{"id":1036,"date":"2017-03-30T14:59:47","date_gmt":"2017-03-30T17:59:47","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/ciencia\/?p=1036"},"modified":"2017-05-05T13:39:37","modified_gmt":"2017-05-05T16:39:37","slug":"pesquisador-da-ufrgs-ajuda-a-fazer-novas-descobertas-na-area-de-prevencao-do-alzheimer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/ciencia\/pesquisador-da-ufrgs-ajuda-a-fazer-novas-descobertas-na-area-de-prevencao-do-alzheimer\/","title":{"rendered":"Pesquisador da UFRGS ajuda a fazer novas descobertas na \u00e1rea de preven\u00e7\u00e3o do Alzheimer"},"content":{"rendered":"<p>Pesquisas recentes em torno da imagiologia cerebral (o estudo dos diversos tipos de imagem feitas do c\u00e9rebro) questionam as interpreta\u00e7\u00f5es feitas at\u00e9 ent\u00e3o sobre quadros degenerativos como o Alzheimer. Participante ativo dessa empreitada, o p\u00f3s-doutorando em Bioqu\u00edmica na UFRGS <a href=\"http:\/\/buscatextual.cnpq.br\/buscatextual\/visualizacv.do?id=K4291113E8\">Eduardo Zimmer<\/a> explicou como as novas descobertas que ajudou a fazer podem impactar o modo pelo qual a medicina moderna enxerga o tratamento e a preven\u00e7\u00e3o dessas doen\u00e7as. Essas novas perspectivas est\u00e3o descritas em artigo publicado na revista <em>Nature Neuroscience<\/em>, que contou com a participa\u00e7\u00e3o de pesquisadores da McGill University, no Canad\u00e1, do Instituto Gwangju de Ci\u00eancias e Tecnologias, na Coreia do Sul, e da Universidade de Lausanne, na Su\u00ed\u00e7a. A pesquisa tamb\u00e9m fez parte da tese de doutorado de Zimmer, <a href=\"http:\/\/www.ufrgs.br\/ufrgs\/noticias\/premio-capes-de-teses-2016-destaca-trabalhos-de-programas-da-ufrgs\">premiada pela Capes em 2016<\/a>.<\/p>\n<p>Mimetizando o Alzheimer ao induzir caracter\u00edsticas similares \u00e0 doen\u00e7a em roedores, o pesquisador e sua equipe na UFRGS observaram que, mesmo usando o medicamento mais comum em tratamentos desse mal, a Memantina, era imposs\u00edvel reverter o quadro de degenera\u00e7\u00e3o depois que ele era iniciado &#8211; o f\u00e1rmaco somente \u00e9 capaz de postergar a evolu\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a. Portanto, passaram a abordar o problema pelo lado da preven\u00e7\u00e3o, e constataram que a medica\u00e7\u00e3o realmente impedia o desenvolvimento dos sintomas. Isso, por\u00e9m, levantou a quest\u00e3o: se \u00e9 poss\u00edvel prevenir o Alzheimer, quem deve ser tratado? Como n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel simplesmente ministrar Memantina preventivamente\u00a0em toda a popula\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que pessoas sem a predisposi\u00e7\u00e3o para o quadro podem sofrer efeitos colaterais, o grande desafio passou a ser identificar os sinais que denunciem futuros portadores do Mal de Alzheimer e similares. Foi com esse desafio em m\u00e3os que Zimmer se focou em ajudar a aprofundar as pesquisas sobre imagiologia cerebral, o campo que certamente guarda a chave desse processo, pois oferece uma vis\u00e3o detalhada da atividade no c\u00e9rebro dos pacientes.<\/p>\n<p>Partindo para a <em>McGill University <\/em>com uma bolsa de doutorado, o bioqu\u00edmico se debru\u00e7ou nessa \u00e1rea e n\u00e3o demorou a indagar as leituras que eram feitas das imagens topogr\u00e1ficas dos c\u00e9rebros de animais. Para obt\u00ea-las, ele explica que s\u00e3o injetados no sistema dos roedores radiof\u00e1rmacos, marcadores qu\u00edmicos que reagem \u00e0 radia\u00e7\u00e3o, produzidos para se ligarem a alvos espec\u00edficos no c\u00e9rebro. Portanto, quando o esp\u00e9cime \u00e9 exposto \u00e0 radia\u00e7\u00e3o, essas liga\u00e7\u00f5es se revelam nas leituras, denunciando a concentra\u00e7\u00e3o de atividade de um determinado tipo de c\u00e9lula (receptor) em \u00e1reas espec\u00edficas do c\u00e9rebro. Saber que estrutura celular est\u00e1 agindo em cada parte do c\u00e9rebro \u00e9 essencial para tentar descobrir as \u00e1reas que est\u00e3o apresentando um desempenho maior ou menor do que o esperado. Essas discrep\u00e2ncias s\u00e3o indicadores de quadros degenerativos.