Pesquisadores descobrem novas características dos pareiassauros, répteis extintos que viviam no RS

Paleontologia | Estudo descreveu materiais antes desconhecidos da anatomia do Provelosaurus americanus, cujos fósseis foram encontrados em Aceguá e São Gabriel 

*Foto: Representação artística do Provelosaurus americanus, desenhada pela equipe do projeto – Foto: Juan Cisneros, Paula Dentzien-Dias e Heitor Francischini

Escrito por pesquisadores da UFRGS, da Universidade Federal do Rio Grande (FURG) e da Universidade Federal do Piauí (UFPI), um artigo publicado na revista Frontiers in Ecology and Evolution apresenta um novo relato sobre a única espécie de pareiassauros (um tipo peculiar e extinto de réptil) encontrada nas Américas o Provelosaurus americanus. O trabalho analisou fósseis coletados desde a década de 1970 dos únicos sete indivíduos conhecidos da espécie, sendo seis deles encontrados em Aceguá e um em São Gabriel (RS). Um dos focos do estudo foi preencher os espaços até então desconhecidos do esqueleto do animal. 

O grande grupo dos pareiassauros viveu no planeta entre 270 e 250 milhões de anos atrás, com grande distribuição geográfica ao redor do globo, sendo o Provelosaurus um dos pareiassauros mais antigos do mundo. 

Resultados da análise

Intitulado The Brazilian Pareiasaur Revisited, o estudo reanalisou fósseis que foram descritos anteriormente, mas também descreveu novos ossos da espécie que ainda eram desconhecidos, como partes do crânio do Provelosaurus, por meio de materiais coletados entre 2008 e 2010. “Nós encontramos novos elementos que já eram conhecidos, alguns deles muito mais bem preservados que os originais, então conseguimos refutar ou corroborar aquilo que foi descrito originalmente”, explica Heitor Francischini, docente do Laboratório de Paleontologia de Vertebrados do Instituto de Geociências da UFRGS que integrou o grupo de trabalho. 

Reconstrução do crânio do Provelosaurus americanus. Foto: Juan Cisneros, Paula Dentzien-Dias e Heitor Francischini

Além de partes do crânio do animal, também foram descritos ossos da mandíbula, dos dedos e vértebras do pescoço, que até então eram desconhecidos. Os resultados obtidos também sugerem que a espécie pode ter sido ancestral de um conjunto de animais encontrados na África do Sul conhecidos como pareiassauros-anões. “Esse grupo reúne pareiassauros de menor porte, com uma armadura mais completa, vamos dizer assim. Eles formam um subgrupo dentro do grande grupo dos pareiassauros, e, dentre eles, o mais antigo é o brasileiro. Depois, os outros pareiassauros-anões mais recentes são todos da África, só existem naquele continente, ocorrendo a partir de 255 milhões de anos”, complementa Heitor.

Quanto ao período de ocorrência do Provelosaurus americanus, os pesquisadores conseguiram determinar a idade do material analisado com base em cinzas vulcânicas encontradas no mesmo local. A partir da datação dessas cinzas – estimada em 265 milhões de anos – é possível saber aproximadamente quando o animal viveu na região do Rio Grande do Sul  (cerca de 10 milhões de anos antes do surgimento dos demais pareiassauros-anões africanos).

Reconstrução do Provelosaurus americanus. Foto: Juan Cisneros, Paula Dentzien-Dias e Heitor Francischini
O trabalho começa no campo 

O maior desafio na realização da pesquisa não foi analisar a estrutura óssea do Provelosaurus americanus, mas sim fazer as coletas dos fósseis no campo. Conforme relata Heitor, mesmo quando ainda não havia pandemia, a dificuldade em acessar as localidades fossilíferas já era grande. Isso porque muitos desses locais estão dentro de propriedades privadas, e, para ter acesso a eles, os pesquisadores precisam de autorização do proprietário ou do responsável pelo terreno, o que muitas vezes é negado. Inclusive uma das localidades mais importantes para este trabalho foi estudada em 2008 e não pôde mais ser acessada desde então. “Um dos maiores entraves e desafios agora é tentar retomar essa conversa com os proprietários da região e mostrar que de fato a ciência não traz qualquer tipo de prejuízo  para as suas propriedades”, comenta o professor.

Além dos resultados apresentados no estudo, o grupo também identificou outros aspectos do material que serão publicados em trabalhos futuros. Toda a região do céu da boca do animal, a região posterior do crânio e a articulação do crânio com a mandíbula estão preservadas e devem ser descritas futuramente. Para Heitor, quanto mais o material é explorado, mais descobertas vão sendo feitas, e a análise desses fósseis pequenos e delicados necessita de mais tempo de investigação. “A parte legal, que me surpreendeu, é que eu imaginava que conseguiria esgotar a descrição anatômica desse animal de uma vez, mas na verdade não, ainda tem muito a se fazer com ele.”

A importância do trabalho é destacada com o alcance de uma espécie fóssil muito bem conhecida que vai servir de referência para outras comparações anatômicas com outros fósseis que eventualmente sejam feitas no futuro. “Qualquer novo material desse grupo chamado pareiassauros, que porventura seja encontrado no Brasil, no Rio Grande do Sul ou qualquer parte da América, vai ter que ser comparado, a princípio, com esse material para que se determine se faz parte ou não dessa mesma espécie ou se é uma espécie nova”, conclui Heitor. 

Artigo científico 

CISNEROS, Juan C.; DENTZIEN-DIAS, Paula; FRANCISCHINI, Heitor. The Brazilian Pareiasaur Revisited. Frontiers in Ecology and Evolution, 17 nov. 2021.