Dissertação aponta queda de diagnósticos de câncer de pele no HCPA durante o primeiro ano de pandemia

Saúde | Entre março de 2020 e fevereiro de 2021, houve uma redução de mais de 30% dos casos registrados da doença

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Além da superlotação de hospitais e UTIs, os sistemas de saúde mundiais sofreram com diversos problemas a partir do início da pandemia de covid-19, sobretudo no primeiro ano da emergência sanitária global. Devido às restrições impostas pelo distanciamento social e ao deslocamento de profissionais para o enfrentamento do novo vírus, consultas médicas, exames e cirurgias foram adiadas ou até mesmo canceladas em um primeiro momento; posteriormente, os atendimentos presenciais ocorreram em número limitado.

Nesse contexto, a dissertação de Lucas Pauvels, do Programa de Pós-graduação em Medicina: Ciências Médicas da UFRGS, aborda como o cenário afetou os diagnósticos de câncer de pele. A pesquisa avaliou as consequências dessas modificações no padrão de consultas médicas para o diagnóstico da doença no Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) entre 1.° de março de 2020 e 28 de fevereiro de 2021. O estudo foi publicado em setembro deste ano na Revista Internacional de Dermatologia.

Os resultados apontam uma redução de 31,83% nos casos de câncer de pele registrados no período, em comparação aos 12 meses anteriores. “O diagnóstico de câncer de pele depende, na grande parte das vezes, de uma avaliação presencial, porque é preciso uma avaliação dermatológica de toda a pele da pessoa para a detecção de uma lesão. Principalmente em estágios mais iniciais, que é quando queremos identificá-la”, explica Lucas. Segundo o pesquisador, a demonstração da queda de diagnósticos é importante para que se comece uma busca ativa por pacientes de risco que perderam o acompanhamento durante a pandemia, por haver a possibilidade de já estarem desenvolvendo uma forma mais grave da doença.

As variações na pandemia

O estudo revisou os diagnósticos de câncer de pele no HCPA desde o início das restrições sanitárias (março de 2020 a fevereiro de 2021) e comparou o número com o ano que precedeu a pandemia (março de 2019 a fevereiro de 2020). No total, a pesquisa analisou 4.407 prontuários de pacientes com mais de 18 anos que tiveram uma das três formas mais comuns da doença: carcinoma basocelular, carcinoma espinocelular e melanoma cutâneo primário. Foram registrados 2.622 casos no período anterior à covid-19 e 1.785 no período posterior, uma redução de mais de 30%.

Além da queda dos diagnósticos, que já era imaginada pela experiência profissional de Lucas, a dissertação analisou os números dos três tipos principais e o estágio em que o câncer era identificado. “Nossa preocupação era se esses diagnósticos não estavam se apresentando em um período mais tardio, obrigando o tratamento com cirurgias maiores, com mais prejuízo para o paciente”, explica o dermatologista. 

Porém, o que se viu foi uma maior porcentagem de casos com menor gravidade, descobertos no estágio inicial. Lucas explica que, embora a conclusão possa ser contraintuitiva, há uma lógica que envolve o grupo de maior risco — os pacientes que desenvolvem um câncer mais grave geralmente são idosos e/ou possuem outras comorbidades, tal como para a covid-19. “Esse grupo teve de ficar em casa, ficar mais isolado, e é claro que isso foi importante para conter o avanço da covid. O que a gente acha que aconteceu foi que esses diagnósticos que não entraram no nosso estudo acabaram aparecendo nos anos seguintes, ou ainda aparecerão nos próximos anos com o câncer mais avançado”, comenta.

As observações práticas 

Lucas estava em seu último ano de residência no HCPA quando a pandemia teve início, e viveu na prática a diminuição abrupta no número de pacientes no dia a dia. Assim que a covid-19 chegou ao Rio Grande do Sul, o hospital passou a atender presencialmente apenas casos de urgência e emergência. A ideia para a dissertação foi, portanto, quantificar essa diminuição de diagnósticos e entender suas consequências.

O pesquisador conta que os resultados da pesquisa demonstram uma importante quebra do seguimento de consultas periódicas durante a pandemia. Na prática, ele observa que, desde o período de restrições até os dias atuais, ainda são comuns os pacientes que apresentam algum risco para o desenvolvimento de câncer de pele e que perderam a regularidade de atendimento no período. 

A missão agora, segundo ele, é fazer uma busca ativa por esses pacientes. “No início, o câncer de pele pode ser assintomático, pode aparecer uma manchinha numa área que o paciente não consegue enxergar. Isso dificulta que a pessoa perceba que há algo errado. Por isso a importância do profissional dermatologista”, finaliza.

Para lembrar

O câncer de pele é o tipo de câncer mais frequente no mundo — o órgão não é só o maior do corpo humano, como também está exposto diariamente à radiação ultravioleta. Outros fatores que aumentam o risco de desenvolvimento da doença englobam a pele clara, idade avançada, histórico familiar e queimaduras frequentes.

O carcinoma basocelular é a forma mais comum de câncer de pele, e também a menos agressiva, com desenvolvimento lento em meses ou anos na superfície da pele. Por outro lado, o carcinoma espinocelular e o melanoma também são formas frequentes da doença e possuem maior taxa de evolução para casos graves.

Além de consultas preventivas com um dermatologista, a procura por atendimento é recomendada quando o paciente observa alterações em sinais na pele. Lesões assimétricas, com bordas irregulares, de múltiplas cores, maiores que seis milímetros ou em crescimento devem ser avaliadas por um profissional.