{"id":1437,"date":"2018-03-08T10:19:01","date_gmt":"2018-03-08T13:19:01","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/ciencia\/?p=1437"},"modified":"2018-03-26T14:36:21","modified_gmt":"2018-03-26T17:36:21","slug":"a-construcao-de-genero-e-a-visibilidade-da-mulher","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/ciencia\/a-construcao-de-genero-e-a-visibilidade-da-mulher\/","title":{"rendered":"A constru\u00e7\u00e3o de g\u00eanero e a visibilidade da mulher"},"content":{"rendered":"<p>O dia 8 de mar\u00e7o, adotado pela Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas e por diversos pa\u00edses como o Dia da Mulher, \u00e9 uma celebra\u00e7\u00e3o de conquistas sociais, pol\u00edticas e econ\u00f4micas das mulheres ao longo dos anos. A origem dessa data vem das manifesta\u00e7\u00f5es das mulheres russas por melhores condi\u00e7\u00f5es de vida e de trabalho durante a Primeira Guerra Mundial, no ano de 1917. Foi a partir da manifesta\u00e7\u00e3o organizada por elas que o dia 8 foi escolhido. N\u00e3o s\u00f3 uma celebra\u00e7\u00e3o, o Dia da Mulher \u00e9 uma forma de conscientiza\u00e7\u00e3o da sociedade sobre as desigualdades de g\u00eanero que ainda existem.<\/p>\n<p>Uma pesquisa feita pelo Grupo de Consultoria de Boston (BCG) com mais de 5 mil pessoas constatou que empresas promovendo um maior progresso nas pol\u00edticas da diversidade de g\u00eanero t\u00eam, em m\u00e9dia, 85% de mulheres e 87% de homens que buscam subir de cargo. Enquanto naquelas companhias mais conservadoras em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 distribui\u00e7\u00e3o de cargos e \u00e0 inclus\u00e3o, a m\u00e9dia das mulheres cai para 66%. Ou seja, o levantamento conclui que, nesses ambientes, as mulheres perdem a ambi\u00e7\u00e3o profissional. As professoras do Instituto de F\u00edsica da UFRGS <a href=\"http:\/\/buscatextual.cnpq.br\/buscatextual\/visualizacv.do?id=K4761126U3\">Daniela Pavani<\/a> e <a href=\"http:\/\/buscatextual.cnpq.br\/buscatextual\/visualizacv.do?id=K4769897U6\">Carolina Brito<\/a> notaram algo similar durante as a\u00e7\u00f5es de extens\u00e3o com crian\u00e7as em escolas p\u00fablicas que as levaram a criar o projeto <em><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/meninasnacienciaufrgs\/\">Meninas na Ci\u00eancia<\/a><\/em>. As docentes perceberam dois fen\u00f4menos: 1\u00ba &#8211; as crian\u00e7as s\u00e3o muito curiosas nas s\u00e9ries mais iniciais, e esse interesse se perde conforme avan\u00e7am na grade curricular; 2\u00ba &#8211; nesses primeiros est\u00e1gios, a participa\u00e7\u00e3o de meninos e meninas \u00e9 igual em todos os assuntos, mas, no que tange a ci\u00eancia, as meninas deixam de participar nas s\u00e9ries posteriores. \u201cMuitas vezes h\u00e1 o interesse, mas elas simplesmente n\u00e3o se enxergam como parte daquele espa\u00e7o\u201d, conta Pavani.<\/p>\n<p>Segundo ela, isso ocorre por causa dos chamados \u201cbelisc\u00f5es\u201d ou \u201cmordidas de mosquito\u201d, adversidades do dia a dia que v\u00e3o desincentivando as mulheres a investir em certos campos ou carreiras; \u00e9 a no\u00e7\u00e3o cultural de que os homens \u00e9 que dominam esse ou aquele assunto, s\u00e3o as desigualdades de sal\u00e1rio entre os g\u00eaneros em cargos id\u00eanticos, os coment\u00e1rios e as posturas no local de servi\u00e7o, e tamb\u00e9m o fato de serem preteridas caso decidam ter filhos. Abordando especificamente este \u00faltimo aspecto, a professora do Instituto de Bioci\u00eancias da UFRGS <a href=\"http:\/\/buscatextual.cnpq.br\/buscatextual\/visualizacv.do?id=K4765173E3\">Fernanda Staniscuaski<\/a>, m\u00e3e de dois filhos, coordena o projeto <em><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/parentinscience\/\">Parent in Science<\/a> <\/em>(o nome \u00e9 mantido em ingl\u00eas para n\u00e3o desconsiderar os homens que se dedicam aos seus filhos tanto quanto as m\u00e3es) e est\u00e1 realizando um estudo aprofundado sobre os impactos da maternidade na carreira cient\u00edfica, a fim de criar novas pol\u00edticas de apoio e fundos de financiamento para apoiar a participa\u00e7\u00e3o das mulheres na Ci\u00eancia.