Projeto Caminhos da Inovação na Indústria Gaúcha estuda as empresas e sugere o que elas podem fazer para inovar

A indústria gaúcha é tradicionalmente conhecida por ser composta por micro e pequenas empresas familiares. Segundo levantamento realizado pelo Núcleo de Estudos em Inovação da UFRGS (Nitec), 86,9% das indústrias do estado pertencem a essa categoria e 75% de todas as empresas gaúchas são consideradas low-tech. O Nitec participa do projeto Caminhos da Inovação na Indústria Gaúcha em parceria com a PUCRS, Unisinos e Universidade de Caxias do Sul (UCS). O objetivo é estudar as empresas do estado e entender por que o processo de inovação delas é tão lento.

O Núcleo foi selecionado em 2009 pelo Programa de Apoio a Núcleos de Excelência (Pronex) para participar desse estudo. Foram pesquisadas mais de 1.500 empresas entre 2010 e 2015. Dessas, 70 foram estudadas a fundo, ou seja, os pesquisadores acompanharam suas rotinas para avaliar seu funcionamento. Cerca de 50 pessoas, entre professores e alunos de mestrado, doutorado e graduação, participam do estudo.

O coordenador do projeto, Paulo Zawislak, explica que empresas low-tech são aquelas “cuja base tecnológica por trás dos produtos foi desenvolvida muitos anos atrás. Como, por exemplo, a indústria metal-mecânica, petroquímica, têxtil, de alimentos, de calçados, entre outras”.  Ser uma empresa que se encaixa no perfil low-tech não quer dizer que não seja possível inovar. Os fatores que pesam para que a inovação não ocorra, nesse caso, seriam a reputação que a empresa já possui e o fato de ela não ser estimulada a estar sempre desenvolvendo coisas novas.

“Não há nenhum problema em ser micro ou pequena empresa familiar e do setor tradicional. O ruim é que, juntando essas características, a receita do sucesso é muito limitada. Porém, se estivessem mais no setor high-tech, a capacidade de geração de riqueza seria maior, e essa riqueza se transformaria em mais empregos, mais investimentos e em novos produtos”, salienta Paulo. As indústrias high-tech são as líderes em seus segmentos, aquelas que possuem nível tecnológico mais elevado e investem em pesquisas.

 

O que é inovação?

Inovação são os esforços que as empresas fazem para ampliar seus ganhos e participação no mercado. Ela gera empregos, renda, riqueza social e econômica. “Inovação é, por exemplo, eu desenvolver uma bota que seja de salto alto, que você não usa porque é menos confortável. Se eu descobrir uma técnica de botar um salto de um jeito que não te machuque, isso já é ciência. Foram calculados os ângulos e o ponto de equilíbrio da mulher. E eu, como sei que meu produto é maravilhoso, vou cobrar 30% a mais. Isso é inovação num setor tradicional”, comenta o coordenador.

No Rio Grande do Sul, existem empresas inovadoras em todos os setores, como, por exemplo, a Tramontina, no setor metalúrgico; a Usaflex, no setor de calçados; e a Braskem, no setor petroquímico. Porém, mesmo sendo líderes, não são suficientes para dinamizar o setor como um todo.

 

Por que as empresas não inovam?

Os motivos principais que fazem com que as empresas do Rio Grande do Sul não inovem são a falta de necessidade e a dificuldade de inovar. “Imagina que você é uma fabricante de automóvel e eu faço peças. Se você me pede sempre a mesma peça ao longo dos anos, você não quer que eu mude. Além disso, quanto mais eu fizer do mesmo, mais barato ficará, o que para ti é uma vantagem. Por um lado, as empresas não têm necessidade de inovar, porque o cliente não quer que elas inovem; por outro, elas têm dificuldade porque o recurso que sobra não é suficiente”, explica Paulo.

Outro fator seria a distância entre a região metropolitana e as indústrias do interior. “Por que fica mais difícil entrar no setor de maior complexidade tecnológica? Porque está mais longe das universidades, há maior dificuldade de encontrar pessoas qualificadas e a mão de obra é mais restrita.”

 

O que fazer para inovar?

Paulo sugere a reconversão competitiva – aproveitar as características que aparentemente parecem ser defeitos e transformá-las em vantagens. “Por exemplo, você pode continuar produzindo em pequena escala, mas desenvolve um produto especial.” É um processo de agregação de valor em nichos de produtos cada vez mais específicos.

O Nitec também realiza, em parceria com as empresas, o diagnóstico das organizações. “Vemos como é seu laboratório, sua fábrica, seu escritório e sua loja; e depois fazemos o plano de inovação. Se o forte dela é operação, nós intervimos para aumentar a eficiência, diminuir o desperdício, aumentar a qualidade, reduzir o tempo”, comenta o coordenador.

Existem quatro características básicas em uma empresa: desenvolvimento (representado pelo laboratório), operação (fábrica), gestão (escritório) e comercial (loja). Oitenta por cento das indústrias do Rio Grande do Sul são focadas em desenvolvimento e operação. Há também quatro tipos de empresas: as pouco inovadoras, as operacionais, as de gestão e marketing e as tecnológicas. Para cada uma delas, existe uma capacidade diferente de inovação.

Para avançar do perfil “pouco inovador” para o “operacional”, é necessário que haja alteração do foco para a fabricação de produtos mais especiais. Para evoluir de “operacional” para “gestão e marketing”, sugere-se que a empresa desenvolva sua marca e invista em nichos de mercado. E, para ascender de “gestão e marketing” para “tecnológica”, deve-se focar no domínio tecnológico de desenvolvimento de novos produtos. Paulo salienta que não é recomendável fazer o salto de “pouco inovadora” para “tecnológica”, o que geralmente acaba acontecendo, e reforça que esse é o erro que empresas cometem quando tentam inovar. Deve ser um movimento gradual, de etapa em etapa.

Distribuição das empresas gaúchas por setores principais e mesorregiões - Fonte: Caminhos da Inovação na Indústria Gaúcha
Distribuição das empresas gaúchas por setores principais e mesorregiões – Fonte: Caminhos da Inovação na Indústria Gaúcha