A segunda Audiência Pública da Comissão da Memória e da Verdade Enrique Serra Padrós congregou várias gerações empenhadas na recuperação da história da Universidade

A segunda audiência pública da Comissão da Memória e da Verdade Enrique Serra Padrós, “Técnicos(as) e a memória da ditadura na UFRGS”, realizada na noite do dia 28 de maio, praticamente lotou a Sala II do Salão de Atos da UFRGS e manteve o público atento até o final do encontro, que se estendeu por mais de duas horas. A audiência faz parte dos trabalhos de apuração sobre as perseguições e a repressão ocorridas no ambiente universitário durante a ditadura imposta ao Brasil em 1964. Na primeira audiência, em 28 de novembro de 2025, a comissão acolheu o testemunho de três ex-estudantes da UFRGS que foram perseguidos no período ditatorial.
O primeiro testemunho da segunda audiência foi o de Jussara Rosa Cony, Técnica Administrativa em Educação aposentada. Graduada e Mestra em Farmácia pela UFRGS, ela trabalhou nas faculdades de Medicina e de Farmácia e foi a primeira a receber o título de técnica emérita da UFRGS. Ex- gestora do Grupo Hospitalar Conceição, ex-vereadora e ex-deputada estadual pelo PC do B, Jussara tem uma longa trajetória de militância política em diversos setores, desde o sindical, passando pelo feminista e também no setor da saúde, onde participou da organização do SUS – Sistema Único de Saúde. Segundo ela, “ser farmacêutica é uma opção política: eu defendo uma indústria farmacêutica nacional”.
Declamando um poema de Lila Ripoll, escritora e militante comunista, Jussara iniciou seu testemunho falando sobre luta, resistência e esperança em um futuro melhor conduzido pelas novas gerações. Ela lembrou seus anos de militância sindical e o apoio que recebeu de seus chefes e de professores, como Otto Alcides Ohlweiler, titular de Química indiciado em 1964 junto de quatro colegas da Escola de Engenharia. Naquele mesmo ano, Ohlweiler foi preso dentro da UFRGS enquanto trabalhava.
A convidada também lembrou sua participação na Campanha da Legalidade junto de Lauro Hagemann, locutor da rede de rádios, que ficou conhecido como “a voz da legalidade”. Assim como Jussara, Lauro foi funcionário da UFRGS, tendo sido demitido pelo AI-10. O AI-10 estabelecia que pessoas cassadas ou com direitos políticos suspensos em virtude de atos institucionais anteriores poderiam ainda perder cargos ou funções na administração pública, ser sujeitos a aposentadoria compulsória ou perda de mandatos eletivos.

As greves de 1982 e 84
O Técnico Administrativo em Educação aposentado Décio Aloísio Schauren falou sobre sua experiência na UFRGS e o trabalho de transformação da Absurgs – Associação Beneficente dos Funcionários da UFRGS – em sindicato. Ele trabalhou nos departamentos de Pessoal e de Relações Internacionais da Filosofia. Foi eleito vereador pelo PT em Porto Alegre com mandato entre 1997 e 2000. Atualmente, dedica-se à pesquisa sobre a migração alemã no estado de Santa Catarina e tem vários livros publicados.
Décio foi aluno do curso de Letras e lembrou de um antigo funcionário, conhecido como “seu Milton”, que ajudava a proteger os estudantes quando percebia a chegada de policiais ou de agentes disfarçados. Ele também recordou da primeira grande greve realizada pelos técnicos da universidade, em 1982, e da greve de 1984, que mobilizou todas as universidades federais do Brasil. “Em 82, nossos salários foram cortados e nós seguimos para a porta dos supermercados para arrecadar alimentos”, recordou.
O biólogo Alcides José de Almeida, também Técnico Administrativo em Educação aposentado, foi o último a falar sobre sua experiência na Universidade. Ele trabalhou nos institutos de Biociências e de Ciências Básicas da Saúde e participou, junto a Décio e outros colegas, da organização do sindicato da categoria, na época chamado de Absurgs – Associação Beneficente dos Funcionários da UFRGS e, a seguir, denominado Assufrgs. Alcides também foi uma das lideranças nas greves de 82 e de 84. Ele iniciou seu testemunho saudando a conquista da escala de trabalho 5×2 e a jornada semanal de 40 horas recentemente aprovadas na Câmara Federal.
A participação ativa de Alcides no sindicato pelos direitos trabalhistas dos técnicos – na época muitos recebiam menos que um salário mínimo – , resultou em represália: ele perdeu a bolsa de estudo que conquistara para estudar na Inglaterra e foi impedido de continuar a pesquisa que desenvolvia na UFRGS sobre o rotavírus.

Sobre a audiência
A segunda audiência pública da CMV foi conduzida por sua vice-coordenadora, professora Lorena Holzmann. Lorena agradeceu a presença de todos e o trabalho realizado pelas profissionais que integram a Comissão, além de voluntários e bolsistas. Lorena informou que a Comissão realizou até o momento 43 entrevistas com ex-alunos da UFRGS, servidores técnicos e docentes, além de 55 reuniões de trabalho.
Na plateia, entre inúmeros participantes, estavam o procurador-geral da República e procurador regional de Direitos Humanos do Ministério Público, Enrico Rodrigues de Freitas; o vice-reitor da UFRGS, Pedro de Almeida Costa; o pró-Reitor de Gestão de Pessoas da Universidade, Arthur Bloise; o ex-reitor Hélgio Trindade; o ex-prefeito de Porto Alegre, Raul Pont; e o ex-deputado Raul Carrion.
