{"id":1526,"date":"2018-05-18T13:46:17","date_gmt":"2018-05-18T16:46:17","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/ciencia\/?p=1526"},"modified":"2018-05-25T08:24:23","modified_gmt":"2018-05-25T11:24:23","slug":"pesquisadores-divulgam-a-mais-completa-referencia-para-sinais-sonoros-emitidos-por-morcegos-brasileiros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/ciencia\/pesquisadores-divulgam-a-mais-completa-referencia-para-sinais-sonoros-emitidos-por-morcegos-brasileiros\/","title":{"rendered":"Pesquisadores divulgam a mais completa refer\u00eancia para sinais sonoros emitidos por morcegos brasileiros"},"content":{"rendered":"<p>De acordo com o <a href=\"http:\/\/www.mma.gov.br\/mma-em-numeros\/biodiversidade\">Minist\u00e9rio do Meio Ambiente<\/a>, o Brasil \u00e9 o pa\u00eds mais biodiverso do mundo, com uma fauna rica e diversificada. Existem mais de 100 mil esp\u00e9cies de invertebrados e quase 9 mil de vertebrados no pa\u00eds. Entre esses, s\u00e3o 720 esp\u00e9cies de mam\u00edferos, grupo que inclui os morcegos. Recentemente publicado na revista cient\u00edfica Mammal Research, o artigo intitulado <a href=\"https:\/\/link.springer.com\/article\/10.1007%2Fs13364-018-0367-z\"><em>Who\u2019s calling? Acoustic identification of Brazilian bats<\/em><\/a> mostra os resultados da pesquisa que compilou os sons produzidos por esp\u00e9cies de morcegos existentes na fauna brasileira. O trabalho contou com a colabora\u00e7\u00e3o de pesquisadores de diferentes universidades, sendo eles <a href=\"http:\/\/buscatextual.cnpq.br\/buscatextual\/visualizacv.do?id=K8645139D4\">Adriana Arias-Aguilar<\/a> (UFRGS), <a href=\"http:\/\/buscatextual.cnpq.br\/buscatextual\/visualizacv.do?id=K8572173Z8\">Frederico Hintze<\/a> (UFPE), <a href=\"http:\/\/buscatextual.cnpq.br\/buscatextual\/visualizacv.do?id=K4723375H7\">Ludmilla M. S. Aguiar<\/a> (UnB), <a href=\"https:\/\/www.researchgate.net\/profile\/Vincent_Rufray\">Vincent Rufray<\/a> (Biotope), <a href=\"http:\/\/buscatextual.cnpq.br\/buscatextual\/visualizacv.do?id=K4796055E0\">Enrico Bernard<\/a> (UFPE) e <a href=\"http:\/\/buscatextual.cnpq.br\/buscatextual\/visualizacv.do?id=K4836894T5\">Maria Jo\u00e3o Ramos Pereira<\/a> (UFRGS).<\/p>\n<p>O projeto reuniu informa\u00e7\u00f5es sobre oito das nove fam\u00edlias de morcegos existentes no Brasil (Emballonuridae, Furipteridae, Molossidae, Mormoopidae, Natalidae, Noctilionidae, Thyropteridae e Vespertilionidae), considerando 93 dentre as 180 esp\u00e9cies de morcegos registradas no pa\u00eds. As esp\u00e9cies da nona fam\u00edlia (Phyllostomidae), que n\u00e3o foi pesquisada, emitem sons de alta frequ\u00eancia e muito semelhantes entre si. Por n\u00e3o haver uma defini\u00e7\u00e3o de outros par\u00e2metros ac\u00fasticos que permitam distinguir as esp\u00e9cies pelo som, elas n\u00e3o foram englobadas dentro desse estudo. A necessidade de produzir mais informa\u00e7\u00f5es sobre esses animais se torna \u00f3bvia a partir de uma das maiores dificuldades encontradas pelos pesquisadores: entre essas esp\u00e9cies, somente 65 eram descritas acusticamente na literatura, sendo que das demais 28 n\u00e3o havia qualquer dado dispon\u00edvel que permitisse essa descri\u00e7\u00e3o. \u201cTemos uma grande lacuna de conhecimento sobre a diversidade de v\u00e1rios grupos de animais no Brasil. H\u00e1 muita falta de conhecimento sobre ocorr\u00eancia e distribui\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies, e os morcegos n\u00e3o s\u00e3o uma exce\u00e7\u00e3o a esse padr\u00e3o\u201d, afirma Maria Jo\u00e3o Ramos Pereira, uma das integrantes do projeto de pesquisa. Esse tipo de amostragem, o monitoramento ac\u00fastico, \u00e9 importante para detectar esp\u00e9cies que s\u00e3o dif\u00edceis de observar e capturar. Os morcegos, sendo animais noturnos e voadores, s\u00e3o praticamente imposs\u00edveis de ver ativos no campo.