UFRGS e a Covid-19

Aspectos tecnológicos e sociais têm impacto no uso de EaD na graduação durante isolamento

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Sumário
Professora do curso de Ciências Contábeis, Wendy Carraro tem mantido mesmo em casa suas aulas na plataforma webconf ou via Moodle. (Foto: Flávio Dutra/JU)

Por Júlia Provenzi e Ricardo Morais/Jornal da Universidade

Dificuldade de acesso à internet pelos estudantes e impossibilidade de adaptar as aulas estão entre os motivos mais citados pelas Comgrads

20 das 77 Comissões de Graduação (Comgrads) dos cursos presenciais da UFRGS autorizaram o uso dos recursos online durante a suspensão das aulas presenciais, conforme a Pró-reitoria de Graduação (Prograd). A impossibilidade de garantir que todos os alunos tenham acesso à internet foi um dos motivos que impediu muitas graduações de adotarem plataformas digitais durante a pandemia de coronavírus. Mesmo assim, alguns professores estão oferecendo atividades complementares e não obrigatórias pela internet, caso os alunos queiram se ocupar na quarentena.

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Atualmente, 22.445 estudantes estão matriculados na UFRGS, dos quais 41,09% são cotistas. Em nota publicada no Facebook na segunda-feira (13) e enviada por e-mail aos alunos cotistas, a Coordenadoria de Acompanhamento e Ações Afirmativas da UFRGS orienta aos estudantes com acesso à internet que cumpram suas atividades “de acordo com os planos de ensino”. Já para os que não têm, a recomendação é que eles informem a impossibilidade de conexão ao professor e colegas mais próximos, para que tenham “segurança de não serem prejudicados com esse período de isolamento e uso eventual do EaD.” 

Além do acesso à internet, o secretário de Educação a Distância da UFRGS, Lovois de Andrade Miguel, argumenta que a não adoção do EaD também pode ter outros motivos. “A situação da pandemia impôs complicações de cunho pessoal à parte do corpo discente e docente, como desemprego, problemas psicológicos e situações de adoecimento”, explica. Somado a isso, os professores precisam ter uma capacitação específica para ministrar aulas online, que pode ser realizada por meio de cursos fornecidos pela Secretaria de Educação a Distância (Sead). Para adaptar as aulas à modalidade EaD, não basta transferir a bibliografia e o conteúdo para uma plataforma, é preciso readaptar o modelo didático-pedagógico das atividades.

Em relação aos alunos, alguns usaram as redes sociais para se manifestar contra a adoção do EaD. O Centro Acadêmico do Design (CADe), por exemplo, afirmou no Instagram que se posiciona “para que os professores continuem, sim, disponibilizando conteúdo para visualização via e-mail”, mas argumentam que os docentes não cobrem “pelos conteúdos disponibilizados e suspendam atividades avaliativas”.

De acordo com um levantamento realizado pela Prograd, 54 cursos presenciais de graduação optaram por não autorizar a substituição das aulas presenciais por virtuais, exceto as que já estavam previstas. A redação do JU apurou que outros dois cursos, Letras e Políticas Públicas, que não haviam emitido resposta à Pró-reitoria, também decidiram por não empregar o EaD. A Comgrad de Engenharia Metalúrgica foi a única que não respondeu. Ou seja, apenas 20 cursos adotaram as aulas online (26%), contra 56 que escolheram não utilizar a ferramenta (73%).

Com isso, a média de acessos diários ao sistema de gerenciamento de aprendizagem online da UFRGS, o Moodle, sofreu uma redução. Entre 16 e 31 março, a ferramenta recebeu em média 6 mil acessos diários, 37% a menos do que a média das duas semanas anteriores, de 9,5 mil entradas por dia. A plataforma também teve uma queda de 25% no número de usuários.

Professora cria conteúdo para ajudar pequenos negócios

Wendy Haddad Carraro, professora do Curso de Ciências Contábeis, ministra duas disciplinas de graduação, e em ambas está realizando atividades online com o uso das tecnologias disponíveis pela UFRGS. A proposta da docente teve aprovação da Comgrad. Para ela, o EaD é uma opção para os alunos se manterem ativos e produtivos, o que ajuda a preservar a saúde mental deles e dos professores.

Todas as webaulas de Wendy são gravadas e ficam disponíveis para acesso dos acadêmicos que não puderem participar ao vivo. Quem não tem acesso à internet poderá ver o material quando a quarentena acabar. “Me predispus a não realizar atividades que comprometam negativamente os estudantes”, informa.

Uma das tarefas que a professora propôs à turma de Controladoria, que tem 45 alunos, é a construção de um mural digital com dicas e ideias para ajudar os negócios a superar as mudanças impostas pela covid-19. Na outra disciplina, de Planejamento Contábil, Wendy está desenvolvendo materiais sobre gestão e estratégia para que pequenos empresários possam se reorganizar neste período de pandemia. Capacitada para ministrar aulas em EaD desde 2010 por meio dos cursos promovidos pela Sead, a docente conta que a experiência atual tem sido um estímulo positivo tanto para ela quanto para os estudantes.

O que dizem os cursos 

Muitas Comgrads argumentam que há atividades presenciais que não podem ser realizadas a distância, como as que dependem de laboratórios ou prestam atendimento à comunidade externa, como é o caso da Odontologia. Já o curso de Dança ressalta que maioria das disciplinas exige práticas com acompanhamento pessoal que não podem ser realizadas por EaD.

O curso de Arquitetura disse que possui disciplinas teórico-práticas de ateliês que envolvem a interação contínua entre professor e alunos para o desenvolvimento de projetos arquitetônicos e urbanismo, por isso não consegue realizar as atividades online. 

Na Comgrad de Fonoaudiologia, até aulas que eram ministradas à distância antes da pandemia foram suspensas nesta quarentena. “Temos uma disciplina eletiva em EaD, mas os professores optaram por não dar continuidade à mesma neste período, considerando que os alunos não têm acesso aos laboratórios de informática da Universidade e as bibliotecas estão fechadas”, informou o curso.

Em outras graduações, os professores estão enviando atividades complementares para manter os alunos engajados. Na faculdade de Farmácia, por iniciativa pessoal, alguns professores têm enviado tarefas aos alunos que não configuram substituição das aulas presenciais, mas oferecem uma alternativa de antecipação de estudos como forma de ocupação em tempos de isolamento. Nesse caso, é decisão do acadêmico fazê-las ou não.


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