UFRGS e a Covid-19

Como é a rotina na unidade com mais pacientes graves por causa do coronavírus no RS

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Sumário
Centro de Tratamento Intensivo do HCPA. Foto: Flávio Dutra/JU

Centro de Tratamento Intensivo criado no Hospital de Clínicas de Porto Alegre para atender aos casos agravados pela covid-19 tem recebido em média 13% da demanda estadual

A contabilidade fúnebre da covid-19 estampa manchetes com milhares de óbitos por dia no Brasil, somando-se mais de 30 mil desde o início da pandemia. Para quem está à beira do leito desses pacientes, porém, esses números não existem. Não há dígitos. São pessoas que deixam marcas e lágrimas. Histórias de pais e filhos que morreram com minutos de diferença, casais que foram encaminhados para respiração mecânica juntos e famílias arrasadas por uma doença pouco conhecida e sem tratamento comprovado. 

Quem subestima o coronavírus deveria passar um dia, um turno ou ao menos uma hora em uma unidade de terapia intensiva que atende infectados para sentir um pouco do que os profissionais da saúde têm vivido há mais de três meses. Um trabalho exaustivo de dedicação e coragem que tem provado para os próprios funcionários que não há barreiras entre o profissional e o pessoal. O que existe é um caminho aberto de travessias constantes em que as histórias de quem cuida e de quem é cuidado se cruzam com um objetivo comum: vencer a doença.

No Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), que atualmente tem o maior número de pacientes graves internados por causa da covid-19 no Rio Grande do Sul, investimentos em pessoas, infraestrutura e equipamentos tiveram de ser realizados às pressas para que os contaminados pudessem receber atendimento adequado. Das cerca de 150 pessoas que necessitam de terapia intensiva atualmente no estado, em média 20 (13%) estão no Centro de Tratamento Intensivo criado para atender pacientes com coronavírus do local, chamado pelos profissionais de CTI Covid-19.

Em fevereiro, a instituição recebeu 57 milhões de reais do governo federal para a estruturação de 105 novos leitos para casos de coronavírus. Atualmente, 46 estão em funcionamento. “Com esses recursos, somados às doações, foi possível ofertar rapidamente o atendimento necessário”, afirmaram por e-mail Ana Paula Coutinho, adjunta da Diretoria Administrativa, e Roseli Bortoluzzi, assessora de Gestão de Pessoas do HCPA. Segundo elas, até o momento, foram investidos 42 milhões em infraestrutura — exclusivamente para aquisição de mobiliário e equipamentos, como respiradores, máquinas para hemodiálise, monitores e bombas de infusão — e 17 milhões em equipamentos de proteção individual, totalizando 59 milhões de reais. 

Sem esses novos leitos, conforme a professora Escola de Enfermagem da UFRGS Karina de Oliveira Azzolin, que tem atuado como assistente na coordenação do CTI Covid-19 do HCPA, o sistema de saúde gaúcho provavelmente teria entrado em colapso. “Estamos com os leitos normais de UTI lotados. Se tivéssemos destinado 20 para a covid-19, onde estariam as pessoas com outras doenças? Temos uma estrutura de referência, recebemos pacientes graves do Interior”, argumenta. 

Videochamadas emocionam pacientes, familiares e profissionais

Uma das formas de driblar a solidão são as videochamadas proporcionadas pelas equipes de profissionais. Foto: Flávio Dutra/JU

Além do investimento milionário para criar a CTI Covid-19, um aporte financeiramente menor passou a ter um significado grandioso na unidade: cinco celulares com linhas telefônicas. Com as visitas impedidas por causa do risco de contaminação, esses aparelhos passaram a ser o único meio de contato dos familiares com quem está em tratamento. É com esses telefones que os profissionais têm intermediado diariamente videochamadas, ligações ou mensagens de voz entre parentes e pacientes, momentos em que os trabalhadores passam a fazer parte da intimidade dessas famílias. Conforme o médico Jose Augusto Pellegrini, que trabalha no CTI Covid-19, essas videochamadas são importantes porque o coronavírus impôs uma restrição à tendência mundial de abertura das unidades de tratamento intensivo, que prevê deixar o paciente pelo maior tempo possível perto dos familiares. 

