“O Brasil, nos últimos anos, tem demonstrado grande interesse em participar de missões de paz para ter uma inserção internacional, e o tema da inteligência está relacionada à segurança. Então, é fundamental que se estude isso”, revela a mestranda de Relações Internacionais da UFRGS Giovanna Kuele. No final de 2015, Giovanna venceu o II Concurso de Monografias sobre Defesa Nacional (CMDN), promovido pelo Ministério da Defesa. A estudante obteve o primeiro lugar no concurso com o trabalho Atividade de inteligência em operações de paz da ONU: rumo à institucionalização?, apresentado para conclusão de sua graduação sob orientação do professor Marco Cepik.
A pesquisa investiga como se deu o processo de desenvolvimento e institucionalização da atividade de inteligência em operações de paz da Organização das Nações Unidas (ONU). Segundo Giovanna, essas atividades envolvem a coleta e a análise de informações que darão suporte à cadeia de comando: “Um dos fatores que levou a essa institucionalização foi justamente a falta desse serviço no período de 45 a 2000, porque a questão da inteligência era muito associada à espionagem durante a Guerra Fria”, conta. A abordagem da Organização, de acordo com a monografia, é alterada no início do século XXI, em virtude tanto da necessidade de aumentar a segurança do pessoal e incrementar o conhecimento da situação quanto das falhas ocorridas na década de 1990, que foram causadas em parte pela falta de legitimidade ou pela deficiência das informações: “Em Ruanda, por exemplo, várias falhas da missão foram apontadas devido à carência de conhecimento. O comandante da operação sabia da iminência de um genocídio e enviou para Nova Iorque a informação de que existiam armas, mas como não tinha como verificar, as informações não foram acreditadas”, diz.
Dentre as operações de paz analisadas, estão as realizadas em países como o Congo, Ruanda, Somália, Bósnia, Sudão e Haiti. Giovanna também fez entrevistas com quinze pessoas, entre civis que estudam o tema e militares que haviam participado de missões em outros países: “Às vezes, na academia, a gente se desprende um pouco do que é palpável, e as entrevistas foram muito importantes para se ter um senso melhor da realidade”, afirma.
Atualmente, existem 15 operações de paz no mundo, localizadas nas principais zonas de conflito, como Congo e Síria. Mais de 120 países estão envolvidos, oferecendo tropas e orçamentos. Na época em que desenvolveu seu estudo, um brasileiro havia assumido o comando no Congo, o General Santos Cruz, e o Brasil assumiu tarefas de coordenação no Líbano. Um cenário que motivou a pesquisadora a continuar seus estudos na área. Para a dissertação de mestrado no PPG em Estudos Estratégicos Internacionais da UFRGS, Giovanna esteve no Congo acompanhado a operação: “São muitas culturas diferentes em uma mesa discutindo as ações – é um general brasileiro dando orientações em inglês para um soldado paquistanês, por exemplo. É um complicador, porque são backgrounds diferentes, mas acabam se entendendo”, relata.
Conforme Giovanna, sete brasileiros estavam no Congo até o início de dezembro de 2015. Ela considera a experiência fundamental para o desenvolvimento do mestrado: “O Congo é um país muito rico em recursos minerais, tanto que existem mais de quarenta grupos armados atuando lá. Presenciar essa operação e as ações de inteligência foi bem importante”, conta.
Trabalho de Conclusão de Curso
Título: Atividade de inteligência em operações de paz da ONU: rumo à institucionalização?
Autora: Giovanna Marques Kuele
Orientador: Marco Aurelio Chaves Cepik
Unidade: Curso de Relações Internacionais