<\/p>\n<p>Zimmer explica que quem costuma lidar com esses experimentos s\u00e3o m\u00e9dicos nucleares e neurologistas, cujo foco se distancia das pesquisas b\u00e1sicas, e por isso dificilmente questionariam a interpreta\u00e7\u00e3o bioqu\u00edmica destas imagens. Algo que acabou sendo feito por ele e a equipe de pesquisadores, que colocaram em d\u00favida as interpreta\u00e7\u00f5es que eram feitas das imagens cerebrais. O que descobriram \u00e9 que os radiof\u00e1rmacos injetados nos animais n\u00e3o marcam o n\u00famero total de c\u00e9lulas receptoras a que deveriam se atrelar. Na verdade, leves altera\u00e7\u00f5es na estrutura dos marcadores fazem com que a subst\u00e2ncia se atrele a c\u00e9lulas com outras conforma\u00e7\u00f5es, resultando em imagens diferentes do mesmo c\u00e9rebro.<\/p>\n<p>Antes se acreditava que os radiof\u00e1rmacos se ligavam ao n\u00famero total de certo receptor, indicando assim toda a sua atividade no c\u00e9rebro. Por\u00e9m, agora \u00e9 sabido que isso n\u00e3o \u00e9 necessariamente verdade, pois um mesmo receptor pode ter conforma\u00e7\u00f5es diferentes que podem ou n\u00e3o se ligar \u00e0s subst\u00e2ncias injetadas para reagirem \u00e0 radia\u00e7\u00e3o. Prestando aten\u00e7\u00e3o a isso, os cientistas passaram a reexaminar o principal alvo das imagens: a glicose. Sendo ela a fonte de energia das c\u00e9lulas, bastava identificar que \u00e1reas do c\u00e9rebro denunciavam um maior consumo de glicose, para saber quais estavam mais ativas.<\/p>\n<p>Acreditava-se que, dentre os tecidos cerebrais, apenas os neur\u00f4nios \u00e9 que consumiam glicose, mas Zimmer e seus colegas demonstraram que outro tipo de c\u00e9lula cerebral tamb\u00e9m realiza esse consumo: o astr\u00f3cito. Antes tida apenas como uma estrutura de apoio aos neur\u00f4nios, os astr\u00f3citos nunca geraram grande interesse dos cientistas ao longo dos anos, segundo o pesquisador. H\u00e1 mais de meio s\u00e9culo que se levavam em conta apenas os neur\u00f4nios quando se falava em doen\u00e7as degenerativas, e a leitura feita das imagens cerebrais era de que mapeavam apenas o seu consumo de glicose.<\/p>\n<p>Por consequ\u00eancia, os medicamentos, tratamentos e an\u00e1lises sempre visaram apenas aos neur\u00f4nios, e talvez por isso, at\u00e9 hoje, n\u00e3o tenham gerado uma cura ou uma preven\u00e7\u00e3o definitivas, diz ele. Junto com sua equipe, Eduardo Zimmer prop\u00f4s agora uma d\u00favida que est\u00e1 mudando a forma de encarar as pesquisas em torno do Alzheimer: se as imagens podem indicar a atividade e a inatividade n\u00e3o s\u00f3 dos neur\u00f4nios, mas dos astr\u00f3citos tamb\u00e9m, talvez esses \u00faltimos \u00e9 que estejam doentes, e n\u00e3o os primeiros; talvez sejam at\u00e9 mesmo os dois. E com o campo cient\u00edfico mundial da \u00e1rea voltado para a preven\u00e7\u00e3o dessas doen\u00e7as, j\u00e1 que cur\u00e1-las parece improv\u00e1vel por enquanto, essa pequena d\u00favida desencadeia uma forma completamente diferente de encarar o funcionamento do c\u00e9rebro e os sinais que podem indicar quadros degenerativos.