{"id":1340,"date":"2017-10-27T13:47:13","date_gmt":"2017-10-27T15:47:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/ciencia\/?p=1340"},"modified":"2017-11-03T14:12:24","modified_gmt":"2017-11-03T16:12:24","slug":"pesquisas-buscam-entender-quantas-e-quem-sao-as-vitimas-de-feminicidios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/ciencia\/pesquisas-buscam-entender-quantas-e-quem-sao-as-vitimas-de-feminicidios\/","title":{"rendered":"Pesquisas buscam entender quantas e quem s\u00e3o as v\u00edtimas de feminic\u00eddios"},"content":{"rendered":"<p>O Brasil \u00e9 o quinto pa\u00eds em que mais se matam mulheres, com uma taxa de 4,8 homic\u00eddios para cada 100 mil \u2013 atr\u00e1s apenas de El Salvador, Col\u00f4mbia, Guatemala e R\u00fassia, segundo a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS). De acordo com o <a href=\"http:\/\/www.mapadaviolencia.org.br\/pdf2015\/MapaViolencia_2015_mulheres.pdf\">Mapa da Viol\u00eancia<\/a>, entre 1980 e 2013, 106.093 mulheres foram assassinadas no pa\u00eds, num ritmo crescente ao longo do tempo. O n\u00famero de v\u00edtimas passou de 1.353 em 1980 (quando a taxa era de 2,3 por 100 mil) para 4.762 em 2013 \u2013 um aumento de 252%. O relat\u00f3rio traz dados gerais, n\u00e3o especificando as circunst\u00e2ncias em que os crimes ocorreram, mas, com base em levantamentos realizados no Brasil e em outros pa\u00edses, estima-se que entre 60% e 70% das mulheres assassinadas tenham sido v\u00edtimas de feminic\u00eddios \u2013 crimes de \u00f3dio baseados em g\u00eanero: ou seja, foram mortas unicamente pelo fato de serem mulheres. Mas, afinal, quem s\u00e3o elas?<\/p>\n<p>Ter a resposta a essa pergunta \u00e9 um passo importante para o combate a esse tipo de crime. Como salienta a professora do Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Sa\u00fade Coletiva da UFRGS <a href=\"http:\/\/buscatextual.cnpq.br\/buscatextual\/visualizacv.do?id=K4780987J6\">Stela Meneghel<\/a>, \u00e9 preciso que os profissionais da seguran\u00e7a e da sa\u00fade sejam capazes de identificar mulheres em risco e intervir rapidamente quando necess\u00e1rio. Conforme a professora da <em>Universidad Nacional de Colombia<\/em> Dora Munevar, citada em <a href=\"http:\/\/www.scielo.br\/pdf\/csc\/v22n9\/1413-8123-csc-22-09-3077.pdf\">um dos artigos do qual Meneghel foi coautora<\/a>, para fazer frente aos feminic\u00eddios, \u00e9 preciso realizar as a\u00e7\u00f5es de nomear, visibilizar e conceituar as mortes violentas de mulheres. \u00c9 preciso tamb\u00e9m dispor de informa\u00e7\u00f5es fidedignas para o monitoramento dos feminic\u00eddios em um territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>Para colaborar com essa quest\u00e3o, Meneghel e seu grupo de pesquisa v\u00eam, nos \u00faltimos anos, realizando uma s\u00e9rie de estudos que buscam identificar onde ocorrem os assassinatos baseados em g\u00eanero e quais os fatores que colaboram para a vulnerabiliza\u00e7\u00e3o das mulheres. Entre eles, destacam-se os levantamentos das mortes femininas por agress\u00e3o nos estados, nos munic\u00edpios brasileiros de mais de 400 mil habitantes e nas microrregi\u00f5es do Rio Grande do Sul e uma pesquisa qualitativa com vistas a identificar os feminic\u00eddios na cidade de Porto Alegre.