{"id":939,"date":"2017-02-10T13:55:46","date_gmt":"2017-02-10T15:55:46","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/ciencia\/?p=939"},"modified":"2017-03-01T17:05:19","modified_gmt":"2017-03-01T20:05:19","slug":"que-a-forca-esteja-com-elas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/ciencia\/que-a-forca-esteja-com-elas\/","title":{"rendered":"Que a for\u00e7a esteja com elas!"},"content":{"rendered":"<p>Um <a href=\"https:\/\/medium.freecodecamp.com\/women-only-said-27-of-the-words-in-2016s-biggest-movies-955cb480c3c4#.8a308xhde\">levantamento feito pela pesquisadora Amber Thomas<\/a> apontou que em 2016, apesar de protagonizarem diversos filmes lan\u00e7ados em larga escala pelo mundo, o espa\u00e7o de fala das mulheres em Hollywood ainda foi muito pequeno. Nas produ\u00e7\u00f5es mais assistidas do ano, menos de 27% dos di\u00e1logos foram destinados \u00e0s personagens mulheres, e o mais recente exemplar da franquia <em>Star Wars<\/em>, <em>Rogue One: Uma Hist\u00f3ria Star Wars<\/em>, foi o pior avaliado: Jyn Erso (hero\u00edna do filme vivida pela indicada ao Oscar Felicity Jones) teve apenas 9% das falas. Foi antes disso, por\u00e9m, que a ent\u00e3o graduanda em Publicidade e Propaganda pela UFRGS, Anelise Ennes, identificou alguns problemas em como a feminilidade ocupava lugar nesses filmes e decidiu debru\u00e7ar seu Trabalho de Conclus\u00e3o de Curso (TCC) na an\u00e1lise da presen\u00e7a feminina no universo de <em>Guerra nas Estrelas<\/em>.<\/p>\n<p>Uma das mais influentes refer\u00eancias modernas na cultura do entretenimento, <em>Star Wars<\/em> gerou um sin\u00f4nimo visual de vil\u00e3o (o Darth Vader), express\u00f5es famosas (\u201cque a for\u00e7a esteja com voc\u00ea\u201d) e personagens ic\u00f4nicos que jamais abandonaram o imagin\u00e1rio popular, como os Cavaleiros Jedi, Mestre Yoda, Chewbacca e os rob\u00f4s C-3PO e R2-D2. Toda a trama e seus conceitos foram uma ideia original do cineasta George Lucas, que desde o lan\u00e7amento do primeiro longa-metragem, em 1977, tem explorado sua cria\u00e7\u00e3o ao m\u00e1ximo em todos os sentidos, com sequ\u00eancias, livros, videogames e in\u00fameros brinquedos.<\/p>\n<p>Portanto, apesar de ter crescido inevitavelmente sabendo o que era <em>Star Wars<\/em>, Anelise admite que s\u00f3 conheceu os filmes de fato quando mais velha. \u201cEu achava a Amidala uma chata\u201d, afirma sobre a personagem feminina de maior destaque na chamada trilogia nova (lan\u00e7ada entre 1999 e 2005), que \u00e9 vivida por Natalie Portman. Essa opini\u00e3o que formou na inf\u00e2ncia n\u00e3o \u00e9 injustificada: embora vital para a trama, Amidala n\u00e3o est\u00e1 inserida na a\u00e7\u00e3o como os homens, ela est\u00e1 quase sempre \u00e0 parte das sequ\u00eancias mais movimentadas e, quando se encontra nelas, \u00e9 a v\u00edtima ou, pior, uma figura indiferente para o \u00eaxito dos planos dos her\u00f3is. Sem ningu\u00e9m com quem se identificar, Anelise acabou n\u00e3o se interessando pelos filmes at\u00e9 muitos anos depois, e quando retomou o universo \u00e0s v\u00e9speras do lan\u00e7amento de <em>Star Wars: O Despertar da For\u00e7a<\/em> (2015), percebeu que ainda assim, quando se enxergava em tela, era em personagens como Han Solo ou Luke Skywalker, nunca em figuras como a Princesa Leia, por exemplo.