Evento na Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da UFRGS abordou a pesquisa sobre o aparato repressor dentro da universidade
A historiadora Letícia Wickert Fernandes, integrante da Comissão da Memória e da Verdade (CMV) Enrique Serra Padrós, da UFRGS, falou na quarta-feira (24/03) aos alunos do curso de Arquivologia sobre seu tema de pesquisa: a ditadura que vigorou no Brasil entre 1964 e 1985. A conversa foi no âmbito dos eventos para marcar o golpe de 64, em 01 de abril, e celebrar a democracia brasileira.
O encontro aconteceu no Auditório II da Fabico- Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da UFRGS, organizado pela professora Valéria Raquel Bertotti no âmbito da disciplina “Tópicos Especiais em Arquivologia VI”. A professora Valéria também faz parte da CMV/UFRGS. “Leticia demonstrou a partir da construção da sua dissertação os diferentes caminhos a que os documentos podem nos levar quando nos permitimos conversar com eles”, afirmou a docente, ressaltando que cada informação é de extrema importância.
Letícia, que atualmente é aluna do curso de Arquivologia da UFRGS, disse que o propósito desse encontro era mostrar aos estudantes como acontece o percurso investigativo, evidenciando a relação entre as fontes documentais e a produção do conhecimento acadêmico.
Para a professora Valéria, os documentos devem ser compreendidos por meio do seu conjunto arquivístico, levando em consideração o contexto histórico para que seja possível entender o porquê, por quem, para quem e para que. “Assim, a importância do seu conteúdo não é isolada, ela ganha uma nova dimensão, é amplificada, assim como o sentido de sua permanência. Afinal, é neste conjunto que conseguimos mapear relações, restabelecer vínculos e retratar melhor os fatos que estão ali representados”.
Letícia contou que desde o seu ingresso no curso de História, em 2014, tinha interesse em pesquisar as conexões da ditadura com a universidade. Orientada pelo professor Enrique Serra Padrós, iniciou o trabalho analisando documentos do Serviço Nacional de Informações (SNI), órgão integrante do aparato repressivo. A pesquisa de Letícia abarca o período de 1964 a 1985, com o olhar voltado para os registros sobre a UFRGS nos documentos dos órgãos de inteligência da ditadura
A historiadora conseguiu identificar no material do SNI 1.230 documentos mencionando a UFRGS. Analisando a documentação, Letícia identificou sujeitos como o coronel Natalício Corrêa, que repassavam informações para o SNI sugerindo a expulsão de alunos e a exoneração de professores e funcionários. A alegação, geralmente, era a mesma: “fulano é comunista”, explicou.
Para Letícia, a Comissão da Memória e da Verdade da UFRGS, criada em dezembro de 2024, oportunizará a ampliação das discussões e das possibilidades de pesquisa documental. “O objetivo não deve ser colocar um ponto final nessa página da História, mas oportunizar conhecer um passado que por décadas ficou oculto. Conhecer o impacto da ditadura na UFRGS nao é só dar conta da história institucional, mas possibilita complexificar nosso entendimento sobre a ditadura em nível regional e nacional”, comenta a historiadora.
Já a professora Valéria Bertotti afirma que a Comissão da Memória e da Verdade Enrique Serra Padrós representa e mantém um vínculo arquivístico a partir da busca e descrição dos arquivos da UFRGS, em um trabalho que entralaça fatos e nomes com os depoimentos. “A pesquisa traz à luz um passado que a própria Universidade manteve às escuras por muito tempo”, complementa Bertotti, “Conhecer esse passado é fundamental para que ele não se repita.”
Texto: Rafaela Peretto e Márcia Turcato
Imagens: Márcia Turcato