<\/p>\n<p>Para captar e descrever os sons desejados, existem duas op\u00e7\u00f5es: capturar o animal e grav\u00e1-lo ap\u00f3s soltura ou realizar uma abordagem mais passiva, deixando detectores de ultrassom em \u00e1reas onde se acredita que essas esp\u00e9cies estejam presentes, gravando os sons dos morcegos durante a noite. Ambas as abordagens foram conduzidas pelos pesquisadores ao longo dos anos em v\u00e1rios outros projetos que realizaram. As grava\u00e7\u00f5es v\u00eam de estados como Tocantins, Goi\u00e1s, Mato Grosso do Sul, Rio Grande do Sul e Pernambuco, incluindo \u00e1reas preservadas ambientalmente e regi\u00f5es urbanas. Essas grava\u00e7\u00f5es foram posteriormente utilizadas para apresentar os sonogramas e os par\u00e2metros dos chamados sonoros das esp\u00e9cies descritas no artigo. Os pesquisadores utilizaram dados obtidos na Guiana Francesa e na Costa Rica para esp\u00e9cies que sabiam ou acreditavam existir no Brasil, mas para as quais n\u00e3o tinham obtido dados no nosso pa\u00eds. Aos sons coletados por eles, foram adicionados dados de outros autores, obtidos atrav\u00e9s de uma extensa pesquisa bibliogr\u00e1fica.<\/p>\n<p>J\u00e1 que a maior parte da informa\u00e7\u00e3o ac\u00fastica dessas esp\u00e9cies foi retirada de pesquisas estrangeiras, era importante considerar poss\u00edveis mudan\u00e7as nos sons produzidos de acordo com a regi\u00e3o em que se encontram. Quando poss\u00edvel, essas informa\u00e7\u00f5es foram comparadas com dados obtidos no pr\u00f3prio pa\u00eds. Os valores apresentados pelos autores da pesquisa s\u00e3o descri\u00e7\u00f5es gerais dos padr\u00f5es de chamados das fam\u00edlias e esp\u00e9cies mais estudadas. Enquanto a amostragem ac\u00fastica \u00e9 comum em outros pa\u00edses, no Brasil poucos trabalhos foram realizados at\u00e9 hoje utilizando essa metodologia. \u201cTem sido muito pontual, e n\u00f3s acreditamos que tem muito a ver com o fato de as pessoas sentirem que ainda n\u00e3o conseguem fazer a identifica\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies por meio do som\u201d, afirma Maria Jo\u00e3o.<\/p>\n<figure style=\"width: 660px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/ciencia\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/detector-de-ultrassons-amostrando-no-bioma-Cerrado.-FOTO-Adriana-Arias-Aguilar..jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1527\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/ciencia\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/detector-de-ultrassons-amostrando-no-bioma-Cerrado.-FOTO-Adriana-Arias-Aguilar..jpg\" alt=\"detector de ultrassons\" width=\"660\" height=\"439\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/ciencia\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/detector-de-ultrassons-amostrando-no-bioma-Cerrado.-FOTO-Adriana-Arias-Aguilar..jpg 960w, https:\/\/www.ufrgs.br\/ciencia\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/detector-de-ultrassons-amostrando-no-bioma-Cerrado.-FOTO-Adriana-Arias-Aguilar.-600x399.jpg 600w, https:\/\/www.ufrgs.br\/ciencia\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/detector-de-ultrassons-amostrando-no-bioma-Cerrado.-FOTO-Adriana-Arias-Aguilar.