UFRGS é protagonista nacional em pesquisas sobre estudos de gênero

Ciência da Informação | Estudos mostram que a UFRGS está entre as 10 instituições, dentre 236 analisadas, com maior número de grupos e linhas de pesquisa formais sobre estudos de gênero no Brasil. Ainda, os achados mostram a importância da UFRGS na colaboração com a área no RS

*Foto: Rochele Zandavalli (Arquivo-01 dez. 2019)

A pesquisa de estudos de gênero no Brasil é o tema central de dois trabalhos escritos e defendidos por mulheres e orientados por outra mulher em 2021 na UFRGS. A pesquisadora e professora da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico) Samile Andréa de Souza Vanz orientou a tese ‘Retratos da pesquisa brasileira em estudos de gênero: análise cientométrica da produção científica’, de Natascha Helena Franz Hoppen, e a dissertação ‘Estudos de gênero no Brasil: produção, colaboração e citações no periódico Cadernos Pagu’, de Thaís Dias Medeiros, que, dentre os seus resultados, apontam em comum a importância da UFRGS em pesquisas sobre estudos de gênero.

Os estudos de gênero, também denominados estudos feministas e sobre mulheres, fazem parte de uma área inter e transdisciplinar que visa refletir a respeito de marcadores de subjetividade, identidade e marcadores sociais, tais quais gênero, raça, sexualidade, classe, etnia. No Brasil e no mundo, esses estudos estão intimamente ligados aos movimentos feministas e à entrada dos feminismos na academia.

Os resultados encontrados pelas pesquisadoras Natascha e Thaís mostram que a UFRGS está entre as 10 instituições, dentre 236, com maior número de grupos e linhas de pesquisa formais sobre estudos de gênero no Brasil. A UFRGS também está entre as três universidades nacionais com o maior número de artigos na área publicados até 2019.

O Grupo de Estudos de Educação e Relações de Gênero (Geerge) é um dos precursores no Brasil, criado na década de 1990 pela pesquisadora Guacira Lopes Louro, quando a área se concretizou no país. A autora figura entre as mais citadas, junto com a pesquisadora Dagmar Elisabeth Estermann Meyer, nos periódicos Revista Estudos Feministas e Cadernos Pagu. Em números de citações no Cadernos Pagu ainda se destaca a autora filiada à UFRGS Cláudia Fonseca.

Natascha revela surpresa com o fato de a UFRGS e o Rio Grande do Sul estarem em destaque em pesquisas de estudos de gênero. “Sabíamos de pesquisas feitas na Universidade, mas não imaginávamos que a UFRGS teria um dos melhores desempenhos em quantidade de artigos e em tamanho científico”, frisa ela, ressaltando o papel de Guacira Lopes Louro, professora aposentada da UFRGS, ao criar o grupo Geerge. “Localmente, a UFRGS tem um papel importante na colaboração com outras universidades do RS que realizam estudos de gênero e estudos sobre mulheres.”

Guacira Lopes Louro, professora aposentada da UFRGS, foi a tradutora do texto Gênero: uma categoria útil de análise histórica, de Joan Scott, publicado em 1990 no periódico Educação e Realidade da Faculdade de Educação da UFRGS. O texto é considerado um marco para o desenvolvimento dos estudos de gênero no Brasil, figurando entre os mais citados na área. “É inegável a importância da UFRGS na pesquisa nacional em estudos de gênero”, salienta Natascha.

De acordo com Thaís, a UFRGS se destaca na área, e isso parece estar ligado aos grupos de pesquisa em estudos de gênero nas mais diversas áreas do conhecimento ou ainda em decorrência de professoras que produzem e orientam nessa área.

“É importante ter essa discussão dentro e fora da academia e trazê-la para os projetos de pesquisa, extensão e divulgação científica. Vivemos em um estado e um país machistas, com altos índices de feminicídio, transfobia e violência contra a mulher. Essas são questões que precisam ser discutidas para podermos melhorar como sociedade e como Universidade”

Thaís Dias Medeiros

Segundo as pesquisas, a UFRGS ainda se destaca como uma das instituições do Brasil com maior número de publicações sobre estudos de gênero na base de dados internacional multidisciplinar Web of Science e na base de dados 1Findr. Figura, também, entre as instituições com maior número de artigos publicados nos periódicos Caderno Pagu e Revista Estudos Feministas. Para Thaís, entretanto, os estudos de gênero abarcam muitas possibilidades que ainda não são discutidas na academia. “Nos meus estudos sobre o periódico Caderno Pagu, temos quase ausentes as principais autoras que estudam sobre raça no país, o que indica que essa é uma área na qual precisamos avançar para uma maior pluralidade.”

