Pesquisa elabora mapeamento inédito do setor da dança no estado

Mulheres, pessoas brancas, solteiras e com escolaridade elevada: a maioria dos profissionais da dança no Rio Grande do Sul se enquadra nessas categorias. É o que revela pesquisa que mapeou os dançarinos, coreógrafos, iluminadores e músicos que trabalham com dança no estado. Ainda assim, o mapeamento mostra que existe diversidade no setor: não apenas no perfil dos profissionais, mas também nos ritmos trabalhados por eles. A pesquisa também revelou que 39% dos profissionais respondentes vivem com um salário mínimo e 30% com até dois. Nesse contexto, a pandemia de covid-19 também provocou um impacto profundo: 80% tiveram que suspender ou reduzir suas atividades, o que resultou em perdas na renda nesse período.

Interessadas em compreender como essa população se distribui pelo estado e qual é a sua dimensão, pesquisadores e profissionais de 19 entidades se uniram para elaborar o Mapeamento da Dança no RS. A pesquisa teve como objetivo traçar o perfil socioeconômico de quem vive da dança e dos espetáculos no Rio Grande do Sul e suas situações de trabalho e renda. Com o mapeamento, também foi possível estabelecer hipóteses sobre o impacto da pandemia sobre o setor.

Para Luciana Paludo, professora do curso de Licenciatura em Dança e do Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da UFRGS e porta-voz da pesquisa, o impacto deste trabalho vai além de obter dados. Foi possível analisar a identificação dos profissionais com a categoria a partir da perspectiva de seu trabalho. “Podemos compreender a situação em que as pessoas vivem com a dança e como elas conseguem se narrar”, declara.

O mapeamento é uma demanda antiga da categoria. O Plano Setorial de Dança do RS, publicado em 2014, já previa a realização de “pesquisa de campo, levantamento e análise de dados sobre a dança e sua diversidade” nos municípios gaúchos. No entanto, o levantamento foi realizado a partir de um esforço coletivo, liderado por um conjunto de universidades. “Essa pesquisa só foi viável em função do acolhimento do setor”, declara Maria Falkembach, professora de Dança na Universidade Federal de Pelotas (UFPEL).

Impactos da pesquisa

Os dados coletados permitem embasar demandas do setor por políticas públicas e tangenciar parâmetros para a elaboração de fundos e editais no futuro. Entretanto, as pesquisadoras reconhecem que a realização do mapeamento provocou ecos em outros âmbitos para os profissionais e para a academia. Também foi possível reconhecer a identidade do setor no estado e perceber a multiplicidade de gêneros de dança presentes no território gaúcho. De acordo com as professoras, o mapa permite situar o Rio Grande do Sul como um lugar de diversidade e de coletividade no âmbito da dança. “Existe um impacto do grupo que é de uma imersão no campo, de nos reconhecer, de reconhecer as diversidades e de dar importância para cada ponto”, assevera Maria. 

O mapa também é uma ferramenta para gerar identificação dos profissionais com a categoria. “Muitas vezes, as pessoas longe das capitais não se pensam enquanto coletividade. Quando for evidente para mais pessoas, vamos nos fortalecer enquanto classe trabalhadora”, considera Luciana. O reconhecimento de que fazem parte de um coletivo maior também se dá por meio da divulgação de um banco de dados público, com a autorização dos participantes, contendo nomes, contatos e outras informações que permitem a organização dos profissionais em rede.

Para Luciana Paludo, a pesquisa é, também, uma ferramenta de autoafirmação para os profissionais e para a academia. “Uma das principais razões desse mapeamento é a legitimação desse trabalho. Ainda tem essa estranheza da dança em um espaço acadêmico”, aponta.

Metodologia 

Luciana Paludo e Maria Falkembach, professoras das universidades federais, transitam entre a área acadêmica e a cena artística. Já no início do ano passado, perceberam o impacto que a pandemia poderia ter no setor. Sem financiamento, elas canalizaram o tempo do início da pandemia (abril de 2020), em que as aulas estavam suspensas, para mobilizar parcerias e elaborar a pesquisa. 

Para as pesquisadoras, um ponto central da pesquisa é ela ter sido elaborada a partir do ponto de vista de artistas, portanto parte das demandas da classe trabalhadora, e não de uma perspectiva economicista ou sociológica. De acordo com Luciana, esse aspecto foi definidor da metodologia: “artista é produtor, e tem, no seu dia a dia, uma forma de fazer pesquisa, então fomos usando essas habilidades que cada um tinha”, declara. Ela relata que foram várias etapas de elaboração e de readequação da linguagem e de divulgação. “É a lógica do aprender fazendo. As regras se fazem enquanto a gente opera”, explica Luciana. 

Entre as dificuldades encontradas pelos pesquisadores, estava a de fazer os trabalhadores aderirem à pesquisa, uma vez que muitos não se reconhecem enquanto profissionais – 6 em cada 10 dançarinos desenvolvem atividades fora do campo da dança. “Queríamos que fosse acessível para todas as pessoas da dança para que não criássemos, dentro da pesquisa, uma exclusão”, ressalta Maria. Para amplificar a pesquisa, o trabalho foi divulgado por profissionais como a bailarina Ana Botafogo e do coreógrafo Carlinhos de Jesus, além de ter sido feita uma busca ativa em cada uma das 27 regiões de municípios gaúchos. 

Além de fornecer dados para que a classe cobre políticas públicas, o Mapa da Dança do RS cumpre um papel de vanguarda na pesquisa. É um projeto-piloto que poderá servir como modelo para outros estados. “O mapeamento é, antes de tudo, uma ação educativa. Ao ler aquelas perguntas, a pessoa vai refletir sobre sua situação social enquanto trabalhadora da dança”, aponta Luciana.

Entidades participantes 

Para a realização da pesquisa foi fundamental o engajamento de associações profissionais e coletivos de artistas. Participaram da pesquisa: Articula Dança RS, Associação Gaúcha de Dança (Asgadan), Associação de Circo do Rio Grande do Sul (Circo Sul), Articulação de Trabalhadores das Artes da Cena pela Democracia e Liberdade (ATAC), Colegiado Setorial de Circo RS, Colegiado Setorial de Dança RS, Fórum de Ação Permanente pela Cultura, Fórum Permanente de Cultura de Pelotas e Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do Estado do Rio Grande do Sul (SATED-RS).

Entidades públicas municipais e estaduais também prestaram apoio: Centro Municipal de Dança (CMD) de Porto Alegre, Conselho Estadual de Cultura do RS, Federação das Associações de Municípios do Rio Grande do Sul (Famurs), Secretaria da Cultura do Rio Grande do Sul, (Sedac-RS), Secretaria de Planejamento, Governança e Gestão do Rio Grande do Sul (Seplag-RS).

Entre as instituições de ensino superior, a Universidade de Caxias do Sul (UCS), Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS), Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) colaboraram para a pesquisa.