-520x346.jpg 520w, https:\/\/www.ufrgs.br\/ciencia\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/detector-de-ultrassons-amostrando-no-bioma-Cerrado.-FOTO-Adriana-Arias-Aguilar.-720x480.jpg 720w\" sizes=\"(max-width: 660px) 100vw, 660px\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Detector de ultrassons instalado no bioma Cerrado &#8211; Foto: Adriana Arias-Aguilar<\/figcaption><\/figure>\n<h5><\/h5>\n<h5>Mas que sons s\u00e3o esses?<\/h5>\n<p>Os morcegos utilizam a ecolocaliza\u00e7\u00e3o para se orientar no espa\u00e7o e identificar presas e alimentos. Os animais emitem ondas ultrass\u00f4nicas que refletem no alvo e retornam na forma de eco, permitindo a detec\u00e7\u00e3o da posi\u00e7\u00e3o e da dist\u00e2ncia de objetos no seu entorno. Essa capacidade biol\u00f3gica \u00e9 essencial em situa\u00e7\u00f5es em que a vis\u00e3o \u00e9 insuficiente, como durante a noite. Esses sinais que s\u00e3o utilizados para identificar os morcegos, sendo espec\u00edficos para cada esp\u00e9cie e podendo mudar at\u00e9 mesmo dependendo da regi\u00e3o. Como s\u00e3o inaud\u00edveis para o ser humano, captar os sons produzidos por eles requer equipamentos e <em>softwares<\/em> especiais.<\/p>\n<p>As ondas de som possuem v\u00e1rios par\u00e2metros f\u00edsicos que as tornam \u00fanicas e auxiliam na diferencia\u00e7\u00e3o entre as esp\u00e9cies: como a frequ\u00eancia, o intervalo entre os pulsos, entre outros. O principal par\u00e2metro analisado \u00e9 a frequ\u00eancia de m\u00e1xima energia: a frequ\u00eancia do som em que \u00e9 colocada mais energia, como se fosse a parte do som em que o volume \u00e9 mais alto. Posteriormente, essas ondas ac\u00fasticas capturadas podem ser representadas em gr\u00e1ficos (sonogramas e oscilogramas) para mais f\u00e1cil visualiza\u00e7\u00e3o. Para as esp\u00e9cies que n\u00e3o possu\u00edam dados dispon\u00edveis, o trabalho foi mais complicado. \u201cPara conseguir atribuir um som a uma esp\u00e9cie, primeiro temos de capturar o animal para garantir que aquele som \u00e9 realmente emitido por ela. Dentro da fam\u00edlia e do g\u00eanero, n\u00f3s podemos estimar parcialmente como ser\u00e1 o som, mas n\u00e3o podemos afirm\u00e1-lo com certeza\u201d, explica a pesquisadora.<\/p>\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-1526-1\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/wav\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/ciencia\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Cormura-brevirostris-French-Guiana.wav?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/ciencia\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Cormura-brevirostris-French-Guiana.wav\">https:\/\/www.ufrgs.br\/ciencia\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Cormura-brevirostris-French-Guiana.wav<\/a><\/audio>\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-1526-2\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/wav\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/ciencia\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Eumops-perotis__PE.wav?_=2\" \/><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/ciencia\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Eumops-perotis__PE.wav\">https:\/\/www.ufrgs.br\/ciencia\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Eumops-perotis__PE.wav<\/a><\/audio>\n<p>Sons dos morcegos das esp\u00e9cies &#8220;Cormura brevirostris&#8221; (acima) e &#8220;Eumops-perotis&#8221;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h5>E para que servem?