Também em atuação na unidade, a enfermeira Jaqueline Haas avalia que, embora sem a proximidade física, esse modelo garante maior interação entre os profissionais, os internados e os parentes. “Antes da pandemia, os enfermeiros não ficavam junto com todos os pacientes durante as visitas. Agora, participamos de todas as conversas”, comenta. E por acompanhar esses diálogos, os profissionais do CTI Covid-19 têm se emocionado diariamente com as histórias que escutam, segundo relata Karina.

“A saudade é uma coisa subjetiva, mas naquele momento sinto que estou presencialmente na saudade de alguém, compartilhando aquela energia.”

Karina de Oliveira Azzolin

Uma das situações que mais tocou a docente foi quando ela escutou ao lado de uma paciente entubada e em diálise um áudio enviado pelo filho. A gravação era tão longa que a professora chegou a cansar de segurar o telefone. “Mãe, eu te amo muito. Muito, mãe”, disse ele no final. “Ela estava com o olho aberto e prestou muita atenção. Quando terminou, tentou falar, mesmo entubada”, lembra Karina. Ao questionar à paciente se ela queria dizer algo, a mulher balançou positivamente a cabeça. “A senhora quer falar que também ama ele?”, perguntou a professora. A paciente indicou novamente que sim e sorriu, apesar de estar com o tubo. “Neste momento, pra mim, bah… Foi triste demais. Ela não conseguiu falar, mas eu traduzi. São coisas que marcam muito”, revela a profissional.

Integrante da equipe do CTI Covid-19, a enfermeira Miriane Moretti também terá videochamadas marcadas na memória. Em um dos casos, embora tenha comunicado à família que o paciente estava em uma situação muito delicada, com risco de morrer, eles pediram para vê-lo. “Me doeu muito. É um paciente com 51 anos, casado e com dois filhos. Meu pai tem a mesma idade”, relembra. No Clínicas desde 2016, a profissional diz que, apesar de mais frequentes por causa do coronavírus, as videochamadas não são novidade. Ela já tinha intermediado uma entre um paciente da cardiologia e a filha que morava em São Paulo.

“Isso já vinha acontecendo, mas não era tão falado quanto na pandemia. Agora, há uma valorização dos enfermeiros, que eu espero que se perpetue. As pessoas perceberem que eles são as engrenagens de qualquer instituição de saúde.”

Miriane Moretti

Também profissional da unidade, a fisioterapeuta Taila Piva relata que acompanhou uma videochamada animadora: de uma avó que conheceu o netinho recém-nascido. “A gente sempre se emociona junto, não tem como não se colocar no lugar deles, ser tanto paciente quanto família nesse momento”, conta. A equipe também imprimiu fotos e recados enviados pelos parentes para colar nas paredes. “Isso melhora, sobretudo, o humor dos internados, o afeto”, completa Jose Augusto.

Os profissionais também organizam bênçãos virtuais a pedido das famílias. Karina conta que fala com o padre por WhatsApp para marcar os horários e, na hora, fica segurando o celular e rezando junto. Na última semana, uma familiar solicitou uma bênção, e o religioso sugeriu que fosse feita justamente no horário em que a professora precisava ir para casa acompanhar uma aula online do filho de quatro anos. “Meu marido tinha reunião e também não podia. Eu já tinha me comprometido com a família, mas e se eu marcasse a bênção para depois e o paciente viesse a óbito? Perder uma aula não vai fazer diferença na vida do meu filho, então confirmei com o padre. São situações em que se mistura o lado profissional com o sentimental. Não só eu, as pessoas dentro do hospital estão mais sensibilizadas, choram mais facilmente. Não é uma característica nossa, mas tem sido uma situação intensa”, completa.

Jaqueline conta que são vários os casos em que os profissionais não seguram as lágrimas. “Teve um casal, os dois com cerca de 70 anos, que veio de manhã, respirando sozinhos. Internamos eles lado a lado, mas não se enxergavam; tem uma divisória. A senhora estava muito preocupada com o marido, então, ao meio-dia, colocamos ele numa cadeira de rodas e o levamos à frente da cama dela. Neste momento, também ligamos para a filha mais velha, por videochamada. Eles conversaram, choraram, e todo mundo chorou junto”, relembra. Ambos acabaram sendo entubados na mesma noite, mas a mulher teve alta três semanas depois. O homem segue internado, com risco de morrer. “Também nos emocionamos quando um paciente nosso veio a óbito com minutos de diferença do pai, que estava internado em Lajeado. Temos vários casos graves de coronavírus na mesma família”, lamenta.