<\/p>\n<p>Os resultados da imagiologia costumam ser de grande precis\u00e3o, exemplifica ele, mostrando as topografias completas dos c\u00e9rebros de pacientes humanos com e sem o quadro de Alzheimer. Nelas \u00e9 poss\u00edvel identificar as \u00e1reas com um consumo normal e baixo de glicose, que, agora, devido \u00e0s descobertas de Zimmer e de outros pesquisadores, sabe-se que n\u00e3o representam necessariamente apenas neur\u00f4nios. Independentemente de quais sejam as c\u00e9lulas envolvidas, \u00e9 poss\u00edvel constatar que, naqueles pacientes com doen\u00e7as degenerativas, algumas \u00e1reas do seu c\u00e9rebro que deveriam estar plenamente ativas surgem praticamente apagadas. Enquanto em outros pacientes existem \u00e1reas acesas que eles chamam de placas de amiloide, que \u00e9 como se fossem grandes inflama\u00e7\u00f5es que s\u00e3o fatores de risco para o desenvolvimento do Alzheimer.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1044\" aria-describedby=\"caption-attachment-1044\" style=\"width: 660px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/ciencia\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/topografia-c\u00e9rebro-Rochele-Zandavallli-27.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1044\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/ciencia\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/topografia-c\u00e9rebro-Rochele-Zandavallli-27.jpg\" alt=\" Topografia de c\u00e9rebros. Nove quadros mostram imagens de diferentes \u00e2ngulos do c\u00e9rebro, com \u00e1reas coloridas em diferentes tons de verde e de vermelho\" width=\"660\" height=\"437\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/ciencia\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/topografia-c\u00e9rebro-Rochele-Zandavallli-27.jpg 1800w, https:\/\/www.ufrgs.br\/ciencia\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/topografia-c\u00e9rebro-Rochele-Zandavallli-27-600x397.jpg 600w, https:\/\/www.ufrgs.br\/ciencia\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/topografia-c\u00e9rebro-Rochele-Zandavallli-27-1024x678.jpg 1024w\" sizes=\"(max-width: 660px) 100vw, 660px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-1044\" class=\"wp-caption-text\">Nas topografias dos c\u00e9rebros, as \u00e1reas vermelhas indicam placas de amiloide &#8211; Foto: Rochele Zandavalli\/UFRGS<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h5>Prevenindo o Alzheimer no dia a dia<\/h5>\n<p>Estudos indicam\u00a0que existem maneiras de prevenir ou postergar esses males de forma geral na popula\u00e7\u00e3o. \u201cO c\u00e9rebro \u00e9 como qualquer outro m\u00fasculo, se corretamente exercitado pode se tornar mais resistente\u201d, explica o p\u00f3s-doutorando. O truque \u00e9 proporcionar novas liga\u00e7\u00f5es neurais, ou seja, aprender coisas novas. N\u00e3o se trata de ler um livro diferente ou trocar esse exerc\u00edcio por aquele. Zimmer diz que a preven\u00e7\u00e3o ou posterga\u00e7\u00e3o pode ser realizada por todos em suas rotinas se as pessoas se dedicarem a aprender algo completamente novo, independentemente da idade. Tocar um instrumento, falar outra l\u00edngua, conhecer um assunto fora da sua zona de conforto, etc. Claro que h\u00e1 quadros que s\u00e3o inevit\u00e1veis, como aqueles em que o Alzheimer \u00e9 heredit\u00e1rio, mas estes s\u00e3o muito raros.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h5>O que fazer agora?