{"id":2928,"date":"2021-06-24T08:19:09","date_gmt":"2021-06-24T11:19:09","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/ciencia\/?p=2928"},"modified":"2021-06-24T08:19:11","modified_gmt":"2021-06-24T11:19:11","slug":"a-mina-de-carvao-da-vale-em-mocambique-excesso-de-desenvolvimento-e-reorientacao-social","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/ciencia\/a-mina-de-carvao-da-vale-em-mocambique-excesso-de-desenvolvimento-e-reorientacao-social\/","title":{"rendered":"A mina de carv\u00e3o da Vale em Mo\u00e7ambique: excesso de desenvolvimento e reorienta\u00e7\u00e3o social"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Do milho ao carv\u00e3o, o povoado de Moatize, em Mo\u00e7ambique, teve sua forma de viver remodelada em fun\u00e7\u00e3o da instala\u00e7\u00e3o de uma mina de carv\u00e3o pela empresa Vale. Estudos de campo realizados pelo professor mo\u00e7ambicano <a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/1345609556413394\">Anselmo Panse Chizenga<\/a> nas suas pesquisas de mestrado e de doutorado no Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Sociologia da UFRGS mostram que n\u00e3o h\u00e1 como coexistirem as formas de habitar anteriores \u00e0 chegada da empresa com as novas formas de exist\u00eancia e de din\u00e2micas sociais levadas pela implanta\u00e7\u00e3o do projeto de desenvolvimento da mineradora da Vale, e que a situa\u00e7\u00e3o leva a uma s\u00e9rie de contesta\u00e7\u00f5es ao projeto mineiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 2015, Anselmo esteve na regi\u00e3o para sua pesquisa de mestrado <a href=\"https:\/\/lume.ufrgs.br\/handle\/10183\/155999\"><em>Minera\u00e7\u00e3o e conflito ambiental: disputas em torno da implanta\u00e7\u00e3o do megaprojeto da Vale na bacia carbon\u00edfera de Moatize, Mo\u00e7ambique<\/em><\/a> e analisou a din\u00e2mica dos conflitos em torno da instala\u00e7\u00e3o do projeto de explora\u00e7\u00e3o de carv\u00e3o mineral pela multinacional brasileira Vale. No doutorado, o pesquisador voltou a Moatize e dedicou-se, entre os meses de mar\u00e7o e julho de 2018, a um<span class=\"wphints-container\" style=\"display:inline;\">\n            \n       <a href=\"javascript:void(0);\" data-box-id=\"877fa61436ba002fa1e39202ba121740\" class=\"better-links\">estudo etnogr\u00e1fico<\/a> <span class=\"wphints-data-box\" id=\"877fa61436ba002fa1e39202ba121740\" ><span class=\"wphints-triangle\"><\/span><span class=\"wphints-main-content\">Perceber sem distanciamento as motiva\u00e7\u00f5es que levam um conjunto de pessoas a agir ou que eventos ocorram de determinado modo. O pesquisador vai ao local viver o cotidiano, registrar a mem\u00f3ria e tudo mais que ocorrer, dentro de um per\u00edodo de tempo.<\/span><\/span><\/span> para identificar as estrat\u00e9gias de operacionaliza\u00e7\u00e3o do projeto mineiro e de sua contesta\u00e7\u00e3o. Desse estudo resultou a tese <em><a href=\"https:\/\/lume.ufrgs.br\/handle\/10183\/213420\">&#8220;Os mundos que o \u201cdesenvolvimento\u201d (des)integra: din\u00e2micas do lugar induzidas pela minera\u00e7\u00e3o da empresa VALE S. A. em Moatize, Mo\u00e7ambique&#8221;<\/a><\/em>, defendida em 2020, sob orienta\u00e7\u00e3o do professor <a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/6673273682816395\">Jalcione Pereira de Almeida<\/a>, e revela o \u201cexcesso de desenvolvimento\u201d a partir da introdu\u00e7\u00e3o e da indu\u00e7\u00e3o de novas pr\u00e1ticas pela multinacional no local, que eliminam as formas de exist\u00eancia daquela comunidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De acordo com Anselmo, Moatize \u00e9 aquele t\u00edpico \u201cinterior\u201d com pr\u00e1ticas de subsist\u00eancia que trazem algumas inseguran\u00e7as para quem est\u00e1 acostumado com o urbano. Havia cria\u00e7\u00e3o de gado, pesca, produ\u00e7\u00e3o de materiais de constru\u00e7\u00e3o em torno do rio Zambeze e de seus afluentes. No entanto, os mineradores que foram se instalando na regi\u00e3o levaram pr\u00e1ticas mais modernas, de modo que urbano e natural s\u00e3o duas interfaces em constante tens\u00e3o no local. O professor usa uma compara\u00e7\u00e3o entre o cultivo de milho e a extra\u00e7\u00e3o do carv\u00e3o para explicar como, apesar de serem atividades econ\u00f4micas, na