Tese de doutorado avalia causas da evasão na pós-graduação

Pós-graduação | Pesquisa aponta que falta de desempenho adequado, questões de saúde – em especial de saúde mental – e dificuldade de cumprimento de prazos são as principais causas para pós-graduandos abandonarem os cursos, especialmente na área das Engenharias

*Foto: Gustavo Diehl

Uma pesquisa realizada no Programa de Pós-graduação em Educação em Ciências (PPgECi) da UFRGS analisou dados de ex-bolsistas do Programa de Demanda Social (DS) da Capes que evadiram durante o mestrado ou doutorado. O estudo investigou quais seriam os principais motivadores que levaram 9.247 alunos – 4% do total de bolsistas – a deixarem o programa entre 2010 e 2018. A pesquisa detectou que não há uma única causa para a evasão, e sim uma combinação de fatores: os principais são questões de adaptação ao curso (como dificuldade de deslocamento e de cumprimento de prazos), problemas de saúde e dificuldade de manter um desempenho adequado. Além disso, foram analisadas estratégias de como conter possíveis novas desistências.

A pesquisadora Patrícia Paiva avaliou dados de gênero, faixa etária, região, estado, instituição, nível, área de avaliação e área do conhecimento dos ex-bolsistas que acabaram não concluindo o trajeto dentro do Programa DS da Capes. Os resultados apontam que o maior número de desistentes está na faixa etária entre 23 e 30 anos. As áreas com mais abandonos de curso são Engenharia, Ciências Exatas e da Terra e Ciências Agrárias, que, juntas, somam metade dos casos de evasão. Em relação às regiões brasileiras, Norte e Nordeste tiveram maiores índices de evasão.

Entre as 179 instituições avaliadas, as que possuem maiores percentuais de desistência de bolsistas do programa DS são: Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro – Câmpus Niterói (RJ), Instituto Militar de Engenharia (SP) e Instituto de Tecnologia de Alimentos (SP). Neste levantamento, a UFRGS ocupa a 61.ª posição, com 305 desistências (entre 7.395 bolsistas).

Segundo cálculos da pesquisadora, o valor gasto nas bolsas dos alunos desistentes soma aproximadamente 216 milhões de reais. Reajustado para valores atuais conforme o Índice Geral de Preços do Mercado (IGP-M), o montante chega a 287 milhões. Patrícia destaca que esse valor poderia ter sido direcionado para pagamento de mais de 190 mil mensalidades de mestrado ou para 130 mil de doutorado. “Esses números não devem ser ignorados, já que estamos em um contexto de restrição orçamentária, devido aos cortes governamentais na educação, em busca de otimização de uso dos recursos públicos”, afirma.

Dentro dos problemas mais recorrentes relatados nas desistências, os principais são: dificuldades de adaptação (categoria que abrange dificuldade de deslocamento, falta de conhecimentos necessários e excesso de atividades com prazos curtos), desempenho insatisfatório e questões de saúde. Dentro da categoria “saúde”, Patrícia relata que há casos sérios de quadros depressivos e de ansiedade entre os bolsistas. “Eu cito, em um artigo ainda não publicado, um estudo que indica que alunos de pós-graduação têm, em até seis vezes, maior chance de desenvolver distúrbios de ansiedade e depressão quando comparados a uma pessoa que não está nesses cursos”, comenta a pesquisadora. Entre os estudantes que evadiram por questões de saúde, os casos de maior incidência são de depressão (39%) e ansiedade (28%).

Ela garante que os maiores causadores das doenças são a alta pressão pelo cumprimento de prazos e o excesso de atividades. Como prova disso, Patrícia recolheu depoimentos anônimos que relataram os problemas de alguns desses alunos como justificativas para as evasões. “Foi um momento muito interessante como pesquisadora, por ver que eles estavam pedindo para serem ouvidos”, alega. Um dos depoimentos coletados pela pesquisadora é um exemplo dessa situação:

“Com receio de ser rotulado como incompetente e ser alvo de deboche no programa, ocultei meus problemas do meu orientador de pesquisa. Por conseguinte, isolei-me socialmente, parei de falar com a minha família e amigos. Neguei ajuda. Somente quando passei a apresentar tendências suicidas, tendo inclusive realizado uma tentativa, foi que procurei atendimento médico psiquiátrico”

Depoimento anônimo de um ex-bolsista que participou da pesquisa
Origem e desenvolvimento

Na época servidora lotada na Diretoria de Programa e Bolsas no País, da Capes, Patrícia se interessou em estudar os motivos para um possível aumento no número de evasões, já que não existiam pesquisas precedentes sobre o assunto. Os dados de todos os bolsistas de pós-graduação do Brasil foram obtidos a partir de acessos da pesquisadora ao acervo de dados do programa. Depois disso, foi feito um afunilamento para selecionar apenas os discentes que fossem bolsistas do Programa de Demanda Social e que tivessem evadido da pós-graduação, considerando aqueles que mudaram de curso.

“Foi um trabalho de meses tão intenso. Eu tive ajuda de um colega matemático, Flávio Geovanni, também servidor da Capes, que trabalhava na mesma diretoria. Me ajudou muito porque ele trabalhava com os dados. Eram milhões de linhas [na planilha, referentes a todas as informações recolhidas dos ex-bolsistas]”, observa Patrícia.

Instituições devem adotar medidas de prevenção

Para diminuir a desistência, Patrícia defende que deve haver uma maior atenção às dificuldades dos alunos, com a oferta de disciplinas específicas e tutorias que auxiliem em pontos como escrita acadêmica, por exemplo. Os programas também devem oferecer atividades que auxiliem os estudantes a desenvolver as pesquisas, além de promover um melhor preparo dos professores para lidar com os alunos que estejam passando por dificuldades.

Além disso, ressalta, a instituição tem como obrigação transmitir espaços de segurança aos discentes. Ela cita como exemplos: criar parcerias com creches para que bolsistas pais possam deixar seus filhos enquanto frequentam as aulas; promover campanhas de conscientização de saúde mental e grupos de discussão sobre o tema; e garantir a confidencialidade para a realização de denúncias, caso necessário.