<\/p>\n<p>Os levantamentos consistiram em pesquisas quantitativas realizadas com base no Sistema de Informa\u00e7\u00f5es sobre Mortalidade do Datasus. Como nem o sistema nem os atestados de \u00f3bito informam se houve feminic\u00eddio ou trazem informa\u00e7\u00f5es sobre o respons\u00e1vel pelo crime, os pesquisadores optaram por trabalhar com o total de homic\u00eddios femininos como um indicador da quantidade de feminic\u00eddios. Os dados foram correlacionados com uma s\u00e9rie de indicadores demogr\u00e1ficos, socioecon\u00f4micos e de sa\u00fade.<\/p>\n<p>Os levantamentos indicaram que, entre 2003 e 2007, ocorreram quase 19,5 mil mortes de mulheres por agress\u00e3o no pa\u00eds \u2013 o que d\u00e1 um \u00edndice de 4,1 para cada 100 mil. A maioria era solteira e com baixa escolaridade, e mais da metade, negra. Aproximadamente 20% eram crian\u00e7as ou jovens com menos de 20 anos, e cerca de um ter\u00e7o das mortes ocorreu na casa da v\u00edtima, o que indica que foram causadas por algu\u00e9m pr\u00f3ximo e que provavelmente se tratam de feminic\u00eddios. Esp\u00edrito Santo, Mato Grosso, Rio de Janeiro e Pernambuco foram os estados que apresentaram maiores taxas de homic\u00eddios de mulheres.<\/p>\n<p>No mesmo per\u00edodo, o Rio Grande do Sul apresentou m\u00e9dia de mortes femininas por agress\u00e3o menor que a do pa\u00eds \u2013 3,1 \u00f3bitos para cada 100 mil. As microrregi\u00f5es que apresentaram os maiores coeficientes de mortalidade feminina por agress\u00e3o foram Frederico Westphalen (6,2), Iju\u00ed (5,6), Vacaria (5,2), Campanha Meridional (4,7), Passo Fundo (4,2), Cruz Alta (4,1) e Porto Alegre (4,1).<\/p>\n<p>J\u00e1 os dados relacionados \u00e0s capitais e \u00e0s cidades brasileiras com mais de 400 mil habitantes se referem a dois per\u00edodos: 2007 a 2009 e 2011 a 2013. Foram inclu\u00eddos 58 munic\u00edpios, que representam 1% dos munic\u00edpios brasileiros, 33% da popula\u00e7\u00e3o feminina e 39% das mortes de mulheres por agress\u00e3o. No primeiro tri\u00eanio a taxa m\u00e9dia de homic\u00eddios foi de 4,5 \u00f3bitos por 100 mil mulheres, e no segundo, de 4,9\/100 mil. Assim como no levantamento dos estados, houve predom\u00ednio de mulheres negras \u2013 cujo risco de homic\u00eddio \u00e9 duas vezes maior que o das brancas \u2013, solteiras (70,3%), jovens (72% est\u00e1 na faixa et\u00e1ria dos 10 a 39 anos) e com baixa escolaridade. 22% das mulheres morreram dentro de suas pr\u00f3prias casas. O estado do Esp\u00edrito Santo apresenta os munic\u00edpios com as maiores taxas nacionais: Serra (14,2\/100 mil entre 2011 e 2013) e Vila Velha (10,3\/100 mil no mesmo per\u00edodo).<\/p>\n<p>Entre as principais rela\u00e7\u00f5es encontradas nos tr\u00eas recortes est\u00e1 a associa\u00e7\u00e3o dos homic\u00eddios masculinos com os femininos. Ou seja, em locais com alto \u00edndice de assassinatos de homens, tamb\u00e9m morrem mais mulheres. \u201cA gente encontrou essa associa\u00e7\u00e3o, entre as mortes femininas e as masculinas, que era algo muito discutido ainda na literatura. Alguns diziam que n\u00e3o tinham nada a ver esses fen\u00f4menos. Eles s\u00e3o diferentes, sim, mas onde h\u00e1 mais viol\u00eancia estrutural, viol\u00eancia urbana, viol\u00eancia na comunidade, enfim, onde h\u00e1 mais homic\u00eddios masculinos, tamb\u00e9m h\u00e1 mais feminic\u00eddios\u201d, explica Meneghel. Conforme explica a professora, a taxa de homic\u00eddios masculinos \u00e9 um indicador da viol\u00eancia urbana e social associada a desigualdades sociais e econ\u00f4micas, ao papel fraco do Estado e a a\u00e7\u00f5es ineficazes de seguran\u00e7a p\u00fablica, e o levantamento corrobora a percep\u00e7\u00e3o de que as viol\u00eancias apresentam-se intrinsecamente ligadas. Ou seja, onde a sociedade \u00e9 mais violenta, as mulheres s\u00e3o mais penalizadas.