UFRGS e a Covid-19

Impacto da desigualdade de gênero na pós-graduação durante a pandemia é tema de pesquisa

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Sumário
Fernanda Stanisçuaski com os filhos no laboratório da UFRGS – Foto: Flávio Dutra

A desigualdade de gênero na ciência é uma questão urgente, e a maternidade desempenha um papel importante nela. Os últimos anos testemunharam o surgimento de muitas iniciativas que desencadearam mudanças para solucionar esse problema. Não podemos permitir que essa pandemia reverta avanços e aprofunde ainda mais a lacuna de gênero na ciência.” Com este alerta um grupo de docentes ligados ao projeto de extensão Parent in Science encerrou a carta publicada na edição de hoje da Revista Science, uma das mais conceituadas publicações científicas da atualidade.

O documento, que tem como primeira autora a docente do Instituto de Biociências da UFRGS Fernanda Stanisçuaski, repercutiu na comunidade universitária por levantar uma questão sensível no meio universitário: os impactos da pandemia de Covid-19 na vida acadêmica dos cientistas brasileiros.

À frente do projeto de extensão, Fernanda concedeu uma entrevista ao site da UFRGS falando a respeito dos primeiros resultados do levantamento que está sendo realizado entre estudantes e docentes de pós-graduação. O questionário, disponível no site e nas redes sociais do Parent in Science, obteve até agora mais de 5 mil respostas de alunos e cerca de 500, de docentes.

Os dados são preliminares, mas, segundo a professora, mostram a existência de uma distinção entre cuidadores e não cuidadores. “No caso dos alunos envolvidos em pesquisas de impacto, há um problema muito grande. Creio que a gente tem de discutir os prazos de defesa. Não dá para deixar para debater isso daqui a seis meses ou um ano. Já há uma sinalização da diminuição de submissão de artigos”, aponta.

O primeiro dado exposto pelo levantamento diz respeito ao impacto da Covid-19 no andamento da dissertação/tese: 81% dos mestrandos e doutorandos responderam que seus trabalhos estão sendo afetados pela atual situação, contra apenas 19% que disseram não terem sido afetados.

Os índices iniciais demonstram que, entre os respondentes, 8,7% tiveram adiamento da data de defesa em decorrência da pandemia. Além disso, quando questionados se a pandemia impactará no cumprimento do prazo para a defesa, 9,6% disseram que não impactará; 12,4% afirmaram que causará um atraso de até 2 meses; 22,2% acreditam que resultará em um adiamento superior a 2 meses; enquanto 55,7% ainda não sabem se haverá impacto. Dentre os alunos com prazo de defesa até julho deste ano, 52,5% preveem retardo da data estimada. Já entre aqueles com prazo entre julho e dezembro de 2020, 43,8% presumem que ocorrerá atraso na data prevista para a defesa

Entre os cientistas docentes que informaram não ter conseguido finalizar artigos para submissão durante a pandemia,: 20% são homens sem filhos; 38,1% são homens com filhos; 40,83 % são mulheres sem filhos; e 51,38 % são mulheres com filhos.

Números revelam desigualdade

Ao responderem sobre o trabalho remoto durante o isolamento social, 26,8% dos estudantes de pós-graduação afirmaram que estão conseguindo trabalhar remotamente; enquanto 28,7% disseram que não conseguem, por dependerem de laboratório ou terem necessidade de saídas/trabalho em campo. Além disso, 18,2% responderam que não conseguem trabalhar remotamente devido aos cuidados com os filhos; 14,1% não o fazem por conta dos cuidados com idosos ou outros membros da família (que não filhos); ao passo que 12,2% não conseguem trabalhar remotamente por outros motivos (sendo recorrente a menção de problemas de saúde mental, agravados em decorrência da situação atual).

Fernanda destaca que, quando analisamos os dados acima por gênero, temos 36% de homens sem filhos que estão conseguindo trabalhar remotamente e 32,8% de mulheres sem filhos na mesma situação. Porém, no caso de homens com filhos, esse índice cai para 17,4%, e cai mais ainda entre as mulheres com filhos, uma vez que somente 9,9% delas respondeu que está conseguindo trabalhar remotamente.

“Mesmo que se diga que ‘está ruim pra todo mundo’, a gente percebe desde sempre a incapacidade de sair do próprio umbigo, o problema do pessoal que insiste em dizer que isso é ‘mimimi’, que essa geração é fraca, sem falar na aceitação do discurso da meritocracia. Sou coordenadora da Comgrad da Bio e sei que temos altos níveis de problemas de saúde mental na pós-graduação. Isso provavelmente terá um aumento gigantesco se não fizermos nada. Além disso, a palavra ansiedade é a que mais aparece nos comentários dos participantes de nossa pesquisa”, conta a professora, para quem as instituições precisam assumir a liderança nas iniciativas de redução desses impactos.

Ao comemorar a repercussão da carta, Fernanda acrescentou: “Estamos muito felizes de dar visibilidade a esta discussão tão importante. É um orgulho representar nossas universidades e nosso país em tão prestigiada revista científica. Mais importante ainda é seguirmos com nosso trabalho, fundamentando o desenvolvimento de ações e políticas de apoio”.

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