{"id":708,"date":"2016-09-02T10:17:35","date_gmt":"2016-09-02T13:17:35","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/ciencia\/?p=708"},"modified":"2016-09-09T14:15:00","modified_gmt":"2016-09-09T17:15:00","slug":"a-musica-que-nasce-no-canto-da-cidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/ciencia\/a-musica-que-nasce-no-canto-da-cidade\/","title":{"rendered":"A m\u00fasica que nasce no canto da cidade"},"content":{"rendered":"<p>\u201cEu tinha uma atitude muito preconceituosa com o Funk\u201d, afirma <a href=\"http:\/\/buscatextual.cnpq.br\/buscatextual\/visualizacv.do?id=K4352832T2\">Pedro Fernando Acosta da Rosa<\/a> (escrevendo o nome do g\u00eanero com letra mai\u00fascula, pois diz que ele traz consigo toda uma carga cultural). Pesquisador e doutorando em M\u00fasica pela UFRGS, \u00e9 ex-morador da comunidade Campo da Tuca, na zona leste de Porto Alegre, e usou o local como estudo de caso em sua disserta\u00e7\u00e3o de mestrado. \u201cA conviv\u00eancia com os bailes me fez perceber a for\u00e7a que eles tinham pros moradores da Tuca\u201d, explica quando questionado sobre o que provocou seu interesse em pesquisar a hist\u00f3ria e o desenvolvimento do estilo, destacando tamb\u00e9m que n\u00e3o sabia de nenhum trabalho sendo feito sobre o assunto na capital ga\u00facha.<\/p>\n<p>O aglomerado de casas do Campo da Tuca \u00e9 chamado assim por ter crescido em torno de um campo de futebol, que ficava dentro da propriedade de Dona Tuca. Com o tempo, ela loteou sua terra e a destinou a pessoas de sua confian\u00e7a, entre elas Vov\u00f4, seu capataz, cujos descendentes ainda moram por l\u00e1. Com a reconstitui\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, foi descoberto que as fam\u00edlias que vivem ali, na maioria, v\u00eam dos povos negros e pobres retirados de suas casas, que ficavam onde hoje \u00e9 o centro de Porto Alegre, e que foram sendo realocados para essas partes afastadas da cidade desde o final do s\u00e9culo XIX. Os ciclos pol\u00edticos do Brasil durante o s\u00e9culo seguinte foram constantes nesse aspecto e suas medidas de limpeza \u00e9tnica tiveram como alvo central as popula\u00e7\u00f5es negras.<\/p>\n<p>L\u00e1 tamb\u00e9m vinham parar aqueles que deixavam o interior do estado durante o \u00eaxodo rural. Com o tempo, houve uma superlota\u00e7\u00e3o (hoje s\u00e3o estimados cerca de 10 mil habitantes, segundo seus l\u00edderes comunit\u00e1rios), e quase que o campo de futebol n\u00e3o sobreviveu, pois representava um espa\u00e7o amplo para a constru\u00e7\u00e3o de moradias. Mas os habitantes da Tuca foram ferrenhos nesse ponto e n\u00e3o permitiram que o espa\u00e7o fosse ocupado \u2013 o esporte era parte da alma daquela comunidade.<\/p>\n<p>Com a forma\u00e7\u00e3o dos times de v\u00e1rzea (n\u00e3o profissionais), o lugar come\u00e7ou a abrigar torcidas fervorosas que s\u00f3 n\u00e3o exalavam rivalidade quando em confronto fora dali com equipes \u201cestrangeiras\u201d. A no\u00e7\u00e3o de unidade da comunidade \u00e9 destacada pelo pesquisador como fator importante, j\u00e1 que as partidas ali acabavam gerando eventos tanto de comemora\u00e7\u00e3o como para a arrecada\u00e7\u00e3o de verbas. \u00c9 nesse contexto que se registra o nascimento dos bailes da Tuca. Por\u00e9m, muito antes de o Funk passar a dominar a sonoplastia do lugar, essas festas e reuni\u00f5es dan\u00e7antes se davam ao som de Pagode. Pedro relembra que ele mesmo fez parte de uma banda na \u00e9poca (final dos anos 1990), a Swing da Gente. Foi s\u00f3 em meados dos anos 2010 que o g\u00eanero passou a se tornar imperativo para que a comunidade se reunisse para dan\u00e7ar.