<\/p>\n<p>Retornando para os seus laborat\u00f3rios e salas de aulas ap\u00f3s a licen\u00e7a maternidade, essas pesquisadoras muitas vezes se sentem deslocadas no ambiente de trabalho. A produtividade diminui e, consequentemente, reduzem-se as chances de conseguir financiamento. Sem financiamento, a produtividade continua a cair. \u00c9 um c\u00edrculo vicioso que a maior parte das mulheres s\u00f3 consegue escapar cerca de cinco anos ap\u00f3s a gravidez, quando retornam \u00e0 produtividade que tinham anteriormente. O estudo, iniciado com o intuito de desenvolver pol\u00edticas de apoio que ajudariam as m\u00e3es no retorno ao trabalho, acabou virando um projeto de pesquisa com um question\u00e1rio para as pesquisadoras m\u00e3es (e, mais recentemente, um segundo question\u00e1rio para os pais e para alunas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o) para identificar esses impactos da gravidez no cen\u00e1rio profissional. Para Staniscuaski, \u00e9 importante trazer visibilidade para esse tema que era frequentemente ignorado. \u201cEnxergar essa situa\u00e7\u00e3o em outros lugares te traz um sossego de que tu n\u00e3o \u00e9s a \u00fanica\u201d, afirma a professora.<\/p>\n<p>A pesquisa abriu muitas portas, e Staniscuaski j\u00e1 foi convidada para palestrar sobre o assunto em diversos lugares. Com o apoio do Instituto Serrapilheira, uma institui\u00e7\u00e3o privada de apoio \u00e0 ci\u00eancia, o grupo de pesquisa est\u00e1 organizando um simp\u00f3sio que ocorrer\u00e1 nos dias 10 e 11 de maio no anfiteatro da PUCRS e contar\u00e1 com a presen\u00e7a de pesquisadoras de v\u00e1rios cantos do pa\u00eds para falar sobre o assunto e suas experi\u00eancias pessoais como mulheres na ci\u00eancia. Staniscuaski sabe que a queda de produtividade ap\u00f3s a gravidez \u00e9 inevit\u00e1vel e n\u00e3o pretende que n\u00e3o aconte\u00e7a. \u201cA gente quer que no in\u00edcio da vida dos filhos, a m\u00e3e possa se dedicar a eles\u201d, confessa. Entretanto, o tempo que leva para retomar a carreira poderia ser diminu\u00eddo se existissem incentivos que facilitassem o retorno aos laborat\u00f3rios dessas m\u00e3es que estiveram longe por tanto tempo. O dinheiro poderia ser utilizado da maneira que melhor auxiliar a pesquisadora. Com rela\u00e7\u00e3o a coment\u00e1rios recebidos de que elas estariam advogando em causa pr\u00f3pria, Staniscuaski afirma que somente buscam fazer uma diferen\u00e7a na vida das futuras m\u00e3es, para que as suas carreiras profissionais n\u00e3o precisem sofrer tanto com a maternidade. \u201cSe tivessem pol\u00edticas de apoio ou at\u00e9 mesmo s\u00f3 a discuss\u00e3o sobre o assunto, eu n\u00e3o teria sofrido o que sofri. A gente quer viver a maternidade de uma maneira satisfat\u00f3ria e recompensante e nem por isso a gente precisa pagar o pre\u00e7o profissional.\u201d, expressa a professora.<\/p>\n<p>Entretanto, bem antes disso, \u00e9 preciso incentivar as jovens mulheres desde cedo a ocupar esse espa\u00e7o. Daniela Pavani e Carolina Brito t\u00eam esse objetivo com o projeto <em>Meninas na Ci\u00eancia<\/em>, criado em 2014 a partir das ideias que j\u00e1 vinham sido trabalhadas em escolas propondo exerc\u00edcios e atividades relacionadas \u00e0 rob\u00f3tica, \u00e0 astrof\u00edsica e \u00e0 computa\u00e7\u00e3o. Enquanto tinham o incentivo do CNPq, as professoras tamb\u00e9m traziam algumas estudantes para conhecer o Instituto de F\u00edsica na UFRGS, visitas que depois passaram