UFRGS e a Covid-19

Pesquisador da UFRGS propõe psicologia positiva em prol da saúde mental na quarentena

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Sumário

Autocompaixão e otimismo são elementos necessários para redução de sintomas psicopatológicos e aumento do bem-estar durante o isolamento social

Foto: Annais Ferreira_ CC BY-NC-ND 2.0

Aspectos como estresse, ansiedade e depressão são sintomas psicopatológicos muito tematizados no contexto de medo de uma pandemia e de mudança de rotina com o isolamento social. A proposta do professor do Instituto de Psicologia da UFRGS Cristian Zanon é destacar a promoção da saúde mental e do bem-estar durante a quarentena. Baseado na psicologia positiva, o pesquisador aponta que é possível orientar o enfrentamento dos efeitos adversos desse período com investimento em atitudes otimistas. As ideias estão em artigo científico com o título COVID-19: Implicações e aplicações da Psicologia Positiva em tempos de pandemia” [versão final do artigo atualizada na reportagem em 1/6/2020], escrito em parceria com outros pesquisadores.

Desenvolver virtudes e potencialidades humanas e cultivar hábitos saudáveis estão entre as indicações da psicologia positiva. Mas como isso isso é possível no momento de uma crise de saúde mundial? Para o professor, entre os elementos indicados está a autocompaixão: “É preciso olhar para si mesmo e, em vez de criticar por não estar sendo produtivo, por exemplo, reconhecer-se diante da situação em que passam outras tantas pessoas. Muita gente também não está sendo produtiva e não consegue dar o seu melhor”, esclarece. Antes da autocrítica, é preciso a autocompaixão. “É preciso se tratar como se você fosse o seu melhor amigo”, enfatiza Zanon. O senso de coletividade também favorece essa autocompaixão, pois o mundo inteiro enfrenta esse problema.

Outro aspecto importante para “enfrentar” a pandemia é o otimismo, que leva a ver o futuro com expectativa positiva. “Isso vai passar, e vou fazer o melhor que posso”, sintetiza o pesquisador. Cristian Zanon ressalta que cultivar o pessimismo leva ao aumento da quantidade de afetos negativos, como angústia, tristeza e medo. Desse modo, a visualização criativa do futuro permite imaginar novos tempos em que a pandemia já fará parte do passado. Intervenções positivas podem ser ferramentas no enfrentamento às consequências do momento, como a meditação, por exemplo, que é capaz de reduzir ansiedade, estresse e depressão e melhorar a qualidade do sono. O pesquisador reforça que a prática da meditação tem custo baixíssimo e não tem efeitos colaterais.

Bem-estar

Olhar para a realidade da quarentena em seus aspectos positivos também é uma estratégia, como por exemplo: a possibilidade de estar mais tempo consigo mesmo, o maior contato da relação pais e filhos ou mesmo o exercício da já citada visualização criativa do futuro. Desse modo, o bem-estar,na explicação do docente, conta com três componentes: a) cognitivo – pensamento sobre a vida e as coisas que são importantes, ou seja, a satisfação com a vida; b) afetos positivos – vivenciar com alta intensidade e frequência os afetos positivos, como o amor e a alegria e c) afetos negativos – vivenciar com baixa intensidade e frequência os afetos negativos, como frustração, raiva e angústia.

Além dessa atitude positiva para consigo mesmo, a psicologia positiva entende que a demonstração de empatia também contribui para a ampliação do bem-estar. Generosidade, altruísmo e apoio social são aspectos positivos que efeitos adversos, como uma pandemia, acabam gerando. Ser legal, ajudar, doar tempo sem esperar nada em troca são atitudes que levam as pessoas a terem mais empatia. Segundo Zanon, pesquisas mostram que isso tem impacto sobre o bem-estar das pessoas, tanto daquelas que se dedicam a causas maiores quanto daquelas que se dispõem à gratidão por terem recebido algo de alguém. “Ter um propósito de vida, é claro, ajuda no bem-estar” finaliza.

A psicologia positiva

Segundo explica Zanon, a psicologia positiva surgiu nos Estados Unidos, por volta dos anos 2000, como uma nova forma de abordagem da área da psicologia. Seu foco é no desenvolvimento das potencialidades do ser humano, com o incentivo daquilo que ele tem de melhor. Ele indica que não é uma negação dos sofrimentos das pessoas, mas um foco no potencial de cada uma delas. “A psicologia positiva não tem o foco no trabalho de sintomas ou na redução de sofrimentos, mas o foco está nas forças e nas potencialidades do ser humano, em vista de uma vida com mais sentido”, destaca.

Confira um vídeo em que o professor Cristian Zanon fala sobre autocompaixão e bem-estar

Atualização de 1/6/2020: A versão final do artigo pode ser conferida em: https://www.scielo.br/pdf/estpsi/v37/1982-0275-estpsi-37-e200072.pdf

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