Ciência | Relatório inédito aponta desafios para se estabelecer carreira de pesquisador no Brasil, como falta de financiamento e de oportunidades
*Foto: Gustavo Porpino/Embrapa
Em meados de 2020, alguns dos membros da Academia Brasileira de Ciências (ABC) começaram um projeto que teve início em workshop da entidade: traçar o perfil do cientista brasileiro em início e meio de carreira a partir de dados quantitativos. Para entender melhor quem é esse pesquisador e os principais desafios de estabelecer uma carreira científica no Brasil, os mais de 80 profissionais envolvidos no projeto elaboraram um survey, Investigação quantitativa. Forma de coletar dados a partir de opiniões e características de grupos de indivíduos. dividido em sete eixos: financiamento, bolsas de produtividade, divulgação científica, diáspora científica, internacionalização, liderança científica e diversidade e inclusão.
Das 5,5 mil respostas obtidas, pouco mais de 4 mil foram consideradas, levando em conta os critérios de exclusão do projeto. Os resultados apontam que grande parte dos cientistas em início e meio de carreira têm dificuldades de obter financiamento para a pesquisa. Além disso, a falta de oportunidades para os pesquisadores é uma das razões da chamada “diáspora científica” (ida de cientistas brasileiros para o exterior em busca de melhores condições de trabalho no meio acadêmico ou na indústria de viés científico). O relatório com todos os resultados foi entregue em setembro deste ano durante uma reunião da ABC, em São Paulo, e estão disponíveis na íntegra no site da Academia.
A curiosidade se sustenta com financiamento
Uma das integrantes do comitê gestor do projeto, a professora do Instituto de Física da UFRGS Ana Chies sempre foi muito curiosa para entender o que está além do que se pode ver no céu. Com a curiosidade despontando a todo momento na cabeça, foi fazer Física. De lá, seguiu para a Astrofísica, e o embarque na carreira acadêmica se tornou inevitável. Hoje estuda principalmente aglomerados globulares extragalácticos Estrelas que se formaram em outros lugares fora da galáxia e depois migraram para dentro da Via Láctea em diversos tipos de galáxias e ambientes. “Eu nem pensava muito nas consequências, só fui seguindo”, comenta, ante a realidade de que ser pesquisador no Brasil requer saber fazer mágica com o salário — quando há.
“Para desenvolver pesquisas de qualidade, é essencial ter financiamento para a manutenção e atualização de laboratórios de pesquisa, o trabalho de campo e o fomento de colaborações nacionais e internacionais”
Ana Chies
Quanto a esse aspecto, 74% dos respondentes ao questionário relatam dificuldades para obtenção de financiamento de pesquisa, e apenas 20% relatam busca por fomento em editais no exterior. Quanto às competidas bolsas de produtividade, destinadas a pesquisadores cujo trabalho se destaca nas respectivas áreas, apenas 10% afirmou ter acesso.
A divulgação científica foi abordada no questionário com base no interesse e no envolvimento com atividades de divulgação. Na percepção dos cientistas em relação às mídias sociais, o Whatsapp é a rede mais utilizada para fins de divulgação, seguido pelo Instagram e, logo atrás, o Twitter/X – contrariando o que se pensava no meio acadêmico, por se tratar da rede social mais utilizada para se divulgar conhecimento científico entre os pares. Mais da metade dos respondentes tende a divulgar suas pesquisas nas redes sociais, enquanto cerca de 20% prefere utilizá-las apenas para lazer. Os demais responderam não ter tempo para a atividade.
Pesquisa sem fronteiras
Ana viajou o mundo como pesquisadora e, mesmo depois de empossada na ABC, as fronteiras do globo eram como as divisas dos bairros de Porto Alegre. Estava na China como professora visitante quando a enquete começou a ser divulgada. Trabalhando todos os dias com pessoas de diferentes lugares do mundo, a astrofísica não perde oportunidade de compartilhar sua rede de contato com alunos, sedimentando pontes que conectam diferentes mundos.
A internacionalização das pesquisas brasileiras é um dos aspectos investigados no estudo. “A maioria dos projetos de pesquisa não permanece restrita a um contexto puramente nacional”, diz a professora. 80% das colaborações do Brasil se dão com os EUA, Reino Unido, França, Alemanha e Espanha. São pouquíssimas as colaborações com países asiáticos, africanos e da América Latina. Menos de 10% dos respondentes relatam participar de conversas em língua estrangeira todos os dias, enquanto mais de 40% respondeu participar algumas vezes por ano. Mais de 20% nunca participa de conversas em outro idioma.
Visto que o acesso às bolsas de produtividade e a demais oportunidades é privilégio no mundo da pesquisa, ser uma liderança científica é um meio de garantir esses privilégios. Mas o que é necessário para se tornar uma liderança científica? “Publicar em revistas de alto impacto, ter habilidade para propor temas altamente originais e com grande impacto, além de possuir redes de contato e participar de grandes projetos e consórcios internacionais”, responde a professora Ana. 73% dos respondentes acham que os cientistas em início e meio de carreira não são reconhecidos como lideranças em suas áreas. A carência de editais e oportunidades de fomento estão diretamente associadas a essa percepção. Além das implicações da idade, há, também, as circunstâncias de gênero e raça, marcantes no relatório.
Desigualdades e possíveis soluções
De acordo com Ana, o relatório tem perfil sociodemográfico similar ao do último censo do CNPq, realizado em 2016, ou seja, há uma predominância de brancos e baixa proporção de pretos e pardos. Entre os respondentes de nível PQ2 (categoria de pesquisador do CNPq de Produtividade em Pesquisa 2, cuja duração da bolsa é de trinta e seis meses), cerca de 12% são homens brancos, 10,6% são homens negros, 5,5% são mulheres brancas e 5,4% são mulheres negras.
Esse resultado é um reflexo direto da configuração social brasileira, que se reflete também em outras observações para além da realizada no estudo. A estrutura interna da própria ABC, por exemplo, se equipara ao que foi analisado nos recortes de gênero e raça. Ainda segundo a professora, algo que poderia ser feito para transformar essa realidade seria uma alteração na forma como as pessoas ingressam na entidade. “As pessoas poderiam se candidatar, e não serem indicadas, talvez”, sugere. Quanto à desigualdade presente no quadro de pesquisadores brasileiros, o incentivo público é o caminho.
Com os resultados apurados, o que se espera agora é que o documento produzido possa auxiliar na formulação de políticas públicas, como editais de pesquisa para cientistas em diferentes fases de suas carreiras. A ideia do comitê gestor do projeto é dar periodicidade ao levantamento, realizando-o a cada cinco anos, por exemplo. Além de Ana, o comitê gestor do projeto foi composto por Raquel Minardi, da Universidade Federal de Minas Gerais, Jaqueline Mesquita, da Universidade de Brasília, e Alessandro Freire, do Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP).
