UFRGS e a Covid-19

Diálogo JU: “Seres humanos não são ilhas”, Nuccio Ordine

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Sumário

Professor de Filosofia Luiz Carlos Bombassaro conversa com pensador italiano sobre a situação mundial gerada pela pandemia e sobre o quanto a literatura nos oferece elementos para pensar sobre este tempo

Nuccio Ordine recebeu, em 12 de abril  de 2012, o título de doutor Honoris Causa pela UFRGS. Foto: Flávio Dutra/JU UFRGS

Anunciada por estudiosos e cientistas, vencendo os mais incrédulos e até os mais novos negacionistas da era da pós-verdade, a pandemia do coronavírus chegou. Provocou muitas mortes, fechou mercados, cidades e países; alterou completamente a vida no mundo globalizado. Mas essa pandemia não é algo completamente novo para a humanidade. Não somente os especialistas em microbiologia, virologia e imunologia, mas também aqueles que se ocupam com a arte, a história, a literatura e a filosofia sabem que pandemias não são raras e que elas já se fizeram presentes muitas vezes entre nós. 

Dessa vez, no entanto, graças aos nossos modos de vida, favorecidos pelos avanços tecnológicos – em especial aqueles vinculados ao transporte –, ela se espalhou pelo mundo com muita rapidez; uma rapidez que provocou uma reação imediata de cientistas e governantes para fazer frente ao problema. 

Dentre seus muitos efeitos, a pandemia também despertou em todo o mundo a atenção dos intelectuais. Preocupados em entender esse fenômeno e seus efeitos, muitos deles têm discutido em que medida a pandemia também tem o poder de transformar a própria compreensão sobre o sentido do humano. 

Da reafirmação de que ela tornou evidente a presença global de uma versão macabra do estado de exceção, que permitiria a muitos governos atuar cada vez mais no controle e na restrição da vida na esfera pública, quando não no cancelamento da vida cotidiana na esfera privada, mediante a introdução de novos métodos e meios de observação da vida dos indivíduos, até a instauração de uma nova forma de vida, especialmente nas escolas e nas universidades, onde já se conta com o incremento mais acelerado da aplicação dos dispositivos de educação a distância com o uso de plataformas virtuais. 

Especialmente aqui a questão é muito controversa, pois não está claro ainda como serão desenvolvidas as atividades de ensino após a pandemia. Mas numa perspectiva ainda mais ampliada, também não está claro se a pandemia produzirá uma reconfiguração do nosso modo de viver e de pensar.

Para falar sobre como a pandemia afeta a nossa vida e o que podemos aprender com essa trágica experiência, um pensador interessante é Nuccio Ordine, professor de Teoria da Literatura na Universidade da Calábria, doutor honoris causa pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e um dos intelectuais mais reconhecidos na atualidade, que acaba de publicar seu mais recente livro, “Gli uomini non sono isole” (“Homens não são ilhas”, em tradução livre e ainda sem publicação no Brasil).

Você que mora na Itália, como está a situação com relação à covid-19?
Embora o pico já tenha passado, a Itália (como outros países europeus, penso na Espanha e na França) vive uma crise sanitária e econômica sem precedentes. O Norte (a parte mais produtiva do nosso país) pagou um preço elevado em termos de vidas humanas (desapareceu toda uma geração de pessoas idosas e doentes atingidos por outras patologias) e de produção industrial (muitas empresas foram obrigadas a liberar ou a demitir seus funcionários!). 

O distanciamento social adotado por alguns países como forma de reduzir o impacto da pandemia não tem sido uma unanimidade. Muitos países simplesmente não o adotaram alegando que essa medida afeta nossa liberdade. Quais as suas considerações sobre o distanciamento social? 
Estamos todos reclusos em nossas casas, neste momento, para enfrentar a situação de emergência criada pelo coronavírus. Mas por que estamos renunciando à nossa liberdade de ir e vir e aos nossos afetos?  Qual é o objetivo disso tudo? Por que nos pedem isso? Sobretudo para salvar vidas humanas, para salvar as vidas de uma geração que está desaparecendo. É a geração dos nossos avós, a geração das pessoas mais idosas, que são as vítimas preferidas pela doença. E também para defender os mais frágeis, aqueles que já estão doentes e que são atingidos com mais facilidade pelo coronavírus. E, então, neste momento talvez seja bom refletir sobre o que o isso pode nos ensinar e o que podemos aprender nesses momentos difíceis. Tenho em mente uma cena terrível, dramática, que todos vimos na televisão: centenas de caixões no norte da Itália e em outros países do mundo, especialmente no Brasil e na América Latina, onde os mortos são enterrados em grandes valas comuns, quando não são abandonados pelas estradas, corpos de pessoas pobres, com as quais ninguém se preocupa. Vimos essas imagens de pessoas mortas no isolamento, sem o calor humano de um filho, de um neto, de uma esposa ou de um marido. Então, por essas pessoas devemos fazer esse sacrifício, não somente por nós mesmos, mas especialmente pelos outros.

