre mulheres sobre o mercado de trabalho, principalmente por ser um ambiente masculino. Eu conheci a Lari numa iniciativa da RSR em um dos eventos da equipe, e na conversa que estávamos tendo ela me pediu para divulgarmos o processo seletivo da Spot.
Isso despertou meu interesse, pois é uma iniciativa que constrói esse diálogo sobre a posição da mulher no mercado de trabalho. E tem sido muito relevante para mim, pois tomei consciência de muitas coisas que apesar de nós como mulheres sabemos, não costumamos debater sobre isso. E essa experiência também de trabalhar apenas com mulheres e ter pontos de vistas diferentes, pra gente que vem deste meio extremamente masculino, também é bem valiosa.
Em relação ao meu trabalho na oficina, também conheci através da RSR. Durante um trabalho no motor do nosso carro, precisamos de um auxilio com ferramental de oficina e conversando com um amigo ele me passou o contato do ex-chefe dele. Quando fui lá, realizamos a atividade e no meio de várias conversas ele me ofereceu um emprego.
Essa oportunidade veio justamente pela minha experiência no projeto discente e já ter projetado um coletor de admissão, até porque eu não tive nenhum curso técnico em mecânica, só as experiências que a equipe me proporcionou. Além desse emprego, pela RS Racing também consegui uma bolsa de empreendedorismo da SEDETEC, onde inscrevemos um trabalho que estávamos desenvolvendo na equipe (O Módulo de Distribuição de Energia Automotiva).

  • Para finalizar, qual recado você daria para as gurias que estão começando ou que querem fazer o curso de Engenharia?

Eu diria para as gurias conquistarem o espaço delas. É um meio complicado onde nem sempre as coisas vão ser favoráveis – a maioria das vezes não. Vai ter muita situação chata. Mas eu sempre foquei nisso, em tentar conquistar meu espaço independente do que os outros falem. Hoje eu vejo na RSR que sou muito respeitada, nunca me senti questionada por ser mulher, mas sempre mantive minha postura e tentei ser verdadeira com quem eu sou. Não tentei mudar para me encaixar, ou fazer algo diferente do que eu acredito.
Acho que se a gente for verdadeiras com nós mesmas e soubermos nos posicionar, podemos conquistar o espaço que a gente merece.

  • Nós do CEMEC agradecemos a disponibilidade para conversar conosco e esperamos muito que tua trajetória inspire muitas pessoas dentro da nossa faculdade e também que você possa conquistar ainda mais dentro da UFRGS, obrigado Marina!

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