Formação de professores em Modelagem Matemática em Tempos Pandêmicos: perspectivas e valores
Jussara de Loiola Araújo (UFMG)
A formação de professores relativamente à modelagem, inicial ou continuada, é um tema recorrente e necessário para nossa comunidade de modelagem na educação matemática. Os tempos pandêmicos são um pano de fundo: a pandemia de Covid-19 chacoalhou nossas vidas, fazendo-nos rever perspectivas e valores, seja na modelagem, na educação matemática ou na vida, em geral. Mas não estou segura quanto a relacionar todos os trechos que compõem o título da mesa e que grifei anteriormente. Vou usar meu tempo para contar que, durante a pandemia, dei início a uma nova pesquisa que se volta para a experiência docente com a modelagem. O título é Qué les pasa a los profesores que realizan actividades de modelación matemática: narrativas de experiências no Brasil e na Colômbia. A pesquisa acaba tangenciando perspectivas e valores desses professores, mas não apenas. A pandemia atravessou a vida de todos nós, pesquisadores e professores participantes da pesquisa, e é regularmente citada nas entrevistas narrativas que realizamos. Assim, minha fala trata do tema do Debate Temático 1, mas o extrapola. Para dar um gostinho da minha participação, lembro que a literatura sobre modelagem na educação matemática vem apresentando, há vários anos, relatos de experiências e de pesquisas que descrevem potencialidades de práticas de modelagem quando comparadas às aulas tradicionais de matemática. Por outro lado, são notórios, nessa mesma literatura, os obstáculos, as dificuldades e os desafios enfrentados e as resistências apresentadas por professores ao desenvolverem atividades de modelagem, ou mesmo quando vislumbram a possibilidade de realizar tais atividades. Considerando esse quadro aparentemente paradoxal, o objetivo é compreender a experiência de professores de matemática que se propõem a realizar atividades de modelagem. O foco está na experiência mesma do professor, en lo que le passa. No Debate Temático 1, vou apresentar depoimentos de alguns professores de matemática que participam da pesquisa na região metropolitana de Belo Horizonte. Falas como “a matemática é solitária”; “ninguém questionou o tempo das atividades; isso incomodou apenas a mim”; “professor de matemática tem um jeito muito engessado de olhar para a matemática” descortinam novas possibilidades para pensar a relação de professores com a modelagem matemática.
Modelagem Matemática e Formação de professores (inicial e continuada)
Lourdes Maria Werle de Almeida (UEL)
A formação de professores em modelagem matemática ou a formação de professores para a modelagem matemática é temática relevante para discussões a que a CNMEM visa dar atenção. Como os diferentes setores da Educação, a formação inicial de professores enfrentou desafios, alterando, possivelmente, perspectivas e valores referentes ao processo formativo no decorrer do tempo em que limitações decorrentes da pandemia do Covid-19 foram impostas aos professores e aos alunos. Sem, entretanto, adentrar profundamente às repercussões dos tempos pandêmicos na Educação, mas me referindo a um tema que sofreu influência das aulas não presenciais realizadas nestes tempos, vou abordar um assunto que me é caro na formação inicial de professores para a modelagem matemática: a intervenção do professor nas atividades dos alunos. Já é reconhecido o aspecto de que deve haver um equilíbrio ente a intervenção do professor e a independência dos alunos quando envolvidos em problemas de modelagem. Mas, como, efetivamente, se dá esse equilíbrio? Quem o caracteriza? Para propor reflexões sobre o teor dessas questões, vou me referir a dados de uma pesquisa empírica realizada com alunos do quarto ano de um curso de Licenciatura em Matemática. O que esses alunos respondem me permite apontar que a intervenção regulada do professor é necessária para que a modelagem matemática como open-ended problem possa ser viabilizada e realizada com sucesso pelos alunos. Ou seja, ainda que muito se venha dizendo sobre o quanto os alunos, e apenas eles, devem ser responsáveis pelas ações pertinentes à modelagem matemática de uma situação da realidade, o professor pode ser um andaime que dá suporte a heurísticas e a decisões dos alunos.