Covid-19 criou novo perfil de pacientes graves

Antes da pandemia, os pacientes que necessitavam de terapia intensiva eram principalmente pessoas com doenças crônicas, que passaram por cirurgias de grande porte ou que sofreram ferimentos graves. Com a covid-19, mais um perfil foi acrescentado: são pacientes que não tinham necessariamente doenças crônicas e que apresentaram quadros de extrema gravidade inesperadamente. “Atualmente, temos muito pacientes entubados, com ventilação mecânica e com insuficiência renal aguda, que precisam de método dialítico. Também há um paciente em ECMO [oxigenação por membrana extracorpórea, técnica que permite fornecer oxigênio ao coração e ao pulmão]. São demandas difíceis de atender nas UTIs do interior por falta de equipamentos e profissionais especializados”, informa Karina. 

Também professora da Escola de Enfermagem da UFRGS, Juliana Petri Tavares, que foi deslocada no início da pandemia para trabalhar com Karina no assessoramento da coordenação do CTI Covid-19, acrescenta que há frequentemente pacientes que precisam ficar em posição “prona”, de bruços. A manobra permite respirar melhor, mas exige uma equipe multidisciplinar capacitada para realizá-la. 

Além da gravidade, o número de pessoas nessa condição tem deixado as jornadas mais intensas na unidade em comparação com a terapia intensiva tradicional. “Não se tem um momento de descanso, a noite inteira ocorrem internações, e os pacientes pioram de forma inesperada. O plantão se tornou mais demandante física e mentalmente”, afirma Jose Augusto. Outro aspecto que preocupa os profissionais é o maior tempo de internação dos contaminados com o coronavírus. Em casos de pneumonia grave, eles têm ficado de duas a quatro semanas em terapia intensiva no HCPA, tempo maior do que no CTI não covid.

Hospital terá mais de 700 novos profissionais para enfrentar o vírus

Desde o início da pandemia, o HCPA já contratou mais de 500 trabalhadores temporários para atuar no enfrentamento ao coronavírus, o que demandou esforços de seleção e treinamento. Em andamento, o processo de contratação autorizado pela instituição contempla ao todo 775 novos profissionais. Nesta semana, por exemplo, entraram cerca de 40 novos funcionários por dia no CTI Covid-19. 

Com isso, os processos de acolhimento, capacitação e acompanhamento tiveram de ser agilizados. “O Clínicas é um hospital onde as pessoas trabalham há 30 anos. Na UTI, a gente tinha a entrada de um enfermeiro e um ou dois técnicos [de enfermagem] por ano, porque as pessoas só saem quando se aposentam ou por causa de uma situação de saúde. Então, tinha todo um treinamento que levava dois ou três meses. Agora, tivemos que acelerar, passou para dois ou três dias. E está dando certo”, comemora Karina. Para dar conta das capacitações, a equipe fez 11 aulas e dois cursos via web para os novos profissionais – um sobre parada cardiorrespiratória e outro sobre a posição “prona”, ambos com conteúdo avançado. Caso não tenham experiência em terapia intensiva, eles também passam pelo método de simulação realística do Serviço de Educação em Enfermagem do hospital.

Além disso, nenhum assume os cuidados com os pacientes antes de acompanhar por um período a rotina de funcionários antigos, como a enfermeira Jaqueline Haas, que está há 13 anos no HCPA. “Mesmo com experiência, precisam aprender as rotinas do Clínicas e da covid-19. As pessoas estão ficando menos tempo acompanhados, mas a gente segura se ainda não estiverem capacitados”, garante.

Já na hora de fazer as escalas, a professora Juliana explica que os novos contratados são avaliados e direcionados aos pacientes conforme a capacidade de cuidado. Ou seja: quem tem mais experiência fica com os internados mais graves. 

Enxurrada de pesquisas fez equipes criarem combinações diárias

Com estudos científicos sobre o coronavírus sendo publicados massivamente em todos os países do mundo, a equipe do CTI Covid-19 criou protocolos diários sobre a rotina no local. A professora Karina relata que, no início, a adaptação a essas constantes atualizações foi difícil para os profissionais. “Mas como assim já mudou? Até ontem era de outro jeito”, alguns diziam. A solução foi criar o “slogan” de que as combinações serão válidas apenas pelas próximas 24h. Depois disso, podem mudar.