<\/p>\n<p>Vale ressaltar, entretanto, que homens e mulheres n\u00e3o morrem da mesma forma. Os homic\u00eddios masculinos ocorrem, em sua maioria, na rua, e seus assassinos tamb\u00e9m s\u00e3o homens. Suas mortes ocorrem em situa\u00e7\u00f5es como brigas, assaltos e conflitos relacionados ao tr\u00e1fico, enquanto as mulheres s\u00e3o assassinadas, principalmente, em decorr\u00eancia de viol\u00eancias \u00edntimas que permeiam rela\u00e7\u00f5es interpessoais entre homens e mulheres. Se, por um lado, \u00e9 verdade que os homic\u00eddios femininos correspondem a somente cerca de 10% do total de homic\u00eddios, os assassinatos de mulheres constituem um problema social cuja magnitude n\u00e3o pode ser minimizada, uma vez que suas mortes s\u00e3o, na maioria, baseadas na desigualdade entre os g\u00eaneros.<\/p>\n<p>Nas pesquisas realizadas no \u00e2mbito dos estados e das grandes cidades tamb\u00e9m foi observado que em regi\u00f5es com alto percentual de evang\u00e9licos pentecostais \u00e9 maior o n\u00famero de mortes femininas por agress\u00e3o. \u00c9 claro que, como se trabalham com m\u00e9dias, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel fazer uma rela\u00e7\u00e3o direta ou afirmar que as mortes sejam causadas pelos evang\u00e9licos. Entretanto, como explica Meneghel, os evang\u00e9licos pentecostais est\u00e3o em locais onde a popula\u00e7\u00e3o \u00e9 mais pobre e o Estado se faz menos presente. Muitos desses locais tamb\u00e9m s\u00e3o regi\u00f5es de fronteira marcadas por conflitos. Al\u00e9m disso, ressalta a professora, os evang\u00e9licos pentecostais compartilham valores bastante conservadores em rela\u00e7\u00e3o ao papel da mulher, com uma divis\u00e3o sexual patriarcal que refor\u00e7a a posi\u00e7\u00e3o de subordina\u00e7\u00e3o da mulher \u00e0 autoridade masculina.<\/p>\n<p>J\u00e1 no Rio Grande do Sul, foi constatada forte rela\u00e7\u00e3o entre os \u00edndices de interna\u00e7\u00e3o hospitalar por alcoolismo e os homic\u00eddios de mulheres. Novamente, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel fazer rela\u00e7\u00f5es diretas, mas o dado pode indicar que a viol\u00eancia contra as mulheres \u00e9 maior em regi\u00f5es com elevado consumo de \u00e1lcool, bem como que o abuso de \u00e1lcool e a agress\u00e3o possam estar associados a condicionantes comuns.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>Feminic\u00eddios em Porto Alegre<\/h2>\n<p>Como falado anteriormente, os levantamentos trabalham com dados gerais relacionados \u00e0 mortalidade feminina por agress\u00e3o, n\u00e3o sendo poss\u00edvel dizer, exatamente, quantos desses casos consistem em feminic\u00eddios. Para aprofundar o entendimento de quantas e quem s\u00e3o, de fato, as mulheres que v\u00eam morrendo em raz\u00e3o de seu g\u00eanero, os pesquisadores resolveram estender o trabalho e realizar uma pesquisa qualitativa que identificasse os feminic\u00eddios ocorridos em Porto Alegre.