{"id":2144,"date":"2019-11-01T12:51:32","date_gmt":"2019-11-01T15:51:32","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/ciencia\/?p=2144"},"modified":"2021-12-10T11:04:54","modified_gmt":"2021-12-10T14:04:54","slug":"sujeitos-da-propria-narrativa-os-espacos-das-comunidades-negras-de-porto-alegre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/ciencia\/sujeitos-da-propria-narrativa-os-espacos-das-comunidades-negras-de-porto-alegre\/","title":{"rendered":"Sujeitos da pr\u00f3pria narrativa: os espa\u00e7os das comunidades negras de Porto Alegre"},"content":{"rendered":"<p>\u201cEu n\u00e3o escolhi o tema da minha disserta\u00e7\u00e3o, foi ele que me escolheu\u201d, conta a professora de Geografia da Prefeitura Municipal de Porto Alegre <a href=\"http:\/\/buscatextual.cnpq.br\/buscatextual\/visualizacv.do?id=K4365410H1&amp;tokenCaptchar=03AOLTBLR9RF7yi9RAwOrgan5E1EzE5d5LxVfkiHlMtA0emTyaiVEekRU2dZeHRryrMQpyEWvwRwvz0z2Yk_wMDJpN7p6qS2rH887wHDvHLRp6BwFBFdJVMtttUxILaj_Je-zIwjUKlr7_To4EccB5xPweGCWrqNkqDe9Ov99O1m0uhIV7fFiBAlaD6mT7Inr08TV1qtEAYVFkVm3QtdmKPbh4gargSFxpKAOL0zUUu8vekdmBlQzH_jyOei7rDxroCE9nWAwkgwO2dUu6NVWAniHihQpOvix3WlUX9HYVnYaruQBO7qz8P-jfleFDK-kwWisJf5am6gtZZvc5p5mITfo11XztaSnOttZkRWymWC9ZOikjjH-4lFqOgsgeBhZo9V0wzcebm7UU1K-v9lk7i_QR_3wP4I8BSW-W1b_wjWdKTUPvKCfM3LjqxLXhQvZxHxgP1v3k7qI28X8eqn3liSgCzW260Thztg\">Daniele Vieira<\/a>. Sua disserta\u00e7\u00e3o de mestrado, desenvolvida no Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Geografia da UFRGS, leva o t\u00edtulo <em><a href=\"https:\/\/lume.ufrgs.br\/handle\/10183\/177570\">Territ\u00f3rios negros em Porto Alegre (1800-1970): geografia hist\u00f3rica da presen\u00e7a negra no espa\u00e7o urbano<\/a><\/em>. Nela a professora analisa como as transforma\u00e7\u00f5es urbanas da capital ga\u00facha influenciaram na hist\u00f3ria das comunidades negras da cidade. No trabalho, a pesquisadora, que agora cursa o doutorado no mesmo programa de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, destaca o constante esquecimento dos espa\u00e7os ocupados pelas popula\u00e7\u00f5es negras na mem\u00f3ria da cidade e relembra as contribui\u00e7\u00f5es \u2212 n\u00e3o s\u00f3 materiais como tamb\u00e9m simb\u00f3licas \u2212 do segmento negro para Porto Alegre. A pesquisa consistiu, inicialmente, em marcar nos mapas hist\u00f3ricos da cidade os territ\u00f3rios negros destacados para averiguar como eles foram se constituindo conforme a cidade se expandia. O pr\u00f3ximo passo foi fazer trabalho de campo: ir at\u00e9 os locais e conhec\u00ea-los de perto.<\/p>\n<p>No dia 6 de setembro deste ano, o estudo de Daniele recebeu mais uma homenagem nacional: men\u00e7\u00e3o honrosa de disserta\u00e7\u00e3o do Pr\u00eamio Maur\u00edcio de Almeida Abreu, na \u00e1rea de Geografia Humana, durante o XIII Encontro da Associa\u00e7\u00e3o Nacional de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o e Pesquisa em Geografia (Anpege). Em maio do ano passado, seu trabalho j\u00e1 havia ganhado destaque no concurso promovido pela Associa\u00e7\u00e3o Nacional de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o e Pesquisa em Planejamento Urbano e Regional (Anpur), XI Pr\u00eamio Brasileiro \u201cPol\u00edtica e Planejamento Urbano Regional\u201d, na categoria Disserta\u00e7\u00e3o de Mestrado.<\/p>\n<p>Daniele explica que a ideia para o tema estudado surgiu em uma sa\u00edda de campo com um linha de \u00f4nibus especial do projeto \u201cTerrit\u00f3rios negros: afro-brasileiros em Porto Alegre\u201d. Ofertado pela prefeitura at\u00e9 2017, o passeio possu\u00eda fins pedag\u00f3gicos e percorria os antigos territ\u00f3rios negros da cidade. A iniciativa come\u00e7ou em 2008, tra\u00e7ando o trajeto inspirado pelo poeta Oliveira Silveira, um dos idealizadores do Dia da Consci\u00eancia Negra no Brasil. A professora explica que, durante o passeio, conheceu lugares dos quais antes n\u00e3o fazia ideia da exist\u00eancia. \u201cNuma \u00fanica noite eu conheci v\u00e1rios espa\u00e7os da cidade que se referiam \u00e0 minha origem, \u00e0 mem\u00f3ria negra da cidade, e que eu, j\u00e1 adulta e morando praticamente a vida inteira em Porto Alegre, n\u00e3o conhecia.