{"id":3213,"date":"2021-11-18T07:50:00","date_gmt":"2021-11-18T10:50:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/ciencia\/?p=3213"},"modified":"2022-01-13T14:59:21","modified_gmt":"2022-01-13T17:59:21","slug":"racismo-estrutural-na-saude-negros-morrem-mais-por-demencia-do-que-brancos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/ciencia\/racismo-estrutural-na-saude-negros-morrem-mais-por-demencia-do-que-brancos\/","title":{"rendered":"Racismo estrutural na sa\u00fade: negros morrem mais por dem\u00eancia do que brancos"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Sa\u00fade | Interna\u00e7\u00f5es e taxas de mortalidade por dem\u00eancia aumentaram desde o in\u00edcio da epidemia de covid-19 no Brasil. Na regi\u00e3o Sul, a taxa de mortalidade entre os brancos caiu 19%, j\u00e1 entre os pretos aumentou 90% e entre os pardos, subiu 176%<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2018<a href=\"https:\/\/www.letras.mus.br\/legiao-urbana\/46973\/\">Que pa\u00eds \u00e9 esse<\/a>?\u2019, can\u00e7\u00e3o escrita por Renato Russo em 1978 durante a Ditadura Militar, fala sobre as contradi\u00e7\u00f5es sociais do Brasil. O cantor j\u00e1 se questionava, \u00e0 \u00e9poca, sobre algo ainda muito atual: o cen\u00e1rio de desigualdade social e injusti\u00e7as muito v\u00edvido no nosso pa\u00eds. Desigualdade essa ainda mais latente e presente entre a popula\u00e7\u00e3o negra <em>(negro(a), conforme conceitua\u00e7\u00e3o do IBGE, \u00e9 a jun\u00e7\u00e3o de pretos e pardos)<\/em> quando nos deparamos com estes dados:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>assassinatos de negros crescem 11,5% em 10 anos (Atlas da viol\u00eancia 2020). Entre brancos, amarelos e ind\u00edgenas, o caminho \u00e9 inverso: queda de 12,9%;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>homic\u00eddios entre mulheres negras sobe 12,4%, enquanto entre v\u00edtimas n\u00e3o negras cai 11,7% (IBGE, 2018);<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>a taxa de analfabetismo entre os negros \u00e9 de 9,1%, enquanto entre os brancos \u00e9 de 3,9% (IBGE, 2018);<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>32,9% da popula\u00e7\u00e3o negra est\u00e3o abaixo da linha da pobreza. O percentual de brancos \u00e9 de 15,4% (IBGE, 2018);<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>no mercado de trabalho, 68,6% dos cargos gerenciais s\u00e3o ocupados por brancos (IBGE, 2018).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>50,7% das crian\u00e7as at\u00e9 5 anos que morreram por causas evit\u00e1veis eram pardas e pretas; 39,9% eram brancas (Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, 2017);<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>15,5 milh\u00f5es de pessoas j\u00e1 se sentiram discriminadas no servi\u00e7o de sa\u00fade, destacaram-se: as pessoas de cor preta (11,9%) e parda (11,4%), as mulheres (11,6%) e as pessoas sem instru\u00e7\u00e3o ou com ensino fundamental incompleto (11,8%) (PNS\/2013).<\/em><\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong>Que pa\u00eds \u00e9 esse? Respondo: Brasil, s\u00e9culo XXI.<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O racismo no Brasil \u00e9 estrutural e est\u00e1 presente no dia a dia da maior parcela da popula\u00e7\u00e3o: 55,8% dos brasileiros s\u00e3o pretos e pardos (IBGE, 2018). O fant\u00e1stico texto da Constitui\u00e7\u00e3o Federal assegura como direitos sociais para TODOS a educa\u00e7\u00e3o, a sa\u00fade, a alimenta\u00e7\u00e3o, o trabalho, a moradia, o transporte, o lazer, a seguran\u00e7a, entre outros. Direitos garantidos no texto, mas faltantes na vida de pretos e pardos. Falta acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, falta seguran\u00e7a alimentar, sobra viol\u00eancia, discrimina\u00e7\u00e3o, preconceito. A disparidade racial se torna cada vez mais latente; um abismo que parece aumentar cada vez mais, em especial ap\u00f3s o cen\u00e1rio de pandemia de covid-19.