Procedimento com células-tronco pode modernizar correção de fenda palatina

Problema constante entre humanos e animais, a fenda palatina ocorre quando há uma abertura no palato – céu da boca. Pode acontecer em diferentes intensidades, desde uma pequena abertura no chamado palato mole até a quase separação total do céu da boca. Uma vez que existe o risco de aspiração de alimentos para a via respiratória, a falha deve ser corrigida cirurgicamente. Atualmente, as técnicas utilizadas para o reparo não apresentam eficácia satisfatória. Em sua tese de doutorado, defendida no fim de março no Programa de Pós-Graduação em Ciências Veterinárias da UFRGS, Priscilla Domingues Mörschbächer avaliou a utilização da tela de polipropileno, juntamente com células-tronco mesenquimais e selante de fibrina, para correção da fenda palatina em suínos.

Esse problema de compleição pode surgir por fatores congênitos, traumáticos, nutricionais – deficiência de riboflavina, ácido fólico ou vitamina A –, mecânicos, hormonais, por infecções crônicas e por extrações dentárias. O defeito pode causar problemas como pneumonia por aspiração, perda de gordura, rinite, descarga nasal entre outras patogenias. Pode ser classificada como primária, caso ocorra no lábio e alvéolo, ou como primária e secundária, quando se manifesta no lábio e no palato secundário, ou ainda como secundária, quando ocorre somente no palato secundário. A primária é facilmente diagnosticada, pois há uma abertura anormal no lábio superior. Já as secundárias só são diagnosticadas quando aparecem alguns sinais clínicos, como escoamento de leite pelas narinas, tosse, engasgos ou espirros durante a alimentação.

De acordo com a pesquisa de Priscilla, o problema está entre o 3º e o 4º defeito congênito mais frequente em humanos. Os atuais métodos para correção apresentam diversos problemas. É necessário que a criança complete um ou dois anos de vida para realizar o reparo. Dependendo da intensidade da falha, a cirurgia pode ser adiada até que a criança atinja de cinco a sete anos, com o propósito de evitar problemas estruturais. Em muitos casos, podem ser necessários múltiplos procedimentos. Um cirurgião plástico e/ou buco-maxilo-facial realiza uma cirurgia corretiva na face, enquanto um cirurgião-dentista, cirurgião geral, otorrinolaringologista e/ou ortodontista fazem aparelhos para corrigir outros defeitos. Os cirurgiões ainda se deparam com escassez de material para corrigir a falha.

A pesquisadora se baseia na engenharia de tecidos para solucionar parte dessas limitações, considerando a utilização da tela de polipropileno com células-tronco mesenquimais (MSC) e selante de fibrina. “Nas técnicas atuais, são necessárias muitas cirurgias. A correção com células-tronco vem justamente para evitar a grande quantidade de procedimentos e a retirada de pedaços da pele, além de preservar o paciente de uma possível rejeição”, afirma Priscilla. O desenvolvimento da nova técnica de reconstrução de fendas palatinas levou em conta a avalição da cicatrização dos tecidos mucoso e ósseo do palato duro.

 

Materiais

As células-tronco são boas aspirantes para as terapias de engenharia de tecidos celular, pois são recrutadas pelo corpo para a reparação de tecidos lesionados. As mesenquimais têm a capacidade de se proliferar e originar outro grupo de células. Além disso, podem se diferenciar facilmente de outros tipos de tecidos. MSC é um termo frequentemente aplicado a células com alta plasticidade, aderentes e que podem ser adquiridas tanto a partir da medula óssea como do tecido adiposo. No experimento, são utilizadas MSC derivadas de tecido adiposo, que apresenta melhor acessibilidade, segurança de colheita e abundância de gordura subcutânea. Além disso, é de fácil aquisição – através de lipoaspiração –, possui baixas taxas de morbidade e alto rendimento.

O polipropileno é o material mais utilizado nas cirurgias de restauração de hérnias, pois tem baixo custo, não é biodegradável e tem extensa incorporação tecidual. O selante de fibrina melhora e acelera a cicatrização local.

 

Metodologia

Para verificar a eficácia da nova técnica de reparação, foram utilizados 13 suínos do sexo feminino, com 34 a 36 dias de vida. De um dos animais foi coletado tecido adiposo abdominal para a aquisição das células-tronco. Os outros 12 foram usados para confecção e correção de fenda palatina.

O estudo foi desenvolvido em duas etapas: uma in vitro e outra in vivo. A pesquisa in vitro julgou duas técnicas de cultivo de células-tronco em diferentes placas de cultura, utilizando dois tipos de telas de polipropileno – macroporosa e microporosa – durante um período de 15 dias. O objetivo era identificar as melhores condições de interação entre a tela e as células. Em todas as formas de cultivo houve aderências das células, no entanto, o melhor resultado foi na tela microporosa no período de sete dias. Para o estudo in vivo, os 12 suínos foram divididos em quatro grupos e submetidos ao tratamento com os seguintes materiais:

Grupo A – tela de polipropileno;

Grupo B – tela de polipropileno associada à célula-tronco de origem adiposa e selante de fibrina;

Grupo C – tela de polipropileno e célula-tronco de origem adiposa;

Grupo D – tela de polipropileno e selante de fibrina.

 

Resultados e possíveis aplicações

Os suínos foram examinados durante 15 dias para avaliação de inflamação, cicatrização e abertura de suturas no implante do palato. Em todos houve cicatrização completa da mucosa oral. Observou-se que o grupo D apresentou maior grau de inflamação em relação aos demais.

A tela de polipropileno associada a células-tronco (Grupo C) foi a que apresentou melhor desempenho, pois forneceu completa cicatrização óssea e da mucosa oral e nasal, demonstrando ser uma técnica segura e eficaz. Segundo a pesquisadora, isso acontece porque as células-tronco ajudam a diminuir a inflamação.

Priscilla aponta que a técnica tem potencial para ser aplicada em humanos e enseja que o trabalho tenha um bom alcance entre médicos e veterinários. “Eu espero que minha pesquisa venha ajudar para a correção da fenda palatina em humanos e em animais.”

 

Tese

Título: Correção de fenda palatina com revestimento de tela de polipropileno associada a células-tronco mesenquimais de tecido adiposo e selante de fibrina em suínos: estudo in vitro e in vivo
Autora: Priscilla Domingues Mörschbächer
Orientador: Emerson Antonio Contesini
Unidade: Programa de Pós-Graduação em Ciências Veterinárias