<\/p>\n<p>Foi esse inc\u00f4modo que denunciou um impactante contraste de sentimentos quando se deparou com Rey (Daisy Ridley), protagonista da nova leva de filmes que se iniciou com <em>O Despertar da For\u00e7a<\/em>. Mais cedo nesse mesmo ano, Anelise havia se deparado com a personagem Furiosa (vivida por Charlize Theron) no filme <em>Mad Max: Estrada da F\u00faria<\/em> (2015), e j\u00e1 considerava tra\u00e7ar em seu trabalho de conclus\u00e3o um perfil das mulheres fortes no cinema ao longo de sua hist\u00f3ria. Por\u00e9m, como definiria o que \u00e9 forte? Pois para tanto, seria preciso existir um oposto, aquilo que \u00e9 fraco. E como contextualizar isso em cada \u00e9poca? Percebendo que tentar concretizar esses conceitos poderia ser algo prejudicial aos seus objetivos, decidiu se inspirar na nova personagem de <em>Star Wars<\/em>, t\u00e3o forte e cheia de representatividade, e investigar os motivos pelos quais, como mulher, ela mesma se sentia antes t\u00e3o distante daquele mundo de fic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Entretanto, n\u00e3o foi sem um pouco de decep\u00e7\u00e3o que percebeu que, por fim, n\u00e3o poderia englobar Rey na sua an\u00e1lise. Ao longo de sua pesquisa, notou que Amidala e Leia, as duas principais figuras femininas no universo <em>Guerra nas Estrelas<\/em>, n\u00e3o podiam ser avaliadas apenas por suas primeiras apari\u00e7\u00f5es. Segundo o trabalho da publicit\u00e1ria, as necessidades de roteiro e trama em torno dos her\u00f3is homens exigiram constantemente que ambas as personagens sofressem mudan\u00e7as bruscas de abordagem: num dos filmes Amidala \u00e9 uma figura materna para o protagonista, carinhosa e decidida a seguir seus objetivos pol\u00edticos, noutro ela j\u00e1 \u00e9 retratada com decotes e roupas insinuantes, completamente incapaz de resistir \u00e0 paix\u00e3o juvenil que acomete os dois; num Leia \u00e9 uma mulher impaciente e de personalidade forte, perfeita para lidar com figuras como o canalha Han Solo, noutro ela torna-se uma figura calma e passiva \u00e0s revela\u00e7\u00f5es feitas por Luke.<\/p>\n<p>Rey, por outro lado, \u00e9 a protagonista dessa nova leva de filmes, mas tamb\u00e9m est\u00e1 rodeada de homens. Para entender qual ser\u00e1 o retrato final da personagem, \u00e9 preciso analisar toda a sua trajet\u00f3ria, que deve se encerrar s\u00f3 em 2019 com o terceiro filme. Afinal, por mais promissoras que sejam as novas hero\u00ednas de <em>Star Wars<\/em>, Anelise diz que elas ainda carregam alguns valores pouco favor\u00e1veis \u00e0 representa\u00e7\u00e3o das mulheres no cinema, como o fato de serem objetos de desejo. \u201cAinda \u00e9 imposs\u00edvel que exista uma amizade entre um homem e uma mulher sem que o cara acabe se apaixonando por ela\u201d, ressalta, apontando como tanto <em>O Despertar da For\u00e7a<\/em> quanto <em>Rogue One<\/em> d\u00e3o a entender que os personagens homens que acompanham Rey e Jyn est\u00e3o interessados romanticamente nelas. Ela afirma que essa vis\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 prejudicial, pois destaca aquele modelo de mulher como uma exce\u00e7\u00e3o, algu\u00e9m que \u00e9 diferente das outras e que, por isso, \u00e9 atraente para os homens \u2013 al\u00e9m de reafirmar a m\u00e1xima de que homens e mulheres n\u00e3o podem dividir uma amizade sem o interesse amoroso, o que refor\u00e7a essa tens\u00e3o de sexo e poder entre os g\u00eaneros.