\u201d<\/p>\n<p>A perspectiva do trabalho de Daniele \u00e9 romper com uma vis\u00e3o dos territ\u00f3rios negros como espa\u00e7os segregados e valorizar quem os habitava. \u201cUma das preocupa\u00e7\u00f5es do estudo \u00e9 trazer \u00e0 tona a mem\u00f3ria de alguns destes espa\u00e7os de sociabilidade, tendo como fio condutor a presen\u00e7a negra\u201d, afirma a autora da disserta\u00e7\u00e3o. Ela procurou abordar no trabalho para al\u00e9m do que as comunidades sofriam, focando principalmente o que elas produziam e a maneira como utilizavam os espa\u00e7os para sociabilidade. O Parque Farroupilha, popularmente conhecido como Parque da Reden\u00e7\u00e3o, foi destacado por se adequar a essa ideia.<\/p>\n<figure id=\"attachment_2148\" aria-describedby=\"caption-attachment-2148\" style=\"width: 810px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/ciencia\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/img381.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-2148\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/ciencia\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/img381-1024x566.jpg\" alt=\"Imagem de Porto Alegre antiga, com os Campos da Reden\u00e7\u00e3o, o bairro Cidade Baixa e a atual Avenida Jo\u00e3o Pessoa\" width=\"810\" height=\"448\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/ciencia\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/img381-1024x566.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/ciencia\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/img381-600x332.jpg 600w, https:\/\/www.ufrgs.br\/ciencia\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/img381.jpg 1317w\" sizes=\"(max-width: 810px) 100vw, 810px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-2148\" class=\"wp-caption-text\">Imagem do Campos da Reden\u00e7\u00e3o, da d\u00e9cada de 1900, quando o parque era um campo de v\u00e1rzea &#8211; Fonte: Iova (atribu\u00eddo). Acervo Fototeca Sioma Breitman \u2013 Museu Joaquim Jos\u00e9 Felizardo<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<h5>O Parque Farroupilha &#8211; a \u201cReden\u00e7\u00e3o\u201d<\/h5>\n<p>A denomina\u00e7\u00e3o de Campos da Reden\u00e7\u00e3o surgiu em 1884, em homenagem \u00e0 liberta\u00e7\u00e3o dos escravos do terceiro distrito da Capital. O nome do parque se referia \u00e0 reden\u00e7\u00e3o de centenas de escravos quatro anos antes da aboli\u00e7\u00e3o no pa\u00eds. A ideia era registrar a vit\u00f3ria da luta abolicionista. Ao redor do local, que antigamente era um campo sem \u00e1rvores, ocorriam batuques pelos quais a Reden\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m era conhecida, como o famoso batuque da M\u00e3e Rita. A partir de 1935, passou a ser chamado oficialmente de Parque Farroupilha.<\/p>\n<p>O deslocamento dos territ\u00f3rios negros de Porto Alegre ocorreu, muitas vezes, como consequ\u00eancia da urbaniza\u00e7\u00e3o da cidade. Com as melhorias de luz, \u00e1gua e cal\u00e7amento nas ruas, o custo de vida dos locais encarecia. No entanto, tamb\u00e9m existiram obras espec\u00edficas que influenciaram nesse processo, como no caso da Ilhota.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h5>Da antiga Ilhota para a Restinga<\/h5>\n<p>A regi\u00e3o chamada Ilhota existiu at\u00e9 o fim da d\u00e9cada de 60 em Porto Alegre, antes da canaliza\u00e7\u00e3o do Arroio Dil\u00favio. Era uma parcela de terra circundada pelas \u00e1guas do arroio, que se assemelhava a uma ilha dentro da cidade. Estava localizada no espa\u00e7o que hoje fica entre a Pra\u00e7a Garibaldi e a Av. Ipiranga, abrangendo a \u00e1rea entre a Av. General Lima e Silva e a Av. Get\u00falio Vargas. A ilhota era composta por poucas ruelas e ocupada por pessoas de baixa renda, j\u00e1 que era uma regi\u00e3o conhecida pelas inunda\u00e7\u00f5es do Arroio Dil\u00favio \u2013 fazendo jus ao nome do c\u00f3rrego. Tamb\u00e9m era famosa pelos populares carnavais da cidade e pelo seu mais memor\u00e1vel habitante, Lupic\u00ednio Rodrigues, m\u00fasico porto-alegrense e autor do hino do clube de futebol Gr\u00eamio. Com a canaliza\u00e7\u00e3o do Arroio Dil\u00favio, as pessoas que antes moravam na Ilhota foram deslocadas para o bairro Restinga, distante aproximadamente 20 km do centro da cidade.