Pesquisa analisa como as cargas das mochilas afetam o desempenho de corredores de aventura

Um estudo desenvolvido na Escola de Educação Física, Fisioterapia e Dança (Esefid) da UFRGS analisou a influência da carga das mochilas na performance de corredores de aventura. A partir de testes realizados em esteira com atletas da modalidade, o trabalho foi o primeiro a avaliar as relações entre o peso carregado e uma série de determinantes fisiológicos do desempenho, que incluem o consumo máximo de oxigênio, o gasto energético e os limiares ventilatórios – com informações que podem colaborar para o treinamento e a preparação dos praticantes do esporte. A pesquisa fez parte da dissertação de mestrado em Ciências do Movimento Humano de Alex de Oliveira Fagundes e teve seus resultados publicados na revista Plos One.

As corridas de aventuras são competições, individuais ou em equipes, realizadas em meio à natureza e que podem envolver, além da corrida propriamente dita, várias outras modalidades – como ciclismo, canoagem e até balonismo. As provas podem durar de algumas horas a até dias (como é o caso da El Cruce, uma das principais corridas de aventura do mundo, em que os competidores percorrem 100 quilômetros em três dias pela região dos Andes). Dessa forma, os corredores de aventura precisam carregar equipamentos, alimentos e água, entre outros suprimentos para se sustentar ao longo das provas. “O que eu queria ver era se o peso da mochila iria interferir na performance desses atletas. Quanto mais distante a prova, mais peso eles têm que carregar. A gente tinha uma hipótese de que, sim, havia uma interferência, mas a gente não sabia exatamente qual seria ela”, comenta Alex.

Os testes foram feitos em laboratório, com doze corredores de aventura do Rio Grande do Sul – todos homens. Os dados foram coletados ao longo de cinco visitas. A primeira foi reservada para a familiarização dos atletas com as cargas, equipamentos e protocolos e para coletar algumas informações importantes sobre eles, como a proporção de músculo e gordura corporal, o peso, a idade e o tempo de treinamento. As três visitas seguintes foram reservadas para os testes máximos – um dia sem carga, um dia com carga equivalente a 7% da massa corporal e outro com a carga de 15% da massa, escolhidos aleatoriamente.

Nos testes máximos, os participantes corriam na esteira utilizando um analisador de gases. A velocidade inicial era de 6 km/h, e, a cada minuto, aumentava-se a velocidade em 1 km/h, até a exaustão dos atletas. Nessa etapa, foram coletados diversos dados, como o consumo de oxigênio, a frequência cardíaca e a quantidade de gás carbônico expelido. Também foram determinados os limiares ventilatórios – pontos de transição metabólica que, entre outras funções, podem ser usados para estabelecer os limites de um treinamento. O que ocorre é o seguinte: conforme vai aumentando o esforço que despendemos em determinada atividade física (devido ao aumento da velocidade da esteira, por exemplo), acontecem algumas mudanças em nosso organismo. Nosso coração dispara, e a respiração acelera. Mas há também algumas alterações menos evidentes – reações químicas que ocorrem devido à contração muscular e à demanda energética decorrente do incremento da intensidade do exercício, como o aumento da acidez sanguínea e a maior concentração de gás carbônico no ar expirado. No caso desse estudo, os pesquisadores conseguiram determinar esses pontos a partir das informações obtidas com o analisador de gases.

Por fim, na última visita, foram realizados novamente testes com as três cargas, mas, dessa vez, os participantes correram em velocidade 10% menor que aquela que alcançaram no segundo limiar ventilatório. Assim, cada atleta teve uma velocidade específica para cada carga. Cada um desses testes durou seis minutos, e, entre um teste e outro, os corredores descansavam até que sua respiração e seus batimentos cardíacos voltassem ao normal.

Os pesquisadores observaram que os limiares ventilatórios e o consumo máximo de oxigênio (maior volume do gás que o corpo consegue transportar e metabolizar durante um exercício) não se alteraram significativamente com as cargas. Por outro lado, os pesos das mochilas tiveram um impacto considerável na economia de corrida, termo relacionado à quantidade de energia metabólica gasta para realizar a atividade numa determinada velocidade ou distância. “Esse é um elemento que os atletas têm que ter atenção. Quando vão para a corrida de aventura, eles têm um grande desafio, que é a questão da nutrição, de equilibrar o quanto eles têm que levar de comida para poder se sustentar ao longo da prova e o quanto eles gastam de energia pra carregar essa comida. Se adicionarem muita carga, eles pagam um preço. Os quilômetros que eles têm que fazer correndo vão ser mais dispendiosos. Essa foi uma mensagem bem importante do estudo”, explica o professor da Esefid Leonardo Tartaruga, que orientou Alex no mestrado. É importante ressaltar que as corridas de aventura costumam exigir muito dos competidores, que chegam, nas provas mais longas, a perder gordura e proteína muscular para a produção de energia.

Os dados coletados apontaram uma relação inversamente proporcional entre o peso carregado e a velocidade de corrida recomendada. Para manter o mesmo custo energético, a pessoa precisa reduzir a velocidade na mesma proporção em que aumenta a carga da mochila. A cada 1% da própria massa corporal que o corredor carregue, deve diminuir 1% da velocidade que ele correria sem a carga. Ou seja, se uma pessoa de 80 quilos costuma correr a 10 km/h, caso esteja com uma mochila de 8 quilogramas (10% de sua massa corporal), deve diminuir sua velocidade para 9 km/h (10% do valor original).

Como apontam os dois pesquisadores, esse é um dado prático que atletas e treinadores podem utilizar para treinar e para planejar aspectos essenciais das provas. “Sabendo os efeitos da carga nos indivíduos, a gente consegue elaborar planilhas de treinamento específicas para esses atletas”, ressalta Alex.

 

Artigo científico

FAGUNDES, Alex de O. et al. Effects of load carriage on physiological determinants in adventure racers. Plos One,  v. 12, n. 12, 2017