Pesquisa investiga consequências do consumo materno de cafeína no desenvolvimento dos filhos

Algumas pessoas preferem café. Outras, chás. Ainda tem quem opte pelos refrigerantes de cola. São inúmeros os métodos utilizados para aumentar o foco e a concentração em uma rotina cada vez mais turbulenta e cansativa. Mas o que esses produtos têm em comum? A cafeína.

Quando consumimos alimentos com um teor de cafeína considerável, ficamos mais atentos e conseguimos trabalhar melhor – uma conquista para quem precisa manter um bom rendimento durante muito tempo. Isso acontece porque em menos de 20 minutos a cafeína chega às células do corpo, aumentando a influência do neurotransmissor dopamina, que é o precursor natural de estimulantes do sistema nervoso. Em falta, a dopamina pode causar depressão, já em excesso, causa aceleração.

Se as pessoas já devem ficar atentas à quantidade de cafeína que ingerem diariamente, as restrições aumentam ainda mais quando se trata de gestantes. De acordo com a nutricionista especialista na área materno infantil Michele Drehmer, o cafezinho, refrigerantes, chás, chimarrão, energéticos e inclusive os chocolates devem ser ingeridos respeitando uma cota diária de consumo. “Existe uma recomendação de consumo máximo de 300 mg de cafeína ao dia durante a gravidez, segundo o Instituto de Medicina Americano, que é seguida aqui no Brasil também”, explica Michele. A nutricionista ainda faz uma simulação de consumo. “Para se ter uma ideia do que representa, podemos citar que quatro copinhos de café (50 ml), uma lata de Coca-Cola (355 ml) e um pedaço de chocolate ao leite (60g) somam 297 mg de cafeína”.

A nutricionista explica que estudos experimentais realizados em animais mostraram que a cafeína passa pela membrana placentária e pode aumentar o risco de malformações fetais e levar ao aborto espontâneo. Michele destaca que em humanos não é possível medir os efeitos do consumo por meio de estudos de intervenção por questões éticas, visto que uma gestante nunca será exposta ao consumo de cafeína. As evidências a que se tem acesso hoje são baseadas apenas em estudos observacionais, estes que comprovam o aumento do risco para o bebê pelo excesso de cafeína na gravidez. “Recente revisão sistemática mostrou que a maior ingestão de cafeína está associada a um aumento de aborto espontâneo, à morte fetal, ao baixo peso ao nascer e ao recém-nascido pequeno para idade gestacional”, afirma Michele.

A nutricionista Thamíris Santos de Medeiros trouxe em sua dissertação um estudo sobre o impacto do consumo materno de cafeína durante a gestação nas medidas antropométricas – peso, comprimento e dobras cutâneas – dos filhos nos primeiros meses de vida. Ela destaca que são poucos os estudos com crianças tão jovens. “O objetivo era investigar esse período inicial da vida”, afirma. A pesquisadora conta que a nutrição materno-infantil sempre lhe chamou mais a atenção: “Durante a faculdade, sempre fiz estágios trabalhando com crianças, e meu TCC também seguiu nessa área”.

Desde a gestação, a composição corporal do bebê é um marcador do estado de saúde, além da avaliação do estado nutricional na primeira infância, que também é essencial para o diagnóstico da saúde da criança, incluindo seu crescimento e desenvolvimento. Nisso, incluem-se determinados parâmetros antropométricos desde os primeiros meses de vida, com destaque para o peso e o comprimento. Outro fator que também entra nessa categoria são os indicadores de adiposidade subcutânea, que, através das dobras da pele, analisam a quantidade de gordura do corpo.

Em sua pesquisa, Thamíris mostra que, no período gestacional, a cafeína atravessa a barreira placentária com facilidade, já que placenta e o feto não possuem a principal enzima responsável pelo metabolismo desse composto, o que leva à maior exposição e ao acúmulo de cafeína nos tecidos fetais. Além disso, a cafeína é altamente solúvel em gordura e pode ser absorvida pelo feto também via sistema gastrointestinal, pois a filtração glomerular fetal – primeira etapa na formação da urina – ainda está em pleno desenvolvimento.