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O estudo <a href=\"http:\/\/cadernos.ensp.fiocruz.br\/csp\/artigo\/1536\/disparidade-etnico-racial-entre-pacientes-com-demencia-durante-a-pandemia-da-covid-19\"><em>Ethnoracial disparity among patients with dementia during COVID-19 pandemic<\/em><\/a><em>,<\/em> liderado por Natan Feter (Universidade Federal de Pelotas), e que tem como uma das autoras a doutoranda pelo Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o de Ci\u00eancias da Sa\u00fade: Cardiologia e Ci\u00eancias Cardiovasculares da UFRGS Jayne Santos Leite, aborda a disparidade \u00e9tnico-racial nas interna\u00e7\u00f5es e taxas de mortalidade por<span class=\"wphints-container\" style=\"display:inline;\">\n            \n       <a href=\"javascript:void(0);\" data-box-id=\"74de264594352639663b4c08ddded49e\" class=\"better-links\">dem\u00eancia<\/a> <span class=\"wphints-data-box\" id=\"74de264594352639663b4c08ddded49e\" ><span class=\"wphints-triangle\"><\/span><span class=\"wphints-main-content\">Desordem que afeta tanto a capacidade cognitiva como a capacidade funcional do indiv\u00edduo. O Alzheimer corresponde a cerca de 60 a 70% de casos de dem\u00eancia no mundo.<\/span><\/span><\/span> , que aumentaram desde o in\u00edcio da epidemia de covid-19 no Brasil. O artigo, que tamb\u00e9m conta com os autores Ricardo Alt e Airton Jos\u00e9 Rombaldi, foi publicado em setembro deste ano pelo Cadernos de Sa\u00fade P\u00fablica da Escola Nacional de Sa\u00fade P\u00fablica Sergio Arouca, da Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz, e revela que a taxa de mortalidade por dem\u00eancia diminuiu em 9% entre brancos e aumentou em 65% e 43% entre pretos e pardos, respectivamente. Ainda no primeiro semestre de 2020, pacientes pretos e pardos tiveram um risco maior de perder a vida por dem\u00eancia quando comparados aos brancos, disparidade essa que n\u00e3o havia sido observada no mesmo per\u00edodo de 2019.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na regi\u00e3o Sul, conforme Natan, a taxa de mortalidade por dem\u00eancia entre os brancos reduziu 19%, j\u00e1 entre os pretos aumentou 90% e entre os pardos subiu 176%. \u201cExiste uma disparidade \u00e9tnico-racial, pois, hoje, se uma pessoa de cor de pele preta, outra parda e outra branca com dem\u00eancia entrarem no hospital p\u00fablico, a chance de o preto e o pardo morrerem no hospital \u00e9 de 70 e 60%, respectivamente\u201d, diz. E por que isso acontece? Trata-se do estado em que o paciente chega ao hospital: n\u00e3o tem controle arterial adequado, n\u00edvel glic\u00eamico alto, n\u00e3o teve a oportunidade de praticar atividade f\u00edsica, n\u00edvel alto de estresse ao logo da vida. \u201cTodos esses fatores t\u00eam uma preval\u00eancia muito maior na popula\u00e7\u00e3o negra. Outro fator, partindo do pressuposto de que os dois tenham quadro de dem\u00eancia: o acesso ao servi\u00e7o para tratar os sintomas da doen\u00e7a, com melhor cuidado, \u00e9 maior entre os brancos do que entre os negros\u201d, explica Natan.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para Jayne, a principal reflex\u00e3o deste estudo se d\u00e1 na discrep\u00e2ncia e nas diferentes formas com que a sa\u00fade da popula\u00e7\u00e3o negra \u00e9 afetada.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Durante a pandemia de covid-19 toda a popula\u00e7\u00e3o negra foi absurdamente mais afetada que a popula\u00e7\u00e3o branca. Isso \u00e9 chocante e preocupante, nos faz pensar sobre o que pode ser feito para mudar essa situa\u00e7\u00e3o. Infelizmente, quando estudamos sa\u00fade e determinantes sociais, vemos que a popula\u00e7\u00e3o de pretos e pardos \u00e9 muito mais afetada. J\u00e1 sabemos que v\u00e1rios fatores precisam ser mudados, por exemplo, a popula\u00e7\u00e3o negra precisa ter mais acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, ao conhecimento, a espa\u00e7os de lazer para a pr\u00e1tica de atividade f\u00edsica, etc.