O que você está sonhando durante a pandemia?

Pesquisadores da UFRGS investigam o que profissionais de saúde e educação sonham nesse período de distanciamento social

René Magritte, Décalcomanie, 1966, © Photothèque R. Magritte / Banque d’Images, Adagp, Paris, 2016

Quem faz ou já fez psicoterapia – especialmente a de orientação psicanalítica – sabe que os sonhos podem ser um rico material de análise e discussão durante as sessões. Muitas vezes, eles nos mostram algumas impressões e percepções que a nossa consciência, por diversos motivos, não consegue processar ou reconhecer. No entanto, além das nossas questões pessoais, aspectos da sociedade e dos tempos em que estamos vivendo também podem aparecer nos nossos sonhos.

A partir disso, pesquisadores do Programa de Pós-Graduação em Psicanálise: Clínica e Cultura, da UFRGS, construíram um projeto que investiga o que profissionais de saúde e educação estão sonhando em tempos de pandemia do novo coronavírus. O estudo é desenvolvido em três estados, em parceria com a Universidade de São Paulo (USP) e a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Na UFRGS, o trabalho  é coordenado pelas professoras Rose Gurski e Cláudia Perrone, do Núcleo de Pesquisa em Psicanálise, Educação e Cultura (NUPPEC).

As pesquisadoras destacam que, para a psicanálise, o sujeito se constitui na fronteira entre a psicologia individual e a social; nesse sentido, o inconsciente, essa instância “responsável” pelos nossos sonhos, não está isolado do contexto histórico e social em que vivemos. Por isso, o sonho é uma espécie de “radar” que consegue apreender aquilo que não dizemos ou não elaboramos na nossa experiência social.

Exatamente por esse motivo, outras pesquisas semelhantes foram desenvolvidas em outros lugares do mundo e em outras épocas: uma das inspirações da pesquisa é o livro “Sonhos do Terceiro Reich”, de Charlotte Beradt. Na obra, a jornalista alemã relata 300 sonhos de alemães entre 1933, ano em que Hitler assume o poder na Alemanha, e 1939, quando eclode a Segunda Guerra Mundial. Outra inspiração é a pesquisa da psicoterapeuta Martha Crawford, que coleta sonhos de norte-americanos sobre Donald Trump. “Com esses exemplos, podemos perceber que a luta social e política é travada não apenas na arena pública, mas também no espaço mais íntimo de cada sujeito”, explicam.

As docentes relatam que o Núcleo tem tentado, há alguns anos, levar a psicanálise para além dos consultórios e inseri-la em projetos de extensão, conectando universidade e sociedade. Agora, com a pandemia, os pesquisadores perceberam que dois grupos estavam com a saúde mental particularmente fragilizada: os profissionais de saúde, por estarem trabalhando na linha de frente e se expondo ao vírus, e os educadores de diferentes níveis de ensino, por se verem obrigados a criar novas maneiras de ensinar a distância, muitas vezes de forma “improvisada”.

As pesquisadoras trabalham com a noção de pesquisa-intervenção, ou seja, ao narrar seus sonhos, os sujeitos que participam do estudo podem elaborar uma tentativa de construção de algum sentido para o que está acontecendo. “Podemos provocar a imaginação coletiva em busca de interpretações e, ao mesmo tempo, ajudar minimamente aqueles que estão participando”, afirmam as coordenadoras do estudo no RS.

Primeiras percepções

O projeto está em fase de coleta de sonhos, que deve se estender até o final de junho. Neste primeiro momento, os pesquisadores têm se reunido (de forma online) para discutir o material e os textos escolhidos para fundamentação teórica. É possível, entretanto, ter algumas percepções: “Nos relatos que estamos recebendo, temos registros de sonhos em que os sujeitos estão visivelmente afetados por imagens de morte, destruição e pelo próprio receio de adoecer em função do vírus”. Outro aspecto que se pode identificar é que muitas pessoas falam sobre o assunto: até agora, 400 pessoas fizeram contato com interesse em participar da pesquisa e mais de 160 enviaram relatos de sonhos – a maioria dos participantes é do gênero feminino.

Falas como “normalmente não lembro dos meus sonhos, mas ultimamente tenho me lembrado” e “gostei de escrever sobre o sonho, fiz associações que não tinha feito antes” têm aparecido com frequência nos relatos que os pesquisadores receberam até o momento. As professoras apontam que os participantes parecem estar mais atentos a essa dimensão, seja porque estão sonhando mais, seja porque estão se lembrando mais dos sonhos. “É como se estivessem criando outra forma de se relacionar com os sonhos, como se essa relação pudesse se prolongar em associações que vão para além do costumeiro momento de acordar após um sonho, estranhar-se momentaneamente e seguir a vida”, explicam Cláudia e Rose. “Por outro lado, os relatos dos participantes sugerem, ainda, que o próprio fato de poder falar sobre os sonhos com outra pessoa também pode, de alguma forma, apaziguar esse estranhamento que eles, às vezes, causam”, acrescentam.

Como participar 

Profissionais de saúde ou de educação que queiram participar da pesquisa podem escrever para o e-mail oniropolitica@gmail.com e seguir as instruções que serão enviadas pelos integrantes do projeto. Além dos relatos, os participantes da pesquisa podem contar as associações que fazem entre os sonhos que tiveram e pensamentos ou situações vivenciadas, por exemplo. Os relatos podem ser feitos por escrito ou por voz.

Pesquisa em parceria

O estudo envolve professores e estudantes de graduação e pós-graduação de três universidades: UFRGS, USP e UFMG. Em São Paulo, os professores Christian Dunker e Miriam Debieux Rosa, do Instituto de Psicologia da USP, coordenam o projeto; em Minas Gerais, a coordenação é do professor Gilson Iannini, do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFMG.

Você pode gostar...