<\/h5>\n<p>O trabalho de identifica\u00e7\u00e3o ac\u00fastica auxilia o monitoramento da presen\u00e7a de esp\u00e9cies, al\u00e9m de criar um invent\u00e1rio desses sons que pode ser utilizado em outras pesquisas. Afora o fato de melhorar o conhecimento sobre os morcegos, respons\u00e1veis por v\u00e1rios servi\u00e7os importantes no ecossistema (como a poliniza\u00e7\u00e3o de flores, a dispers\u00e3o de sementes e o controle de popula\u00e7\u00f5es de insetos), o monitoramento pode auxiliar a sua conserva\u00e7\u00e3o, possibilitando a identifica\u00e7\u00e3o de \u00e1reas priorit\u00e1rias para preserva\u00e7\u00e3o de biodiversidade e influenciando em quest\u00f5es de licenciamento ambiental para grandes obras que perturbam a fauna da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Os sons captados pela equipe podem ter diversos usos. Por exemplo, os chamados experimentos de <em>playback<\/em> utilizam os sons emitidos por um animal para atrair um indiv\u00edduo da mesma esp\u00e9cie ou para esperar uma resposta dele como uma maneira de determinar a presen\u00e7a ou aus\u00eancia dessa esp\u00e9cie no local. No caso de outros animais, como aves e anf\u00edbios, esse tipo de abordagem j\u00e1 \u00e9 comum. Para os morcegos, entretanto, \u00e9 preciso um equipamento espec\u00edfico para cham\u00e1-los e ouvi-los. Os arquivos de sons capturados nesse projeto foram <a href=\"https:\/\/www.researchgate.net\/publication\/324905331_Who's_calling_Acoustic_identification_of_Brazilian_bats_Reference_Calls\">disponibilizados online para acesso p\u00fablico<\/a>. A partir deles, existem diversos <em>softwares<\/em> gratuitos que podem gerar gr\u00e1ficos na internet.<\/p>\n<p>A pesquisadora espera que ainda mais trabalhos sejam realizados utilizando a amostragem ac\u00fastica. \u201cAcredito que possa servir de base e apoio para outros pesquisadores que est\u00e3o trabalhando com esse tipo de informa\u00e7\u00e3o ou que ainda n\u00e3o tiveram coragem de avan\u00e7ar para ela e que possam usufruir do nosso trabalho nesse sentido\u201d, expressa. O grupo aponta a import\u00e2ncia da cria\u00e7\u00e3o de uma extensa biblioteca de sons desses animais, al\u00e9m de manter as bibliotecas que j\u00e1 existem sempre atualizadas. Atualmente, a <a href=\"https:\/\/www.macaulaylibrary.org\/\">Macaulay Library<\/a>, da Universidade de Cornell, nos Estados Unidos, \u00e9 a maior biblioteca de sons de vida animal dispon\u00edvel ao p\u00fablico. Em \u00e2mbito nacional, o <a href=\"http:\/\/www.ufrgs.br\/bimalab\">Laborat\u00f3rio de Evolu\u00e7\u00e3o, Sistem\u00e1tica e Ecologia de Aves e Mam\u00edferos da UFRGS<\/a> pretende dar continuidade a projetos como esse, tanto dentro da faculdade como com parcerias, como a que foi realizada nessa pesquisa. No futuro, destaca Maria Jo\u00e3o, \u00e9 preciso continuar o trabalho de amostragem ac\u00fastica dos morcegos, gerando mais informa\u00e7\u00e3o e completando a lacuna no conhecimento sobre as in\u00fameras esp\u00e9cies desse animal no Brasil.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h5>Artigo cient\u00edfico<\/h5>\n<p>ARIAS-AGUILAR, Adriana et al. <a href=\"https:\/\/link.springer.com\/article\/10.1007%2Fs13364-018-0367-z\">Who\u2019s calling? Acoustic identification of Brazilian bats<\/a>. Mammal Research, 23 abr. 2018<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De acordo com o Minist\u00e9rio do Meio Ambiente, o Brasil \u00e9 o pa\u00eds mais biodiverso do mundo, com uma fauna rica e diversificada. Existem mais de 100 mil esp\u00e9cies de invertebrados e quase 9 mil de vertebrados no pa\u00eds. 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