<\/p><cite>Jayne Leite<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/9216398404542311\">Fernanda Souza de Bairros<\/a>, professora da UFRGS vinculada ao Departamento de Sa\u00fade Coletiva e coordenadora do Grupo de Estudos Sa\u00fade da Popula\u00e7\u00e3o Negra (<a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/harambee\/\">Harambee\/UFRGS<\/a>), menciona que os altos \u00edndices de comorbidade e mortalidade entre os negros \u00e9 uma consequ\u00eancia do racismo. \u201c\u00c9 preciso refletir que isso \u00e9 um determinante social em sa\u00fade: como se d\u00e1 o acesso \u00e0 sa\u00fade e qual \u00e9 a qualidade desse acesso? A sa\u00fade para pessoas negras no Brasil est\u00e1 atravessada pelo racismo, e o mesmo acontece com a educa\u00e7\u00e3o, o trabalho, o lazer.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O racismo est\u00e1 entranhado em nossa sociedade como um todo. Uma sociedade que foi constru\u00edda em bases escravagistas e escravocratas tem consequ\u00eancias racistas em todos os \u00e2ngulos, e a sa\u00fade n\u00e3o fica fora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O estudo a respeito da dem\u00eancia faz um recorte sobre a doen\u00e7a e a sa\u00fade p\u00fablica, refor\u00e7ando uma necessidade para al\u00e9m do crescimento do n\u00famero de casos, mas considerando a desigualdade em acometer mais os negros do que os brancos. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>O Brasil tem a segunda maior preval\u00eancia de dem\u00eancia do mundo, quando ajustada pela expectativa de vida dos pa\u00edses. Se olharmos 30 anos atr\u00e1s, a preval\u00eancia de dem\u00eancia era de 500 mil casos, hoje \u00e9 de 1 milh\u00e3o. Se olharmos 30 anos adiante, a preval\u00eancia ser\u00e1 de 4 milh\u00f5es de casos.<\/p><cite>Natan Feter<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse fator se deve ao aumento da expectativa de vida no pa\u00eds, mas tamb\u00e9m a fatores de risco n\u00e3o modific\u00e1veis, ou seja, que n\u00e3o foram controlados a tempo, como baixa escolaridade, tabagismo, consumo excessivo de \u00e1lcool, inatividade f\u00edsica, obesidade, comprometimento auditivo, depress\u00e3o e isolamento social. \u201cDe forma geral, 2 em cada 3 pessoas no mundo acreditam que nada pode ser feito para evitar a dem\u00eancia, e em cada 4 acham que esse \u00e9 o curso natural da vida. N\u00f3s sabemos que n\u00e3o\u201d, diz Natan.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para Jayne, \u00e9 preciso que todos tenham acesso ao conhecimento, a fim de que se tenha uma maior e melhor conscientiza\u00e7\u00e3o sobre o que ela \u00e9 e como ela pode ser prevenida. \u201cN\u00e3o \u00e9 normal achar que voc\u00ea vai ficar idoso e desenvolver algum tipo de dem\u00eancia. O normal \u00e9 termos uma terceira idade saud\u00e1vel.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A dificuldade ao acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o e \u00e0 baixa escolaridade fazem com que pessoas com dem\u00eancia busquem menos recursos para atenuar o sintoma. \u201cUma melhor qualidade de vida \u00e9 fundamental para prevenir a dem\u00eancia, e o ac\u00famulo de fatores de risco nos leva a vincular \u00e0 maior probabilidade de morte na popula\u00e7\u00e3o negra\u201d, frisa Natan.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse caso em espec\u00edfico n\u00e3o se trata da falta de acesso ao hospital ou ao medicamento, mas, sim, a um contexto socioecon\u00f4mico que faz com que a popula\u00e7\u00e3o de pretos e pardos tenha mais diabetes, hipertens\u00e3o, menor atividade f\u00edsica, maior inseguran\u00e7a alimentar, estresse, entre outros. Natan complementa que h\u00e1 um descontrole ao longo da vida desse indiv\u00edduo que faz com que ele chegue a \u00f3bito por dem\u00eancia com mais frequ\u00eancia. \u201cSabemos que a popula\u00e7\u00e3o branca tem mais acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, mais qualidade de vida, e o n\u00edvel educacional faz toda a diferen\u00e7a nesse processo. O fator biol\u00f3gico, a idade, todos n\u00f3s vamos envelhecer, mas o acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o \u00e9 algo em que podemos intervir\u201d, complementa Jayne.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-full\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"700\" height=\"466\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/ciencia\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Gustavo-Diehl5-editada.