<\/p>\n<p>Os dados foram coletados a partir da leitura de inqu\u00e9ritos policiais de mulheres assassinadas entre 2006 e 2010. Os feminic\u00eddios foram categorizados caso a caso com base na an\u00e1lise das informa\u00e7\u00f5es que constam nos inqu\u00e9ritos, o que inclu\u00eda a caracteriza\u00e7\u00e3o da v\u00edtima, os depoimentos do agressor e das testemunhas e os resultados da investiga\u00e7\u00e3o, entre outras quest\u00f5es. Os crit\u00e9rios para a classifica\u00e7\u00e3o dos crimes como femin\u00edcidios englobaram assassinatos de mulheres perpetrados por parceiro \u00edntimo atual ou passado; mortes com viol\u00eancia sexual, incluindo assassinatos de prostitutas em seu local de trabalho; mortes em que houve mutila\u00e7\u00e3o genital ou desfiguramento do rosto da v\u00edtima; uso desproporcional de meios letais; e execu\u00e7\u00f5es relacionadas ao tr\u00e1fico, nas quais se considerou que o fato de ser mulher potencializou o crime. Sobre este \u00faltimo aspecto, Meneghel comenta que muitas vezes, o corpo das mulheres \u00e9 utilizado como territ\u00f3rio de vingan\u00e7a, com crimes cometidos em esfera p\u00fablica por gangues, m\u00e1fias ou outros tipos de grupos armados, envolvendo execu\u00e7\u00e3o, mutila\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia sexual. A viol\u00eancia contra as mulheres \u00e9 utilizada, nesses casos, como demonstra\u00e7\u00e3o de poder, e seus corpos s\u00e3o marcados como mensagens para a sociedade.<\/p>\n<p>\u201cMuitas autoridades consideram que os feminic\u00eddios s\u00e3o apenas os \u00edntimos \u2013 aqueles perpetrados pelo marido, pelo ex-marido, pelo companheiro, pelo namorado, durante ou ap\u00f3s o relacionamento. Por\u00e9m, atualmente, tem-se trabalhado com um conceito mais amplo: o feminic\u00eddio \u00e9 a morte de uma mulher devido \u00e0 sua condi\u00e7\u00e3o de ser mulher, \u00e0 sua condi\u00e7\u00e3o de g\u00eanero. H\u00e1 execu\u00e7\u00f5es que s\u00e3o feminic\u00eddios, porque se referem a uma briga entre homens, por exemplo, mas a mulher \u00e9 assassinada como retalia\u00e7\u00e3o, para demonstrar poder\u201d, salienta a pesquisadora.<\/p>\n<p>A professora conta que os debates acerca da classifica\u00e7\u00e3o dos casos eram constantes no grupo de pesquisa. \u201cQuando se est\u00e1 estudando um assunto, sempre h\u00e1 uma tend\u00eancia de tu for\u00e7ares tua opini\u00e3o. Ent\u00e3o a gente fazia muito o debate pr\u00f3 e contra. Sempre faz\u00edamos as discuss\u00f5es e nos pergunt\u00e1vamos: \u2018Ser\u00e1 que \u00e9 mesmo? Se fosse um homem, ele teria sido assassinado nessa circunst\u00e2ncia?\u2019\u201d, comenta. Os dados foram coletados entre 2010 e 2013. Segundo a pesquisadora, esse foi o primeiro estudo brasileiro que calculou a propor\u00e7\u00e3o de feminic\u00eddios entre o total de homic\u00eddios de mulheres.<\/p>\n<p>Apesar de os dados do Datasus indicarem que, no per\u00edodo analisado, cerca de 200 mulheres haviam sido assassinadas na cidade, somente foram disponibilizados \u00a089 inqu\u00e9ritos aos pesquisadores. Duas explica\u00e7\u00f5es foram dadas a eles sobre essa quest\u00e3o: a primeira era de que muitas das mortes poderiam ter ocorrido em outros munic\u00edpios, o que n\u00e3o se confirmou, uma vez que o grupo de pesquisa se certificou de que os 200 casos se referiam, sim, ao local de ocorr\u00eancia do fato. A segunda explica\u00e7\u00e3o \u00e9 a de que as investiga\u00e7\u00f5es ainda estavam em andamento at\u00e9 o fim do per\u00edodo da coleta de dados \u2013 que ocorreu ao menos tr\u00eas anos ap\u00f3s os crimes \u2013, ainda que em termos jur\u00eddicos, o inqu\u00e9rito deva ser encerrado em um prazo de 10 dias se o indiciado tiver sido preso em flagrante ou estiver preso preventivamente ou no prazo de 30 dias quando estiver solto.