UFRGS e a Covid-19

Laboratórios vinculados à UFRGS continuam prestando serviços durante isolamento social

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Sumário
Foto: Flávio Dutra/JU

Por Júlia Provenzi/Jornal da Universidade

Com horários reduzidos e restrições à circulação de pessoas, espaços permanecem abertos para atendimento à comunidade e realização de pesquisas

Desde a suspensão de atividades presenciais em razão da necessidade de isolamento social, a decisão sobre o funcionamento de laboratórios na Universidade fica a cargo dos institutos aos quais estão vinculados e dos coordenadores desses espaços. Tarefas como reuniões de grupo e revisão de trabalhos acadêmicos acontecem remotamente. No entanto, muitos desses lugares prestam serviços à sociedade ao mesmo tempo que realizam pesquisas e, por isso, precisam manter-se em funcionamento. 

Esse é o caso do Laboratório de Análises Clínicas e Toxicológicas, projeto de extensão ligado à Faculdade de Farmácia. Em uma parceria com a Secretaria Municipal de Saúde de Porto Alegre, a unidade realiza a análise de exames como hemogramas. Para reduzir a exposição dos nove funcionários e dos pacientes, o funcionamento foi reduzido, e os exames, que antes aconteciam por ordem de chegada, são realizados apenas por agendamento.Em razão disso, o número médio de atendimentos diários diminuiu de 700 para 300, pois as pessoas evitam ir se não houver urgência. A diretora técnica do laboratório, Laura Alencastro de Azevedo, diz que tem sido difícil se adaptar: “Acabamos concentrando mais tarefas para poder fazer um revezamento da equipe, e o agendamento, por incrível que pareça, acaba se tornando mais trabalhoso”.  

“Na área da saúde, acabamos represando uma demanda. Tem uma série de pessoas que estão respeitando a quarentena e ficando em casa. Então, se o exame não é urgente, elas não vão fazer, mas em algum momento essas pessoas vão ter que vir. Por isso, ficamos um pouco preocupados, porque até se normalizar isso vai levar um tempo.”

Laura Alencastro de Azevedo

Bolsistas e estagiários, que são um braço importante do laboratório, tiveram as atividades suspensas pela Universidade. Apesar de não estar dando continuidade às atividades de ensino, pesquisa e extensão, Laura reitera a importância de continuar a cumprir o papel de uma universidade pública de dar retorno à comunidade em outras frentes, como contribuir para a saúde pública durante a pandemia.  

A diretora salienta: “Não conseguimos competir com a iniciativa privada. Aqui nós temos todas as dificuldades que são inerentes ao serviço público, mas a gente segue funcionando dentro dos nossos limites”. Para ela, a continuidade desse trabalho será importante para desafogar o sistema de saúde no futuro.

A farmacêutica Laura Alencastro de Azevedo desenvolve procedimentos no Laboratório de Análises Clínicas e Toxicológicas da Faculdade de Farmácia, um dos tantos que seguem desenvolvendo seus trabalhos presencialmente na Universidade (Foto: Flávio Dutra/JU)

Atendimento e pesquisa em saúde

No Câmpus Saúde, o Centro de Pesquisa Clínica do Hospital de Clínicas realiza tratamentos experimentais em pacientes com doenças genéticas e estudos para entender melhor essas doenças, que não têm tratamentos comprovados. Não houve nenhum prejuízo às atividades: todos os projetos continuam sendo desenvolvidos normalmente. 

Roberto Giugliani, médico e pesquisador, salienta que a decisão beneficia as pesquisas e os usuários. “A única maneira de o paciente receber algum tipo de terapia é através desses protocolos experimentais”, relata. Isso porque muitas pessoas com doenças graves ficariam sem tratamento se não fossem até o centro de pesquisa. A exposição que representa irem até o hospital, então, nem se compara ao prejuízo de ficar sem tratamento – inclusive porque o hospital toma muitos cuidados com relação à proteção.

O impacto da pandemia foi sentido na restrição de novos projetos, o que, na avaliação de Giugliani, também pode prejudicar pessoas que estão à espera de uma terapia experimental para sua doença.

“Interromper uma pesquisa é algo muito complicado. Às vezes são anos de trabalho que uma interrupção pode jogar por terra. Então, quando a Universidade mantém em andamento projetos que vinham sendo desenvolvidos, esta é uma decisão muito correta e que é importante priorizar, apesar da circunstância excepcional que estamos vivendo.”

Roberto Giugliani

A equipe, composta de quarenta pessoas, entre professores da Universidade e profissionais da saúde, além de alunos e equipe administrativa, está trabalhando integralmente durante a pandemia. Os pacientes precisam ir até o Centro de Pesquisa Clínica, um edifício separado do edifício principal do Hospital. Os atendimentos são feitos por médicos e enfermeiros, com equipamentos de proteção e cuidados redobrados para evitar infecção pelo coronavírus em profissionais e pacientes. Até o momento, não houve nenhum caso de contaminação. Quando possível, a equipe também trabalha de casa, para restringir a presença no hospital. Com a pandemia, os profissionais podem ter acesso aos prontuários dos pacientes remotamente.

 Exames como os de velocidade de hemossedimentação são importantes para a identificação de processos inflamatórios que são comuns em doenças autoimunes (Foto: Flávio Dutra/JU)

Apoio à apicultura

Há dezessete anos, o professor Aroni Sattler coordena o Laboratório de Apicultura da UFRGS, que emite certificados de qualidadedo mel para que o produto possa ser comercializado e exportado. Desde que as atividades presenciais na UFRGS foram suspensas, ele, que faz parte do grupo de risco para a doença, está em isolamento social, em casa. Entretanto, isso não o impede de dedicar-se às atividades do laboratório. Em geral, uma vez por semana, com agendamento, os apicultores deixam amostras de pólen em uma caixa na área externa do prédio da Faculdade de Agronomia. Então, a bolsista Luana Silva analisa o material e envia dados e imagens para estudo do professor, que então emite o laudo e o remete aos criadores de abelhas. Apesar das medidas de isolamento, em comparação com o mesmo período do ano passado, o número de amostras recebidas dobrou.

“Este período coincide com a safra do mel de eucalipto, que neste ano foi muito boa em função do clima favorável, ao contrário do mesmo período em 2019. Nesse sentido, está sendo importante a continuidade dos trabalhos no laboratório, naturalmente com todas as precauções.” 

Aroni Sattler

Para não deixar os produtores desassistidos, o pesquisador também orienta apicultores na coleta de amostras de mortandade das abelhas. Esse material é congelado na Faculdade de Agronomia para aguardar a volta do funcionamento de outros laboratórios, que por ora estão fechados.

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