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3229\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/ciencia\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Gustavo-Diehl5-editada.jpg 700w, https:\/\/www.ufrgs.br\/ciencia\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Gustavo-Diehl5-editada-600x399.jpg 600w\" sizes=\"(max-width: 700px) 100vw, 700px\" \/><figcaption>Pesquisadores destacam o papel da educa\u00e7\u00e3o para melhorar as condi\u00e7\u00f5es de vida da popula\u00e7\u00e3o negra &#8211; Foto: Gustavo Diehl\/UFRGS &#8211; Arquivo<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para a pesquisadora, \u00e9 pela educa\u00e7\u00e3o que a popula\u00e7\u00e3o negra ter\u00e1 menor chance de desenvolver a dem\u00eancia na velhice. \u201cQuem tem mais escolaridade, provavelmente, tem melhor remunera\u00e7\u00e3o, o que levar\u00e1 a condi\u00e7\u00f5es de fazer melhores escolhas: maior acesso \u00e0 pr\u00e1tica de atividade f\u00edsica, recursos para investir em academia, uma alimenta\u00e7\u00e3o mais saud\u00e1vel e equilibrada. Ou seja, maior escolaridade = maior acesso.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Parece uma conta reta, mas n\u00e3o \u00e9. Diante dessa \u2018simples\u2019 mudan\u00e7a de cen\u00e1rio, existe o racismo estrutural fazendo com que o <em>status quo<\/em> se mantenha tal qual est\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u00c9 como se atividade f\u00edsica e alimenta\u00e7\u00e3o adequada estivessem dentro da escolha da popula\u00e7\u00e3o negra. Estudos mostram que nos bairros com maior concentra\u00e7\u00e3o de pretos e pardos h\u00e1 menos estrutura, n\u00e3o tem pra\u00e7a, o local \u00e9 mais inseguro, tudo isso est\u00e1 relacionado \u00e0 pr\u00e1tica de atividades f\u00edsicas. J\u00e1 a alimenta\u00e7\u00e3o est\u00e1 relacionada \u00e0s condi\u00e7\u00f5es socioecon\u00f4micas, a inseguran\u00e7a alimentar est\u00e1 relacionada ao poder aquisitivo de compra ou ao acesso \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de alimentos<\/p><cite>Fernanda Bairros<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ou seja: n\u00edveis mais baixos de renda e escolaridade = piores dados sobre morbidade e mortalidade. \u201cAs caracter\u00edsticas socioecon\u00f4micas influenciam, mas \u00e9 um equ\u00edvoco tratar a sa\u00fade da popula\u00e7\u00e3o negra somente dentro dessas condi\u00e7\u00f5es; tudo est\u00e1 atravessado pelo racismo.\u201d Outro fator importante a ser considerado \u00e9 a falta de qualifica\u00e7\u00e3o entre os profissionais de sa\u00fade para compreender as especificidades da sa\u00fade da popula\u00e7\u00e3o negra. \u201cOs curr\u00edculos de forma\u00e7\u00e3o na \u00e1rea da sa\u00fade ainda n\u00e3o abordam isso. O que temos atualmente \u00e9 uma <a href=\"https:\/\/bvsms.saude.gov.br\/bvs\/publicacoes\/politica_nacional_saude_populacao_negra_3d.pdf\">Pol\u00edtica Nacional de Sa\u00fade Integrada da Popula\u00e7\u00e3o Negra<\/a> que vem para combater o racismo na sa\u00fade, tanto no processo de forma\u00e7\u00e3o quanto no atendimento de profissionais de sa\u00fade\u201d, explica Fernanda.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Segundo Natan, no caso da dem\u00eancia, existem fatores preventivos, mas \u00e9 preciso voltar os esfor\u00e7os para a popula\u00e7\u00e3o que mais precisa. \u201cA atividade f\u00edsica \u00e9 importante, mas se seguirmos fornecendo acesso a espa\u00e7os de lazer e boa alimenta\u00e7\u00e3o para quem j\u00e1 tem, isso s\u00f3 vai aumentar a disparidade que observamos nesta pesquisa. \u00c9 preciso garantir a conscientiza\u00e7\u00e3o sobre a doen\u00e7a, mas tamb\u00e9m o acesso a espa\u00e7os de atividade f\u00edsica e seguran\u00e7a alimentar para reduzir essa disparidade \u00e9tnico-racial.