UFRGS e a Covid-19

Estudantes do Câmpus Litoral unem voluntariado e aprendizagem na construção de mapa de solidariedade e assistência

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Graduação | Discentes se engajam em projeto que une pesquisa e extensão e valoriza sua experiência acadêmica no momento em que as aulas estão suspensas

Por Felipe Ewald / Jornal da Universidade

Aluno do quarto semestre do Bacharelado Interdisciplinar em Ciência e Tecnologia (BICT), Henrique Ferreira Galvão, ainda que esteja com as aulas suspensas por conta da pandemia, vem desfrutando de sua primeira experiência com a pesquisa científica. Ele coleta e processa decretos e dados dos municípios do Litoral Norte referentes ao coronavírus para contribuir com o desenvolvimento do mapa Solidariedade e Assistência Social (covid-19), projeto coordenado pela professora Sinthia Cristina Batista, do departamento interdisciplinar no Câmpus Litoral Norte.

“Estou aprendendo como funciona a pesquisa na área da Geografia. É uma atividade muito importante porque vivencio a realidade cotidiana de quem trabalha com isso”, constata Henrique. Ele ressalta que a análise é feita em cima da coleta de dados da realidade, ou seja, não se resume à teoria. “É algo que, naturalmente, demanda mais tempo do que uma disciplina de quatro créditos, mas também é um aprendizado que supera a aula expositiva em todos os sentidos.”

Henrique Ferreira Galvão, aluno do quarto semestre do Bacharelado Interdisciplinar em Ciência e Tecnologia (BICT), encontrou no projeto do mapa Solidariedade e Assistência Social no Litoral Norte sua primeira experiência com a pesquisa (Foto: Arquivo pessoal)

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O mapa, iniciativa realizada por uma equipe de 18 integrantes, tem por objetivo colocar em contato instituições públicas, ações da sociedade civil, famílias que necessitam de apoio material e indivíduos que desejam doar alimentos ou serviços. A geógrafa e professora do departamento interdisciplinar no Câmpus Litoral Norte Sinthia Cristina Batista, coordenadora do projeto, considera-o uma proposta de extensão e pesquisa que situa os estudantes no atual momento histórico, valoriza suas contribuições e coloca em evidência o compromisso da Universidade com a sociedade. Para ela é importante, neste momento, pensar quais são as experiências educativas possíveis.

A docente insiste nas interconexões teóricas, práticas e políticas que há em, por exemplo, analisar decretos municipais e compreender qual é a concepção de Estado que subjaz a eles, quais são os objetivos da análise desses documentos e qual é a proposta de trabalho. “Estamos fazendo uma leitura a partir da perspectiva dos trabalhadores de defender seus direitos, dignidade física e mental e, sobretudo, a garantia da vida para além da sobrevivência”, completa, enfatizando o sentido político da ação.

Nina Gabriela Muller Lopes, aluna do oitavo semestre do curso de Ciências Biológicas- Ênfase em Biologia Marinha Costeira e Gestão Ambiental Marinha e Costeira, sublinha outro aspecto, no seu entender, relevante da iniciativa: traz pluralidade para dentro da Universidade e reconhece as diversas realidades da população no litoral.

Engajado com o projeto desde o início, articulando contatos e estruturando a plataforma do mapa, Isaac Goulart da Silva concluiu o BICT no ano passado e está no primeiro semestre da Licenciatura em Geografia, uma das terminalidades do bacharelado. A participação na iniciativa, segundo ele, fez com que melhor compreendesse o papel de uma instituição, do Estado ou de alguma entidade, e percebesse o seu lugar na Universidade como pesquisador.

“Fazer parte do grupo não me deu uma ocupação, mas sim um posicionamento sobre algo que deve ser feito não só na pandemia. A suspensão das aulas vem para percebermos qual o verdadeiro papel da Universidade! Se somos plurais, devemos sê-lo fora dos muros da UFRGS, próximo a quem mais precisa.”

Isaac Goulart da Silva
Isaac Goulart da Silva concluiu o BICT no ano passado e está no primeiro semestre da Licenciatura em Geografia, uma das terminalidades do bacharelado. Ele participa do projeto desde o início, fazendo a comunicação com diferentes atores e setores ligados à solidariedade e à assistência (Foto: Arquivo pessoal)

Discente no terceiro semestre do BICT, Juliana Camboim conta que o projeto a tem ensinado a compreender a comunidade como um todo, não como algo segmentado. “Tenho visto a importância de ter informações concretas, buscar conhecer a realidade da população. Entender, questionar e propor: gerar dados para continuar dialogando com a comunidade, contribuir para o desenvolvimento das pessoas na região”, arremata.

Sinthia comenta que esse contato direto com indivíduos, organizações, situações e contextos sociais que se apresentam tem gerado, para alguns integrantes da equipe, tristeza e ao mesmo tempo indignação com a apatia do poder público frente às necessidades da população.

Ela ressalta a importância do contato constante com os alunos, dialogando sobre as próprias condições de vida e sobre como estão atravessando este período de distanciamento. Como o projeto é muito recente e surgiu de forma emergencial, ainda não conta com bolsas de pesquisa ou extensão. O engajamento é, portanto, voluntário neste momento.

“O debate sobre a assistência social e a assistência estudantil tem sido feito com uma qualidade impressionante. A clareza com a qual os estudantes apresentam o debate tem me ensinado como é importante levantar as discussões que têm implicação com a própria vida”.

Sinthia Cristina Batista

Nos contatos que tem feito para construir o mapa, Juliana vem constatando que as regiões em que há atividade da agricultura familiar já contam com uma rede solidária e uma consciência maior do coletivo. Também diz perceber que, em geral, as comunidades mais empobrecidas são as que mais se ajudam. “A atenção não vem de cima para baixo; a solidariedade se pratica dentro do mesmo nível”, esclarece. Pela ausência de ações de assistência social em alguns municípios, ela tem concluído que não foi a pandemia que trouxe o quadro de desassistência que encontra. Isso só ficou mais em evidência neste momento.

Sinthia reforça a percepção de que há um processo de empobrecimento em curso. “Outro dia recebemos um e-mail de um técnico de informática que perdeu o emprego e disse: ‘Olha, eu estou começando a passar necessidade e queria saber como posso contribuir para melhorar a minha situação e a dos meus vizinhos’. Ele tem carro e casa, mas está sem trabalho e começa a ficar sem comida”, explica.

Esse quadro se confirma pela observação, ainda não consolidada por dados oficiais, de uma migração da região metropolitana para o Litoral Norte. “Cada vez que a gente chega na periferia tem família nova. É preciso avaliar o aumento da população que precisa acessar políticas sociais”, conclui.

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