<\/h5>\n<p>Hoje, Eduardo Zimmer \u00e9 um pesquisador associado do Instituto do C\u00e9rebro, sediado na PUC-RS, que possui a aparelhagem que possibilitou boa parte de suas pesquisas. Desde ent\u00e3o, por\u00e9m, a UFRGS conseguiu um Micropet, esp\u00e9cie de m\u00e1quina de resson\u00e2ncia magn\u00e9tica para animais de pequeno porte. Quando estiver instalado, o pesquisador acredita que a parceria entre as duas universidades vai come\u00e7ar a estabelecer um dos poucos lugares do mundo equipado o suficiente para formar um centro de imagens do c\u00e9rebro. Isso agilizaria bastante os processos, pois os radiof\u00e1rmacos injetados nos esp\u00e9cimes, por exemplo, ficam ativos no sistema dos animais por apenas 20 minutos em m\u00e9dia. Trata-se, portanto, de pequenas janelas de tempo para realizar esses exames complexos, e a autonomia dele e de sua equipe para realiz\u00e1-los \u00e9 essencial para o avan\u00e7o.<\/p>\n<p>Zimmer se foca atualmente no estudo dessas imagens. Como j\u00e1 possui uma bolsa institucional de p\u00f3s-doutorado, ele deve converter 50% do valor daquela conferida pela Capes em recursos para as pesquisas de laborat\u00f3rio aqui na UFRGS. O campo, que, segundo ele, mesmo a n\u00edvel mundial, \u00e9 pequeno, precisa sempre de novos incentivos. Ele d\u00e1 o exemplo de alguns radiof\u00e1rmacos que ainda precisam de aprova\u00e7\u00e3o da Anvisa para serem ministrados no Brasil, embora j\u00e1 sejam liberados no resto do mundo. Mesmo que pa\u00edses como os Estados Unidos j\u00e1 tenham aprovado algumas dessas subst\u00e2ncias em testes com seres humanos, a Anvisa exige que eles sejam refeitos no Brasil.<\/p>\n<p>Esses marcadores geram outro tipo de imagens cerebrais e identificam com facilidade as placas de amiloide, que podem vir a prever com at\u00e9 20 anos de anteced\u00eancia o surgimento de doen\u00e7as como o Alzheimer, segundo estudos recentes. Acredita-se que apenas 30% dos pacientes com placas de amiloide n\u00e3o desenvolvem o Alzheimer dentro da sua expectativa de vida, j\u00e1 que, \u00e0s vezes, o indiv\u00edduo tem grandes chances de sofrer do mal e simplesmente precisaria viver mais para chegar aos sintomas. Ainda existem d\u00favidas sobre as quantidades que definem se uma pessoa \u00e9 ou n\u00e3o amiloide positiva, ou seja, propensa ao quadro. Por isso torna-se imperativo que se continuem os estudos cl\u00ednicos na \u00e1rea, e com todo esse aparelhamento e as recentes descobertas de Zimmer, \u201co sul do Brasil \u00e9 um lugar forte para encabe\u00e7\u00e1-las\u201d, finaliza ele.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h5>Artigo Cient\u00edfico<\/h5>\n<p>ZIMMER, Eduardo R et al. <a href=\"http:\/\/www.lume.ufrgs.br\/handle\/10183\/140013\">[18F]FDG PET signal is driven by astroglial glutamate transport. Nature Neuroscience<\/a>, v. 20, n. 3, p.393-395, 30 jan. 2017<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h5>Tese<\/h5>\n<p><strong>T\u00edtulo: <\/strong><a href=\"http:\/\/www.lume.ufrgs.br\/handle\/10183\/140013\">O envolvimento da prote\u00edna fosfatase 2A e do sistema glutamat\u00e9rgico em processos neurodegenerativos relacionados \u00e0 doen\u00e7a de Alzheimer: mecanismos e biomarcadores de imagem<\/a><br \/>\n<strong>Autor: <\/strong><a href=\"http:\/\/buscatextual.cnpq.br\/buscatextual\/visualizacv.do?id=K4291113E8\">Eduardo Zimmer<\/a><strong><br \/>\nOrientador: <\/strong><a href=\"http:\/\/buscatextual.cnpq.br\/buscatextual\/visualizacv.do?id=K4705355Z4\">Luis Valmor Cruz Portela<\/a><strong><br \/>\nUnidade: <\/strong>Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancias Biol\u00f3gicas: Bioqu\u00edmica<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pesquisas recentes em torno da imagiologia cerebral (o estudo dos diversos tipos de imagem feitas do c\u00e9rebro) questionam as interpreta\u00e7\u00f5es feitas at\u00e9 ent\u00e3o sobre quadros degenerativos como o Alzheimer. 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