pr\u00e1tica, eles regem a vida local. \u201cO milho \u00e9 a base da alimenta\u00e7\u00e3o daquela regi\u00e3o. Eles produzem uma polenta chamada de chima. Quando est\u00e3o a saudar o bom dia, por exemplo, eles oferecem a polenta. \u00c9 interessante observar isso, pois, para que a minera\u00e7\u00e3o ocorra, se tem de perder n\u00e3o s\u00f3 os campos de milho, mas tamb\u00e9m um conjunto de pr\u00e1ticas\u201d, diz. Mesmo parecendo esse exemplo ser um pequeno detalhe, Anselmo ressalta que o alimento, o qual aquela comunidade tinha dispon\u00edvel, passou a ser obtido no mercado. Essa mudan\u00e7a nas formas de acesso ao cereal \u00e9 um dos impactos trazidos pela mineradora. \u201cN\u00e3o necessariamente toda popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 empregada para comprar milho, de que adianta ter carv\u00e3o se n\u00e3o se pode ter alimento?\u201d, questiona o pesquisador.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Quantifica\u00e7\u00e3o e qualifica\u00e7\u00e3o da vida<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os impactos na vida dos moradores de Moatize come\u00e7aram a ser sentidos antes mesmo da chegada da empresa no local, quando come\u00e7aram a ser mensuradas as formas de viver da comunidade. Anselmo explica que a empresa fez uma produ\u00e7\u00e3o de dados socioecon\u00f4micos da regi\u00e3o: \u201cEsse processo ocorre para saber se o projeto de desenvolvimento \u00e9 ou n\u00e3o vi\u00e1vel. Ent\u00e3o, j\u00e1 se sabe o perfil socioecon\u00f4mico da popula\u00e7\u00e3o e como eles vivem, de forma que essas vidas passam a ter um pre\u00e7o, mediado pelas indeniza\u00e7\u00f5es que ser\u00e3o concedidas\u201d. O soci\u00f3logo acrescenta que, portanto, todas as pr\u00e1ticas da regi\u00e3o s\u00e3o replanejadas, com novas formas assistidas de se fazer, com inser\u00e7\u00e3o de cursos t\u00e9cnicos e profissionais para qualificar os trabalhadores. \u201cPor exemplo, a cria\u00e7\u00e3o de aves passou a ser assistida, antes eram galinhas caipiras, sem grande rela\u00e7\u00e3o com com\u00e9rcio, mas foi preciso criar mais aves por causa de valores de mercado\u201d, ilustra. De acordo com o pesquisador, a popula\u00e7\u00e3o vai sendo desenraizada de como vivia, tudo \u00e9 remodelado em uma rela\u00e7\u00e3o direta com o mercado, a fim de obter o desenvolvimento. No entanto, aquelas pessoas j\u00e1 eram agricultoras ou criadoras de aves, mas passam a ser inseridas em um novo mundo, o que acaba se tornando tamb\u00e9m um processo de desidentifica\u00e7\u00e3o, ou identifica\u00e7\u00e3o negativa. Nesse sentido, ocorrem \u201cexcessos de desenvolvimento\u201d, pois a minera\u00e7\u00e3o j\u00e1 vem com uma pauta, uma no\u00e7\u00e3o bem carregada, e se institui em detrimento de outras pr\u00e1ticas, as quais podem, paradoxalmente \u00e0 ideia de desenvolver, tornar-se uma lacuna na vida daquela popula\u00e7\u00e3o: \u201cAlgumas pautas que a minera\u00e7\u00e3o traz n\u00e3o batem quanto \u00e0 demanda local\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No dia a dia, os moradores de Moatize come\u00e7am a fazer questionamentos quanto aos modos de viver trazidos pela mineradora. O professor conta que, em uma primeira fase, \u00e9 muito atraente o ideal urbano que \u00e9 apresentado. Uma casa de alvenaria, pintada, com \u00e1gua na torneira e chuveiro, exemplifica, parece \u00f3timo e atrai o desejo das pessoas. \u201cEles dizem: \u2018Olha, n\u00f3s podemos ter isso, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 na capital, n\u00e3o\u2019&#8230;\u201d, ressalta. Por outro lado, seguindo no exemplo da casa de alvenaria, ele explica que as pessoas enxergam outras implica\u00e7\u00f5es desse urbanismo, como ter de pagar constantemente pelo acesso \u00e0 luz e \u00e0 \u00e1gua. E tamb\u00e9m h\u00e1 o choque entre o novo mundo e o antigo: seriam de m\u00e1 qualidade as casas de pau a pique? \u201cOs habitantes da regi\u00e3o come\u00e7am a ver que, no fundo, como dizia uma interlocutora minha, uma casa de pedra n\u00e3o mata a fome\u201d, afirma Anselmo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele relata que diversos interlocutores foram desenvolvendo suas pautas contestat\u00f3rias, acerca da fome, do modo de plantar e de criar animais, das l\u00f3gicas de mercado e de como era antes. Relata que, no entanto, as pautas n\u00e3o s\u00e3o homog\u00eaneas: cada qual desenvolve as suas a partir de suas necessidades e desejos. Enquanto uma pessoa questionava a suposta maior qualidade das casas de alvenaria, outros, mais jovens, relatavam que queriam tomar banho de chuveiro, que estavam cheios de \u00e1gua no balde.