Dissertação simula custos para Porto Alegre ter uma frota de ônibus elétricos

Transporte público | Estudo analisa cenários em que a capital gaúcha substitui os ônibus a diesel por veículos elétricos

*Foto: Giulian Serafim/PMPA

O setor de transportes é um dos grandes responsáveis pelas emissões de gases do efeito estufa em razão da queima de combustível, que libera CO2 na atmosfera. Buscando alternativas para reduzir tanto o impacto ambiental quanto o custo do transporte público, uma das opções é a troca dos veículos a diesel por elétricos. Defendida no Programa de Pós-graduação em Engenharia de Minas, Metalúrgica e de Materiais da UFRGS, a dissertação do pesquisador Guilherme Augusto de Oliveira Rugeri comparou a frota de ônibus a diesel de Porto Alegre com cenários em que seriam utilizados percentuais da frota de ônibus puramente elétricos. Um dos resultados da análise demonstrou que, em longo prazo, é esperado um cenário mais favorável ao uso dos veículos elétricos.

Com orientação do professor Fabiano Perin Gasparin, o trabalho utilizou dados disponibilizados pela Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC) para saber, ao final da pesquisa, se era econômica e ambientalmente mais viável e vantajoso utilizar os ônibus elétricos. “A minha ideia era fazer uma simulação com tudo que eu tivesse de dados mais atualizados, mas colocando dentro do contexto de Porto Alegre especificamente”, destaca Guilherme. 

Cenários de análise

Olhando para outros lugares do mundo que já possuem ônibus elétricos no transporte público, como China, Europa e Estados Unidos, nota-se um movimento de crescente busca por soluções mais sustentáveis. No Brasil, ainda não é comum a presença de ônibus elétricos na frota – e tentar entender o porquê disso, especificamente no cenário de Porto Alegre, também foi um dos motivadores para que Guilherme tratasse do tema em sua dissertação. 

O pesquisador analisou três cenários hipotéticos em que seriam introduzidos percentuais de 10, 20 e 30% de ônibus puramente elétricos – a ideia foi pensar em uma introdução gradativa desse modelo. “Fiz simulações: primeiro se fossem colocados 140 ônibus elétricos, depois 200 e poucos, depois eu fiz o custo total de cada ônibus e da frota inteira”, conta Guilherme. 

Os cenários criados foram “padrão” (com a frota atual), “favorável aos ônibus elétricos” e “favorável aos ônibus a diesel”. No cenário “padrão”, foram mantidos os dados atuais cedidos pela EPTC, simulando o uso do modelo de hoje no futuro. “Eu tomei os preços de agora e os considerei em toda a vida deles [dos ônibus] e adicionei a inflação”, relata Guilherme. Como resultado, foi identificado que nesse modelo o ônibus elétrico teria custo total 10% superior ao do veículo a diesel.

No cenário “favorável aos ônibus elétricos”, foram feitas simulações em que a composição de preços é mais promissora em relação aos ônibus elétricos, por exemplo, considerando que o custo de compra dos veículos seria mais baixo. Além disso, para a geração da energia que o ônibus utilizaria, foi considerada a instalação de energia solar no telhado da garagem dos ônibus ou no depósito, com a finalidade de atenuar os custos mensais. “Esse cenário seria vantajoso também porque tu congelarias todos os custos. Tu estarias comprando [agora] o ônibus, o carregador e o sistema para gerar energia, e a partir daí tu também não precisarias te preocupar com a evolução dos preços”, ressalta Guilherme. Foi avaliado que o ônibus elétrico custou 97% do valor do ônibus diesel, o que representa uma diminuição gradual no custo total da frota de Porto Alegre à medida que os veículos elétricos forem entrando em uso.

Já o outro cenário, “favorável aos ônibus a diesel”, considera mais a não concretização das tendências de diminuição de preço esperadas para os ônibus elétricos do que a queda de custos dos veículos a diesel. Nesse cenário, o custo total do ônibus elétrico foi 18% superior aos modelos a diesel.

Unindo sustentabilidade e economia 

De acordo com a pesquisa, a análise econômica ainda apresenta incertezas com relação à melhor tecnologia a ser adotada atualmente, mas é importante ressaltar que a utilização do ônibus elétrico com sistema fotovoltaico pode ser economicamente positiva ao longo dos anos. Isso ocorre porque o valor gasto na operação do veículo fica congelado, não dependendo da variação do custo dos combustíveis e da energia elétrica, que costumam apresentar reajustes superiores à inflação. Com relação ao impacto ambiental, a redução da emissão de materiais poluentes com a incorporação de veículos elétricos é positiva, pois eles não produzem emissões de gases de efeito estufa. 

Outro ponto destacado por Guilherme é a importância de se pensar de onde virá a energia elétrica a ser utilizada nos ônibus elétricos. “Vamos supor que tu estás num país que gera energia elétrica queimando o carvão, que é totalmente poluente”, destaca.

O pesquisador ressalta ainda uma das vantagens da utilização desse modelo no Brasil:

“O Brasil tem um percentual de recursos renováveis muito maior do que a média mundial. Então, quer dizer, usar energia elétrica no Brasil é usar recursos renováveis muito mais do que no resto do mundo. Eletrificar uma frota aqui, portanto, é muito mais renovável do que eletrificar uma frota em outro país”

Guilherme Augusto de Oliveira Rugeri

Considerando as vantagens da implementação de uma frota de ônibus elétricos, é possível afirmar que, no futuro, o modelo poderá ser positivo em relação tanto ao meio ambiente quanto ao custo da frota. “Eu achei que era uma coisa bem mais distante da realidade, mas na prática se vê que é quase viável. Pode ser que com qualquer incentivo de governo, qualquer política favorável, isso possa acontecer”, completa Guilherme.