Desenvolvimento rural | Atividades em grupo, como oficinas de culinária e artesanato, promovem a integração entre as mulheres do campo e atuam como espaços terapêuticos para essa população
*Foto: Codevasf/Divulgação
Uma dissertação defendida pelo Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento Rural da Faculdade de Ciências Econômicas da UFRGS analisou as percepções sobre saúde mental de mulheres rurais participantes dos grupos comunitários a partir do ponto de vista das Assistentes Técnicas Regionais Sociais da Emater/RS-ASCAR. Realizado pela pesquisadora Joice Schneider Marmentini com orientação da professora Tatiana Engel Gerhardt, o estudo também focou em conhecer as ações realizadas pela instituição referentes à temática. Por meio de entrevistas com profissionais de oito regiões do Estado, Joice analisou como eles entendem a questão da saúde mental dentro do trabalho que realizam e como isso afeta as mulheres atendidas pela Emater. Um dos resultados encontrados é que atividades em grupo desenvolvidas pela Emater promovem a saúde mental das mulheres rurais e podem ser caracterizados como espaços terapêuticos.
Muito além de apenas diagnósticos clínicos, a saúde mental está associada à forma como as pessoas reagem aos desafios e às mudanças da vida e também ao modo como conciliam as suas ideias e emoções. De acordo com a pesquisa, as pessoas que residem no meio rural possuem mais riscos de desenvolverem problemas relacionados à saúde mental – e tanto no campo quanto na cidade especificamente as mulheres apresentam mais riscos.
A temática da saúde mental está presente na vida das mulheres rurais e permeia os seus espaços sociais, tanto entre si quanto pelas práticas dos profissionais que trabalham com essa população, estimulando melhorias nas condições de vida e o desenvolvimento rural. “A saúde mental acontece a todo momento, em todo espaço, basta as pessoas quererem que isso aconteça. Então, não é uma saúde mental relacionada a um diagnóstico, é a promoção da saúde mental nos espaços sociais, na interação social, que realmente faz com que isso aconteça”, explica Joice.
Acolhimento, afeto e escuta
A Emater/RS-ASCAR tem como objetivo contribuir de forma planejada, gratuita e continuada para o desenvolvimento econômico e social do meio rural do Rio Grande do Sul como entidade de assessoramento, defesa e garantia de direitos. Para isso, a instituição desenvolve ações que visam fortalecer, dar autonomia e protagonismo às populações do campo. Em 2013, Joice ingressou na Emater como extensionista rural social e pôde trabalhar com populações indígenas e agricultores familiares. Sua dissertação surgiu a partir desse encontro e da vontade de entender melhor o contexto rural e como as políticas públicas chegavam até essas populações, especialmente às mulheres dessas regiões.
“O momento da pandemia serviu para a gente ressignificar coisas e também entender que a nossa saúde mental é importante e precisa dessa atenção. Antes o acesso à internet no meio rural era opcional e com a pandemia virou uma necessidade”
Joice Schneider Marmentini
Para o estudo, a pesquisadora conversou com dez profissionais – em sua maioria, mulheres – de oito regiões do Estado. Inicialmente o roteiro de perguntas abrangia questões relacionadas à trajetória e aos aspectos pessoais da vida dos profissionais, tais como nível de escolaridade e tempo na empresa. Após, Joice perguntava qual o entendimento desses profissionais em relação aos grupos de mulheres atendidas pela Emater.
“A maioria disse que [os grupos] são ferramentas muito importantes do trabalho de acesso a essas famílias porque você está trabalhando com a mulher, e você sabe que, consequentemente, a mulher vai levar [a temática] para sua família”, afirma Joice. “Ou seja, essa mulher é um membro que vai difundir e promover essas ações na sua respectiva propriedade e na sua família”, complementa.
Na entrevista, Joice também fez perguntas relacionadas às atividades promovidas pela instituição para verificar quais eram realizadas e se existia algum trabalho focado em saúde mental. A pesquisadora constatou que, ainda que não haja um trabalho especificamente focado na saúde mental das populações do campo, existem atividades de assistência social ou de saúde que trabalham com essa questão.
Quando perguntados sobre como viam a saúde mental das populações do campo, os profissionais entrevistados relataram um adoecimento por conta do envelhecimento populacional rural. “Eles percebem que as mulheres adoecem mais por conta da sobrecarga de trabalho: elas têm que auxiliar na lavoura e têm todo o cuidado das atividades domésticas. Nas comunidades rurais são as mulheres que são as responsáveis pelas atividades de cuidado da casa e da alimentação dos filhos, mais do que no meio urbano”, relata Joice.
Acesso à saúde mental
Com base nas entrevistas, Joice pôde concluir que as atividades promovidas pela Emater têm grande peso na promoção da saúde mental das mulheres rurais. Conforme os relatos dos profissionais, as ações relacionadas ao artesanato, à segurança e à soberania alimentar e às plantas bioativas foram as mais influentes na promoção de saúde mental dessas mulheres. Incluindo oficinas de artesanato, jardinagem, paisagismo e terapia culinária, por exemplo, essas atividades proporcionam “um momento de aprimorar as habilidades e também de expor as emoções naquilo que está fazendo, seja pintura, crochê ou tricô. Então, esse momento é promotor dessa terapia, desse espaço terapêutico que é criado”, afirma a pesquisadora.
Além disso, essas ações também propiciam uma integração maior entre as mulheres do meio rural, ou seja, a partir dessas atividades, os profissionais notaram que elas criavam grupos de apoio entre si, como grupos de mensagens no WhatsApp, que possibilitam a interação social ainda maior e mais constante.
“A gente observou que houve esse senso de responsabilidade coletiva, essa questão da solidariedade também voltou a ter mais sentido na vida dessas pessoas”
Joice Schneider Marmentini
Se, por um lado, as atividades trazidas pelas entrevistadas reforçam o papel da mulher nos espaços subalternos da sociedade patriarcal, por outro elas podem utilizar as mesmas ações para promover mudanças no sentido de que essas mulheres estão realizando determinada atividade. As atividades de artesanato rural, por exemplo, ao mesmo tempo que sugerem a permanência da mulher no papel de cuidadora do lar, também podem despertar o interesse dessas mulheres por comercializar o artesanato e obter independência financeira, dando outro papel à ação desempenhada. “A gente tem que promover pesquisas que salientem mais a saúde mental, e não só as doenças, que promovam o bem-estar e que possam fazer com que as pessoas se sintam bem e promovam estratégias e alternativas para que isso aconteça para todos”, completa Joice.