Uma das profissionais que têm sido referência aos mais novos, Miriane conta que sempre gostou de colaborar com as capacitações e organizar as rotinas. “Trabalhar no CTI Covid-19 está sendo mais tenso, mas era um desafio que eu queria viver. É tudo muito novo, temos perguntas ainda sem respostas. Então, cada dia aparece uma novidade que precisa ser discutida e conversada. A rotina de hoje não é a mesma de ontem”, conta a enfermeira. 

Sobre o volume de novas pesquisas, Jose Augusto comenta que, embora seja positivo ver esse avanço rápido da ciência, há o aspecto negativo de que algumas publicações não são de qualidade. 

“Estamos diante de um fenômeno que não conhecíamos antigamente, que é ter de dar atenção a textos que nem foram publicados ainda. Então, à medida que se multiplicam os estudos na literatura, é papel essencial do médico filtrar os bem conduzidos, que podem nortear as nossas condutas, daqueles que foram feitos sem os cuidados metodológicos, que podem conduzir a uma resposta errônea”

Jose Augusto Pellegrini

O médico acrescenta que o próprio HCPA tem participado de estudos colaborativos sobre o coronavírus com outros centros do Sudeste e pesquisado localmente. “Temos iniciativas do nosso grupo de pesquisa no sentido de identificar o perfil epidemiológico, os fatores de risco e as principais complicações associadas à covid-19”, informa. 

Carga mental tem superado a exaustão física na unidade

Os seis profissionais entrevistados para esta reportagem relataram que, apesar do cansaço físico, a rotina intensa e dinâmica do CTI Covid-19 tem exigido deles uma carga psicológica grande. “O cansaço mental é maior do que o físico. E nós, professores, ainda acumulamos as atividades da Universidade. Sigo avaliando trabalhos e participando de bancas de conclusão de curso, além de fazer aulas remotas com alguns residentes. Chego em casa exausta e não tenho conseguido fazer minhas atividades pessoais”, conta Juliana, que passou o aniversário no plantão.

Karina, que compartilha a função docente, também teve o volume de trabalho aumentado. “Tenho ficado no hospital entre 12 e 14 horas por dia, inclusive algumas noites, para poder conversar com todas as equipes. Concomitantemente, sigo com as atividades da faculdade, como a avaliação e a orientação de projetos de pesquisa e de alunos de iniciação científica”, afirma. Em casa, ela passou a usar um quarto e um banheiro separados para diminuir o risco de contaminação do marido e dos filhos, um adolescente e outro de quatro anos. 

Casado com uma médica intensivista que também atua no CTI Covid-19 do HCPA, Jose Augusto conta que, além do cansaço do casal no trabalho, que ficou mais intenso, eles precisam dar conta do cuidado e das atividades dos filhos de quatro e seis anos. “Precisamos de energia para conviver com eles, dar atenção para as brincadeiras”, afirma. Assim como os médicos, a enfermeira Jaqueline também tem dividido a energia entre os plantões e as atividades com o filho, de 13 anos. “As lives da escola ele acompanha sozinho, que são para substituir as aulas presenciais, mas tem uma demanda extra de explicar a matéria”, relata.

A fisioterapeura Taila também tem passado mais tempo no hospital e participado de reuniões semanais fora do horário. “O coronavírus aumentou bastante a nossa carga de trabalho; estamos sempre envolvidos. Além disso, quando eu ligo a TV, estão falando da covid-19. Quando vou no mercado, conversam sobre o vírus. A impressão que eu tenho é que eu estou vivendo isso 24h. Também passei a ter dificuldade para dormir”, desabafa. Já a enfermeira Miriane relata que tem meditado e feito psicoterapia para lidar melhor com o momento exaustivo. “As psicólogas do HCPA também têm nos ajudado bastante e prestado atendimento para os profissionais”, acrescenta.

Outra carga psicológica é lidar com o medo da contaminação. Há cerca de duas semanas, o HCPA enfrenta casos de profissionais infectados com o coronavírus. Atualmente, são pelo menos 14. Com isso, todas as rotinas estão sendo revisadas e as áreas de lazer, lanche e vestiário foram ampliadas. “Já estávamos com uma política de sintoma zero, afastando todos os profissionais com sinais gripais. Agora, intensificamos os afastamentos para todos que tiverem também cefaleia ou rinite”, explica Karina.

Texto de Fernanda da Costa / Jornal da Universidade

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