a se estender a outras unidades. Al\u00e9m disso, o projeto pegou a ideia de uma campanha feita na Universidade Mackenzie em S\u00e3o Paulo e lan\u00e7ou nas redes sociais a hashtag \u201cesse \u00e9 o meu professor\u201d (#esse\u00e9omeuprofessor), para que as pessoas denunciassem frases de conte\u00fado machista, sexista, racista (entre outras problem\u00e1ticas) ditas pelos docentes em sala de aula. A iniciativa foi um sucesso e recebeu mais de 150 frases apenas nas primeiras 24 horas. Ao fim, as mais chamativas foram impressas e coladas nos murais das respectivas unidades acad\u00eamicas da UFRGS de onde a den\u00fancia tinha sa\u00eddo, para que os professores autores dessas falas pudessem ser confrontados com aquilo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h5>As mulheres como musicistas<\/h5>\n<figure id=\"attachment_1440\" aria-describedby=\"caption-attachment-1440\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/ciencia\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/GSD_0059_GustavoDiehl.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1440\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/ciencia\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/GSD_0059_GustavoDiehl.jpg\" alt=\"Isabel Nogueira\" width=\"310\" height=\"207\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/ciencia\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/GSD_0059_GustavoDiehl.jpg 2400w, https:\/\/www.ufrgs.br\/ciencia\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/GSD_0059_GustavoDiehl-600x400.jpg 600w, https:\/\/www.ufrgs.br\/ciencia\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/GSD_0059_GustavoDiehl-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/ciencia\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/GSD_0059_GustavoDiehl-520x346.jpg 520w, https:\/\/www.ufrgs.br\/ciencia\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/GSD_0059_GustavoDiehl-720x480.jpg 720w\" sizes=\"(max-width: 310px) 100vw, 310px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-1440\" class=\"wp-caption-text\">Isabel Nogueira estuda a quest\u00e3o do g\u00eanero dentro de diversos campos musicais &#8211; Foto: Gustavo Diehl\/UFRGS<\/figcaption><\/figure>\n<p>O campo da ci\u00eancia, por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico que apresenta disparidades com rela\u00e7\u00e3o ao homem e \u00e0 mulher. Embora as mulheres venham conquistando mais direitos e igualdade entre os g\u00eaneros nas \u00faltimas d\u00e9cadas, \u00e9 poss\u00edvel afirmar que essa luta est\u00e1 longe de acabar. A quest\u00e3o da desigualdade de g\u00eanero que permeia a nossa sociedade ainda tem consequ\u00eancias bem vis\u00edveis, mesmo que muitas vezes sejam minimizadas devido \u00e0 sensibilidade desse tema. Para a professora do Instituto de Artes (IA) da UFRGS <a href=\"http:\/\/buscatextual.cnpq.br\/buscatextual\/visualizacv.do?id=K4792563P8\">Isabel Nogueira<\/a>, \u00e9 imposs\u00edvel separar a m\u00fasica da sociologia. O foco de v\u00e1rios dos seus projetos e trabalhos de pesquisa \u00e9 a quest\u00e3o do g\u00eanero dentro de diversos campos musicais e como essas constru\u00e7\u00f5es afetam os artistas. \u201cA quest\u00e3o das constru\u00e7\u00f5es de g\u00eanero n\u00e3o afetam somente as mulheres, mas elas s\u00e3o justamente jeitos estereotipados das pessoas se comportarem. \u00c9 importante desconstruir o g\u00eanero, mas tamb\u00e9m entender g\u00eanero como uma primeira categoria pol\u00edtica\u201d, afirma ela ao falar que isso n\u00e3o se limita apenas a homens e mulheres, mas a pessoas n\u00e3o bin\u00e1rias tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Para Nogueira, falar sobre o assunto \u00e9 necess\u00e1rio para desconstruir o que conhecemos como g\u00eanero. Atualmente, a designa\u00e7\u00e3o vem desde