Convidado do Conferências UFRGS 2019, Francisco Marshall debate a produção cultural como uma experiência de linguagem

“Quando a gente fala em política cultural, a gente está pensando em como realizar, como fazer florescer e, logo, como comunicar”. Esse foi um dos assuntos abordados por Francisco Marshall, professor do Departamento de História e do Instituto de Artes da UFRGS, em entrevista à equipe do DDC*. Nesta quarta-feira, 26 de junho, às 19h, o professor participa do Conferências UFRGS 2019 – Cultura: para uma política cultural da UFRGS (veja como se inscrever) e fala sobre a produção cultural como uma experiência de linguagem e comunicação. O evento é o quinto de dez encontros que acontecem até o final do ano no Centro Cultural da UFRGS. Confira a entrevista abaixo:

Difusão Cultural – O que será discutido durante a sua participação no Conferências UFRGS?

Francisco Marshall – A proposta das Conferências UFRGS 2019 é pensarmos políticas culturais para a UFRGS. A minha conferência formula os princípios epistemológicos e metodológicos com que se pode realizar a comunicação acadêmica. Falar sobre princípios epistemológicos significa decidir qual a teoria do conhecimento que será utilizada para determinar o objeto cultural examinado. (…) E segundo, a comunicação. Quando a gente fala em política cultural, a gente está pensando em como realizar, como fazer florescer e, logo, como comunicar. Então, vou examinar vários cenários em que pode ocorrer a comunicação acadêmica e apontar ali os desafios de linguagem disso, usando alguns modelos da teoria da comunicação que pensam a produção, a codificação, a transmissão, a decodificação, a recepção, o feedback, ou seja, a dinâmica do método. Isso implica também, é claro, em examinar práticas tradicionais e em verificar a compatibilidade delas com o que é objetivamente cultura acadêmica, uma cultura que visa a formação e o desenvolvimento.

DDC – O que você acredita que a universidade deve realizar em termos de políticas culturais?

FM – A comunicação cultural depende da criação de linguagens criativas que integrem transversalmente vários campos. Esse é o grande desafio. Isso pode ser induzido institucionalmente e favorecido por políticas, ambientes, programas, metas. É preciso que os interessados na comunicação cultural possam ter ambientes de encontro, diálogo e criação cooperativa.

DDC – Você realizou uma aula pública no centro de Porto Alegre em outubro do ano passado. Como podemos expandir o conceito e a ideia destas aulas? A universidade pode ampliar sua comunicação com o público em geral e utilizar a cultura como ponte para esse diálogo?

FM – Bom, eu vejo a comunicação cultural acadêmica como o melhor cenário para a interação criativa. Então, ela requer que todos os campos de pensamento criativo participem da elaboração de um outro fenômeno de linguagem, que é diferente de uma sala de aula, de uma apresentação em um congresso, pois vai ao encontro de um outro olhar, outro corpo, uma outra sensibilidade. É importante, porém, que não se abra mão dos conceitos, pois são o fundamento. É preciso, nesse caso, entender que não é apenas uma aula realizada no ambiente público, mas uma experiência de linguagem realizada junto ao outro público. O formato permite uma abertura para o diálogo que não há na sala de aula e, para isso, é necessário um planejamento dramatúrgico, coreográfico, musical, retórico. Há uma produção similar à uma produção teatral, com diferença que o teatro é um espetáculo e está destacado do cotidiano, está lá naquele palco ficcional. Já a aula, tem os elementos da ficção teatral, porém é aberta.

DDC – Neste sentido, qual o papel do Departamento de Difusão Cultural da UFRGS quando se trata da comunicação cultural?

FM – O DDC tem a seu favor a possibilidade de congregar os recursos, chamar,  aproximar, oferecer ambientes de encontro e de criação, que depois vão ajudar a projetar para fora. É como uma experiência de linguagem em que precisamos usar a carga de conhecimentos que nós temos à favor de uma intensidade criativa. Nesse sentido, claro, estamos concorrendo com as cinzas do cotidiano, com o torpor da sociedade midiática atual em que há um bombardeio de informações, com os elementos angustiantes da crise que nós vivemos e com uma heterogeneidade cognitiva-cultural do nosso destinatário. Isso tudo são desafios. Não se trata apenas de fazer uma aula pública, de realizar uma aula. É uma espécie de aula espetáculo, que tem que ter uma radar sobre o mundo em que vivemos. Onde está o ponto quente? Onde está a carência? É ali que a gente tem que incidir. Com serenidade, consistência, boas qualidades, sem comprar convicções baratas. Devemos traduzir o que for possível para um ambiente de conceitos, de reflexão, de conhecimento e de mudanças. E isso, voltando ao ponto de partida, é compatível com o que vou apontar nessa conferência, relativo à linguagem acadêmica e à produção cultural como uma experiência de linguagem.

DDC – Como professor do Instituto de Artes, o que vem sendo produzido por seus alunos? Tem alguma inciativa ou trabalho recente, feito por esses jovens artistas, que você gostaria de compartilhar?

FM – Agora, na Pinacoteca Barão de Santo Ângelo – o espaço expositivo do Instituto de Artes – tem uma exposição de acadêmicos chamada Balbúrdia. Essa exposição é uma resposta muito rápida à uma agressão feita por ninguém menos que o ministro da Educação, tentando denunciar o que ele acha que é indevido, e que na verdade é uma virtude da universidade, a sua capacidade de contestação própria do universo e que nos fundamenta, que é o universo de jovens como vocês. Se houverem jovens conformados reproduzindo os modelos passivamente acabou a humanidade, quem dirá a universidade que deve ser um cenário de acolher. Então, essa é uma resposta interessante, que mostra com ironia, uma atividade criativa recente, pegando rapidamente uma palavra que estava em circulação e dando um troco com conteúdo em um espaço central da cidade, expositivo, público, aberto. O papel das artes e da comunicação como um todo é o mais importante, que é aquele que aparece, mobiliza, seduz e envolve.

* Entrevista realizada pelas estudantes de jornalismo da UFRGS e bolsistas, Joyce Rocha e Anna Ortega, sob supervisão de João Vitor Novoa.

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