Uma chance para a vida: pesquisa da UFRGS analisa tratamento com plasma convalescente

Em março de 2020, Fábio Klamt é internado em decorrência da covid-19. O professor do Departamento de Bioquímica da UFRGS narra a sua recuperação em uma página de Rede Social. Pós-doutor pela Division of Therapeutic Proteins da Food and Drug Administration (FDA) nos EUA, mantém as relações de amizade construídas entre 2004 e 2006. É um comentário de um desses colegas na sua rede social que desperta em Klamt a saga em busca da conscientização e da pesquisa em torno do uso de plasma convalescente uma pessoa convalescente quer dizer que ela está em recuperação gradual da saúde e força após doenças ou lesões. Refere-se ao estágio posterior de uma doença infecciosa quando o paciente se recupera e retorna à saúde anterior. no tratamento do novo coronavírus. De lá para cá, Klamt manteve conversas com pesquisadores da UFRGS, com a imprensa e com a FDA para colaborar e incentivar pesquisas que usem o plasma positivo no Brasil. 

Em paralelo, o Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA/UFRGS) iniciou uma corrida contra o tempo para que fossem autorizados junto ao Conselho Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) estudos sobre o tratamento da covid-19 utilizando plasma de pessoas imunizadas. De março até agora se passaram quatro meses. No final de junho, uma eternidade dada a urgência em se encontrar uma alternativa viável e segura para tratar o novo coronavírus, o Hospital de Clínicas recebe carta branca e anuncia o início da pesquisa que visa utilizar o plasma de pessoas que já contraíram o vírus e estão recuperadas como método de tratamento a pacientes em estado grave.

Leo Sekine, professor do Programa de Pós-Graduação em Medicina: Ciências Médicas da UFRGS e chefe do Serviço de Hemoterapia no HCPA, diz que o tratamento da covid-19 utilizando plasma de pessoas imunizadas é simples e pode ser amplamente utilizado em hospitais de todo o mundo. “O processo de coleta de doadores de plasma é conhecido de longa data, utilizado em outras epidemias como em SARS, MERS e Ebola SARS vem da sigla em inglês de síndrome respiratória aguda grave. Mers-CoV é o causador da síndrome respiratória do Oriente Médio. A doença pelo vírus Ebola é grave, que afeta os seres humanos e os primatas não-humanos, como macacos, gorilas e chimpanzés. Todos os três são vírus zoonóticos, ou seja, foram transmitidos aos seres humanos por animais. , com resultados aparentemente favoráveis”. Veja mais explicações sobre essas epidemias em https://www.ufrgs.br/ciencia/o-salto-genetico-que-transformou-o-novo-coronavirus-em-um-especialista-em-infectar-humanos/.

O objetivo da pesquisa é verificar, principalmente, se a intervenção com o plasma pode acelerar a recuperação dos pacientes graves, em um primeiro momento, e o impacto na sobrevida, num segundo momento. “Esses pacientes podem ter algum tipo de benefício em termos de redução no risco de mortalidade com a utilização do plasma”, explica Sekine.

Em 3 de junho, a revista científica internacional JAMA publicou um artigo que analisou os “Efeitos da terapia com plasma convalescente no tempo de melhora clínica em pacientes graves e com risco de vida pela covid-19” (tradução nossa). Esse ensaio clínico randomizado é um tipo de estudo científico utilizado em medicina, psicologia e outras ciências. O termo ‘randomizado’ diz respeito ao fato de que os grupos utilizados no experimento têm seus integrantes escolhidos de forma aleatória. mostrou que um subgrupo, composto por 103 pacientes em estado grave, tiveram um tempo de recuperação mais curto se comparados aos que não utilizaram o plasma convalescente como tratamento.

“Esse benefício era da ordem de cerca de 40% a mais de recuperação. A nossa pesquisa segue uma linha parecida com a apresentada neste estudo da JAMA: verificar a redução ou um encurtamento do tempo de melhora clínica entre os pacientes graves e, ainda, os impactos em sobrevida global”, salienta o professor Sekine.