o nascimento e j\u00e1 imp\u00f5e restri\u00e7\u00f5es, definindo o que podemos ou n\u00e3o podemos fazer \u2013 se tornou uma categoria naturalizada, um mito que se fortalece cada vez mais se n\u00e3o falarmos sobre ele. Segundo ela, a recep\u00e7\u00e3o de artistas mulheres varia nos diferentes estilos musicais, e o acesso ao campo da m\u00fasica est\u00e1 longe de ser igualit\u00e1rio. Geralmente, elas s\u00e3o menos bem-vistas se s\u00e3o improvisadoras, ou se trabalham em qualquer ramo que envolva o conhecimento de t\u00e9cnicas e tecnologias. Como cantoras, a recep\u00e7\u00e3o \u00e9 mais favor\u00e1vel. J\u00e1 como compositoras, muitas vezes s\u00e3o invisibilizadas.<\/p>\n<p>A sua pesquisa come\u00e7ou com uma an\u00e1lise da escola pian\u00edstica desenvolvida no Conservat\u00f3rio de M\u00fasica de Pelotas e da diferen\u00e7a entre o n\u00famero de matr\u00edculas de alunas e de alunos j\u00e1 no ano de 1918. Baseado em uma educa\u00e7\u00e3o positivista, a maioria das mulheres que buscavam a educa\u00e7\u00e3o musical tinha o intuito de atrair um bom casamento com os seus dotes. Atrav\u00e9s de um levantamento em jornais da \u00e9poca, Nogueira percebeu que todas as concertistas eram acompanhadas pelos pais ou maridos. Apesar de muito tempo ter se passado desde aquela \u00e9poca, a quest\u00e3o do g\u00eanero continua afetando as artistas, e essas constru\u00e7\u00f5es ainda t\u00eam efeitos nos dias de hoje. De acordo com uma pesquisa divulgada em dezembro de 2017 pelo <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/estudosdegenerocorpoemusica\/\">Grupo de Pesquisa em Estudos de G\u00eanero, Corpo e M\u00fasica do IA<\/a>, a diferen\u00e7a entre alunos e alunas ingressantes nos cursos de m\u00fasica ainda \u00e9 significativa. Enquanto 257 alunos s\u00e3o homens, h\u00e1 somente 97 alunas. Em cursos como os de piano, reg\u00eancia, cordas e sopros, m\u00fasica popular e composi\u00e7\u00e3o, a discrep\u00e2ncia \u00e9 maior do que o dobro. Na m\u00fasica popular, s\u00e3o 123 homens para 30 mulheres. J\u00e1 nos cursos de canto, as mulheres s\u00e3o maioria. A professora refor\u00e7a que estes dados, apesar de representarem somente os cursos da UFRGS, refletem a desigualdade que afeta outras universidades e o campo da m\u00fasica como um todo.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1439\" aria-describedby=\"caption-attachment-1439\" style=\"width: 680px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/ciencia\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/graficos-representatividade-na-musica.png\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-1439\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/ciencia\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/graficos-representatividade-na-musica.png\" alt=\"gr\u00e1fico sobre a diferen\u00e7a de alunos homens e mulheres no Departamento de M\u00fasica\" width=\"680\" height=\"352\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/ciencia\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/graficos-representatividade-na-musica.png 4216w, https:\/\/www.ufrgs.br\/ciencia\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/graficos-representatividade-na-musica-600x310.png 600w, https:\/\/www.ufrgs.br\/ciencia\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/graficos-representatividade-na-musica-1024x529.png 1024w\" sizes=\"(max-width: 680px) 100vw, 680px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-1439\" class=\"wp-caption-text\">Fonte: Grupo de Pesquisa em Estudos de G\u00eanero, Corpo e M\u00fasica do Instituto de Artes da UFRGS<\/figcaption><\/figure>\n<p>Com um tema t\u00e3o delicado para a sua pesquisa, Nogueira recebeu in\u00fameras rea\u00e7\u00f5es negativas, frequentemente diminuindo a import\u00e2ncia do seu trabalho. \u201cEnt\u00e3o por que n\u00e3o tem trabalhos sobre g\u00eanero nos congressos de m\u00fasica? Por que n\u00e3o tem obras de compositoras mulheres em nenhum programa de concerto? Por que na faculdade n\u00e3o se estuda compositoras mulheres? Isso n\u00e3o tem a ver com o g\u00eanero?