Epidemias têm sido uma incômoda presença na história da humanidade. Antes do advento da ciência moderna, as pestes e as desgraças relatadas pelos historiadores e especialmente pela literatura também produziram um forte apelo simbólico. O que essas narrativas nos ensinaram?
Exatamente nesses dias estava relendo o segundo livro da Eneida de Virgílio. Um texto belíssimo. Muito atual. Isso para compreender que a literatura, como faz tempo venho dizendo aos meus estudantes, não se estuda para passar num exame ou para conquistar um diploma. 

Estuda-se literatura porque ela nos ensina, sobretudo, a compreender o mundo no qual vivemos. 

Nesse segundo livro, encontra-se uma cena famosa, que todos já leram, mesmo nas antologias: Troia está em chamas e, em certo momento, Enéas tenta salvar seu pai Anquises, que ele carrega às costas, e seu filho pequeno. Nessa cena que Virgílio nos apresenta, vemos o passado, Anquises, o presente, Enéas, e o futuro, Ascânio, filho de Enéas. E aqui encontramos a ideia de um conceito importante da pietas romana, ou seja, os deveres que temos para com os nossos pais, para com os nossos genitores. E ao mesmo tempo os deveres que temos para com a comunidade. Então, neste momento em que estamos vivendo há também uma análise que podemos fazer das dificuldades que tivemos até agora e que ninguém teve a coragem de denunciar em alta voz. A cena narrada por Virgílio nos apresenta, portanto, um gesto “fundador” no qual o futuro não pode existir sem o papel essencial do passado, sem o assumir dos deveres morais que temos para com os nossos familiares e a comunidade na qual vivemos. A literatura, a música, a arte, a filosofia, a ciência básica nos ensinam faz séculos que a nossa vida tem um sentido somente se conseguimos viver para os outros. De resto, a história tem mostrado muitas vezes a importância da cultura para superar momentos difíceis de crise: não é um mero acaso, somente para dar um exemplo, que Israel e Alemanha tenham retomado o diálogo traumaticamente destroçado pelo desastre da Segunda Guerra Mundial exatamente graças à colaboração científica internacional…

Mesmo neste momento de distanciamento social e de uma avalanche de notícias sobre os problemas e as mortes em razão da covid-19, você acredita que a literatura poderia nos ajudar a manter nossa saúde psíquica e mental?
Em várias entrevistas nessas semanas dramáticas, procurei retomar algumas reflexões preciosas sobre os efeitos das epidemias contidas nos clássicos famosos. Se consideramos o Decamerão, por exemplo, Boccaccio descreve o desastre moral e material de Florença durante a peste de 1348; para fugir do caos, os dez novelistas não somente deixam a cidade, mas se impõem uma série de regras para disciplinar a vida sanitária e literária. 

Os protagonistas sabem muito bem que, para cuidar do corpo, é preciso também cuidar do espírito. De resto, a própria abertura do Decamerão (“é do humano ter compaixão pelos aflitos”) exalta o poder da literatura como farmakon, capaz de aliviar as penas, combater o medo e neutralizar a melancolia. Para uma Florença devastada pela peste (onde a desordem demanda o restabelecimento do poder político e religioso), Boccaccio contrapõe a brigada alegre que em Fiesole busca reconstruir uma ordem perdida. 

Em muitos textos clássicos nos quais se fala de epidemia, retornam frequentemente os mesmos temas: a reação irracional, o sentido de impotência diante de um inimigo invisível, a desagregação social, a procura por um contaminador ou de um bode expiatório, a necessidade de recorrer à ajuda divina ou aos numerosos charlatães que se aproveitam do desespero para vender remédios falsos, a ausência das relações humanas, os sofrimentos com as separações. 