<\/p>\n<p>Dos 89 casos analisados, 64 foram classificados como feminic\u00eddios, representando 72% do total \u2013 um panorama similar ao encontrado em outros pa\u00edses, como Costa Rica, Estados Unidos e Canad\u00e1. Em 78% dos feminic\u00eddios, o agressor era conhecido da v\u00edtima, e 43% deles foram perpetrados por parceiros ou ex-parceiros \u2014 maridos, namorados, noivos ou ficantes. Outro dado importante se refere ao hist\u00f3rico de viol\u00eancia anterior \u2013 presente em 83% dos feminic\u00eddios e em nenhum dos outros tipos de homic\u00eddio. Em metade dos casos, a mulher j\u00e1 havia registrado boletim de ocorr\u00eancia contra o agressor.<\/p>\n<p>Esse dado refor\u00e7a o conceito de que a viol\u00eancia contra a mulher \u00e9 um evento de car\u00e1ter cr\u00f4nico. \u201cAntigamente se falava no ciclo de viol\u00eancia contra a mulher. Hoje, a gente tem trabalhado com o conceito de cont\u00ednuo. N\u00e3o \u00e9 ciclo, que vem e volta, mas uma situa\u00e7\u00e3o de aumento gradativo. Por exemplo, faz 20 anos que o homem come\u00e7ou a desqualificar a mulher, ent\u00e3o, passou a xing\u00e1-la, e depois come\u00e7ou a bater. \u00c9 uma viol\u00eancia que come\u00e7a e vai aumentando. A gente viu isso nas hist\u00f3rias dos inqu\u00e9ritos e em outros estudos sobre viol\u00eancia\u201d. O feminic\u00eddio seria, ent\u00e3o, a etapa final desse cont\u00ednuo.<\/p>\n<p>A maioria das mulheres foi assassinada em sua pr\u00f3pria casa (67% dos feminic\u00eddios e 48% dos outros crimes), e, das 21 mortes que ocorreram em ambientes p\u00fablicos, 10 apresentaram viol\u00eancia sexual e 10 foram execu\u00e7\u00f5es de mulheres em ambientes de tr\u00e1fico, em situa\u00e7\u00f5es em que o fato de ser mulher foi determinante para a morte. Proporcionalmente, tamb\u00e9m morrem mais mulheres jovens por feminic\u00eddio do que nos demais homic\u00eddios femininos, j\u00e1 que 84% das v\u00edtimas de feminic\u00eddios tinham menos de 40 anos, enquanto nos demais casos esse \u00edndice foi de 56%. O estudo tamb\u00e9m apontou uma sobremortalidade de mulheres negras em todos os tipos de homic\u00eddios. Apesar de representarem cerca de 20% da popula\u00e7\u00e3o feminina de Porto Alegre, elas foram as v\u00edtimas em 23% dos feminic\u00eddios e 60% dos demais assassinatos. A presen\u00e7a de arma no domic\u00edlio tamb\u00e9m se revela um risco para a ocorr\u00eancia de homic\u00eddios. Metade dos feminic\u00eddios e 72% dos demais tipos de homic\u00eddios foram provocados por armas de fogo.