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Fernanda complementa ao frisar que acesso ao direito \u00e0 sa\u00fade passa pelo enfrentamento ao racismo, em que \u00e9 necess\u00e1ria a desconstru\u00e7\u00e3o de uma hierarquiza\u00e7\u00e3o de ra\u00e7a a partir da compreens\u00e3o da <a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/ciencia\/branquitude-privilegio-branco-e-a-raiz-do-preconceito-racial\/\">branquitude<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Para a branquitude, o branco \u00e9 a categoria universal, o outro que \u00e9 o racializado. Por isso, estudos sobre branquitude precisam estar juntos com estudos \u00e9tnico-raciais na sa\u00fade porque n\u00e3o se consegue fazer enfrentamento ao racismo sem estudar a partir da constru\u00e7\u00e3o da branquitude. <\/p><cite>Fernanda Bairros<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim, \u00e9 poss\u00edvel compreender que n\u00e3o se trata apenas de sa\u00fade da popula\u00e7\u00e3o negra, e sim de uma estrutura racial que traz a desigualdade na viol\u00eancia, na alimenta\u00e7\u00e3o, na educa\u00e7\u00e3o e, inclusive, na sa\u00fade. \u201cSe trata de uma programa\u00e7\u00e3o social e ideol\u00f3gica \u00e0 qual todos n\u00f3s estamos submetidos. A identidade racional branca \u00e9 constru\u00edda e reconstru\u00edda historicamente como se fosse a refer\u00eancia. O racismo e o sexismo t\u00eam a sua perman\u00eancia mantida na evolu\u00e7\u00e3o da sociedade &#8211; \u00e9 reflexo de um fen\u00f4meno ideol\u00f3gico constru\u00eddo socialmente\u201d, elucida a professora.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong>Sobre a dem\u00eancia<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dem\u00eancia \u00e9 um termo guarda-chuva: trata-se de uma desordem que afeta tanto a capacidade cognitiva como a capacidade funcional do indiv\u00edduo. Dentro desse guarda-chuva de doen\u00e7as, h\u00e1 o Alzheimer, que corresponda a cerca de 60 a 70% de casos de dem\u00eancia no mundo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um dos <a href=\"http:\/\/svs.aids.gov.br\/dantps\/centrais-de-conteudos\/paineis-de-monitoramento\/saude-brasil\/mortalidade-geral\/\">pain\u00e9is de monitoramento da sa\u00fade brasileira<\/a>, desenvolvido e abastecido pelo Departamento de An\u00e1lise em Sa\u00fade e Vigil\u00e2ncia das Doen\u00e7as n\u00e3o Transmiss\u00edveis do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, mostra que a doen\u00e7a de Alzheimer e outras dem\u00eancias saltam da oitava posi\u00e7\u00e3o, em 2000, para a terceira em 2016 como principal causa de morte no pa\u00eds. O topo da lista ainda \u00e9 ocupado por doen\u00e7a do cora\u00e7\u00e3o e cerebrovascular, por\u00e9m a taxa de mortalidade da dem\u00eancia saltou de 18,2% para 38,4% em 16 anos. A realidade das causas de morte entre os brasileiros mudou, e a dem\u00eancia est\u00e1 ocupando um espa\u00e7o de destaque.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 preciso desenvolver pol\u00edticas p\u00fablicas em torno de uma estrat\u00e9gia nacional sobre a doen\u00e7a. \u201cA preval\u00eancia aumentada gera a necessidade de buscar informa\u00e7\u00e3o, por isso um plano nacional no combate e no controle \u00e0 doen\u00e7a \u00e9 primordial. A doen\u00e7a existe, mas \u00e9 poss\u00edvel prevenir, n\u00e3o pode ser aceita como um curso natural da vida\u201d, salienta Natan.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Confira tamb\u00e9m:<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"http:\/\/cadernos.ensp.fiocruz.br\/csp\/artigo\/1304\/carga-economica-da-inatividade-fisica-nas-internacoes-hospitalares-por-demencia-um-estudo-de-abrangencia-nacional-no-brasil\">Carga econ\u00f4mica da inatividade f\u00edsica nas interna\u00e7\u00f5es hospitalares por dem\u00eancia: um estudo de abrang\u00eancia nacional no Brasil<\/a>, artigo publicado pelos autores nos Cadernos de Sa\u00fade P\u00fablica da Fiocruz em janeiro de 2021.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"Branquitude: privil\u00e9gio branco e a raiz do preconceito racial\">Branquitude: privil\u00e9gio branco e a raiz do preconceito racial<\/a>, mat\u00e9ria publicada no UFRGS Ci\u00eancia em novembro de 2020.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sa\u00fade | Interna\u00e7\u00f5es e taxas de mortalidade por dem\u00eancia aumentaram desde o in\u00edcio da epidemia de covid-19 no Brasil. 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