<\/p>\n<figure id=\"attachment_2147\" aria-describedby=\"caption-attachment-2147\" style=\"width: 810px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/ciencia\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/img625.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-2147\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/ciencia\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/img625-1024x638.jpg\" alt=\"mapa antigo de Porto Alegre\" width=\"810\" height=\"505\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/ciencia\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/img625-1024x638.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/ciencia\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/img625-600x374.jpg 600w, https:\/\/www.ufrgs.br\/ciencia\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/img625.jpg 1504w\" sizes=\"(max-width: 810px) 100vw, 810px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-2147\" class=\"wp-caption-text\">Recorte do mapa de Porto Alegre de 1906, com destaque para a Ilhota &#8211; Fonte: CD Cartografia Virtual Hist\u00f3rica-Urbana de Porto Alegre: s\u00e9culo XIX e In\u00edcio do XX. Elabora\u00e7\u00e3o: Daniele Machado Vieira<\/figcaption><\/figure>\n<p>Em mar\u00e7o, Daniele iniciou o doutorado no qual pretende dar continuidade aos estudos sobre os territ\u00f3rios negros da cidade. A professora conta que procurar\u00e1 explorar, na sua tese, ainda mais as formas de apropria\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os e as estrat\u00e9gias utilizadas por quem persistia em ocup\u00e1-los. Sua disserta\u00e7\u00e3o ganha import\u00e2ncia principalmente pela troca de narrativa na perspectiva geogr\u00e1fica: Daniele destaca as comunidades negras como sujeitos da pr\u00f3pria hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h5>Disserta\u00e7\u00e3o<\/h5>\n<p><strong>T\u00edtulo<\/strong><strong>:&nbsp;<\/strong><a href=\"https:\/\/lume.ufrgs.br\/handle\/10183\/177570\">Territ\u00f3rios negros em Porto Alegre\/RS (1800-1970): geografia hist\u00f3rica da presen\u00e7a negra no espa\u00e7o urbano<\/a><strong><br \/>\nAutora:&nbsp;<\/strong><a href=\"http:\/\/buscatextual.cnpq.br\/buscatextual\/visualizacv.do?id=K4365410H1&amp;tokenCaptchar=03AOLTBLR9RF7yi9RAwOrgan5E1EzE5d5LxVfkiHlMtA0emTyaiVEekRU2dZeHRryrMQpyEWvwRwvz0z2Yk_wMDJpN7p6qS2rH887wHDvHLRp6BwFBFdJVMtttUxILaj_Je-zIwjUKlr7_To4EccB5xPweGCWrqNkqDe9Ov99O1m0uhIV7fFiBAlaD6mT7Inr08TV1qtEAYVFkVm3QtdmKPbh4gargSFxpKAOL0zUUu8vekdmBlQzH_jyOei7rDxroCE9nWAwkgwO2dUu6NVWAniHihQpOvix3WlUX9HYVnYaruQBO7qz8P-jfleFDK-kwWisJf5am6gtZZvc5p5mITfo11XztaSnOttZkRWymWC9ZOikjjH-4lFqOgsgeBhZo9V0wzcebm7UU1K-v9lk7i_QR_3wP4I8BSW-W1b_wjWdKTUPvKCfM3LjqxLXhQvZxHxgP1v3k7qI28X8eqn3liSgCzW260Thztg\">Daniele Machado Vieira<\/a><strong><br \/>\nOrientadora:&nbsp;<\/strong><a href=\"http:\/\/buscatextual.cnpq.br\/buscatextual\/visualizacv.do?id=K4784925U1&amp;tokenCaptchar=03AOLTBLTUnkW7gec46KuJjBzLrP4mFaQm9szZfIZyu7L18aaKxG36-u1IJ08vBxWZvkV0y3cPli0JWmnifOEEzTJ4nBcwsKsM-vIwdjsZvOUVazjbER9pu57lz4g2Xk7OypYdeTSEO0H17Tz7iv6Toa95108Rqyrt4jBX_SPvyNTyAoOy4cwbINADmDIpHZeerdYCc_r8ULRc2z6kZ_NMhtiQJJqirGcnFxgidZv-WLuD1I2lDaAl30QUoOsjOooOCRzYe6-YYIdjUDeskDXSBkNeT2cxy0mKRO-MJ9z4iiEdGHddffnBtDW-CZ8_JdR9EVu_eYHZpOnpHw8cBJp-R_KtHx3Eif_4PU4sgCyA1AQ4gKSp5gnbI8CvQZjPd0AmxuOymIsxhd_iAcNDUgOhDR1B8Vv5C9sSrNLDLfh3GU4qlwtH3Aikta_uOAZuc9CTT7xoASUcoQAOPI_0-dKdW2amASLWvJ-v2Q\">Adriana Dorfman<\/a><strong><br \/>\nUnidade: <\/strong>Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Geografia<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cEu n\u00e3o escolhi o tema da minha disserta\u00e7\u00e3o, foi ele que me escolheu\u201d, conta a professora de Geografia da Prefeitura Municipal de Porto Alegre Daniele Vieira. 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