Já o trabalho de Natascha é importante porque, ao fazer um apanhado histórico da discussão de gênero dentro da Universidade, demonstra como é fundamental conhecer a ciência que é produzida na academia.

“Precisamos conhecer a ciência que temos para pensar a ciência que queremos. Se trata de uma pesquisa com intenção feminista e que tem a relevância de colocar um escopo maior sobre o assunto, de abrir a lente e mostrar esses achados para a ciência em geral, sendo inter e transdisciplinar”

Natascha Hoppen

É o que aponta a orientadora Samile, que coloca os dois trabalhos como inéditos no Brasil porque trazem uma expressão significativa para essa área do conhecimento, como também para a área de bibliometria e comunicação científica. “Para estudos de gênero, os trabalhos são relevantes porque mostram, especialmente, a questão da interdisciplinaridade. Os resultados mostram que os estudos de gênero merecem um olhar diferenciado.”

Por ser interdisciplinar, os estudos de gênero estão presentes em diversas áreas do conhecimento. Das 29 Unidades Regionais e Acadêmicas da UFRGS, 21 possuem teses, dissertações e TCCs em estudos de gênero. A Faculdade de Educação e o Instituto de Filosofia e Ciências Humanas possuem o maior número de documentos sobre a temática na UFRGS, seguidas do Instituto de Letras, da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação, do Instituto de Psicologia, da Escola de Educação Física, Fisioterapia e Dança, da Escola de Enfermagem, da Faculdade de Direito, da Faculdade de Ciências Econômicas, do Instituto de Artes e da Escola de Administração.

Contribuição para a área

Segundo Samile, a tese e a dissertação são inéditas na coleta de dados dentro da área de Ciência da Informação, contribuindo tanto para estudos de gênero como para a bibliometria. Os trabalhos trouxeram métodos inovadores na coleta de dados: Natascha levantou artigos publicados em todo o Brasil até o ano de 2019 e usou uma base de dados internacional nova que se mostrou muito boa para coleta de dados bibliométricos; Thaís realizou a coleta de dados no Lume durante o seu Trabalho de Conclusão de Curso, um método diferente e que mostra um repositório como fonte de dados. O TCC foi defendido em 2018 e alguns dos dados citados nesta reportagem são resultados dele. Ambas desenvolveram uma estratégia de busca nas bases que trazem um resultado inédito e importante para quem trabalha com bibliometria e comunicação científica.

“Esse método fica como apoio para futuros pesquisadores que queiram trabalhar com essa área. Quando a bibliometria e a comunicação científica se debruçam para estudar uma ou outra área, conseguem ter as percepções de como essa área está se desenvolvendo, agregar conhecimento para pesquisadores e universidades, comparar os resultados na sociedade e observar que muitas mudanças são decorrentes de pesquisas e estudos naquela área”, finaliza a orientadora.

MAIS
As autoras dos trabalhos são as pesquisadoras Natascha Helena Franz Hoppen e Thaís Dias Medeiros, que defenderam tese, dissertação e TCC na Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação e no Programa de Pós-graduação em Comunicação (PPGCOM/UFRGS). Ambas participam, junto com a orientadora, professora Samile Andrea de Souza Vanz, do grupo de pesquisa em Comunicação Científica. O grupo é vinculado ao PPGCOM e ao PPGCIN e tem mais de 20 anos de atuação, realizando pesquisas pelo método bibliométrico e estudando diversas áreas do conhecimento por meio desse método.

Confira os trabalhos recentes
Tese de Natascha Helena Franz Hoppen: Retratos da pesquisa brasileira em estudos de gênero: análise cientométrica da produção científica

Dissertação de Thaís Dias Medeiros: Estudos de gênero no Brasil: produção, colaboração e citações no periódico Cadernos Pagu

TCC de Thaís Dias Medeiros: A produção científica sobre estudos de gênero no repositório digital da UFRGS: um estudo bibliométrico

Artigo ‘What are gender studies: characterization of scientific output self-named gender studies in a multisciplinary and international database’

Artigo ‘A produção científica sobre estudos de gênero no repositório digital da UFRGS: um estudo bibliométrico’