Racismo estrutural na saúde: negros morrem mais por demência do que brancos

Saúde | Internações e taxas de mortalidade por demência aumentaram desde o início da epidemia de covid-19 no Brasil. Na região Sul, a taxa de mortalidade entre os brancos caiu 19%, já entre os pretos aumentou 90% e entre os pardos, subiu 176%

Que país é esse?’, canção escrita por Renato Russo em 1978 durante a Ditadura Militar, fala sobre as contradições sociais do Brasil. O cantor já se questionava, à época, sobre algo ainda muito atual: o cenário de desigualdade social e injustiças muito vívido no nosso país. Desigualdade essa ainda mais latente e presente entre a população negra (negro(a), conforme conceituação do IBGE, é a junção de pretos e pardos) quando nos deparamos com estes dados:

assassinatos de negros crescem 11,5% em 10 anos (Atlas da violência 2020). Entre brancos, amarelos e indígenas, o caminho é inverso: queda de 12,9%;

homicídios entre mulheres negras sobe 12,4%, enquanto entre vítimas não negras cai 11,7% (IBGE, 2018);

a taxa de analfabetismo entre os negros é de 9,1%, enquanto entre os brancos é de 3,9% (IBGE, 2018);

32,9% da população negra estão abaixo da linha da pobreza. O percentual de brancos é de 15,4% (IBGE, 2018);

no mercado de trabalho, 68,6% dos cargos gerenciais são ocupados por brancos (IBGE, 2018).

50,7% das crianças até 5 anos que morreram por causas evitáveis eram pardas e pretas; 39,9% eram brancas (Ministério da Saúde, 2017);

15,5 milhões de pessoas já se sentiram discriminadas no serviço de saúde, destacaram-se: as pessoas de cor preta (11,9%) e parda (11,4%), as mulheres (11,6%) e as pessoas sem instrução ou com ensino fundamental incompleto (11,8%) (PNS/2013).

Que país é esse? Respondo: Brasil, século XXI.

O racismo no Brasil é estrutural e está presente no dia a dia da maior parcela da população: 55,8% dos brasileiros são pretos e pardos (IBGE, 2018). O fantástico texto da Constituição Federal assegura como direitos sociais para TODOS a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o transporte, o lazer, a segurança, entre outros. Direitos garantidos no texto, mas faltantes na vida de pretos e pardos. Falta acesso à educação, falta segurança alimentar, sobra violência, discriminação, preconceito. A disparidade racial se torna cada vez mais latente; um abismo que parece aumentar cada vez mais, em especial após o cenário de pandemia de covid-19.

O estudo Ethnoracial disparity among patients with dementia during COVID-19 pandemic, liderado por Natan Feter (Universidade Federal de Pelotas), e que tem como uma das autoras a doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação de Ciências da Saúde: Cardiologia e Ciências Cardiovasculares da UFRGS Jayne Santos Leite, aborda a disparidade étnico-racial nas internações e taxas de mortalidade por demência Desordem que afeta tanto a capacidade cognitiva como a capacidade funcional do indivíduo. O Alzheimer corresponde a cerca de 60 a 70% de casos de demência no mundo. , que aumentaram desde o início da epidemia de covid-19 no Brasil. O artigo, que também conta com os autores Ricardo Alt e Airton José Rombaldi, foi publicado em setembro deste ano pelo Cadernos de Saúde Pública da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, da Fundação Oswaldo Cruz, e revela que a taxa de mortalidade por demência diminuiu em 9% entre brancos e aumentou em 65% e 43% entre pretos e pardos, respectivamente. Ainda no primeiro semestre de 2020, pacientes pretos e pardos tiveram um risco maior de perder a vida por demência quando comparados aos brancos, disparidade essa que não havia sido observada no mesmo período de 2019.

Na região Sul, conforme Natan, a taxa de mortalidade por demência entre os brancos reduziu 19%, já entre os pretos aumentou 90% e entre os pardos subiu 176%. “Existe uma disparidade étnico-racial, pois, hoje, se uma pessoa de cor de pele preta, outra parda e outra branca com demência entrarem no hospital público, a chance de o preto e o pardo morrerem no hospital é de 70 e 60%, respectivamente”, diz. E por que isso acontece? Trata-se do estado em que o paciente chega ao hospital: não tem controle arterial adequado, nível glicêmico alto, não teve a oportunidade de praticar atividade física, nível alto de estresse ao logo da vida. “Todos esses fatores têm uma prevalência muito maior na população negra. Outro fator, partindo do pressuposto de que os dois tenham quadro de demência: o acesso ao serviço para tratar os sintomas da doença, com melhor cuidado, é maior entre os brancos do que entre os negros”, explica Natan.

