Estudo investiga reflexo da covid-19 no aleitamento materno e na alimentação complementar em bebês

Saúde materno-infantil | Pesquisa aponta que a pandemia e o distanciamento social foram fatores de risco para o aleitamento materno

*Foto: Peter Illiciev/Fiocruz

Um estudo apresentado no último Salão de Iniciação Científica (SIC) apresentou dados relevantes a respeito do aleitamento materno e do oferecimento de alimentação complementar a bebês no contexto da pandemia de covid-19. A pesquisa avaliou três desfechos – a interrupção do aleitamento materno, o aleitamento materno exclusivo aos seis meses do bebê e a introdução da alimentação complementar antes dessa faixa etária – em períodos antes e durante a pandemia. A partir de entrevistas com 395 puérperas (mulheres que deram à luz há pouco tempo) atendidas na maternidade do Hospital de Clínicas de Porto Alegre entre os anos de 2019 e 2021, as pesquisadoras observaram que a pandemia representou um fator de risco para o aleitamento materno.

Os resultados encontrados indicam que, das mulheres entrevistadas que amamentavam seus filhos antes da pandemia, 69,4% delas mantiveram a amamentação durante a covid-19; a porcentagem das que mantiveram o aleitamento materno exclusivo aos seis meses durante a pandemia caiu para 31,9% quando comparada aos índices do período pré-pandêmico.

No geral, as mulheres entrevistadas durante o período de distanciamento social apresentaram risco 34% menor de ofertar alimentação complementar antes do sexto mês de vida da criança em comparação com os dados de antes da pandemia. Mães que seguiram trabalhando fora de casa nesse período, contudo, tiveram um risco 24% maior de não estar amamentando de forma exclusiva aos seis meses e 64% maior de iniciar a alimentação complementar antes do sexto mês de vida.

Fator protetor versus fator de risco

A bolsista de Iniciação Científica e estudante de Nutrição pela UFRGS Dulce Zuchini, que trabalhou no projeto, destaca as diferentes percepções que teve no início e durante o desenvolvimento do estudo. “Achávamos inicialmente que a pandemia seria um fator protetor, mas foi, na verdade, mais um fator de risco. O período aumentou a incidência das mulheres que não conseguiram amamentar exclusivamente até os seis meses, pelo menos se comparado com o grupo pré-pandemia”. Por outro lado, o trabalho remoto acabou se tornando um fator protetor para as mulheres que não precisavam sair de casa, nos tópicos de aleitamento exclusivo e na introdução da alimentação complementar em tempo oportuno.

A estudante destaca que os dados produzidos no seu trabalho são preliminares e alega que podem servir de precedente para futuros estudos maiores, usando essas amostras como base de referência. Ela ressalta que o mais urgente é promover informação sobre amamentação e incentivos da sociedade ao aleitamento. “Muitas dessas informações foram perdidas por causa do medo e da falta de comunicação, inclusive sobre o aleitamento. Elas ficaram com medo que [a covid-19] fosse transmissível também pelo leite materno”, comenta. Orientadora de Dulce, a professora do departamento de Nutrição da UFRGS Michele Drehmer complementa a necessidade de se terem atendimentos presenciais nos serviços de saúde para melhorar os atendimentos a gestantes e puérperas.

Mudança de planejamento

A primeira versão do trabalho consistia em entrevistas presenciais nos hospitais para avaliar temas relacionados ao pré-natal e à assistência nutricional dessas mulheres. Um dos principais objetivos era tentar entender quais associações poderiam ser vinculadas aos desfechos perinatais, como, por exemplo, se o peso da criança influenciou no período inicial da amamentação. Dulce conta como foi preciso trocar os métodos utilizados no trabalho após o início da pandemia. “Não conseguimos mais manter contato [com as entrevistadas] por causa da segurança das mães e de seus filhos. Então demos continuidade com novas estratégias e com um novo questionário com questões sobre os fatores da covid-19, para entendermos o que isso estaria impactando nas práticas de amamentação”, explica a bolsista. Novas perguntas sobre fatores de risco, como a necessidade de a mãe trabalhar fora de casa durante a pandemia e se a mulher teve covid-19, foram adicionadas. A partir disso, os contatos foram retomados virtualmente, por WhatsApp e redes sociais, agora com outro foco principal adicionado. 

A nutricionista Bruna Holand, doutoranda do PPG em Epidemiologia que também participou do projeto, destaca a importância de envolver o contexto da pandemia na pesquisa, alegando que há poucos estudos publicados sobre o aleitamento materno e suas prevalências. Já Michele ressalta que não seria possível ‘fechar os olhos para a pandemia’ e não a incluir no trabalho de Dulce como desfecho principal, no qual se construiu uma relação com a avaliação do aleitamento materno até o sexto mês e com a introdução precoce da alimentação para o bebê. “As práticas de amamentação não são apenas questões biológicas, tem todo um envolvimento familiar e com o sistema de saúde. Sabíamos que essas mulheres no puerpério seriam afetadas porque elas estavam mais em casa, as consultas foram desmarcadas, não houve um seguimento normal das puérperas como era feito no pré-pandemia. Então por si só [a pandemia] já era um fator de risco ou de proteção que queríamos avaliar”, completa a orientadora.

Brasil como nova casa e a pesquisa como carreira

Para Dulce, ser bolsista de Iniciação Científica possibilitou uma prática mais aperfeiçoada em sua área de atuação e a permitiu ver que a área acadêmica combina com o seu perfil. Nativa da Guatemala, a estudante conta quais foram as motivações que a fizeram encontrar a UFRGS como destino de aprendizado e o Brasil como o país para se desenvolver tanto profissional quanto pessoalmente. “Vim pela qualidade do estudo que se oferece, graças às universidades federais que existem no Brasil, que não tem em todo lugar, como não há na Guatemala ou nos Estados Unidos”, comenta a estudante. É graças ao caráter público e gratuito da UFRGS – diferente das instituições guatemaltecas ou estadunidenses pelas quais passou – que ela pode se dedicar integralmente aos estudos, afirma.

Além da pesquisa sobre aleitamento materno, Dulce também integra o Núcleo de Estudos da Obesidade e Comportamento Alimentar (NEOCA), no qual investiga comportamentos alimentares na pandemia.

“Me dei conta de que gosto dessa área, então, profissionalmente falando, eu descobri um pouco dessa parte pesquisadora em mim. Quero fazer o mestrado no futuro, continuar nessa área. O meu planejamento de carreira é seguir na área acadêmica. Eu quero muito fazer pesquisa, continuar viajando, estudando e aprendendo idiomas. Eu quero aprender o máximo possível”

Dulce Zuchini

Michele se mostra contente com o desenvolvimento gradual e o desempenho de Dulce na pesquisa. “É muito legal essa interação com os estudantes estrangeiros, com essa questão da mobilidade acadêmica, onde os nossos alunos também ganham essa experiência lá fora. A vinda da Dulce para cá foi enriquecedora, porque fizemos essa troca cultural, onde todo mundo sai ganhando. Gostamos muito dela durante o período em que ela foi nossa bolsista, teve uma participação muito ativa”, complementa a professora.