Pesquisadores da UFRGS demonstram que a esquistossomose causa danos cerebrais similares ao Alzheimer

Pesquisadores do Centro de Estudos em Estresse Oxidativo (CEEO), em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), descobriram que as inflamações causadas pela esquistossomose ocasionam um dano cerebral similar a doenças neurodegenerativas como o Alzheimer. O laboratório da UFRGS estuda mecanismos bioquímicos que atuam nas causas da neurodegeneração em doenças como Parkinson e Alzheimer, e já identificou uma proteína que atua no início dos processos de neurodegeneração

O estudo, publicado no Journal of Biological Chemistry, pode ser o ponto de partida para outras análises sobre o impacto da esquistossomose no sistema nervoso, bem como possibilidades de tratamento desses efeitos. A doença é uma parasitose tropical causada pelo esquistossomo (Schistosoma mansoni) e é considerada uma “doença negligenciada”, por ser provocada por agentes infecciosos ou parasitas e considerada endêmica em populações de baixa renda. As relações entre esses dois processos deram origem ao que os pesquisadores chamam de “neurodegeneração negligenciada”.

Processo e resultados

A pesquisa é resultado de uma articulação que começou em 2013, quando a Fiocruz estudava o Schistosoma mansoni e a equipe do CEEO pesquisava as doenças neurodegenerativas. O professor do Departamento de Bioquímica da UFRGS e coautor da pesquisa Daniel Pens Gelain explica que há lacunas na literatura sobre essas doenças, mas que outra motivação para a realização do estudo são os estigmas que recaem sobre pessoas afetadas por parasitoses, como falta de ânimo e de força de vontade. “Fiquei pensando se não havia alguma questão cognitiva, então começamos a pensar em um projeto para responder essa questão”.

Inicialmente, os testes tiveram uma perspectiva exploratória: analisaram os órgãos tradicionalmente envolvidos nesta parasitose (baço, intestino e fígado) e compararam com parâmetros de funcionamento do cérebro, pulmão e coração, que não são classicamente estudados. Os testes com os camundongos foram realizados na Fiocruz e as amostras, analisadas na UFRGS.

O objetivo era entender a doença da perspectiva do hospedeiro, e não do parasita. Foi possível, então, fazer um levantamento de danos causados por estresse oxidativo dano causados às células quando há excesso de radicais livres . Os pesquisadores estudaram proteínas específicas que aumentam sua expressão quando há doenças degenerativas como Parkinson e Alzheimer — a proteína TAU e peptídeo beta-amiloide. “Vimos, para a nossa surpresa, que esses biomarcadores que indicam progressão de Alzheimer no cérebro estavam aumentados”.

Esses resultados levaram os pesquisadores a estudar os impactos da inflamação por parasitoses especificamente sobre o sistema nervoso. Novos testes foram efetuados para identificar em que momento, desde o início da infecção pelo parasita, começavam a aparecer as alterações das proteínas no cérebro. “Analisamos todas as idades em que o parasita ainda não está no cérebro justamente para ver o efeito da infecção do organismo, e não do parasita, no cérebro”, explica Gelain.

Além disso, foram feitos testes cognitivos para entender o impacto das alterações dessas proteínas na capacidade de aprendizado e na memória espacial do hospedeiro em uma etapa avançada da doença, em que a expressão dos marcadores de neurodegeneração no cérebro estivesse aumentada. “A infecção com o verme, mesmo não localizada no cérebro, afeta a cognição e leva a modificações bioquímicas muito características e muito parecidas que se observa precocemente em doenças neurodegenerativas”, declara o professor. Nessa etapa, os testes com camundongos eram realizados na Fiocruz, e os pesquisadores da UFRGS efetuavam as análises. 

Estudo sugere nova perspectiva de tratamento

A pesquisa também testou possibilidades de tratamento para a condição neurológica. Foram feitos testes com o uso de anti-helmíntico, medicamento usado no tratamento da parasitose, e com antioxidantes comuns, disponíveis em farmácias. “Existe, na literatura, bastante ligação entre as proteínas que foram alteradas com radicais livres”, explica Daniel. 

“Vimos que, para alguns parâmetros que nós medimos, o anti-helmíntico era bom, para outros, o antioxidante era bom, mas sempre a combinação dos dois era excelente para reverter os parâmetros bioquímicos e também melhorar a cognição”, revela o professor. A novidade, nesse caso, é que o anti-helmíntico é eficaz contra o parasita, mas não atua sobre os danos causados no corpo humano.

De acordo com Gelain, as descobertas da pesquisa trazem entendimento não apenas sobre a esquistossomose, como também sobre as doenças neurodegenerativas. “Hoje sabemos que essas doenças começam nas pessoas muito antes de vermos os sintomas, e não sabemos exatamente o que as faz iniciar”, informa. Uma das apostas dos pesquisadores são justamente as infecções e o histórico de inflamação que as pessoas passam — um processo silencioso ao longo da vida e que se manifesta em uma idade avançada através dos sintomas da neurodegeneração.

Segundo a OMS, existem aproximadamente 50 milhões de pessoas com demência no mundo — das quais 60% vivem em países pobres ou em desenvolvimento. A esquistossomose, sozinha, afeta 280 milhões de pessoas, sendo que existem 800 milhões vivendo em áreas de risco apenas para esta doença. Daniel entende que estudar as doenças que afetam essa parcela do mundo — e a neurodegeneração negligenciada — permitem compreender melhor as condições de saúde pública e possíveis tratamentos.

O grupo começou a trabalhar com outras doenças negligenciadas como a leishmaniose e começaram a investigar malária. A expectativa, para o futuro, é fazer um ensaio clínico sobre o tratamento de esquistossomose com a administração de antioxidantes e avaliar indicadores cognitivos. “Se nós não fizermos, alguém vai ter que fazer. É o passo natural a partir desses resultados”, afirma Daniel.

ARTIGO CIENTÍFICO

GASPAROTTO, J. et al. Neurological impairment caused by Schistosoma mansoni systemic infection exhibits early features of idiopathic neurodegenerative disease. Journal of Biological Chemistry, 2021, https://doi.org/10.1016/j.jbc.2021.100979.