UFRGS e a Covid-19

Egressos da Covid-19: estudantes da UFRGS na linha de frente no combate ao novo coronavírus

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Sumário

Cinco estudantes. Cinco nomes. Cinco histórias. Um objetivo em comum: ajudar as pessoas. Franciele, Felipe, Juliana, Gabriele e Thiago representam um universo formado por 27.437 estudantes de graduação matriculados na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Estudante da UFRGS em atividade de enfrentamento ao novo coronavírus, Hospital de Clínicas de Porto Alegre. Foto: Arquivo Pessoal / Divulgação.

Desde o início do ano, eles estão na linha de frente no combate à pandemia do novo coronavírus de maneira voluntária. Presentes nas campanhas de vacinação, nas visitas a lares de idosos, em casas de acolhimento de jovens e adolescentes prestando orientações, nos atendimentos em Unidades Básicas de Saúde, nos procedimentos no Hospital de Clínicas de Porto Alegre, eles compõem o corpo técnico – junto a profissionais de saúde e professores – que atua no enfrentamento a uma doença que provoca medo e angústia.

A partir desta quarta-feira, 22 de abril, esses estudantes dos cursos de Enfermagem e Medicina retornam ao estágio curricular obrigatório, recém-adaptado pelas Comissões de Graduação da UFRGS para atender as peculiaridades surgidas com a Covid-19. Porém, mesmo antes do retorno oficial, a vocação tem falado mais alto, e a participação em ações voluntárias foi a maneira encontrada por Franciele Moreira Barbosa e Felipe Adonai Pires Soares para colaborar.

Felipe Adonai, estudante de Enfermagem.
Felipe Adonai, estudante de Enfermagem.

Os colegas do 10º semestre do curso de Enfermagem atenderam de pronto ao pedido para ajudar voluntariamente nas campanhas de vacinação em que a Universidade é parceira. “Antes de estudante de Enfermagem, decidi participar dessas ações pelo lado humano, que fala mais alto nesses momentos de crise. Nós temos uma responsabilidade social porque estamos em uma universidade pública federal, somos privilegiados. Eu me senti na obrigação de devolver tudo aquilo que a sociedade investiu em mim nesses últimos cinco anos, ajudando”, relata Franciele, que retorna para o estágio num andar do Hospital de Clínicas 100% Sistema Único de Saúde (SUS).

Para Adonai, estar em contato com as pessoas e acalmá-las é que o deixa feliz. “A partir do momento em que escolhi a Enfermagem, cuidar de vidas, eu me sinto numa missão. Penso que temos essa missão de estar sempre prontos e dispostos a participar de tudo que vai trazer retorno para a sociedade. Eu me sinto muito feliz e emocionado por todas as ações que pude desenvolver nas campanhas de vacinação, nas conversas com os jovens, acolhendo e acalmando os idosos.”

Juliana Maria Kerber, estudante de Medicina.

Acolher e acalmar são algumas das principais atividades de Juliana Maria Kerber, estudante do 10º semestre de Medicina, que atua na Unidade Básica de Saúde Santa Cecília. Ela compõe uma das equipes – cada uma formada por 12 acadêmicos de Medicina – que atua das 8 às 18 horas, três dias da semana. São duas equipes, com um total de 24 estudantes, que se revezam entre atender os pacientes por meio de telessaúde ou presencialmente. “Eu me sinto orgulhosa e feliz de estar aqui acolhendo as pessoas. Como cidadã, sinto que estou fazendo, em parte, o que está ao meu alcance para ajudar a minha cidade e o meu país nessa situação de pandemia. Depois de conversar conosco, os pacientes saem mais tranquilos, porque percebem que estão fazendo, realmente, o que precisa ser feito para se proteger da doença.”

Proteção é a palavra-chave neste momento. O “ritual” de proteção feito pelos estudantes envolve substituir a roupa da rua por outra usada em bloco cirúrgico, utilizar máscara, higienizar as mãos, os equipamentos e a sala, após cada atendimento, com álcool gel ou produto de limpeza. “Tudo para evitar o contágio. Ao mesmo tempo em que temos medo, nós nos sentimos bem em poder ajudar”, reforça Juliana.

Gabriele Peres de Sousa, estudante de Enfermagem.
Gabriele Peres de Sousa, estudante de Enfermagem.

Gabriele Peres de Sousa, do último semestre do curso de Enfermagem, conhece os riscos de estar na linha de frente no enfrentamento à Covid-19.  “Existe um grande temor na sociedade – e também junto aos profissionais de saúde – de adoecer, de vir a óbito. Esse é o diferencial desse momento, o que nos desafia enquanto profissionais. Eu estou aqui porque é extremamente necessário e vai ao encontro de alguns dos preceitos da minha profissão: estar com as pessoas e utilizar o conhecimento adquirido na Universidade para ajudar.”

Thiago Valiente Krampe, aluno do 12º semestre de Medicina, conta que a principal angústia sentida desde o início da pandemia foi a incerteza de continuar ou não atuando no Hospital de Clínicas. A carga horária dele foi reduzida para evitar o risco de contágio, mas as escalas de trabalho continuam. “Desde o começo da pandemia, eu estava dentro do Hospital, e vivemos uma situação de ansiedade por conta das informações vagas e desencontradas. Não sabíamos como seria com os equipamentos de proteção ou se as nossas atividades seriam mantidas”, relata o estudante.

Thiago Valiente Krampe, estudante de Medicina.
Thiago Valiente Krampe, estudante de Medicina.

