Estudo global evidencia mortes evitáveis de pessoas com diabetes abaixo de 25 anos por diagnósticos e tratamentos inadequados

Saúde | Pesquisadores da UFRGS integraram estudo publicado na Lancet Diabetes and Endocrinology que demonstrou a importância do acesso facilitado à insulina e a cuidados básicos em saúde para evitar complicações e mortes por diabetes

*Foto: Vinícius Marinho/Fiocruz

Um artigo publicado na Lancet Diabetes and Endocrinology, uma das revistas científicas mais importantes da área médica, avaliou casos de mortes de pessoas abaixo de 25 anos em decorrência de diabetes. A partir do Estudo de Carga Global de Doenças (GBD – sigla em inglês para Global Burden of Diseases, Injuries and Risk Factors, estudo de mortalidade e incapacidade causadas por 369 doenças e 87 fatores de risco) entre 1990 e 2019, pesquisadores vinculados a diversas instituições, incluindo a UFRGS, investigaram dados de 204 países e territórios com população superior a um milhão de habitantes. Os cientistas concluíram que o acesso gratuito ou facilitado à insulina pode evitar a maior parte dos óbitos por diabetes, já que as regiões com maiores índices de mortalidade pela doença possuem baixos índices de desenvolvimento.

O estudo incluiu óbitos por diabetes tipo 1 e tipo 2. A diferença entre os dois tipos é que, no primeiro caso, o sistema de defesa destrói células capazes de produzir insulina, fazendo com que o açúcar presente no sangue não seja transformado em energia. No segundo tipo, o organismo não usa a insulina de maneira eficiente ou há pouca produção do hormônio, aumentando o nível de açúcar circulando no sangue.

A partir das análises, constataram-se cerca de 16.300 mortes por diabetes 1 e 2 somadas no mundo no ano de 2019, com 73% sendo diabetes tipo 1 e 27% diabetes tipo 2. Os resultados intrigaram os pesquisadores devido ao fato de que a maior parte dos falecimentos poderiam ser facilmente evitados caso houvesse acesso gratuito ou facilitado à insulina – invenção cuja descoberta completou 100 anos em 2021 – e oferta de cuidados básicos em saúde.

Em relação às variações por região, os cientistas observaram que quanto menor o índice sociodemográfico do país maior a mortalidade por diabetes na população jovem: 97% dos casos são de países de baixa e baixa-média renda. Os países com os piores resultados são: Indonésia, Papua Nova Guiné e Brunei (sudeste da Ásia), Moçambique e Zimbábue (sul da África), Haiti (América Central) e Venezuela e Paraguai (América do Sul).

Também há países que melhoraram seus índices nos últimos 30 anos: entre as nações de baixa renda, a Etiópia reduziu os casos em 52%; Camboja (baixa-média renda), em 51%; e Cuba (média renda) reduziu em 64%. Em comparação com países de alta renda, os países citados possuem quase quatro vezes mais mortes de jovens por diabetes.

Importância de sistemas públicos de saúde

No Brasil, observou-se uma diminuição de 74,5% nas mortes por complicações agudas – categoria que inclui a diabetes – em pessoas com menos de 40 anos de 1991 a 2010 após a implantação do Sistema Único de Saúde (SUS), com a disponibilização gratuita de insulina e crescimento da Atenção Primária em Saúde. Para Ewerton Cousin, doutor em Epidemiologia pela UFRGS e um dos autores do trabalho, o padrão brasileiro deve ser utilizado como referência por países de baixa e baixa-média renda.

“A insulina foi patenteada para ser distribuída no mundo todo de maneira igual. Mas não são todos os países que têm condições de bancar o custo para todos os seus cidadãos”, comenta Ewerton. “Temos que levar em conta qual o custo do governo ou se cada um tem que pagar do próprio bolso, como nos Estados Unidos, que é um país muito rico cujo governo quer baixar o custo da insulina para cada cidadão, para que as pessoas consigam ter acesso”, completa. 

A professora da Faculdade de Medicina da UFRGS e coautora Maria Inês Schmidt defende que também são necessárias melhorias no sistema de mortalidade nos países de péssimos indicadores, já que a falta de informações no obituário é recorrente. Há problemas que vão desde a inexistência de dados sobre o tipo exato da diabetes (1 ou 2) até a falta de informações para caracterizar o óbito, atrapalhando a qualidade de dados.

Bruce Duncan, também professor da Faculdade de Medicina da UFRGS e coautor do trabalho, ainda diz que não há dados o suficiente para cada país e cada doença atualizados por ano e que há lacunas em algumas informações. “Muitas vezes o paciente morre numa situação onde o médico que o atendia durante a vida não está presente [no preenchimento do obituário]”, comenta o professor. Como o médico que preencheu o obituário não sabe o tipo de diabetes do paciente, acaba registrando a informação incompleta.

Diagnóstico na juventude

Maria alega que de 30% a 50% das crianças com diabetes tipo 1 só são diagnosticadas quando entram em coma e pelo fato de os sintomas piorarem rapidamente. As características iniciais do diabetes tipo 1 são sentir sede excessiva e vontade de urinar com mais frequência. Em poucos dias, o quadro pode evoluir para cetoacidose diabética, uma complicação aguda grave.

No caso do diabetes tipo 2, o diagnóstico é ainda mais difícil de ser feito, devido à falta de sintomas. “Existe uma regra geral que diz que 50% dos pacientes com diabetes tipo 2 não sabem que estão doentes”, comenta a professora. “Nos países com melhores recursos financeiros, esses números melhoram”, acrescenta.

Para evitar complicações da doença, a professora diz que o diagnóstico precoce é fundamental. Ela sugere que, no caso da diabetes tipo 1, é necessário que pais e profissionais das escolas saibam identificar os sintomas iniciais da doença. No caso do diabetes tipo 2, cujos sintomas são mais leves, a prevenção se dá pela combinação de atividade física no dia a dia e alimentação saudável e balanceada.

Receios do impacto da covid

Por ser um estudo que utilizou um recorte até 2019, os dados acabaram não incluindo a influência da pandemia de covid-19 na pesquisa. Ewerton conta algumas ideias para estudos futuros, mencionando os seguintes questionamentos:

“Qual foi o efeito da covid?, Aumentou a incidência de diabetes?, Teve efeito na cadeia de distribuição da insulina?, Como foi o impacto para as pessoas que tiveram menos acesso ao atendimento, ao cuidado básico?”

Ewerton Cousin

A ideia é analisar como os países de baixa renda se comportaram nesse período e examinar como foi o impacto na cadeia de produção e distribuição da insulina – já que há países que dependem de importação do remédio. Outro aspecto que chama a atenção dos pesquisadores é que estudos recentes têm mostrado uma relação entre covid-19 e diabetes. Bruce ressalta que o risco de diabetes aumenta em 40% para pessoas que contraíram covid-19, complementando que o mundo não está capacitado para lidar com o aumento na incidência da doença. Se o estudo publicado na Lancet mostrou a dificuldade de tratamento de pacientes que já possuíam a doença, agora existem novos casos derivados da pandemia, fazendo com que a pesquisa futura sobre o assunto seja praticamente inevitável, completa Maria Inês.