Trabalho analisa ocorrências e impactos de invasões de plantas exóticas em zona rural de Viamão

Ecologia | Espécies invasoras ocupam cerca de um terço de área estudada dentro do Refúgio de Vida Silvestre Banhado dos Pachecos, em Viamão, impactando na flora e fauna locais

*Foto: Campo nativo do Refúgio de Vida Silvestre Banhado dos Pachecos (Lua Cezimbra/Divulgação)

Uma pesquisa da UFRGS investiga e avalia formas de conter uma proliferação biológica de plantas invasoras no ecossistema de uma unidade de conservação da região do Refúgio de Vida Silvestre Banhado dos Pachecos, localizado em área rural de Águas Claras, em Viamão (RS). As plantas, consideradas exóticas por não serem nativas da região, ocupam hoje cerca de um terço dessa área e ameaçam espécies do local, principalmente o mamífero roedor tuco-tuco (Ctenomys lami) e a ave curiango-do-banhado (Eleothreptus anomalus), com risco de alterar os padrões ecossistêmicos. 

A invasão da área por espécies exóticas já é conhecida por pesquisadores há alguns anos, mas ainda faltam mais estudos sobre o problema. Assim, em 2019, a bióloga Lua Cezimbra abordou o tema no seu trabalho de conclusão de curso em Ciências Biológicas na Universidade, com orientação de Ana Porto e Gerhard Ernst Overbeck. Os resultados foram publicados na revista Oecologia Australis. Hoje a pesquisadora segue estudando a temática no mestrado em Botânica pela UFRGS.

Após obter liberação da Secretaria Estadual do Meio Ambiente e Infraestrutura (Sema), no TCC Lua analisou amostras, documentou e analisou o quão invadida e afetada foi essa unidade de conservação. Ela conta que, após reconhecimento do local, foi feita uma delimitação dentro dos 27 hectares totais para a coleta de dados em 31 pontos específicos da área de estudo escolhidos de forma sortida. 

A unidade de cada amostra da vegetação equivale a 1m², estimando-se todas as espécies presentes dentro de cada uma delas. Para as amostras, são calculadas as porcentagens de solo descoberto e de mantilho (camada formada da decomposição de plantas, principal via de retorno de nutrientes ao solo) e a altura da vegetação. Graças a essas etapas, é possível definir se a invasão das gramíneas está impactando o ecossistema local. Também são feitas as identificações botânicas da região para que se possua a lista completa das espécies a serem estudadas. 

Um dos maiores motivos da invasão se deve à ação humana no cultivo de plantas não nativas para pasto de gado, como a braquiária (Urochloa decumbens), que encontrou no local condições favoráveis à sua reprodução, pois não necessita de muitos nutrientes e se adapta bem ao clima. Capim-pangola (Digitaria eriantha subsp. pentzii) e capim-gafanhoto (Melinis repens) também se destacam entre as espécies invasoras.

Os resultados da pesquisa mostram que é grande o nível de impacto no local, com 12 das 27 amostras estudadas completamente invadidas pelas gramíneas exóticas, 13 moderadamente invadidas e 6 sem invasões. Ao total, foram encontradas 117 espécies distribuídas em 24 famílias botânicas diferentes no local, considerado um número comum para a região. Na área altamente invadida, há poucos registros de espécies nativas – e a que mais domina é braquiária, que cobre cerca de 80% da área. Na área não invadida, a pesquisadora observou a presença de diversas espécies, com predominância de espécies da família Asteraceae. A partir de observação via Google Earth, a pesquisadora estimou que cerca de 1/3 da área estudada está totalmente invadida pelas espécies exóticas.

Imagem obtida pela pesquisadora que demonstra a extensão da área fortemente invadida por espécies exóticas

Também foi percebida uma alteração na composição da forma de vida dos grupos funcionais (principal conjunto de espécies responsáveis por disponibilizar recursos para a fauna e flora local), classificados como gramíneas, ervas, subarbustos e arbustos. Quanto maior for a invasão, maiores são as alterações nessas espécies, impactando negativamente no ecossistema estudado devido à perda de recursos sofridos por esses grupos. 

“O importante nesse trabalho é mostrar que nas unidades de conservação existem problemas com invasores e que é muito difícil lidar com eles. Ter um estudo que mostra o impacto facilita depois para os gestores poderem fazer algum trabalho a partir desses dados. O estudo evidencia o impacto e proporciona uma base para desenvolver projetos de restauração ecológica posteriormente”

Lua Cezimbra
Continuidade do estudo terá como foco a restauração do local

Projetando seu futuro acadêmico, Lua assegura que seguirá no seu mestrado atual com um desenvolvimento da restauração do local e alega que é um processo que deverá se estender ao longo dos anos, impossibilitando que a área possa ser completamente recuperada durante seu tempo no curso. Um dos objetivos da mestranda é conseguir opções de inserção de espécies nativas para o local.

O Refúgio atualmente conta com dois projetos de restauração prontos para serem iniciados. “Temos poucos estudos de restauração ecológica nos campos no Rio Grande do Sul. A nossa parte, a parte que o pessoal da UFRGS fará, será com unidades experimentais para testar os controles de braquiária, para descobrirmos quais métodos serão os mais efetivos contra essa espécie”, conta Lua sobre os próximos passos. Junto a isso, recentemente a SEMA aprovou um projeto com empresas de reposição florestal para fazer a recuperação dessa área.

A área prioritária de preservação no campo seco do Refúgio possui um campo bem preservado com pontos específicos de invasão, sendo essa a parte a ser trabalhada por Lua no primeiro momento. Após o controle ser realizado, deverá ser observado o avanço da vegetação nativa do local nas áreas onde o controle da gramínea obteve sucesso. A ideia também é realizar testes com plantações de sementes, conferindo se há condições de vida para essas sementes.

“O que eu acho interessante desses trabalhos é que eles têm um viés prático, que a gente oferece possibilidades para os gestores das unidades de conservação seguirem o trabalho”, comenta a pesquisadora. “Esse trabalho precisa ser constante dentro das unidades de conservação, com os gestores fazendo o controle e a manutenção da invasora”, completa.