Para Jayne, a principal reflexão deste estudo se dá na discrepância e nas diferentes formas com que a saúde da população negra é afetada.

Durante a pandemia de covid-19 toda a população negra foi absurdamente mais afetada que a população branca. Isso é chocante e preocupante, nos faz pensar sobre o que pode ser feito para mudar essa situação. Infelizmente, quando estudamos saúde e determinantes sociais, vemos que a população de pretos e pardos é muito mais afetada. Já sabemos que vários fatores precisam ser mudados, por exemplo, a população negra precisa ter mais acesso à educação, ao conhecimento, a espaços de lazer para a prática de atividade física, etc.

Jayne Leite

Fernanda Souza de Bairros, professora da UFRGS vinculada ao Departamento de Saúde Coletiva e coordenadora do Grupo de Estudos Saúde da População Negra (Harambee/UFRGS), menciona que os altos índices de comorbidade e mortalidade entre os negros é uma consequência do racismo. “É preciso refletir que isso é um determinante social em saúde: como se dá o acesso à saúde e qual é a qualidade desse acesso? A saúde para pessoas negras no Brasil está atravessada pelo racismo, e o mesmo acontece com a educação, o trabalho, o lazer.”

O racismo está entranhado em nossa sociedade como um todo. Uma sociedade que foi construída em bases escravagistas e escravocratas tem consequências racistas em todos os ângulos, e a saúde não fica fora.

O estudo a respeito da demência faz um recorte sobre a doença e a saúde pública, reforçando uma necessidade para além do crescimento do número de casos, mas considerando a desigualdade em acometer mais os negros do que os brancos.

O Brasil tem a segunda maior prevalência de demência do mundo, quando ajustada pela expectativa de vida dos países. Se olharmos 30 anos atrás, a prevalência de demência era de 500 mil casos, hoje é de 1 milhão. Se olharmos 30 anos adiante, a prevalência será de 4 milhões de casos.

Natan Feter

Esse fator se deve ao aumento da expectativa de vida no país, mas também a fatores de risco não modificáveis, ou seja, que não foram controlados a tempo, como baixa escolaridade, tabagismo, consumo excessivo de álcool, inatividade física, obesidade, comprometimento auditivo, depressão e isolamento social. “De forma geral, 2 em cada 3 pessoas no mundo acreditam que nada pode ser feito para evitar a demência, e em cada 4 acham que esse é o curso natural da vida. Nós sabemos que não”, diz Natan.

Para Jayne, é preciso que todos tenham acesso ao conhecimento, a fim de que se tenha uma maior e melhor conscientização sobre o que ela é e como ela pode ser prevenida. “Não é normal achar que você vai ficar idoso e desenvolver algum tipo de demência. O normal é termos uma terceira idade saudável.”

A dificuldade ao acesso à informação e à baixa escolaridade fazem com que pessoas com demência busquem menos recursos para atenuar o sintoma. “Uma melhor qualidade de vida é fundamental para prevenir a demência, e o acúmulo de fatores de risco nos leva a vincular à maior probabilidade de morte na população negra”, frisa Natan.

Nesse caso em específico não se trata da falta de acesso ao hospital ou ao medicamento, mas, sim, a um contexto socioeconômico que faz com que a população de pretos e pardos tenha mais diabetes, hipertensão, menor atividade física, maior insegurança alimentar, estresse, entre outros. Natan complementa que há um descontrole ao longo da vida desse indivíduo que faz com que ele chegue a óbito por demência com mais frequência. “Sabemos que a população branca tem mais acesso à educação, mais qualidade de vida, e o nível educacional faz toda a diferença nesse processo. O fator biológico, a idade, todos nós vamos envelhecer, mas o acesso à educação é algo em que podemos intervir”, complementa Jayne.

Pesquisadores destacam o papel da educação para melhorar as condições de vida da população negra – Foto: Gustavo Diehl/UFRGS – Arquivo

Para a pesquisadora, é pela educação que a população negra terá menor chance de desenvolver a demência na velhice. “Quem tem mais escolaridade, provavelmente, tem melhor remuneração, o que levará a condições de fazer melhores escolhas: maior acesso à prática de atividade física, recursos para investir em academia, uma alimentação mais saudável e equilibrada. Ou seja, maior escolaridade = maior acesso.”