<\/p>\n<p>O alto \u00edndice de assassinatos de prostitutas tamb\u00e9m chamou a aten\u00e7\u00e3o dos pesquisadores. Conforme Menghel, dos 89 casos de mortes por agress\u00e3o registrados no per\u00edodo da pesquisa, 11 foram de mulheres que exerciam a prostitui\u00e7\u00e3o. \u201cAlguns desses casos foram crimes de \u00f3dio, com viol\u00eancia sexual, desmembramento do corpo e marcas de viol\u00eancia f\u00edsica. Isso nos deixou muito sensibilizados. H\u00e1 artigos que dizem que, na Europa, o risco de uma mulher prostituta, principalmente quando trabalha na rua, sofrer um feminic\u00eddio \u00e9 50 vezes maior que o da popula\u00e7\u00e3o em geral. Aqui deve ser muito maior que 50, por esse n\u00famero t\u00e3o grande que encontramos\u201d, conta a professora, que, junto de seu grupo, planeja escrever um artigo que aprofunde essa quest\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>Problema de seguran\u00e7a p\u00fablica<\/h2>\n<p>\u201cNos tocou muito fazer esse trabalho. \u00c9 Importante porque mostra que feminic\u00eddio n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 de parceiro \u00edntimo. Tem todas essas outras situa\u00e7\u00f5es que ficam desconsideradas, inclusive pela pol\u00edcia\u201d, conta Meneghel, exemplificando que o delegado com quem inicialmente negociaram a entrada na delegacia dizia que n\u00e3o havia feminic\u00eddios em Porto Alegre.<\/p>\n<p>Outro ponto que ela ressalta \u00e9 o baixo percentual de indiciamento dos casos analisados. \u201cAlguns poderiam ter sido mais investigados, no nosso entender. A gente n\u00e3o entrou no campo jur\u00eddico, mas a gente viu que tinha inqu\u00e9rito de somente uma p\u00e1gina: era o boletim de ocorr\u00eancia, a declara\u00e7\u00e3o de \u00f3bito e mais nada. Alguns tamb\u00e9m diziam que n\u00e3o foi poss\u00edvel encontrar testemunhas, que predomina a lei do sil\u00eancio.\u201d<\/p>\n<p>Os feminic\u00eddios, conta a professora, s\u00e3o uma mostra das rela\u00e7\u00f5es de poder que existem na sociedade. \u201cGrupos que t\u00eam mais poder e mais privil\u00e9gios n\u00e3o querem mudar, porque isso significa perda de privil\u00e9gios. Ent\u00e3o, historicamente, os feminic\u00eddios n\u00e3o t\u00eam sido punidos no pa\u00eds. E da\u00ed tem todas as alega\u00e7\u00f5es \u2013 ci\u00fames, estado violento de paix\u00e3o, descontrole, crimes de honra \u2013, todo esse palavreado antiquado e moralista que significa manter os assassinos impunes. E se eles s\u00e3o ricos, a impunidade \u00e9 ainda maior\u201d, enfatiza.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>E tamb\u00e9m problema de sa\u00fade p\u00fablica<\/h2>\n<p>\u201cUma morte feminina precoce por agress\u00e3o \u00e9 um problema de sa\u00fade p\u00fablica e de direitos humanos\u201d, enfatiza Meneghel. A viol\u00eancia contra a mulher, alias, \u00e9 considerada um problema de sa\u00fade p\u00fablica pela Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade desde 1990. Portanto, como explica a pesquisadora, os profissionais da \u00e1rea precisam de ferramentas que os permitam trabalhar na identifica\u00e7\u00e3o e na preven\u00e7\u00e3o de situa\u00e7\u00f5es de risco.<\/p>\n<p>Alguns fatores, conforme demonstram as pesquisas na \u00e1rea, atuam como agravantes e aumentam a probabilidade de a mulher ser v\u00edtima de feminic\u00eddio, como situa\u00e7\u00f5es em que o homem n\u00e3o aceita a separa\u00e7\u00e3o, hist\u00f3rico de viol\u00eancia e o fato de o homem ter porte de armas, por exemplo. \u201cOutra coisa \u00e9 a amea\u00e7a de morte. Existe um consenso popular de que c\u00e3o que ladra n\u00e3o morde, de que, se amea\u00e7ou, \u00e9 porque n\u00e3o vai fazer nada. Mas, na realidade, a gente v\u00ea que grande parte das pessoas que amea\u00e7am executa ou tenta executar. \u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o de risco, sim\u201d, destaca a professora.