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar de n\u00e3o trabalhar especificamente com quest\u00f5es de g\u00eanero, o soci\u00f3logo chama a aten\u00e7\u00e3o para a import\u00e2ncia das mulheres nesse cen\u00e1rio de contesta\u00e7\u00e3o. \u201cEu lembro que uma mulher estava quase a receber uma indeniza\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o disse: \u201cEu tenho que evitar aborrecer aquele homem, sen\u00e3o ele \u00e9 capaz de levar o dinheiro e ir embora\u2019. Esses c\u00f3digos existem e geralmente ocorrem em muitos n\u00edveis\u201d, relata.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao justificar a op\u00e7\u00e3o por realizar um estudo etnogr\u00e1fico, o professor explica que o papel desses estudos e dos profissionais \u00e9 \u201co de trazer outros elementos ao debate civil, de trazer sugest\u00f5es, servir de consulta\u201d. Ele sintetiza o contexto de Mo\u00e7ambique, dizendo que em alguns lugares o Estado quase n\u00e3o chega, mas, ainda assim, as pessoas t\u00eam formas espec\u00edficas de ver sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica. \u201cEnt\u00e3o, \u00e9 interessante que quando o Estado chega, ele j\u00e1 vem com sua ordem. Geralmente, quando se descobre que h\u00e1 recursos nesses lugares, h\u00e1 a ideia de implantar um certo projeto, e essas pessoas s\u00e3o as primeiras v\u00edtimas\u201d, diz.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Enquanto vivia em Porto Alegre, Anselmo teve a oportunidade de acompanhar o debate sobre a instala\u00e7\u00e3o de uma mina de carv\u00e3o pr\u00f3xima \u00e0 capital. Inevitavelmente, ele acabou envolvendo-se de alguma forma e lembrou dos conflitos observados em Mo\u00e7ambique, em fun\u00e7\u00e3o das a\u00e7\u00f5es da multinacional brasileira Vale. Ele ressalta que h\u00e1 um debate civil comum em pa\u00edses africanos acerca dessas propostas desenvolvimentistas vindas do exterior: se os projetos que chegam e os que j\u00e1 existem s\u00e3o prioridades nacionais ou s\u00e3o prioridade para alguns lobistas. \u201cEste projeto de coopera\u00e7\u00e3o l\u00e1 no fundo tem grandes interesses, mas al\u00e9m disso, no dia a dia, ele tem efeito, de forma n\u00e3o t\u00e3o simples\u201d, reafirma o soci\u00f3logo. Anselmo explica, todavia, que n\u00e3o se pode ver de forma negativa todas as coopera\u00e7\u00f5es internacionais com pa\u00edses da \u00c1frica. Ele mesmo veio ao Brasil realizar sua p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o na UFRGS gra\u00e7as a uma dessas coopera\u00e7\u00f5es, como benefici\u00e1rio de uma bolsa de estudos obtida em 2014.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sobre os debates em torno do projeto de minera\u00e7\u00e3o pr\u00f3ximo a Porto Alegre, Anselmo lembra que aprendeu com ge\u00f3logos da UFRGS que o carv\u00e3o presente ali \u00e9 de baixa qualidade e tem baixo valor de mercado. O soci\u00f3logo inclusive participou de uma palestra com engenheiros apoiadores do projeto: \u201cA ideia dos engenheiros era que n\u00f3s tiv\u00e9ssemos uma interven\u00e7\u00e3o proativa a fim de tornar poss\u00edvel essa minera\u00e7\u00e3o\u201d. Ele diz que se identificou com a quest\u00e3o, como quem trabalhou com essa tem\u00e1tica, e que, em paralelo com Moatize, h\u00e1 a ideia de que o carv\u00e3o sempre ter\u00e1 mais valor do que as pessoas que moram ali, num ideal de quantifica\u00e7\u00e3o e qualifica\u00e7\u00e3o da vida. \u201cNo fim, esses recursos acabam tendo mais valor do que quaisquer outras formas de vida, do que o sujeito, o qual as pol\u00edticas p\u00fablicas reduzem a nada para tornar poss\u00edvel esses investimentos\u201d, conclui.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Do milho ao carv\u00e3o, o povoado de Moatize, em Mo\u00e7ambique, teve sua forma de viver remodelada em fun\u00e7\u00e3o da instala\u00e7\u00e3o de uma mina de carv\u00e3o pela empresa Vale. 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