Parece uma conta reta, mas não é. Diante dessa ‘simples’ mudança de cenário, existe o racismo estrutural fazendo com que o status quo se mantenha tal qual está.

É como se atividade física e alimentação adequada estivessem dentro da escolha da população negra. Estudos mostram que nos bairros com maior concentração de pretos e pardos há menos estrutura, não tem praça, o local é mais inseguro, tudo isso está relacionado à prática de atividades físicas. Já a alimentação está relacionada às condições socioeconômicas, a insegurança alimentar está relacionada ao poder aquisitivo de compra ou ao acesso à produção de alimentos

Fernanda Bairros

Ou seja: níveis mais baixos de renda e escolaridade = piores dados sobre morbidade e mortalidade. “As características socioeconômicas influenciam, mas é um equívoco tratar a saúde da população negra somente dentro dessas condições; tudo está atravessado pelo racismo.” Outro fator importante a ser considerado é a falta de qualificação entre os profissionais de saúde para compreender as especificidades da saúde da população negra. “Os currículos de formação na área da saúde ainda não abordam isso. O que temos atualmente é uma Política Nacional de Saúde Integrada da População Negra que vem para combater o racismo na saúde, tanto no processo de formação quanto no atendimento de profissionais de saúde”, explica Fernanda.

Segundo Natan, no caso da demência, existem fatores preventivos, mas é preciso voltar os esforços para a população que mais precisa. “A atividade física é importante, mas se seguirmos fornecendo acesso a espaços de lazer e boa alimentação para quem já tem, isso só vai aumentar a disparidade que observamos nesta pesquisa. É preciso garantir a conscientização sobre a doença, mas também o acesso a espaços de atividade física e segurança alimentar para reduzir essa disparidade étnico-racial.”

Fernanda complementa ao frisar que acesso ao direito à saúde passa pelo enfrentamento ao racismo, em que é necessária a desconstrução de uma hierarquização de raça a partir da compreensão da branquitude.

Para a branquitude, o branco é a categoria universal, o outro que é o racializado. Por isso, estudos sobre branquitude precisam estar juntos com estudos étnico-raciais na saúde porque não se consegue fazer enfrentamento ao racismo sem estudar a partir da construção da branquitude.

Fernanda Bairros

Assim, é possível compreender que não se trata apenas de saúde da população negra, e sim de uma estrutura racial que traz a desigualdade na violência, na alimentação, na educação e, inclusive, na saúde. “Se trata de uma programação social e ideológica à qual todos nós estamos submetidos. A identidade racional branca é construída e reconstruída historicamente como se fosse a referência. O racismo e o sexismo têm a sua permanência mantida na evolução da sociedade – é reflexo de um fenômeno ideológico construído socialmente”, elucida a professora.

Sobre a demência

Demência é um termo guarda-chuva: trata-se de uma desordem que afeta tanto a capacidade cognitiva como a capacidade funcional do indivíduo. Dentro desse guarda-chuva de doenças, há o Alzheimer, que corresponda a cerca de 60 a 70% de casos de demência no mundo.

Um dos painéis de monitoramento da saúde brasileira, desenvolvido e abastecido pelo Departamento de Análise em Saúde e Vigilância das Doenças não Transmissíveis do Ministério da Saúde, mostra que a doença de Alzheimer e outras demências saltam da oitava posição, em 2000, para a terceira em 2016 como principal causa de morte no país. O topo da lista ainda é ocupado por doença do coração e cerebrovascular, porém a taxa de mortalidade da demência saltou de 18,2% para 38,4% em 16 anos. A realidade das causas de morte entre os brasileiros mudou, e a demência está ocupando um espaço de destaque.

É preciso desenvolver políticas públicas em torno de uma estratégia nacional sobre a doença. “A prevalência aumentada gera a necessidade de buscar informação, por isso um plano nacional no combate e no controle à doença é primordial. A doença existe, mas é possível prevenir, não pode ser aceita como um curso natural da vida”, salienta Natan.

Confira também:

Carga econômica da inatividade física nas internações hospitalares por demência: um estudo de abrangência nacional no Brasil, artigo publicado pelos autores nos Cadernos de Saúde Pública da Fiocruz em janeiro de 2021.

Branquitude: privilégio branco e a raiz do preconceito racial, matéria publicada no UFRGS Ciência em novembro de 2020.