Com poucas alternativas concretas e eficazes para tratar a covid-19, o uso de plasma sanguíneo de um paciente recuperado abre uma janela promissora no combate aos estragos provocados pelo vírus no organismo humano. Pesquisa semelhante está sendo desenvolvida na Unicamp, e o protocolo será aplicado no Hospital de Clínicas, em Campinas (SP). “O plasma convalescente surge como uma alternativa de implementação razoável e fácil, uma vez que a terapia com plasma é utilizada em larga escala em todo o mundo para fins diferentes. Agora, abrimos uma janela eficaz e facilmente acessível para a maioria dos hospitais em território nacional”, diz Sekine.

A coleta e o tratamento

Plasma em bolsa satélite, após coleta por aférese. Foto: Divulgação/HCPA.

Imagine uma legião de soldados do bem sendo injetados no seu corpo. Esse é o papel da transfusão do plasma de pessoas que já passaram e se recuperaram da covid-19 no organismo de pacientes em estado grave. A pesquisa do Hospital de Clínicas inicia com a coleta desse plasma. Até o momento, diversas pessoas se inscreveram voluntariamente para doar o material. A maioria delas reside na Região Metropolitana de Porto Alegre.

A coleta do plasma é feita através de um tipo especial de doação de sangue: a coleta por aférese é uma tecnologia médica em que o sangue de uma pessoa passa por um aparelho que separa um determinado componente em particular (plaqueta, plasma, etc) e retorna o restante à circulação. . Um equipamento, diferente daquele usado para a doação de sangue convencional, recebe um kit descartável e de uso único. O sangue do doador passa pelo equipamento que faz, por meio do kit, a separação do sangue em diferentes frações. “A parte que nos interessa é o plasma. Então, somente ele será coletado do doador. Os demais elementos sanguíneos retornam”, explica Sekine.

O plasma, agora retido para doação, é colocado em uma bolsa satélite e será preparado para o congelamento. A partir disso, esse líquido ficará preservado até a necessidade de uso pelo paciente. A coleta do plasma leva em torno de 40 a 60 minutos, é seguro e com baixa incidência de efeitos adversos. O procedimento é semelhante ao que o HCPA realiza mensalmente com cerca de 150 a 200 doadores de plaquetas.

Pronto para ser usado no tratamento de pacientes em estado graves devido à covid-19, o plasma convalescente segue a mesma técnica da transfusão de sangue. “O tratamento é considerado uma transferência de imunidade passiva, em que anticorpos induzidos em pessoas curadas de covid-19 são transferidos a pacientes recém-infectados, inibindo a infecção celular e replicação viral. Desta forma, reduzimos potencialmente a gravidade do quadro, abreviando sua duração e reduzindo a mortalidade”, diz Sekine.

Essa técnica já foi utilizada em outros surtos, tendo resultados positivos. Entretanto, ainda não se encontra uma forte base em literatura quanto a sua eficácia. Por isso, pesquisas com plasma convalescente, como as que a UFRGS e a Unicamp estão desenvolvendo, são fundamentais.

Fábio Klamt, que participa como voluntário na pesquisa EPICOVID19-BR, o maior estudo populacional sobre o coronavírus no Brasil desenvolvido pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e que já doou plasma quatro vezes, relata que a hipótese deste trabalho é, justamente, usar o organismo que já se defendeu à infecção provocada pela covid-19 para dar uma ‘segunda chance’ ao paciente em estado grave. “Os anticorpos produzidos pelo meu organismo (imunoglobulinas IgM e IgG) Existem cinco classes de imunoglobulinas: IgM, IgG, IgE, IgA e IgD. As três imunoglobulinas investigadas com maior frequência em exames são IgM, IgG e IgE. Os anticorpos IgM e IgG têm ação conjunta na proteção imediata e a longo prazo contra infecções. Os anticorpos IgE estão associados a alergias. são os responsáveis por inativar o vírus. Eles são capazes de impedir que o microorganismo entre e infecte as células, se divida, se prolifere e aumente, o que acarreta em uma complicação provocada pelo vírus. Essa imunização, por meio de anticorpos doados por transfusão de plasma, é temporária. O plasma chega no paciente infectado como um tratamento, ou seja, uma chance do organismo dele responder à infecção e se recuperar. Não se trata de uma vacina ou da cura para a doença”, salienta ele.