A pesquisadora afirma que níveis elevados de cafeína podem prejudicar o recebimento da quantidade necessária de nutrientes pelo feto. “A cafeína pode diminuir a perfusão sanguínea, fazendo que o feto receba menos sangue, menos nutrientes e consequentemente se desenvolva menos”, explica. Thamíris destaca que estudos observacionais demonstraram uma associação entre o consumo materno de cafeína durante a gestação e a diminuição do peso de nascimento dos filhos. A cada acréscimo de 100 mg de cafeína (uma xícara de café ou duas xícaras de chá) no consumo diário, é associado um aumento de 3% no risco de baixo peso do filho ao nascer, principalmente quando associado ao tabagismo. Segundo Thamíris, o uso de cigarros de tabaco faz com que a cafeína seja metabolizada mais rapidamente do que em um organismo de uma gestante não fumante, o que priva o feto de receber os nutrientes necessários, dificultando o desenvolvimento do bebê.

Situações como a ocorrência de doenças metabólicas maternas, tais como diabetes e hipertensão, podem potencializar a ação da cafeína sobre o feto. Ela também alerta para o risco do consumo de cafeína interferir no processo de desenvolvimento celular. Estudos experimentais com ratos comprovaram que a exposição à cafeína no período pré-natal provoca alterações no metabolismo glicêmico e aumento da resistência à insulina, o que após o nascimento pode contribuir para o desenvolvimento de síndrome metabólica.

Outro ponto que o estudo traz é como é comum o consumo de alimentos que contêm cafeína entre mulheres em idade fértil e durante a gestação. De acordo com a pesquisa, no último senso brasileiro, a ingestão média de café, alimento com maior concentração de cafeína, foi de aproximadamente 120 mililitros por dia entre adolescentes e mulheres adultas. A nutricionista Michele Drehmer observa com atenção o consumo antes da gravidez “O estudo das enfermeiras americanas, um dos estudos observacionais mais importantes que existe, avaliou mais de 15 mil mulheres por 18 anos e verificou que aquelas que consumiram mais do que quatro xícaras de café por dia antes de engravidar tiveram maior risco de aborto espontâneo, principalmente no período entre 8 e 19 semanas de gravidez”, explica.

Quanto ao aumento de peso, Thamíris explica que o consumo materno de cafeína pode ter relação com o aumento de peso da criança quando ela for maior: “A cafeína interfere na atividade cerebral que comanda o controle de apetite e saciedade, o que pode levar a criança a desenvolver mais peso ao longo da vida”.

 

O estudo

A pesquisa estava vinculada ao projeto Impacto das Variações do Ambiente Perinatal Sobre a Saúde do Recém-Nascido nos Primeiros Seis Meses de Vida (IVAPSA) e contou com a participação de Thamíris e o auxílio da equipe do Projeto IVAPSA, composta por professores orientadores e alunos de pós-graduação da UFRGS e alunos de graduação bolsistas de iniciação científica de outras universidades.

Thamíris e a equipe que participou da pesquisa optaram por utilizar como fonte de consumo de cafeína somente o café, baseado em estudos em que os efeitos da cafeína apareceram mais acentuados quando a avaliação considerava apenas o consumo de café.

Mães com diferentes históricos foram convidadas a participar do estudo. Os convites foram feitos às que estavam no Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), Hospital Nossa Senhora da Conceição e Hospital Fêmina. Foram excluídas mulheres HIV positivas, com menos de 37 semanas de gravidez, além das mães de recém-nascidos com doenças congênitas ou que necessitassem de internação hospitalar. O estudo foi realizado com 272 duplas mãe-filho, divididas entre os cinco grupos:

  1. Diabéticas – 41
  2. Hipertensas – 26
  3. Fumantes – 68
  4. Mães de crianças nascidas pequenas para idade gestacional sem uma causa específica – 25
  5. Controle (mulheres que não apresentaram as características citadas anteriormente e seus filhos) – 112

A variabilidade do número de duplas entre os grupos se deu pela dificuldade de encontrar duplas para determinados grupos, recusas e perdas por não realização de entrevistas nos períodos previstos. No final do estudo, permaneceram 263 duplas.