Agora, com informações mais concretas, contando com a garantia de equipamentos de segurança e tendo os protocolos bem definidos, Thiago salienta que o sentimento é de satisfação. “Essa é uma situação ímpar, e ninguém está totalmente preparado para isso. Mas é muito bom poder agir e ajudar as pessoas, estar ao lado de médicos e professores atuando na linha de frente e aprendendo com eles. Estamos tendo uma experiência da realidade, é um grande desafio”. Ele realiza o estágio na ala cirúrgica do Hospital de Clínicas e, mesmo não lidando diretamente com os pacientes com Covid-19, sabe da necessidade de os profissionais de saúde continuarem com os atendimentos emergenciais. “As outras doenças continuam e precisam da nossa atuação. Essa é a nossa vocação, o profissional da saúde lida, justamente, com a doença. Então, neste momento, não tem como dar um passo atrás ou se afastar. Nós somos mais importantes do que nunca, e esse foi o meu posicionamento desde o início.”

A escolha em estar na linha de frente e ajudar a população neste momento exigiu que Franciele e Juliana abrissem mão de estar com a família e que reorganizassem suas vidas. “Precisei mudar a minha vida particular para poder estar aqui e dar esse retorno social. Claro que eu tenho medo de me contaminar e contaminar outras pessoas, mas me sinto realizada em colaborar. Poder ajudar o próximo é uma sensação indescritível, não existem palavras que possam expressar como nós nos sentimos em estar aqui. Isso preenche a gente”, diz Franciele. Há 40 dias, Juliana não visita os pais, que moram em Poço das Antas, e afirma: “É uma escolha que fazemos neste momento de ajuda e necessidade”.

Experiência profissional e de vida na UFRGS

Para além da vocação, todos os estudantes frisaram a relevância do que essa experiência pode trazer para as suas carreiras profissionais. Para Thiago, trata-se de uma formação profissional e de vida. “É um ambiente desafiador, e essa vivência trará mais tranquilidade no momento em que eu tiver que enfrentar outras situações tão desafiadoras como essa.”

Franciele
Franciele Moreira Barbosa, estudante de Enfermagem.

Franciele salienta que vivenciar uma mudança de comportamento social tão repentina e drástica a ajudará a tomar decisões em qualquer área que for atuar. “Ser estudante da UFRGS nos oportuniza uma experiência única, como, por exemplo, estar dentro do Hospital de Clínicas, que é referência no tratamento de pacientes graves da Covid-19. Hoje tenho a oportunidade de estar ao lado de profissionais de excelência, isso nos tranquiliza e nos capacita para o trabalho e para a vida”.

Para Gabriele a participação dos estudantes neste momento reforça o papel social da UFRGS. “O retorno social que estamos dando mostra a importância da educação pública e da pesquisa no Brasil. Como estudante e como cidadã falo para que a sociedade fique tranquila e respeite o conhecimento científico, as instruções da Organização Mundial da Saúde (OMS) e as orientações dos profissionais da saúde. As palavras neste momento são de prevenção, comunicação e conhecimento científico. Nós estamos fazendo a nossa parte de cooperação, pensamento coletivo e retorno social.”

Juliana afirma que o grande diferencial de ser estudante na área de saúde na UFRGS, agora, é o fato de a Universidade proporcionar que os alunos sejam ativos. “Estamos sendo incluídos, ao máximo, nas ações para que possamos fazer parte desse momento e oferecer ajuda da forma que está ao nosso alcance”.

Felipe retorna para o estágio na porta de entrada do Hospital de Clínicas: a emergência. Ansioso, mas tranquilo, o estudante de Enfermagem atuará diretamente no enfrentamento à Covid-19. “Trabalhar, nesse momento, com um problema de saúde pública das proporções de uma pandemia é uma experiência ímpar. Vou levar isso para a vida toda. A nossa turma brinca que seremos os ‘Egressos da Pandemia’, porque vamos nos formar no meio disso tudo. É um marco histórico, e é importante estarmos na linha de frente nesse momento”, diz Adonai. O estudante complementa afirmando que a UFRGS é democrática e plural porque permite aos estudantes estarem juntos com as Comissões de Graduação refletindo sobre os melhores caminhos a seguir diante da situação. “Eles acolhem as nossas questões, as nossas dúvidas, se preocupam conosco e, acima de tudo, prezam pela qualidade do nosso ensino. A UFRGS oportuniza muita coisa para o nosso crescimento profissional e pessoal. Sou muito grato e feliz em estar na UFRGS.”

Reflexão social

Os estudantes foram unânimes ao dizerem que esse é um período de mudança social. Para eles, o momento é de reflexão, de ajuda mútua e de desenvolvimento do senso crítico. Thiago está preocupado com a divulgação de informações falsas, por isso pede que as pessoas combatam a mentira. “Não repassem informações falsas, busquem saber mais sobre os fatos, desenvolvam o senso crítico e reflitam sobre as suas ações.”

Franciele pede que as pessoas sejam mais solidárias e ajudem como puderem. “O que mais precisamos agora é de união. Se você puder colocar uma garrafa de água para os moradores de rua lavarem as mãos, faça. Esperamos que o mundo mude, mas não mudamos as nossas rotinas”.

Para Felipe, essa é uma oportunidade de conscientização única, e as pessoas precisam pensar sobre suas ações. “O que fazemos hoje vai se refletir na sociedade. É importante que todos pensem criticamente sobre tudo que está acontecendo, que valorizem os profissionais de saúde e defendam a educação pública. ”

Fotos: Arquivo pessoal / Divulgação.

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