Dentre os principais benefícios do tratamento com plasma convalescente estão a redução do grau de replicação do vírus e, com isso, a diminuição de magnitude de resposta inflamatória, reduzindo gravidade e morbidades associadas à doença.

A primeira doação de plasma feita no Rio Grande do Sul foi de Klamt e retirou Tarcísio Giongo, 63 anos, da UTI. O paciente recebeu a transfusão e saiu do coma induzido e da ventilação mecânica. O professor fez questão de conhecer o paciente. Confira AQUI.

Etapa da pesquisa

Coleta do plasma convalescente. Foto: Divulgação/HCPA.

A coleta do plasma convalescente deverá se estender para o segundo semestre de 2020, sendo que até o momento 10 doações foram feitas. O próximo passo da pesquisa será relacionar os pacientes. Esses preencherão o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) para, em seguida, serem definidos dois grupos: de intervenção e de controle.

O paciente que for alocado para o grupo de intervenção, receberá de 1-2 doses de plasma convalescente. “Este plasma será submetido a todo o regramento legal preconizado pela legislação brasileira que versa sobre o uso de hemocomponentes, conforme prega nota técnica recente que versa sobre o assunto”, explica Sekine.

Os recursos financeiros para a realização da pesquisa vieram por meio de doação. A equipe de pesquisa já foi capacitada, como também feita a compra de insumos e serviços voltados ao estudo.

Estudantes da UFRGS também participarão da pesquisa, por meio da seleção de bolsistas que trabalharão na coleta de dados. Para Sekine, o desenvolvimento de pesquisas desta natureza em universidades públicas federais no Brasil mostra que a academia, assim como instituições de saúde como o HCPA, tem o compromisso visceral de converter pesquisa em benefício para a sociedade. “Em um momento como o presente, não me parece que haja uma forma mais direta e clara de cumprir este ideal do que focar nossos esforços em trabalhos como esse, e em tantos outros que estão em andamento no HCPA e na UFRGS”.

As pessoas com plasma convalescente da covid-19 que tenham interesse em participar da pesquisa podem entrar em contato pelo e-mail: doadordeplasma@hcpa.edu.br.

O relato de um paciente de covid-19

Fábio Klamt, professor de Departamento de Bioquímica e doador de plasma. Foto: Divulgação/Arquivo Pessoal.

Fábio Klamt tem plasma convalescente. É paciente recuperado da covid-19. Os sintomas iniciaram em 13 de março, e foram 11 dias de febre intensa (38,6 graus Celsius) e complicações respiratórias na segunda semana. A partir daí, foi necessário buscar ajuda em hospital. “Acredito que eu fui acometido na primeira leva de coronavírus no país. As complicações levaram a pneumonia nos dois pulmões. O exame de sangue mostrou que eu estava com processo inflamatório e com saturação de oxigênio: abaixo de 90% (o normal é de 98%)”, conta.

Foram seis dias em isolamento na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Ele não precisou de ventilação, mas recebeu o atendimento padrão previsto em protocolo. “Meu organismo respondeu prontamente ao tratamento com Azitromicina e Tamiflu. Recebi alta do hospital porque apresentava quadro estável e precisava liberar o leito – hoje um leito de UTI é artigo de luxo no Brasil e no mundo”.

Klamt ficou em casa, de quarentena, longe do filho pequeno, mas com a companhia dos seus pensamentos e da Internet para iniciar o debate em torno do uso de plasma convalescente no tratamento em pacientes graves de covid-19.

“Compartilhei a minha vivência porque considerei educado dizer às pessoas que eu tenho 44 anos, uma capacidade respiratória boa, mas o vírus não escolhe grupo. Não há estereótipo para o vírus”, reflete ele.

#FIQUE EM CASA! #USE MÁSCARA! #FAÇA A SUA PARTE!

Saiba mais

Nota técnica: Anvisa orienta sobre o uso de plasma para combater a covid-19

Site do Ministério da Saúde sobre a covid-19

Clínicas recebe a primeira doação de plasma sanguíneo para tratar covid-19