Irracionalidade e comportamento no Nobel de Economia

Professor da Faculdade de Ciências Econômicas da UFRGS explica o que é a economia comportamental e suas implicações nos campos econômico e político

ilustração do rosto de Richard Thaler
Richard Thaler recebeu o Nobel de Ciências Econômicas pelo seu trabalho na área de economia comportamental - Ilustração: Niklas Elmehed/The Nobel Foundation

O professor da Universidade de Chicago Richard Thaler recebeu, em 2017, o Prêmio de Ciências Econômicas em Memória de Alfred Nobel pelo seu trabalho na área de economia comportamental. O economista de 72 anos une psicologia e economia para analisar o consumo e investigar como a limitação da racionalidade, as preferências sociais e a falta de autocontrole afetam as decisões individuais. Utilizando a economia experimental para dar suporte a suas pesquisas, Thaler realizou uma série de testes para tentar avaliar o comportamento dos agentes.

O professor da Faculdade de Ciências Econômicas da UFRGS Marcelo Milan explica que a economia comportamental contraria em vários pontos a forma como a corrente mais tradicional da área entende o consumo dos indivíduos. “Todo o pensamento econômico, desde o início do século 20, foi voltado para tirar a psicologia da economia e criar um agente econômico racional que não tem paralelo no mundo real. Aquele tipo de comportamento não é o que as pessoas mostram nas suas decisões econômicas cotidianas”, comenta.

Um dos pontos em que as áreas divergem é no pressuposto da racionalidade, segundo o qual as pessoas irão sempre considerar todos os fatores e as consequências envolvidas antes de uma decisão financeira. Segundo Milan, a economia comportamental surge para desafiar essa suposição irrealista do comportamento racional das pessoas. Em sua pesquisa, Thaler trabalha as limitações da racionalidade e acrescenta o conceito da contabilidade mental, no qual os indivíduos criam compartimentos mentais para cada tipo de gasto, o que impossibilita uma análise do todo. Por exemplo, se o preço da gasolina cair, os economistas convencionais preveem que as pessoas colocarão a mesma quantidade do produto, haverá uma sobra de dinheiro e elas irão gastar em outro produto ou guardar. Mas em vez disso, segundo o experimento de Thaler, os indivíduos usarão o dinheiro extra para comprar gasolina premium. Isso ocorre porque aquele gasto já está compartimentado na mente delas.

Conforme a economia tradicional, as pessoas irão poupar seu dinheiro e o que tiverem de ganho extra não será necessariamente gasto. Logo, as variações na renda serão incorporadas de tal forma que o plano de vida das pessoas não se altera muito. Entretanto, a economia comportamental revela que os indivíduos tendem a cair na tentação em curto prazo e gastar em coisas do presente antes de pensar no futuro. “As pessoas descontam presente e futuro de forma muito diferente, as decisões que estão lá na frente tendem a ter um peso muito pequeno em relação à decisão hoje. Isso vai ter uma implicação, por exemplo, na capacidade ou no desejo das pessoas de acumular riquezas hoje para o futuro. Assim, elas poupam menos do que seria desejável”, justifica Milan.

Outro ponto em que a pesquisa de Thaler diverge da economia clássica se refere ao senso de justiça que ele observou nos consumidores. Ainda que uma transação faça sentido nos parâmetros tradicionais, as pessoas não a efetivarão se a considerarem injusta. Os vendedores de guarda-chuva, por exemplo, não podem aumentar demais o preço dos seus produtos durante uma chuva, porque os clientes poderiam considerar uma extorsão, mesmo que seja um bem necessário naquele momento.

No jogo do ditador, que é um dos experimentos do laureado, forma-se um grupo e seleciona-se um dos membros para receber e distribuir uma quantia de dinheiro entre os demais integrantes. A distribuição pode ou não ser desigual, mas as outras pessoas podem vetar a decisão do “ditador” e, assim, ninguém ganha nada. A experiência mostrou que as pessoas preferem não receber nada a ter uma distribuição desigual, o que não faz sentido para a economia tradicional.

Segundo Milan, a grande façanha de Thaler em seu trabalho foi encontrar racionalidade em toda essa irracionalidade dos consumidores. Em outras palavras, as decisões que são consideradas irracionais pela economia tradicional seguem certo padrão, podendo ser previstas. “Essas pessoas se afastam desse postulado da racionalidade, mas de uma forma previsível. Então se sabe o que vai acontecer em determinadas situações, não de acordo com o que a economia convencional prevê, mas de acordo com a economia comportamental”, explica.

A economia comportamental tem implicações enormes no campo da política. Ao estabelecer que as pessoas não vão realizar todos os cálculos antes de uma decisão, a área percebe comportamentos como o da inércia, em que as pessoas em geral irão realizar as ações da forma mais passiva que puderem. O que for padrão, será mantido. Por exemplo, caso a política de doação de órgãos de um país preveja que toda a população não é doadora e que, para doar, é necessária uma manifestação da pessoa, a maioria não irá se colocar como doadora. O contrário também ocorre, a ponto de países como França e Portugal alterarem suas leis para que todos os cidadãos sejam possíveis doadores. “Isso tem um impacto econômico enorme. Se a gente diz que isso não faz sentido, perde a possibilidade de ter uma política que vai proporcionar um efeito positivo, um efeito significativo simples, e ditar que a economia deve ser feita de uma determinada forma e não de outra”, enfatiza o professor.

 

Histórico da economia comportamental

Outros pesquisadores já questionaram os modelos da economia convencional antes. Daniel Kahneman, psicólogo vencedor do prêmio Nobel de Economia em 2002, já trabalhava com a economia comportamental e a tomada de decisão. Robert Shiller, que recebeu o prêmio em 2013, é considerado um dos pais das finanças comportamentais. Pesquisadores como Kahneman consideram que as vertentes convencional e comportamental são complementares e que, no futuro, tendem a trabalhar juntas.

Milan discorda, porque as considera modelos completamente diferentes sobre como as pessoas se comportam e também porque percebe os economistas sendo muito fechados às mudanças. Quando se descobre algo inconveniente para o modelo tradicional, os economistas tendem a ignorá-lo e manter seu paradigma. “No campo das finanças comportamentais isso é claro: autores que trabalham com a questão das finanças pela vertente convencional rejeitam a economia comportamental e as finanças comportamentais. Eles acreditam que não faz sentido que as pessoas se comportem irracionalmente na maior parte do tempo” relata.

 

Leia também:

PECH, Wesley; MILAN, Marcelo. Inflação, Desemprego e Bem-Estar: uma avaliação comportamentalista do regime de metas de inflação. Revista Paranaense de Desenvolvimento – RPD, v. 36, n. 128, jun. 2015.

PECH, Wesley; MILAN, Marcelo. Behavioral economics and the economics of Keynes. The Journal Of Socio-economics, v. 38, n. 6, dez. 2009.

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