Logo após o nascimento, no período entre 24 a 48 horas após o parto, foram coletadas informações sobre o pré-natal das gestantes, como peso antes de engravidar, altura e peso ao final dos três trimestres da gestação, além de informações sobre o nascimento dos filhos. Sete dias depois, a equipe da pesquisa entrevistou as mães em suas casas para obter dados sobre a alimentação durante a gravidez, principalmente sobre o consumo de cafeína no período. No terceiro mês de idade dos filhos, foi feito um novo contato para a medição de peso, comprimento e dobras cutâneas da criança. Aos seis meses, as mesmas medições foram realizadas novamente.

 

Resultados

Quanto ao consumo de cafeína, houve uma diferença significativa entre os grupos. Confirmou-se o fato de o tabagismo estar associado ao maior consumo de cafeína, tendo esse grupo consumido até 150,3 mg/dia, o maior valor entre todos os grupos. O alto consumo também se destacou no grupo de crianças nascidas pequenas para idade gestacional – 128,2 mg/dia –, o que mostra a relação entre o baixo peso ao nascer e o consumo de cafeína na gravidez. Os grupos de mães diabéticas, hipertensas e de controle consumiram 96,4, 136,6 e 91,3 mg/dia, respectivamente.

Em relação às medidas antropométricas, a média de peso ao nascer foi de 3,1 quilos e a de comprimento foi de 48,5 centímetros. O estudo comprovou que os filhos de mulheres diabéticas apresentaram peso de nascimento significativamente maior do que as crianças pertencentes a outros grupos. Isso porque são mais propensos a desenvolverem macrossomia – excesso de peso no nascimento –, diferente das crianças com restrição de crescimento intrauterino (RCIU), que apresentam menor peso e menor comprimento ao nascer. O estudo destacou a diferença expressiva de peso e comprimento das crianças que nasceram pequenas para idade gestacional, com até um quilo e 1,9 centímetros a menos que outros grupos.

Um dado curioso foi no grupo de mães fumantes, normalmente associadas ao baixo peso dos filhos, o que não foi confirmado entre as duplas participantes. Apesar de apresentar valores menores, não foram diferenças significativas. Thamíris acredita que isso se deva ao baixo número de participantes desse grupo.

O estudo mostra que somente no grupo-controle foi comprovada interferência nas medidas antropométricas a partir do consumo materno de cafeína. A pesquisadora observa que, do nascimento ao terceiro mês de vida, a velocidade de crescimento é superior à que ocorre entre o terceiro e o sexto mês, o que pode refletir nos resultados de acúmulo de gordura pela criança, visível apenas nos primeiros meses de idade. Ela destaca que os resultados desse trabalho fornecem subsídios para a investigação da hipótese do desenvolvimento do excesso de peso na infância em virtude do alto consumo de cafeína.

No grupo de mães diabéticas, na comparação entre filhos de mulheres consumidoras e não consumidoras de café, não houve diferença significativa entre peso, comprimento e dobras cutâneas, tampouco entre as médias das medidas antropométricas aos três e aos seis meses de idade.

Thamíris destaca que os primeiros mil dias de vida são uma fase fundamental para o desenvolvimento do ser humano e que, por isso, ainda são necessárias pesquisas que avaliem as consequências de certos hábitos durante a gestação na vida dos filhos. “É um período em que muitas coisas estão se formando no corpo do bebê”, afirma.

A pesquisadora está otimista com o que seu estudo pode proporcionar para a sociedade: “A minha expectativa é de que esse trabalho chame a atenção de pessoas que trabalham com isso”. Thamíris diz que é fundamental que esse tipo de estudo receba atenção e, no futuro, tenha um peso nos cuidados com a saúde da gestante. “Poderia virar uma observação na prática clínica, assim como não é recomendado fumar ou ingerir álcool durante a gravidez”, destaca.

 

Dissertação

Título: Consumo materno de cafeína durante a gestação em diferentes ambientes intrauterinos e sua relação com medidas antropométricas de crianças nos primeiros meses de vida
Autora: Thamíris Santos de Medeiros
Orientadora: 
Clécio Homrich da Silva
Unidade: 
Programa de Pós-Graduação em Saúde da Criança e do Adolescente