Nesse sentido, os clássicos não somente nos mostram o que ocorre nos momentos de crise, mas sua leitura constitui por si só uma resposta à trágica situação que estamos vivendo. Para além das grandes obras que se referem especificamente às doenças e às epidemias (pensemos, somente para recordar alguns textos famosos, nos eventos narrados no Édipo rei, de Sófocles, na Guerra do Peloponeso, de Tucídides, no Da Natureza de Lucrécio, nos Noivos de Manzoni ou, para chegar ao século XX, na Peste de Camus), a arte da narrativa tem, no entanto, uma função terapêutica porque nos oferece oportunidade preciosa para nos conhecermos e ao mundo que nos cerca.

Como vimos, em muitos países a pandemia se alastra mais facilmente porque encontra um ambiente propício para a sua difusão: desigualdade social, interesses ideológicos e políticos orientados pelos interesses financeiros, por um lado, e a desenfreada escalada da ignorância, o avanço das crenças negacionistas e da mentalidade obscurantista que não foi educada ou que simplesmente desconsidera os resultados da investigação científica.  Qual o papel da ciência e das humanidades em meio a uma crise mundial como a que estamos vivendo neste momento?
Especialmente numa situação (quase surreal) de isolamento em casa, os livros, a música e as obras de arte nos ajudam a cultivar nossa humanidade, a reencontrar a solidariedade perdida, a aproveitar a solidão, a saber escutar a eloquência do silêncio. Exatamente agora que somos obrigados a viver distante dos afetos e dos amigos, estamos descobrindo a importância vital das relações humanas, a condição indispensável da presença do outro em nossa existência. Estamos tomando consciência do fato de que sozinhos nunca poderemos vencer o vírus: a pandemia pode ser vencida somente por uma humanidade unida e solidária. 

Já estamos vendo isso no âmbito da ciência: pesquisadores do mundo inteiro estão em contato para trocar dados e programas de investigação com o objetivo de criar vacinas e fármacos capazes de vencer o inimigo invisível. Trata-se de uma solidariedade que se manifesta também na ajuda concreta que médicos e profissionais especializados (penso nos cubanos, nos chineses, nos albaneses) estão oferecendo nas zonas vermelhas da Lombardia e do Vêneto. 

O neoliberalismo, essa doutrina que está levando cada vez mais ao egoísmo, nos fez crer que nós, seres humanos, somos ilhas. Somos divididos entre nós. Cada um deve pensar em seus próprios negócios. Os slogans dos partidos que venceram as eleições nos últimos anos nos Estados Unidos, na Itália, na Inglaterra, na França e em muitos outros países era Prima gli ItalianiAmerica firstla France d’abordo Brasil acima de tudo… Esses slogans dizem todos a mesma coisa: que nós devemos pensar acima de tudo em nossos egoísmos, que no início são egoísmos nacionais, mas que depois se tornam egoísmos pessoais. 

A pandemia nos mostra que os seres humanos não são ilhas. Somos vinculados uns aos outros. A humanidade é um único continente. Não venceremos sozinhos o vírus. O vírus somente pode ser vencido numa batalha que devemos combater todos unidos, sentindo-nos irmãos. E esse espírito de fraternidade é muito importante e não devemos esquecê-lo quando a pandemia terminar. 

Mas há ainda outra coisa importante que aprendemos. É que a saúde e a educação são os dois grandes pilares da dignidade humana que as políticas neoliberais dos últimos trinta anos quiseram enfraquecer. Por que estamos em dificuldade? Por que estamos vendo tantos mortos? Porque o sistema nacional de saúde, que era um dos sistemas que figurava entre os melhores do mundo, foi fortemente enfraquecido. Porque a lógica era economizar. Economizar na saúde, economizar na escola e na universidade. Por que considero a saúde e a educação os dois pilares da dignidade humana? Por que o direito à vida – os hospitais – e o direito à educação – as escolas, as universidades – são fundamentais em nossas vidas. Então, gostaria de recordar uma belíssima metáfora do prêmio Nobel de economia, Joseph Stiglitz, quando afirma que nesses últimos trinta anos nos comportamos como o motorista que toma a estrada e, para economizar, não compra o pneu estepe. A certa altura da viagem, um pneu fura, e o que ele vai gastar então é infinitamente mais do que teria gasto se tivesse comprado o estepe. Assim, enfraquecer os sistemas de saúde e educação significa enfraquecer o futuro do país. E não é por acaso que nos países em que não existe a difusão de um sistema público de saúde haverá desastres enormes. E a contradições começam a aparecer. Tínhamos, portanto, razão sobre pensar a saúde e a educação como entes públicos, porque, repito, são dois pilares da dignidade humana. 

