Práticas de democracia digital são tema de estudo

Doutor em Sociologia pela UFRGS, antes de ingressar no doutorado, Gilson Pianta já havia definido como objetivo trabalhar com temas ligados à política. Orientado pelo professor Luciano Fedozzi, o pesquisador desenvolveu em sua tese de doutorado a pesquisa Democracia digital: uma análise da percepção sobre a digitalização das práticas democráticas em Porto Alegre (RS). O trabalho apresenta uma discussão acerca da introdução e das possibilidades contidas na utilização das tecnologias de informação e comunicação, em especial a Internet.

“Com grande interesse em pesquisar o binômio democracia/participação e, de certa forma, pioneiramente, em ambientes virtuais, desde o começo o Dr. Luciano e eu definimos que uma pesquisa nesse escopo estava mais do que justificada”, conta Gilson. A teoria de Brian Barry (Justice as Impartiality) auxiliou as apreensões atuais sobre justiça e democracia, muito pautadas no utilitarismo e no intuicionismo: “Em termos metodológicos, as dificuldades somente aumentavam, pois aproximar uma temática tão abstrata de uma pesquisa empírica não é das tarefas mais fáceis”, afirma.

Após a resolução de questões de validação da amostra, optou-se por setorizar a cidade de Porto Alegre, com o intuito de que cada zona tivesse igual capacidade de ser contemplada – uma forma similar à de institutos de coleta, como Datafolha e Ibope. Para a tabulação dos dados foi utilizado o software SPSS (Statistical Package for the Social Sciences). Os questionários aplicados apresentaram perfis bem variados: “Envolveu desde estudantes pré-adolescentes até idosos, criando a possibilidade de participação de todos os gêneros, raças, faixas etárias e níveis de ensino”, conta Gilson.

A pesquisa demonstra que qualquer interação entre o cidadão e o poder político constituído, seja sob demandas públicas ou sobre serviços prestados, é, sim, uma prática democrática virtualizada: “Se, por um lado, participar de um fórum na internet sobre problemas viários em seu bairro é uma prática democrática virtual em um nível mais profundo, por outro lado, utilizar o sítio eletrônico da prefeitura municipal para gerar uma GRU de arrecadação de imposto também é uma prática democrática virtual, porém em um nível mais básico”, afirma Gilson. Segundo o pesquisador, o que também fica evidente no novo cenário propiciado pelas mídias digitais é que quem participa no mundo concreto leva essa participação para o mundo virtual: “Um jovem que milita por uma causa em seu bairro também o faz na internet, envolvendo-se com a condução de debates e fóruns sobre o assunto”, completa.

Ou seja, constatou-se que apenas está havendo uma migração para o mundo virtual por parte dos mesmos atores sociais. Mas, em termos de envolvimento democrático digital, há um aumento de participação, já que o conceito de democracia digital é bem mais amplo, agregando até mesmo os serviços virtuais que os governos podem oferecer. Em 2005, 14 milhões de pessoas utilizavam os serviços de e-gov, já em 2009, eram 30 milhões. “Essa participação virtualizada ainda ocorre muito no nível discursivo e sem materialização prática, de modo que toda a deliberação que ocorre entre os participantes dos ambientes virtuais, geralmente não gera reflexos no mundo analógico”, afirma. Outra limitação, de acordo com Gilson, seria a exclusão digital, que além da falta de acesso à internet, também abrange a falta de capacitação do usuário.

De acordo com a pesquisa, no momento ainda existem muitas interrogações, no entanto, práticas virtuais podem trazer importantes contribuições à democracia, como a implementação de experiências de governo eletrônico e o crescente uso de novas mídias pelos variados movimentos sociais. Questionado sobre a possibilidade de o computador acomodar mais as pessoas, Gilson revela: “Os indivíduos que não estão acomodados no mundo real, dificilmente o serão no mundo virtual, e vice-versa, pois o que acomoda as pessoas é a sua cultura política, a qual geralmente é marcada por falta de senso participativo e de dever político e cívico”, diz.

 

Tese

Título: Democracia digital: uma análise da percepção sobre a digitalização das práticas democráticas em Porto Alegre (RS)
Autor: Gilson Pianta
Orientador:
 Luciano Joel Fedozzi
Unidade: 
Programa de Pós-Graduação em Sociologia