<\/p>\n<p>Ele sabe que o Funk \u00e9 normalmente associado ao mundo do crime, das drogas, da viol\u00eancia e, principalmente, da sexualidade. \u201cO Samba, o Pagode e outros tipos de m\u00fasica tamb\u00e9m foram vistos assim no come\u00e7o, mas o Funk \u00e9 muito jovem ainda\u201d, comenta em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s dificuldades do estilo em ser reconhecido. Segundo sua observa\u00e7\u00e3o, esse estigma carrega em parte um preconceito pela origem do Funk nas periferias pobres, j\u00e1 que a classe m\u00e9dia est\u00e1 acostumada a consumir produtos de sua pr\u00f3pria realidade e, por outro lado, tamb\u00e9m se alimenta da repulsa social em admitir a exist\u00eancia de problemas hist\u00f3ricos como o racismo e a censura ao sexo.<\/p>\n<p>Pedro n\u00e3o nega que o Funk possa carregar mensagens sobre viol\u00eancia, machismo e drogas, mas diz que isso \u00e9 reflexo daquilo com que os MCs (Mestres de Cerim\u00f4nia, como s\u00e3o chamados os compositores de Funk) convivem, al\u00e9m de ressaltar que, pela pouca idade do g\u00eanero, ele ainda est\u00e1 se ajustando e se aperfei\u00e7oando. \u201cAcontece muito de um MC responder ao outro em uma m\u00fasica por discordar do que o primeiro tinha dito, ou de uma MC se afirmar num Funk contra a m\u00fasica machista de outro; existe muito esse sistema de respostas dentro do Funk\u201d, explica, enfatizando que o estilo musical n\u00e3o \u00e9 mais respons\u00e1vel por instigar a viol\u00eancia do que um filme ou um notici\u00e1rio.<\/p>\n<p>Como ex-morador da Tuca, o pesquisador usou um m\u00e9todo de abordagem participativa: n\u00e3o s\u00f3 observou como tamb\u00e9m interagiu com as pessoas e fez parte dos eventos que eram seu foco de estudo. Descreve sua pesquisa como uma etnografia musical: o estudo de como um determinado povo fez surgir em seu meio uma forma de express\u00e3o, e como ela agora impacta a sua pr\u00f3pria cultura. Ele compara o movimento Funk com o do Hip-hop nos Estados Unidos, j\u00e1 que ambos nasceram nas periferias pobres e negligenciadas pelo poder p\u00fablico como forma de expressar sua pr\u00f3pria realidade. Outra semelhan\u00e7a, que considera essencial para a exist\u00eancia de ambos, foi a populariza\u00e7\u00e3o de tecnologias. O doutorando destaca que a internet democratizou o acesso e a distribui\u00e7\u00e3o das composi\u00e7\u00f5es dessa popula\u00e7\u00e3o mais pobre e que, antes disso, os instrumentos eletr\u00f4nicos possibilitaram que indiv\u00edduos que n\u00e3o tinham os recursos para aprender a teoria formal de m\u00fasica tivessem como criar suas pr\u00f3prias can\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h5>\u00c9 uma disputa<\/h5>\n<p>Pedro compara a situa\u00e7\u00e3o do Funk com uma partida de futebol. \u201cH\u00e1 uma disputa acontecendo\u201d, afirma, salientando que as pol\u00edticas p\u00fablicas colaboram para que o g\u00eanero ganhe seu espa\u00e7o. Como professor na Funda\u00e7\u00e3o de Atendimento Socioeducativo (Fase), onde ensina m\u00fasica para menores infratores, observa que criar um Funk acaba sendo uma forma de express\u00e3o para jovens que est\u00e3o trancafiados, \u00e0s vezes por at\u00e9 um ano, justamente durante o per\u00edodo mais cr\u00edtico de seu desenvolvimento sexual. Algo parecido acontece com os moradores da periferia, ele diz. Atrav\u00e9s de uma retrospectiva hist\u00f3rica, remonta a trajet\u00f3ria do povo negro e pobre dentro de Porto Alegre, apontando para as limpezas \u00e9tnicas que varreram essas pessoas do centro para as partes mais distantes da cidade.<\/p>\n<p>Negligenciada pelo poder p\u00fablico, essa parcela da popula\u00e7\u00e3o acabou encontrando tamb\u00e9m no Funk um modo de ocupar seu espa\u00e7o nas zonas centrais, predominadas pela classe m\u00e9dia branca. \u201cE os funkeiros est\u00e3o ganhando espa\u00e7o.\u201d Segundo o pesquisador, com projetos como esse da Fase, leis e eventos voltados para o g\u00eanero, hoje os MCs j\u00e1 est\u00e3o estabelecendo seu territ\u00f3rio, saindo das periferias e construindo carreiras de sucesso \u2013 ele cita MC Bin Laden, MC Mano Beto, MC Barbie, MC Jean Paul, Ludmila, Anitta, etc.