Como você prevê a sociedade global após a covid-19?
O capitalismo de rapina conseguiu transformar nosso planeta num imenso mercado global. Mas o livre comércio e o encurtamento das distâncias geográficas (em menos de vinte e quatro horas um avião pode nos levar de um lado a outro do mundo) têm infelizmente criado enormes distâncias entre os vários países (a explosão dos nacionalismos selvagens e a construção de muros e barreiras!) e, sobretudo, entre os seres humanos (a solidariedade, como valor supremo, é zombada e pisoteada pela violência dos racismos e do antissemitismo, do ódio ao outro e ao estrangeiro!). Os políticos que hoje tecem o elogio do individualismo desenfreado contradizem etimologicamente a sua função: para os gregos antigos, no plano da vida civil, os idiotai eram aqueles que se ocupavam exclusivamente com o seu interesse “privado” (idios), em oposição aos interesses da cidade (Polis, palavra da qual deriva “político”). 

Permita-me considerar “idiotas” esses políticos defensores do mais equivocado egoísmo e dos nacionalismos ferozes, não somente porque pensam exclusivamente em si, mas também porque são ignorantes. Ignoram que os seres humanos não podem viver menosprezando a importância do outro…

O que a humanidade pode aprender com este momento histórico? Poderiam os grandes pensadores clássicos nos ensinar algo, considerando este cenário de crise?
Na última página de seu famoso romance A peste, Camus lembra a seus leitores as coisas essenciais que podem ser aprendidas “em meio aos flagelos”: toma-se consciência das injustiças infligidas aos fracos (“o doutor Rieux decide então redigir uma narrativa […] para dar um testemunho em favor dos atingidos pela peste, para deixar ao menos uma recordação da injustiça e da violência que lhe haviam sido feitas”) e, ao mesmo tempo, descobre-se “que há nos homens mais coisas para admirar que para desprezar”. Mas a doença não desaparece com o fim da epidemia (“o bacilo da peste não morre nem desaparece”), porque “pode permanecer por décadas adormecido nos móveis e na lavanderia” esperando “pacientemente nas camas, nas cantinas, nas malas, nos lenços, na papelada”. Camus, em suma, nos convida a não esquecer o que vivemos e compreendemos na dramática experiência da pandemia. 

E, nessas semanas, explodiram contradições com as quais convivemos há décadas: a saúde e a educação (os dois pilares da dignidade humana) extremamente afetadas por cortes brutais, o egoísmo triunfante dos nacionalismos nas campanhas eleitorais em vários continentes, o renascer do racismo e do antissemitismo, o constante aumento da desigualdade (1% da população mundial detém 80% da riqueza), os danos das políticas industriais fundadas sobre a realocação e a entrega do monopólio da produção exclusivamente a quem está em condições de oferecer o preço mais baixo (é possível que somente a China e a Índia devam produzir máscaras?)

A sociedade do conhecimento, que muitos pensam estar vivendo hoje, não nos oferece somente informações factuais confiáveis. Os modernos meios de comunicação, em especial as chamadas redes sociais, produzem e propagam uma avassaladora onda de informações falsas. Em que medida a realidade virtual afeta as relações humanas?
Antoine de Saint-Exupéry, de modo profético, tinha entendido que “luxo verdadeiro somente existe, e é aquele das relações humanas”. Realmente, nunca como nesses meses de isolamento estamos tomando consciência de que as relações humanas – as verdadeiras, não as virtuais – tornam-se sempre mais um bem de luxo. Com essa crise compreendemos coisas muito importantes sobre as relações humanas. Compreendemos, por exemplo, que, embora neste momento as redes sociais sejam fundamentais para manter vivas as relações durante o isolamento, ao mesmo tempo, porém, não devemos perder de vista o fato de que até ontem esses mesmos dispositivos digitais criaram uma nova forma de relação, a relação virtual, que na verdade mata a relação verdadeira. 