\u201d, ela questiona. De acordo com a professora, as formas de ass\u00e9dio s\u00e3o subliminares. Pela primeira vez, este ano foi aprovado um simp\u00f3sio tem\u00e1tico sobre m\u00fasica e g\u00eanero no congresso da Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Pesquisa e P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em M\u00fasica (ANPPOM). Trabalhando com o tema desde 2001, Nogueira ainda pretende seguir com essa linha de pesquisa. A professora busca fazer parcerias com outras mulheres, atrav\u00e9s das quais espera gerar processos de empoderamento e criar modelos femininos dentro do campo da m\u00fasica que possam servir de inspira\u00e7\u00e3o para outras artistas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h5>As mulheres como atletas<\/h5>\n<figure id=\"attachment_1446\" aria-describedby=\"caption-attachment-1446\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/ciencia\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/silvana-goellner-acervo-sph.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-1446\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/ciencia\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/silvana-goellner-acervo-sph.jpg\" alt=\"Silvana Goellner\" width=\"310\" height=\"207\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/ciencia\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/silvana-goellner-acervo-sph.jpg 800w, https:\/\/www.ufrgs.br\/ciencia\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/silvana-goellner-acervo-sph-600x400.jpg 600w, https:\/\/www.ufrgs.br\/ciencia\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/silvana-goellner-acervo-sph-520x346.jpg 520w, https:\/\/www.ufrgs.br\/ciencia\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/silvana-goellner-acervo-sph-720x480.jpg 720w\" sizes=\"(max-width: 310px) 100vw, 310px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-1446\" class=\"wp-caption-text\">Para Silvana Goellner estuda a presen\u00e7a e a visibilidade das mulheres no esporte &#8211; Foto: Acervo SPH<\/figcaption><\/figure>\n<p>Como na m\u00fasica, a diferen\u00e7a de tratamento entre os g\u00eaneros se faz presente no campo do esporte. Faz 20 anos que <a href=\"http:\/\/buscatextual.cnpq.br\/buscatextual\/visualizacv.do?id=K4781487A9\">Silvana\u00a0<\/a><a href=\"http:\/\/buscatextual.cnpq.br\/buscatextual\/visualizacv.do?id=K4781487A9\">Goellner<\/a> trabalha com a quest\u00e3o das mulheres e sua presen\u00e7a e participa\u00e7\u00e3o nesse ramo. Professora da Escola de Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica, Fisioterapia e Dan\u00e7a (Esefid) da UFRGS, Goellner resolveu pesquisar sobre a participa\u00e7\u00e3o da mulher no esporte ao perceber a diferen\u00e7a de visibilidade delas com rela\u00e7\u00e3o aos homens nesse meio. \u201cO esporte \u00e9 generificado. H\u00e1 uma diferen\u00e7a grande em termos da presen\u00e7a e iguais condi\u00e7\u00f5es de sobreviver no esporte\u201d, declara. A partir de levantamentos hist\u00f3ricos sobre o assunto, Goellner pretende mostrar como as mulheres sempre estiveram presentes no mundo dos esportes, apesar de pouco noticiadas. O seu objetivo \u00e9 simples: ressaltar o protagonismo delas nas pr\u00e1ticas esportivas e trazer visibilidade para essas atletas.