<\/p>\n<p>Esse fen\u00f4meno \u00e9 associado pelo pesquisador ao conceito de quilombismo, trazido pelo falecido ativista brasileiro dos direitos civis negros Abdias Nascimento. Os Quilombos eram locais para onde iam os escravos fugitivos durante a \u00e9poca da coloniza\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica, \u201cmas n\u00e3o tinha s\u00f3 negros, tinha \u00edndio, pobre, de tudo que \u00e9 cor\u201d, explica. O quilombismo \u00e9 essa pr\u00e1tica social de se abrigar longe dos centros urbanos e construir l\u00e1 uma cultura que \u00e9 um h\u00edbrido da carga trazida por seus exilados sociais. Segundo a pesquisa, hoje o Funk \u00e9 parte dessa cultura e, portanto, elemento importante das lutas sociais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h5>Pesquisar \u00e9 preciso<\/h5>\n<p>A inciativa, por\u00e9m, n\u00e3o deve vir s\u00f3 do lado oprimido, defende Pedro. A conquista significativa de espa\u00e7o pelo Funk faz com que a parcela de pessoas que ainda o generaliza como algo ruim se torne mais radical; \u00e9 preciso que existam pontes entre essas realidades. O doutorando (que agora pesquisa para sua tese grupos organizados de troca de cultura negra) afirma que tanto a pesquisa acad\u00eamica nessas \u00e1reas quanto o acesso de grupos marginalizados \u00e0 Universidade s\u00e3o essenciais para que exista mais igualdade social. O Rio de Janeiro n\u00e3o \u00e9 o polo da produ\u00e7\u00e3o e da aceita\u00e7\u00e3o do Funk, de onde sai o maior n\u00famero de nomes de sucesso, s\u00f3 por causa da sua hist\u00f3ria, mas porque tamb\u00e9m concentra diversas pesquisas sobre o g\u00eanero e seu contexto social, diz ele.<\/p>\n<p>\u201cHoje tem que fazer um teste pra entrar no curso de M\u00fasica\u201d, o pesquisador critica, lembrando que muitos jovens da periferia n\u00e3o t\u00eam como aprender teoria musical. O ingresso na faculdade poderia ajudar esses grupos e sua cultura a serem mais reconhecidos, assim como j\u00e1 ocorreu com o samba, exemplifica.<\/p>\n<p>O Funk \u00e9 parte de um organismo. Pedro costura sua trajet\u00f3ria com a do futebol, a do com\u00e9rcio local e a das pol\u00edticas sociais, pintando um quadro em que cada elemento comp\u00f5e parte do pr\u00f3ximo. Conclui que sua valida\u00e7\u00e3o por toda a sociedade \u00e9 fundamental para que sejam eficientes todos esses artif\u00edcios de que disp\u00f5e a popula\u00e7\u00e3o menos favorecida. Para ele, reconhecer e igualar o g\u00eanero junto com outros tantos estilos j\u00e1 consagrados \u00e9 tamb\u00e9m admitir que temos problemas a serem resolvidos na nossa sociedade e que eles n\u00e3o podem continuar sendo atirados para os cantos das grandes cidades.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h5>Disserta\u00e7\u00e3o<\/h5>\n<p><strong>T\u00edtulo:\u00a0<\/strong><a href=\"http:\/\/www.lume.ufrgs.br\/handle\/10183\/135442\">Bailes, festas, reuni\u00f5es dan\u00e7antes, trampos, montagens e patifagens: uma etnografia musical no Campo da Tuca, \u201ca capital do Funk no Sul do pa\u00eds\u201d<br \/>\n<\/a><strong>Autor:\u00a0<\/strong><a href=\"http:\/\/buscatextual.cnpq.br\/buscatextual\/visualizacv.do?id=K4352832T2\">Pedro Fernando Acosta da Rosa<br \/>\n<\/a><strong>Orientador:\u00a0<\/strong><a href=\"http:\/\/buscatextual.cnpq.br\/buscatextual\/visualizacv.do?id=K4792199A9\">Reginaldo Gil Braga<br \/>\n<\/a><strong>Unidade:\u00a0<\/strong>Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em M\u00fasica<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cEu tinha uma atitude muito preconceituosa com o Funk\u201d, afirma Pedro Fernando Acosta da Rosa (escrevendo o nome do g\u00eanero com letra mai\u00fascula, pois diz que ele traz consigo toda uma carga cultural). 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