Vou dar um exemplo. Hoje a internet permite que tenhamos por vinte e quatro horas relações com os outros. Mas, atenção: são relações ilusórias. Por que são ilusórias? São ilusórias porque estamos fechados em um quarto e pensamos que estamos entrelaçando as mãos com os outros que estão a quilômetros de distância, mas não percebemos as relações humanas que estão próximas de nós. 

Agora podemos medir com eficácia a diferença entre emergência e normalidade. Se, na emergência da pandemia, confinados em nossas casas, as videochamadas, facebook, watshapp e outros instrumentos análogos se tornam a única forma de comunicação para manter vivos as nossas relações em tempos de normalidade, esses mesmos instrumentos podem se revelar perigosas fontes de ilusão. 

É banal pensar que a amizade num perfil social possa coincidir com um simples clique. Assim como fazer um chat em rede não significa cultivar afetos. Aconteceu-me mais de uma vez, na universidade, ver estudantes – uma experiência que certamente muitos de vocês já fizeram – sentados a uma mesa e cada um deles debruçados sobre seu smartphone a enviar mensagens a uma pessoa distante e não trocar uma palavra entre si. 

Quando as relações humanas se tornam relações virtuais, então estamos cultivando uma solidão terrível que nos ilude de podermos cultivar relações humanas. 

Isso também vale para as aulas virtuais. Penso que neste momento não temos escolha. Somos obrigados a manter vivas as relações com os nossos estudantes por meio das lições virtuais. Mas, atenção, especialmente em muitas famílias pobres, diz-se que no Sul [da Itália] em torno de 40% das pessoas menos favorecidas, não há possibilidade de terem um computador ou uma boa conexão com a internet. Portanto, é difícil que possam trabalhar. 

O que me preocupa, porém, é que muitos reitores de universidades, muitos professores na rede estão dizendo que a educação a distância é o futuro da universidade, que o futuro da escola deve ser a educação a distância. Bem, isso para mim isso é uma loucura total. É algo gravíssimo contra o qual devemos lutar. Uma coisa é compreender que neste momento os meios digitais podem manter vivas as relações. Outra coisa é pensar que os meios digitais, fora da emergência, podem ser tornar normalidade. Isso significa matar o ensino. 

O ensino é a lição na sala de aula; a interação entre professores e estudantes. Uma relação autêntica necessita de vínculos vivos, verdadeiros, físicos. A dependência dos dispositivos favoreceu progressivamente uma proeminência do virtual. Isso também vale para os que usam as redes sociais que, encerrados em seus quartos, pensam poder estabelecer relações por meio de um computador ou de um tablet: por trás de uma permanente conexão com os outros, acaba-se por cultivar uma nova forma de solidão terrível. Seria inimaginável viver sem internet ou sem telefones. 

Mas a tecnologia, como um pharmakon, pode curar ou intoxicar: depende da dose! No The New York Times, Nellie Bowles mostra que nos Estados Unidos o uso dos dispositivos está diminuindo nas famílias ricas e aumentando nas médias ou pobres. As elites do Vale do Silício mandam seus filhos para escolas na quais, em lugar da tecnologia, se valorizem as relações humanas. 

Será que no futuro o luxo da interação humana vai ser destinado sempre mais para os filhos dos ricos e o digital-virtual para a formação dos menos favorecidos?

Considerando a situação que estamos vivendo, em poucas palavras, que mensagem você deixaria às novas gerações?
Vamos nos tornar melhores somente se não esquecermos os limites de um neoliberalismo de rapina que, em nome da maximização dos lucros, tem anulado progressivamente a responsabilidade social das empresas, a solidariedade entre as nações e a fraternidade entre os seres humanos. O mito do mercado capaz de regular tudo se esfacelou diante do ataque de um vírus invisível que colocou de joelhos a economia mundial. A literatura e a cultura nos ajudam a valorizar como um tesouro aquilo que aprendemos nesses meses dramáticos. Num romance de Milan Kundera, o autor diz: “A luta do homem contra o poder é a luta da memória contra o esquecimento”. Se realmente pensamos que podemos nos tornar melhores após a experiência, somente o poderemos ser se não nos esquecermos disso. Eis um convite para manter viva a memória, para não cancelar a nossa humanidade. Esquecer, portanto, significa deixar tudo como antes. Ou pior que antes.

Por Luiz Carlos Bombassaro, professor de Filosofia da UFRGS.

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