<\/p>\n<p>Ainda que admita que provavelmente estamos passando por uma fase em que as artes reagem drasticamente \u00e0 onda de conservadorismo pol\u00edtico pelo mundo, e que em algum ponto iremos estabilizar esse grande volume de produ\u00e7\u00f5es como <em>Orange is the New Black<\/em>,<em> Mad Max<\/em>, <em>Sense8<\/em>, <em>Jessica Jones<\/em> e outros filmes e programas que celebram a diversidade, ela espera pelo melhor para Rey. No passado, Amidala se sujeitava a um relacionamento abusivo com o futuro Darth Vader, o que, por sua vez, hoje faz dele n\u00e3o um vil\u00e3o daqueles que \u00e9 bom detestar, mas um que realmente \u00e9 desprez\u00edvel para Anelise. J\u00e1 Leia, ao testemunhar seu planeta natal ser destru\u00eddo, n\u00e3o tinha direito a sequer uma cena de luto, e mesmo depois disso, quando \u00e9 presa e torturada, os her\u00f3is a encontram em sua cela aguardando deitada em uma pose sugestiva e fazendo piadinhas. A esperan\u00e7a \u00e9 que os 40 anos que separam as produ\u00e7\u00f5es sejam o suficiente para trazer uma nova vis\u00e3o para as mulheres n\u00e3o s\u00f3 em <em>Star Wars<\/em>, mas em Hollywood como um todo.<\/p>\n<p>Ela analisa, por exemplo, como antes Amidala e Leia eram associadas ao decl\u00ednio dos personagens homens: a primeira \u00e9 a causa de o her\u00f3i tornar-se o vil\u00e3o, e a segunda \u00e9 usada por Darth Vader para tentar Luke para o Lado Negro. E mesmo pequenos detalhes, como relacionar o fato de \u201csujar as m\u00e3os\u201d \u00e0 paix\u00e3o entre Leia e Han, n\u00e3o passaram despercebidos \u00e0 Anelise. Ela ainda traz conceitos cl\u00e1ssicos como aquele estabelecido por Simone de Beauvoir sobre \u201ctornar-se mulher\u201d, para analisar como momentos como a luta de Leia para se libertar em <em>O Retorno de Jedi<\/em> (1983), depois de ser obrigada a se vestir com roupas m\u00ednimas e ser acorrentada a um ser masculino grande e nojento, \u00e9 imediatamente \u201cpunido\u201d pelo filme ao coloc\u00e1-la na necessidade de se agarrar a um her\u00f3i que a leva no colo para fora de seu cativeiro, impedindo-a de concretizar sua identidade de mulher independente.<\/p>\n<p>Hoje, as pr\u00f3prias anima\u00e7\u00f5es da Disney, respons\u00e1veis por estabelecer certos padr\u00f5es de mulheres e princesas, v\u00eam trazendo uma nova vis\u00e3o sobre suas protagonistas, que j\u00e1 n\u00e3o dependem de pr\u00edncipes ou sequer de um par rom\u00e2ntico. Esse tipo de subvers\u00e3o das expectativas \u00e9 importante, explica Anelise, pois n\u00e3o se trata de \u201cs\u00f3 um filme\u201d ou \u201cs\u00f3 uma s\u00e9rie\u201d; esses ve\u00edculos propagam uma imagem da nossa pr\u00f3pria realidade, e as pequenas meninas, e mesmo as mulheres j\u00e1 adultas, precisam poder se identificar nessas obras para entenderem que, se possuem um lugar de fala na cultura pop, tamb\u00e9m o possuem no mundo real. A representatividade empodera grupos oprimidos ao mostrar para o mundo que todos os tipos de pessoas s\u00e3o iguais e podem ocupar o mesmo espa\u00e7o de protagonismo que os corriqueiros homens, brancos e heterossexuais, que normalmente est\u00e3o \u00e0 frente das produ\u00e7\u00f5es hollywoodianas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h5><strong>Trabalho de Conclus\u00e3o de Curso<\/strong><\/h5>\n<p><strong>T\u00edtulo<\/strong>: <a href=\"http:\/\/www.lume.ufrgs.br\/handle\/10183\/147503\">Que a for\u00e7a esteja com elas: uma an\u00e1lise do feminino em Star Wars<br \/>\n<\/a><strong>Autora<\/strong>: Anelise Ennes Marques<br \/>\n<strong>Orientadora<\/strong>: Miriam de Souza Rossini<br \/>\n<strong>Coorientadora<\/strong>: Vanessa Kalindra Labre de Oliveira<br \/>\n<strong>Unidade<\/strong>: Curso de Comunica\u00e7\u00e3o Social: Habilita\u00e7\u00e3o em Propaganda e Publicidade<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um levantamento feito pela pesquisadora Amber Thomas apontou que em 2016, apesar de protagonizarem diversos filmes lan\u00e7ados em larga escala pelo mundo, o espa\u00e7o de fala das mulheres em Hollywood ainda foi muito pequeno. 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