Acolhimento de mães indígenas na Universidade é tema de dissertação de mestrado

Educação | A partir da própria experiência e de entrevistas com outras mães indígenas, pesquisadora Rejane Paféj Kanhgág aponta a necessidade de melhorar a permanência dessas alunas na Instituição

*Foto: Arquivo Pessoal

Rejane Paféj Kanhgág foi a primeira indígena a ingressar no Programa de Pós-graduação de Psicologia Social e Institucional da UFRGS e também é mãe. Assim, partiu do vivido na instituição para compor a dissertação intitulada “Mulheres semente, înh kósin vy înh mré konîn Jé: experiências de mães indígenas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul”. Na dissertação defendida no final de março, Rejane mesclou experiências próprias e de outras mães indígenas que estudam na Universidade para avaliar como funciona o acesso e a permanência dessas estudantes.

“A universidade nos traz o melhor, ela dá acesso para esse espaço, mas ela nega uma permanência [a mães indígenas]”, explica. Segundo a pesquisa, para as Ações Afirmativas serem consideradas adequadas, elas devem ser constituídas por um diálogo com os povos originários. Isso implica que a instituição leve em conta suas temporalidades e seus modos de vida, que no caso da tribo Kaingang, da qual Rejane faz parte, se chama Kanhgang Êg My Há (o que os faz bem como Kaingang), assim como as noções de saúde, corpo e doença. 

“A gente está redigindo a nossa história, trabalhando saúde a partir dessa linguagem, do ser indígena, dos modos de ser e viver indígena”

Rejane Paféj Kanhgág

Para desenvolver o trabalho, a pesquisadora acompanhou o cotidiano das mães indígenas da Casa do Estudante Indígena (CEI) entre novembro de 2022 e janeiro de 2023. Nesse período, a pesquisadora realizou entrevistas em forma de pîn ró nî, que na língua Kaingang significa “ao redor da fogueira”. Nos encontros, compartilharam experiências para pensar questões referentes a ser mãe indígena na universidade. O método, genuinamente Kaingang, é para eles uma forma de manter as conversas sagradas e se conectar com a força ancestral.

Temporalidade e modos de vida

“Ditadura do relógio.” Esse termo é utilizado pela pesquisadora para especificar como os Fóg (não indígenas) vivenciam o tempo. Para os Kaingang, o tempo é mais lento e espaçado: “A gente vai almoçar quando nosso corpo pedir, a gente vai dormir quando o nosso corpo pedir, porque é um respeito com o espaço dele”, explica. Portanto, o ritmo – adoecedor – da vida universitária é incompatível com isso. 

A alimentação é um ponto de atenção: sagrada, deve ser realizada quando o corpo pede. No entanto, nos Restaurantes Universitários, os horários das refeições são definidos. Além disso, apesar de crianças de 0 a 5 anos que sejam filhos de estudantes de graduação e pós-graduação vinculados à UFRGS terem acesso aos RUs, as entrevistadas também consideram que a comida controlada não permite que mães comam e deem de comer às crianças. Além disso, as estudantes indígenas relataram, nas entrevistas, olhares de estranhamento e cenas de discriminação quando levam os filhos aos RUs.

Outro aspecto que dificulta a permanência das mães indígenas na Universidade é que, no modo de vida e na educação indígena, é incomum a separação entre mãe e filho, principalmente quando as crianças são pequenas, pois isso pode causar adoecimentos. A tribo Kaingang acredita que os filhos escolhem as mães muito antes da ligação umbilical. As mulheres da tribo têm a maternidade como algo sagrado, “a gente é cobrada a ter filhos, porque a gente acredita que só depois que você tem um filho que você se torna sagrada perante tua espiritualidade”, conta a pesquisadora.

A UFRGS, porém, não permite a habitação de crianças na Casa do Estudante (CEU). Antes de 2022, quando ainda não existia a Casa do Estudante Indígena, Rejane precisava manter seu filho escondido na CEU por períodos que chegaram a quatro meses. Além disso, explica que não conseguia estudar sem ele por perto. Os relatos das outras mães indígenas da Universidade são compostos de cenas de preconceito e dificuldades semelhantes. 

Os Kaingang possuem um sistema familiar dualista, com os Kamê, guerreiros e ligados ao sol, e os Kairu, ligados às práticas espirituais e à lua. Ambos os nomes se referem ao parentesco extenso e descendente de dois irmãos que, segundo a crença Kaingang, criaram as formas de vida e povoaram a terra. Os casamentos que se complementam são honrados pelos Jagrê, espíritos da mata.

Rejane é Kamê e casou-se com outro Kamê. Nos primeiros meses de vida, seu filho, Gustavo Kafág, teve problemas de saúde: Rejane teve que realizar ritos para que ele ficasse vivo, pois ele sentia a dor de sua metade Kairu faltante. Assim, a presença do filho é de muita importância para a pesquisadora e sua falta causa preocupação. Apesar de não ter sido um dos entrevistados formais da pesquisa, algumas falas de Gustavo, hoje com 10 anos, são destacadas no trabalho, como a que ele diz: “Nós, indígenas, somos assim: onde a mãe vai, os filhos vão junto”.

Território indígena

A CEU, não pensada para acomodar crianças, forçava que as estudantes indígenas escondessem seus filhos, com medo de denúncias e consequente expulsão da Casa. Segundo a dissertação, o ambiente tinha um silêncio adoecedor, que não sanava o choque cultural. Mesmo escondendo Gustavo, em um momento, Rejane teve de mandá-lo para a aldeia, e contou em cartas às parentes, anexas ao estudo, que ficou impossibilitada de estudar, afetada pela separação.

A Casa do Estudante Indígena foi, porém, conquistada em 2022 após a ocupação do antigo prédio da Secretaria Municipal da Produção, Indústria e Comércio (SMIC). Instalada na antiga Creche da UFRGS, no Câmpus Saúde, a CEI acomoda aproximadamente 11 famílias das etnias Baré, Potiguara, Guarani Nhãndewa, Mbyá guarani e Kaingang. Apenas dois moradores não têm filhos.

Para a pesquisadora, essa conquista representa um fortalecimento do coletivo dos povos originários. É de grande importância para a manutenção de ritos, rezas, comidas típicas e outras experiências culturais tradicionais, que não podiam ser realizadas na CEU. Conforme Rejane, a CEI – território indígena e afirmação de suas identidades – representa uma ferramenta de luta que vai além do acesso e da permanência. No entanto, ela destaca as dificuldades estruturais e a precarização do prédio e reforça a necessidade de melhorias e manutenção.

Ela explica que o melhor caminho para a Universidade estar preparada para receber culturas diferentes é mais simples do que parece: com respeito à cultura e à diversidade do outro, com diferentes modos de vida e perspectivas. A imposição de vida dos não indígenas e o não reconhecer essas diferenças dentro da instituição os machuca. Com o estudo, Rejane pretendeu trazer as vozes das mulheres indígenas para valorizar seus conhecimentos, êg vâfy tî kân ka ri ke (como quando um cesto é finalizado). “A minha dissertação mostra o quanto ainda a universidade é violenta, porque ela nos traz o melhor, ela dá acesso para esse espaço, mas ela nega uma permanência.” Nas próximas semanas, o trabalho de Rejane estará disponível na íntegra no Lume – Repositório Digital da UFRGS.