<\/p>\n<p>Ela conta que at\u00e9 existem algumas experi\u00eancias organizadas e bem sucedidas no pa\u00eds para atendimento e preven\u00e7\u00e3o de situa\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia contra a mulher, mas ainda s\u00e3o poucas. \u201cUma das coisas que \u00e9 importante \u00e9 que sempre se tenha um protocolo de perguntas. Antigamente, havia a ideia de que n\u00e3o se falava de certos temas, como o suic\u00eddio e a viol\u00eancia contra a mulher. Mas, na realidade, tem que perguntar. Na d\u00favida, pergunta\u201d, enfatiza.<\/p>\n<p>\u201cO que acontece tamb\u00e9m \u00e9 que alguns locais t\u00eam uma demanda t\u00e3o grande de trabalho, como nos pronto-atendimentos, que o profissional, acaba nem perguntando. Ainda, muitas vezes, os profissionais de sa\u00fade n\u00e3o t\u00eam o que fazer, ent\u00e3o at\u00e9 preferem nem ficar sabendo. Teria que ter mais suporte, mais retaguarda para os trabalhadores que est\u00e3o na ponta. Muitas vezes a pessoa detecta a situa\u00e7\u00e3o e n\u00e3o tem para onde enviar a mulher\u201d, complementa. Um exemplo, segundo Meneghel, \u00e9 o fato de que s\u00f3 existe uma casa de passagem em Porto Alegre. \u201cIsso \u00e9 s\u00f3 pra ingl\u00eas ver, para fazer de conta que tem. Teria que ter pelo menos uma em cada ger\u00eancia distrital\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>Artigos cient\u00edficos<\/h2>\n<p>MENEGHEL, Stela Nazareth et al. <a href=\"http:\/\/www.scielo.br\/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S1413-81232017002902963&amp;lng=en&amp;nrm=iso&amp;tlng=pt\">Feminic\u00eddios: estudo em capitais e munic\u00edpios brasileiros de grande porte populacional<\/a>. Ci\u00eancia &amp; Sa\u00fade Coletiva, v. 22, n. 9, set. 2017.<\/p>\n<p>MENEGHEL, Stela Nazareth; PORTELLA, Ana Paula. <a href=\"http:\/\/www.scielo.br\/scielo.php?pid=S1413-81232017002903077&amp;script=sci_abstract&amp;tlng=pt\">Feminic\u00eddios: conceitos, tipos e cen\u00e1rios<\/a>. Ci\u00eanc. sa\u00fade coletiva, vol.22, n.9. 2017.<\/p>\n<p>MARGARITES, Ane Freitas; MENEGHEL, Stela Nazareth; CECCON, Roger Flores. <a href=\"http:\/\/www.scielo.br\/scielo.php?pid=S1415-790X2017000200225&amp;script=sci_abstract&amp;tlng=pt\">Feminic\u00eddios na cidade de Porto Alegre: Quantos s\u00e3o? Quem s\u00e3o?<\/a>.\u00a0<strong>Revista Brasileira de Epidemiologia,\u00a0<\/strong> v. 20, n. 2, jun. 2017.<\/p>\n<p>LEITES, Gabriela Tomedi; MENEGHEL, Stela Nazareth; HIRAKATA, Vania Noemi. <a href=\"http:\/\/www.scielo.br\/pdf\/rbepid\/v17n3\/pt_1415-790X-rbepid-17-03-00642.pdf\">Homic\u00eddios femininos no Rio Grande do Sul, Brasil<\/a>.\u00a0<strong>Revista Brasileira de Epidemiologia<\/strong>v. 17, n. 3, set. 2014.<\/p>\n<p>MENEGHEL, Stela Nazareth et al. <a href=\"http:\/\/www.scielo.br\/scielo.php?pid=S1414-32832013000300003&amp;script=sci_abstract&amp;tlng=pt\">Femic\u00eddios: narrativas de crimes de g\u00eanero<\/a>. Interface, vol.17, n.46. 2013<\/p>\n<p>MENEGHEL, Stela Nazareth; HIRAKATA, Vania Naomi. <a href=\"http:\/\/www.scielo.br\/scielo.php?pid=S0034-89102011000300015&amp;script=sci_arttext&amp;tlng=en\">Femic\u00eddios: homic\u00eddios femininos no Brasil<\/a>. 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