<\/p>\n<p>Recentemente, a pesquisadora focou o futebol feminino e as dificuldades que somente as mulheres encontram para viver desse esporte, diferentemente dos times masculinos. As jogadoras de futebol muitas vezes precisam de outros empregos para poder se sustentar, incapazes de viver somente do esporte. Elas t\u00eam premia\u00e7\u00f5es menores, menos campeonatos e menos chances de se manterem no alto n\u00edvel da competi\u00e7\u00e3o. Na quest\u00e3o do esporte como lazer, as \u00e1reas p\u00fablicas como parques ou pra\u00e7as s\u00e3o majoritariamente dominadas por homens, e as mulheres precisam fazer movimentos reivindicat\u00f3rios para conseguir um espa\u00e7o. At\u00e9 mesmo na educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica escolar, o incentivo para as meninas seguirem com o esporte \u00e9 muito menor se comparado com os meninos.<\/p>\n<p>Professora, curadora e coordenadora de v\u00e1rios projetos, Goellner destaca que a pesquisa hist\u00f3rica sobre como se deu essa participa\u00e7\u00e3o das mulheres em diversos esportes \u00e9 uma parte essencial. \u201c(&#8230;) como que vamos conhecer e reconhecer a import\u00e2ncia das mulheres no esporte brasileiro se a gente n\u00e3o conhece todas as lutas que elas tiveram que bancar para poder entrar, se manter e viver desse esporte?\u201d, questiona a pesquisadora. O in\u00edcio do s\u00e9culo XX marca o come\u00e7o do esporte no Brasil, o qual foi primeiramente adotado como uma tradi\u00e7\u00e3o para as fam\u00edlias de elite, sempre com a presen\u00e7a das mulheres. Atrav\u00e9s dessa pesquisa que Goellner aponta v\u00e1rios marcos importantes dentro do esporte brasileiro, sendo um deles o ano de 1941, quando o Conselho Nacional de Desportos aprovou um decreto que proibia a participa\u00e7\u00e3o das mulheres em algumas atividades que eram consideradas incompat\u00edveis com a sua natureza, como diferentes modalidades de futebol, rugby e polo. Por quase 40 anos, as mulheres foram proibidas de participar de competi\u00e7\u00f5es dessas modalidades, mas isso n\u00e3o quer dizer que elas n\u00e3o as praticavam. Entretanto, \u00e9 claro que essas quatro d\u00e9cadas em que o decreto vigorou acabaram gerando um atraso nesses esportes no pa\u00eds, o que tem efeitos at\u00e9 os dias atuais.<\/p>\n<p>Para Goellner, o conhecimento dessa hist\u00f3ria \u00e9 fundamental para reconhecer a import\u00e2ncia das mulheres no esporte brasileiro atrav\u00e9s de todas as lutas que elas tiveram que enfrentar para chegar e se manter naquele espa\u00e7o. \u201cEntender esse lapso entre os dois tempos \u00e9 fundamental para que a gente consiga entender quais foram as condi\u00e7\u00f5es que fizeram o esporte para mulheres ser aquilo que ele \u00e9\u201d, atesta. Silvana aponta que ainda h\u00e1 uma grande luta pela frente para conquistar esse terreno e melhorar as condi\u00e7\u00f5es das mulheres no esporte, mas acredita que, compreendendo o passado, podemos melhor projetar o futuro para que as mulheres possam se empoderar cada vez mais nesse elemento da nossa cultura que \u00e9 o esporte.<\/p>\n<p>O trabalho de pesquisadoras como Daniela Pavani, Fernanda Staniscuaski, Isabel Nogueira, Silvana Goellner, tanto no nosso pa\u00eds como no n\u00edvel internacional, \u00e9 trazer visibilidade para essas diferen\u00e7as e desigualdades que est\u00e3o presentes nos mais diversos campos profissionais e mostrar como elas afetam as mulheres. Apesar das conquistas ao longo dos anos, ainda h\u00e1 muito o que fazer em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 igualdade de g\u00eaneros. Falar sobre esses temas \u00e9 de extrema import\u00e2ncia: somente gerando essas discuss\u00f5es que seremos capazes de mudar o futuro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O dia 8 de mar\u00e7o, adotado pela Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas e por diversos pa\u00edses como o Dia da Mulher, \u00e9 uma celebra\u00e7\u00e3o de conquistas sociais, pol\u00edticas e econ\u00f4micas das mulheres ao longo dos anos. 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